Par perfeito: literatura e tradução

Acho, também, que fui ajudado pelo fato de ter estudado línguas estrangeiras desde muito cedo e de ter sido desde cedo fascinado pela tradução. Se não fosse escritor, seria tradutor. Aliás, fui e ainda sou; às vezes, traduzo para a Unesco.

A tradução me fascina como trabalho paraliterário ou literário de segundo grau. Quando uma pessoa traduz, quer dize,r quando não é responsável pelo conteúdo original, seu problema não são as ideias do autor – ele já as colocou ali. O que essa pessoa tem que  fazer é traduzi-las, e então os valores formais e os valores rítmicos que estão latentes no original passam a ocupar um primeiro plano. Sua responsabilidade é traduzi-los, com as diferenças que existam, de um idioma para o outro. É um exercício extraordinário do ponto de vista rítimico.

Se eu fosse uma pessoa de dar conselhos, diria a um jovem escritor que tenha dificuldades de escrever para deixar de escrever por um tempo por conta própria e passar a traduzir a boa literatura; um dia ele se dará conta de que está escrevendo com uma fluidez que não tinha antes.

(Conversas com Cortázar, de Ernesto Gonzáles Bermejo, tradução de Luís Carlos Cabral, Jorge Zahar Editor.)

Acredito que estou no caminho certo…

Estrangeirização e regionalismo

Começo este post com a indicação da leitura do post da Ivone Benedetti (aqui) que condiz muito com a minha visão de tradução e respeito ao leitor. Vale a pena dar uma olhadinha também no primeiro post dela sobre o assunto (aqui), também muito interessante.

A intenção deste pequeno texto não é trazer luz a qualquer assunto já discutido à exaustão, mas sim causar mais questionamentos sobre polarização cultural e tradução. Essa questão mexeu comigo num serviço que terminei há pouco, que muitas vezes tirou meu sono e meu humor, mas que no fim das contas me trouxe uma visão mais ampliada de diversos assuntos, desde mercado editorial, traduções e tradutores e a relação de amor e ódio com “o” texto. Minha relação com esse texto fica em segundo lugar, pois em primeiro lugar está a polarização cultural que o Brasil sofre (Rio-São Paulo e, no máximo, outras capitais maiores definindo o que é cultura) e como isso tem influência direta na questão tradutória. Pois a questão da estrangeirização e da modulação do texto aos padrões hegemônicos também pode ser aplicada dentro de um país continental como é o Brasil, onde as diferenças culturais são imensas, e o que há de marca do tradutor nesses textos (me refiro aqui em especial aos textos literários ou de caráter menos técnico) acaba desaparecendo quando chega nas mãos dos revisores.

Isso está correto?

Se pensarmos economicamente, sim. O texto precisa ter alcance e, para que o tenha, deve ser utilizado um idioma que esteja num padrão compreensível a todos os falantes. Não sendo este um português carioca, paulistano ou mineiro, mas sim um português brasileiro, compreensível a todos, sem as tintas fortes do regionalismo. Porém, se pensarmos ‘tradutologicamente’, cada tradutor imprime sua marca no texto e, por consequência, deixa o rastro de sua vivência em cada texto que traduz. Retirar essas marcas significa apagar a diferença em prol de uma uniformização, o que muitas vezes resulta num texto mais truncado do que o anterior ou num texto sem personalidade alguma. Na entrega do Prêmio União Latina, Denise Bottmann comentou que esse português pasteurizado, ou “português de tradutor”, retira de cada texto sua cara própria, colocando uma máscara igual em todos. Ela brincou que, se pegássemos um livro de física e um livro de psicanálise e trocássemos os jargões, teríamos quase o mesmo texto. Então, o que fazer?

