Agora que já está publicado, posso falar sobre um dos livros que traduzi no início deste ano, mas não com o intuito de fazer um jabá básico, mas para comentar algo que todos os tradutores devem sentir em maior ou menor medida durante a tradução. Não é sono, nem tédio, nem cansaço, coisas normais durante textos mais longos como um livro. Mas aquele envolvimento que a gente nunca imagina quando inicia uma nova empreitada dessas, que pode envolver diversos sentimentos: raiva, tristeza, ódio, alegria… mais uma loucura das nossas aventuras tradutórias.
Posso dizer que me diverti muito ao traduzir Sincero – a história real e bem-humorada de um homem que tentou viver sem mentir (Verus Editora), do jornalista alemão Jürgen Schmieder. Este livro caiu nas minhas mãos quase por acaso, após eu ter declinado por conta do prazo (sempre ele, merece um post no futuro) um outro livro. Eis que o retorno da minha recusa foi este livro divertidíssimo pela mesma editora, o que vejo hoje como uma troca muito feliz. Quando li o índice do livro já tive a primeira certeza: vou rir com este livro. E não deu outra, me peguei muitas vezes gargalhando entre uma frase e outra, entre uma história e outra desse jornalista maluco que resolveu passar a quaresma sendo sincero com tudo e com todos, doesse a quem doesse. Vivi com esse cara durante uns três meses, enlouquecido com outro alemão (o Domscheit-Berg, do Wikileaks), e compartilhei meu texto com ele para que o cara falasse em português de suas desventuras engraçadas.
Mas também me emocionei, claro. Não vou dar uma de spoiler aqui, mas há um trecho que com certeza vai deixar quem lê-lo incomodado. E quando me peguei emocionado, traduzindo com aquela dorzinha no coração, lembrei de uma palestra da profa. Viviane Veras no V CIATI, na qual ela comentou sobre intérpretes que precisavam fazer intermediações entre criminosos e vítimas em guerras africanas. Não há maneira de ser imparcial num caso desses, em quase nenhum caso no qual as palavras, sentimentos e ações passam pelo crivo de nosso cérebro. Ou seja, tradução é antes de mais nada interpretação na maior parte das vezes (se não sempre) e nós estamos ali, a cada palavrinha pensada, refletida e processada, até o texto final.
Acredito que por isso dê aquela pontinha boba de orgulho quando vemos o livrinho nas prateleiras das livrarias…
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Tradução e tecnologia combinam?
Já respondo: sim, definitivamente sim. E quem ainda não acordou para isso ainda mais cedo ou mais tarde estará fadado a tomar um chega pra lá do mercado. Semana passada houve uma despedida da última fábrica de máquinas de escrever do mundo e aposto que diversos tradutores sentiram o coração doer com essa notícia. Não duvidaria se alguém me dissesse que algum ainda prefira a linda Olivetti cinza ou a IBM eletrônica (que tem até memória!) e posso dizer uma coisa sem medo e sem piedade: o mundo mudou e quem não acompanhar a cavalgada louca dele vai cair do cavalo.
Ouvi uma história de um amigo tradutor que foi dar aula de Wordfast ara uma colega (se não sabe o que é, google it). Ele primeiro explicou como funcionava e tudo mais e disse: agora vamos começar a tradução! A colega, mais que depressa, pegou seu caderninho e começou diligentemente a traduzir com sua linda canetinha Bic.
Tradutor não deve apenas estar antenado com sua área e correlatas, com as últimas teorias (há quem diga que são inúteis, de quem discordo) e com as tecnologias em tradução que são diversas, tantas que assustam. Não se restingem às famosas memórias de tradução (CAT [Computer Aided Translation] tools), mas há programas de alinhamento, edição e correção de código, conversão de arquivos, ferramentas de terminologia e muitos outros.
E você ainda com suas fichas pautadas?
Por isso dou uma dica ao iniciante e ao já experimentado que ainda não se aventurou no mundo da tecnologia: visite blogs brasileiros e estrangeiros, fuce na internet e entre em comunidades de tradução e tecnologia. Procure colegas que sejam feras no computador, corra atrás de cursos. Assim o mercado naturalmente vai se aproximar de você e você do que rola por aí em materia de tecnologia.
PS: Recomendo dois blogs muito bacanas: o Tradução Via Val
e o Tradutor Profissional . De lá, com certeza você encontrará muitas coisas bacanas por aí.
PS 2: Voltei!
A guerra das máquinas no mundo da tradução
Por acaso, hoje me caíram na mão duas mensagens sobre tradução automática (oi, Google Translate, já ouviu falar?), uma pessimista (ou sensacionalista com intenção de chamar público para uma palestra) e outra otimista. Por motivos éticos, me abstenho de identificar a primeira, digo apenas que tinha algo a ver com tradutores dizimados pelo poder dos programas de tradução automática. A segunda veio na edição de março de 2011 da ATA Chronicles, revista da ATA (American Translators Association) e esclarece alguns pontos sobre tradução automática e um deles já era previsto: ela está cada vez melhor. Ao colocar um texto sem muitas elocubrações num tradutor automático (e o mais preciso de acordo com os testes feitos pelo autor do artigo, Grant Hamilton, é o Google Translator), podemos conseguir um texto legível, muito diferente do que há pouco essas ferramentas produziam. Um ajuste aqui, outro ali e voilá, temos um texto razoável. O teste foi feito do francês para o inglês, idiomas com estruturas parecidas, mas diferenças vocabulares imensas e, mesmo assim, ele se saiu bem. Então, será que viraremos grandes revisores do que as máquinas executarem? Não é bem assim, como também comenta Hamilton. Prova disso é a tradução que ele apresenta, feita por uma pessoa de carne, osso e loucuras, que consegue transformar o texto asséptico, traduzido quase como um decalque (palavra por palavra), numa frase criativa. E esse é o ponto que ele chegou e no qual quero chegar: a criatividade. Coisa que por enquanto apenas os humanos (nem todos, diga-se de passagem) possuem e utilizam (novamente, nem todos) para se sobressair à rapidez e precisão da máquina. E qual é o segredo para o cultivo dessa criatividade? Não tem muito segredo além da dica de Grant Hamilton, nenhum segredo para quem está no ramo da tradução, que deve obrigatoriamente fazer parte da vida do tradutor: leitura, leitura e muita leitura no texto fonte e, principalmente, no texto alvo de tudo que você puder. Tudo que seja útil para despertar em você novas noções e soluções de escrita, estudo profundo do idioma alvo é outra coisa imprescindível, mas não apenas em sua norma culta e bela, mas nos seus desvios e desmandos, pois é disso que o ser humano é em grande parte feito. Saber impecavelmente para poder pecar, conhecer meandros e reentrâncias do corpo da língua, cada dobrinha deve ser devassada para que você possa ousar. Dica velha, mas que é válida e necessária para que as teorias do caos alardeadas alhures não acompanhe você nos seus sonhos e se tornem pesadelos.
PS.: Aos poucos vou transformar este blogue num portfólio apenas. Mas o blogue não vai acabar, já estou preparando surpresas (é, eu não sossego mesmo).