A cara do tradutor e o leitor

Num curso de graduação de tradução, uma das primeiras coisas que aprendemos e que nos persegue durante os anos de estudos tradutórios é que a definição do público alvo de nossa tradução é fundamental para que possamos adequar o registro (a linguagem), a terminologia e outros aspectos textuais. Parece algo óbvio, mas há tantos casos em que surgem dubiedades quanto ao tratamento a se dar a um texto que é pertinente atentarmos a isso. Também se aprende num curso de tradução (e nos de letras também) que a revisão do texto visa a correção sintática e estilística do texto para que ele se torne algo elegante. Há muita gente especializada nisso e rendemos graças aos revisores/preparadores por existirem. Mas existem aqueles (raros, mas que infelizmente se destacam da multidão) que se apossam do texto de tal forma que não há chance de o tradutor sobreviver dentro de sua própria co-criação, limando-se qualquer marca de estilo que possa figurar entre as linhas. Dez livros revistos por esse (raro) revisor/preparador serão dele e de ninguém mais, com a cara dele, as intenções dele e o olhar perscrutrador dele saltando a todo o momento, algo imperceptível ao leitor, contudo, quem já sofreu uma revisão/preparação dessas sabe do que estou falando.

E qual seria a medida? Até onde o revisor/preparador deveria ir para não impingir ao texto um apagamento de identidade tal que ele fique igual aos outros tantos que circulam por aí? Acredito eu que as medidas sejam o bom senso e a humildade. O bom senso para dizer: “Está correto, não precisa mexer. Está correto, mas difícil de compreender, vamos ver o que dá pra melhorar sem desmontar e remontar a frase”. E humildade para pensar que: “Este texto não é meu, é do fulano, então precisa ter a cara dele, não a minha”. Os elementos desse processo de publicação de um texto precisariam conversar, se dar bem e se entrosar, situação realmente ideal nos tempos de hoje. Há um corajoso editor, chamado Vitor Takeshi Sugita, numa editora do interior de São Paulo (não lembro o nome, mas volto aqui para dizer) tentando implantar esse sistema, digamos, colaborativo: tradutor, revisores e editor ficam em diálogo constante para tirar dúvidas, discutir soluções e chegar ao melhor texto possível. Com os recursos tecnológicos de hoje fica muito mais tranquilo e eficaz ao menos tentar esse tipo de interação entre os atores do processo editorial. De acordo com Sugita, no início é complicado afinar as vozes dentro desse esquema, mas uma vez em harmonia, o sistema funciona de forma bastante satisfatória.

Talvez seja esse o caminho, a comunicação. O que existe hoje é um processo estanque e todo separado, cada qual no seu canto, pensando sozinho, sem saber quais foram as intenções do anterior quando escreveu isso ou aquilo. Isso causa problemas, às vezes insolucionáveis, pois não raro os tradutores pegam os livros que traduziram já impressos e não reconhecem o que foi feito com o seu texto. Esse é um problema bastante grave, que merece atenção. Muitos dos problemas de edição poderiam ser resolvidos antes de as bombas estourarem se fossem adotadas medidas simples de comunicação e compartilhamento de informação. Basta boa vontade das partes e comprometimento com aquilo que fazem. Mas isso é uma outra história…

Xô, xuá…

O samba do baiano Riachão é exemplar. Não, não aquela que a Cássia Eller canta, Vá morar com o diabo, mas a que Gilberto Gil já cantou e até axé virou: Xô, xuá, cada macaco no seu galho, xô, xuá, eu não me canso de falar…”.

Antes que me interpretem mal, gostaria de dizer que acho muito importante que as pessoas estendam suas capacidades, que se dediquem com afinco àquilo de que gostam, mesmo se isso não for da sua área de competência. O diletantismo é ótimo, a dedicação leva as pessoas a descobrir que podem mais do que acham que podem, e isso é maravilhoso. O amadorismo sério, ou seja, amar algo e fazê-lo com prazer e dedicação é louvável. Agora, não venda um peixe que não é seu, para o qual você não foi treinado, nem tem experiência, utilizando seu nome que brilha aqui e ali para matar uma vontade ou participar de um projeto que, no fundo, vai em detrimento de profissionais sérios que se dedicam com afinco àquela profissão.

O mesmo serve aos artistas que querem ser políticos, aos empresários que querem ser artistas, e aos artistas que querem ser tradutores. Se tiverem a consideração de declarar que não são profissionais naquilo, que é uma experiência de vida, uma paixão, muito bem. Mas não tornem a coisas aos olhos do público uma brincadeira de criança, mas mostrem que, mesmo como experiência ou algo esporádico, que vocês fizeram aquilo com empenho e não entre uma hora de almoço e outra. Pois eu não advogo nas horas vagas, nem opero vesículas quando tenho uma folga na minha agenda. Muito menos subo no palco de uma peça pra fazer algo que não sei, do qual tenho ciência de que preciso estudar, me esforçar, aprender, treinar para poder dar a minha cara a tapa. Nem tento dirigir um filme por que me deu na telha ou a convite de um amigo.

Eu gosto de pintura e já pintei alguns quadros. Mas é um hobby, algo meu e só meu. Se alguém chegar na minha casa e quiser comprar o quadro não terei coragem de vendê-lo, pois sei que ali não há técnica, apenas inspiração. Diletantismo. Amadorismo. Então, respeito os pintores profissionais e digo que nos meus quadros está o fruto de um artista amador, de alguém que pega as tintas e joga na tela pra ver o que dá. Que há artistas plásticos que dedicam anos de sua vida à arte e que eles sim merecem ganhar pelo que criam.

Por isso, este é meu apelo: xô xuá, cada macaco no seu galho…

Imagem: Blog iMasters

A literatura em falta

Parece estranho o título deste post, ainda mais com tantos comentários sobre a quantidade absurdamente grande de livros existentes e lançados todos os anos no mundo inteiro, mas aqui falo não apenas de literatura, mas de tradução de literatura no Brasil. Apesar de sermos um país que consome tradução de literatura muito mais do que a produz (e isso talvez seja um pouco a relação com o mercado, vendas e apoio bastante escasso [para não dizer inexistente] à criação literária) ainda ficamos devendo e muito para outros países, inclusive vizinhos, como a Argentina.

Estou bastante mexido com a leitura do livro do Umberto Eco que comentei aqui. Ele fala umas verdades incômodas, à primeira vista estranhas, mas verdades.

E, mexido, começo a tentar aplicar o que leio à nossa realidade brasileira: por que será que tantos bons autores por aí têm um ou nenhum livro publicado? E por que ótimos autores estrangeiros às vezes chegam apenas aos olhos de quem procura em revistas especializadas ou em coletâneas que dificilmente saem das estantes das livrarias?

Não tenho uma resposta à essa pergunta, talvez seja apenas uma provocação para quem pensa em literatura. Fui acometido por essa comichão provocadora ao ler um conto do alemão Daniel Kehlmann chamado Töten (Mortos), do livro Unter der Sonne (editora rororo), de uma poética pouco imaginável para o tema do vazio e da falta de perspectiva que levam à violência. Quando acabei de lê-lo, fui procurar o que havia traduzido do Herr Kehlmann e para a minha surpresa apenas um romance, A Medida do Mundo (Cia. das Letras, trad. de Sonali Bertuol) consta dos sites e livrarias. Em outros idiomas também acontece o mesmo: desconhecemos os grandes autores, os bons autores e aqueles que talvez não sejam tão bons, mas que o texto nos agrada. Ao passo que somos bombardeados por best-sellers inúteis, inócuos e intragáveis.

Acho que sei tudo que ouvirei depois desse post: o mercado é assim mesmo, as pessoas precisam trabalhar, deixe de ser ingênuo e aceite que literatura é mercado também. Não me afasto dessa visão em momento algum, muito pelo contrário, acredito que haveria público para esses autores, desde que houvesse um outro movimento anterior: o da valorização da leitura. Mas precisaria ser algo radical, utilizar todo o arsenal midiático, mercadológico e marketeiro para levar às pessoas a ideia de que ler, saber e conhecer é o máximo. Não fazem isso com o refrigerante da moda, com a roupinha da novela e com as bandas coloridas? Então…

Às vezes me pego assim, idealista. Mas fazer o quê? Enquanto isso, vou mergulhar no próximo conto do Kehlmann e imaginar como ficaria traduzido… e como meus amigos iriam gostar.

Conversas entre Tradutores – Das Arábias…

السلام عليكم

A entrevista de hoje me deixou bastante feliz em honrado. Para quem acompanha o blogue sabe que tempos atrás estudei árabe e gostei muito da experiência, parando apenas pois outros poréns me fizeram interromper. Com certeza, um dia voltarei a estudar com mais afinco para aprender um pouco a língua e a cultura desses povos. E meu entrevistado de hoje tem, senão papel fundamental, de grande importância para o interesse por obras de autores de língua árabe: Mamede Mustafá Jarouche. Esse paulista de Osasco e arabista bastante conhecido é responsável pela tradução de, até agora, três tomos d’As mil e uma noites (Ed. Globo), pelos quais foi bastante premiado.

Curtam a entrevista clicando aqui. Se ainda não viu as outras entrevistas, dê uma passadinha ali em cima, em Conversas entre Tradutores.

الى اللقاء

Imagem: Caligrafia: Galera da Fé, em enfal.de

Prêmio União Latina – Alegria e Balanço

Em primeiro lugar, quero parabenizar novamente Miriam Bettina Oelsner pelo primeiro lugar na 10ª Edição do Prêmio União Latina para Tradução de Especialidade, pela tradução de LTI - A Linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer (Ed. Contraponto). Os jurados em sua análise comprovaram a boa tradução de Miriam e seu esforço de muitos anos para trazer essa obra fundamental para quem quer entender um pouco mais sobre o fenômeno do nazismo. E, segundo, dizer que provavelmente essa escolha tenha sido feita para mostrar que a tradução de especialidade está além do que conhecemos sobre tradução técnica, mas exige um conhecimento sólido da língua portuguesa que Denise Bottmann, também jurada, clamou para os tradutores (além de providência por parte da CBL e da União Latina para que o prêmio volte a ser anual). Em sua fala na mesa redonda sobre tradução especializada, Denise expôs que na maioria das 80 obras inscritas sentiu uma padronização à qual chamou de “português de tradução”, algo que a seu ver prejudica a legibilidade e empobrece o texto em prol de algo que deixa de ser português e passa a ser um texto estranho, permeado de estruturas estrangeiras que substituem excelentes soluções tão à mão existentes no português. Ivone C. Benedetti, outra jurada do prêmio, deu um apanhado de como foi feita a escolha do primeiro lugar, num processo longo e exaustivo de discussão entre os tradutores (Denise Bottmann, Marcos Seligmann-Silva e a própria Ivone, além de um tradutor de grego para uma obra que entrou nos inscritos). Ivone, corroborando com a colega Denise, ainda trouxe à mesa que essa tendência vem ao encontro das teorias preconizadas por Antoine Berman e Lawrence Venutti, dois teóricos da tradução que veem como qualidade e ideal de uma tradução a estrangeirização do texto e não sua domesticação. Contudo, somos “um país de tradução”, a nossa produção já é estrangeirizante per se e se ainda incluirmos em nossos textos mais estruturas e a “cara” do outro idioma daremos cabo de uma vez por todas pelo que se entende de bom português. Essa hegemonia dos textos traduzidos traz um alerta, pois de acordo com a profa. Ivone, essa estrangeirização às avessas tem sido encontrada em textos feitos diretamente em português, mostrando o grau de contaminação e a força do texto fonte sobre o texto alvo. O tradutor e professor de literatura italiana e tradução literária Maurício Santana Dias apontou outro motivo que poderia causar essa língua estranha: a cadeia de feitura do livro. Em muitos casos, essa padronização não vem do próprio tradutor, mas do preparador (o primeiro leitor da tradução) e dos revisores, editores e todos que trazem o texto até a publicação. A falta de acesso à última prova do livro para que sejam feitos ajustes e para que o tradutor possa ter voz antes da publicação de sua co-autoria é vista como um idealismo, algo que não se permite em virtude da pressão do tempo e do mercado. Adauri Brezolin, tradutor e professor bastante conhecido, deu um apanhado sobre recursos como o Termisul , o Iate e o COMET/CorTec e comentou que muitas vezes o translationism (segundo Mona Baker) pode ser evitado muitas vezes com pesquisas apuradas, trazendo novamente o gosto do português verdadeiro aos nossos textos. O mediador foi o prof. Francis Aubert que, como sempre, amarrou com diversos esclarecimentos os apontamentos dos participantes da mesa, dando nomes aos bois (“essa interlíngua tradutória e um ser chamado standard English que surgiu e continua no planeta terra”) e confirmando que o fenônemo ”tradutês” não se reduz a nós, mas há estudos na Europa que se ocupam com o fenômeno de língua dominante x língua dominada. Comentou que muitos aventam a possibilidade de os estudos de tradução estarem ligados à comunicação ou a outros campos do saber que não Letras e Literatura, inclusive na Suécia eles são ligados à faculdade de Economia, mas que essa ligação com os cursos de letras salvam a Tradução, como disciplina, de se perder de alguma forma. Ao seu ver, mais importante do que a discussão puramente tradutória seria buscar um aprofundamento no estudo das variedades dos “portugueses” falados em diversos países e que uma reforma ortográfica de cunho superficial de pouco vale para reforçar a importância do português no mundo moderno. Após a fala do prof. Francis, o diretor de Terminologia e Indústria da Língua da União Latina, Daniel Prado, fez uma apresentação na qual demonstrou que o português ainda possui um potencial inexplorado de produção de texto e divulgação científica e comentou sobre o portal Portolingua.com. Em seguida, houve a entrega do prêmio pela presidente da CBL, Rosely Boschini, e por Daniel Prado.

Esse foi um breve apanhado do que foi dito e, com certeza, aqui há um manancial para diversas discussões entre os tradutores. Espero que suscite comentários e outras contribuições de vocês. Aos que também participaram, por favor me corrijam se houver alguma bobagem muito grande.

Conversa entre Tradutores – Irene Aron

Voltamos com o Conversa entre Tradutores. Hoje temos um bate-papo com a profa. Irene Aron, tradutora alemã com forte atuação na literatura. Por indicação de uma grande amiga e também professora da USP (que logo também aparecerá nas entrevistas), procurei a profa. Irene, que foi muito gentil ao conceder a entrevista. Sempre são deliciosos esse bate-papos, sempre enriquecedores. Para conferir clique aqui. Se não viu as outras entrevistas, fique à vontade, clicando aqui.

Penso, logo desabafo

Acabei de escrever um desabafo caudaloso e salvei como rascunho. Talvez um dia eu possa publicá-lo em alto e bom som, talvez todo em caixa alta, caps lock na veia, desopilando o fígado. Às vezes me pego assim, ranzinza, e o estopim logo surge para que eu estoure. Engulo seco, os olhos enchem d’água, enrubesço, fico inquieto e explodo, meus cacos se espalham por todos os cantos, então me ponho no trabalho inglório de recolher pedaços tristonhos e me refazer. Fico melhor assim, mesmo que as cicatrizes doam um pouquinho.

E, por incrível que pareça, meu lado profissional que causou o último desabafo. Ao menos minha vida pessoal vai de vento em popa.

Daí lembro das férias. Das viagens. Da espera pelo fim de semana e fico mais tranquilo. Sei que chegarão e nada do que aconteça vai abalar minha trilha. Já está traçada, já trabalho para chegar aonde quero e dificilmente desisto. Não posso desistir, agora que estou no meio do caminho.

Enquanto isso, o desabafo está lá, relegado à qualidade de rascunho, rabiscos descontrolados na tela saídos de dedos em fúria, mente em colapso, tudo ao mesmo tempo agora. Deixe ele lá, fermentando. Quando estiver no ponto, ponho à prova e seja o que os deuses quiserem.

Entrevista com Moni Notton

Oi minha gente,

Hoje teremos uma entrevista no Conversa entre Tradutores com a alemã Monica Notton (a Moni), outra querida tradutora que conheço apenas virtualmente, mas que talvez nos próximos dias eu conheça pessoalmente. E nesta semana, na qual será provável eu encontrá-la, trago o bate-papo divertido com ela.

Ali em cima, do mesmo jeitinho, é só clicar. Ou no link direto, bem aqui.

Não deixem de conferir. E amanhã, “O sonho do escritor” bate-papo com blogueiros e lançamento d’A bola entre as palavras. “O sonho do escritor” pulou para sábado. Remanejamento básico para tratar de assuntos crocantes…

Agora que a bola tá rolando…

Há uns dias comentei que já estava saindo do forno e agora teremos o lançamento de A bola entre as palavra, lançamento do selo [e], da editora Annablume. É uma coletânea de textos sobre futebol organizado pelo crítico madrilenho Adolfo Montejo Navas e com um time de feras: Cristovão Tezza, Manuel da Costa Pinto, Vanderley Mendonça, Ricardo Aleixo, Reynaldo Damazio, Eduardo Coimbra, Lula Vanderley, Martín Kohan, Teixeira Coelho, Yamandú Canosa e Wolfgang Bock, este último do qual fiz a tradução da crônica em alemão. Estou bem feliz com esse lançamento e convido a todos para tomar uma cerveja e brindar conosco essa felicidade. Abaixo o e-convite.

Serviço

Bar São Cristovão

R. Aspicuelta, 533 – Vila Madalena

São Paulo – SP – 11 3097-9904

Espero vocês lá, viu?

TradCast – Uma novidade interessante

Hoje, no Twitter, vi algumas vezes o link www.tradcast.com.br, um projeto dos tradutores Marcelo Neves, Claudia Belhassof e Érika Lessa. Engraçado, pois já tive contato com eles por Twitter e lá, por trás de suas arrobas, não imaginava suas vozes, inflexões e como são divertidos. Gostei muito e indico para quem quiser saber um pouco mais sobre tradução e interpretação. Espero que o projeto continue. Vida longa o TradCast!

Nova entrevista no Conversa entre Tradutores

De vento em popa, continuamos com as Conversas entre Tradutores.

Hoje teremos Carolina Alfaro, tradutora especialista em legendagem, comentando como é a sua vida na profissão, a cena da legendagem no Brasil e outros que-tais. Uma entrevista bastante inspiradora para quem deseja se dedicar a esse tipo de tradução e também para quem ainda vê a legendagem com maus olhos. Vale a pena.

Como sempre, o link direto está aqui. Veja também as outras conversas, é só clicar no tradutor e se divertir com nossos papos. Em breve a primeira entrevista híbrida: meio ao vivo, meio por Internet.

 

O bom tradutor

Remexendo em meus livros sobre tradução, me deparei com o livro À margem das traduções, de Agenor Soares de Moura (Ed. Arx, Org. Ivo Barroso), que traz prefácio de Paulo Rónai. Nele, um resumo do que seria um bom tradutor na sua visão:

As qualidades do bom tradutor são, em grande partes, as mesmas do bom escritor: inteligência, talento, gosto seguro, bom senso, imaginação, senso de harmonia – mas devem andar desacompanhadas de ambição, de personalidade excessivamente marcada, da vontade impetuosa da inovação e encontrar-se aliadas a sólida erudição, a um amor extremado ao estudo. Dotes positivos e negativos cuja fusão Agenor Soares de Moura encarnava, a meus olhos, quase de maneira perfeita.

Dá o que pensar, não?

Tradução sentimental

No primeiro dia de congresso, além de todos os encontros e reencontros, houve muito material que ainda dará o que pensar para este que vos escreve e a muitos participantes do V CIATI. Duas apresentações dessa abertura seguem de alguma forma uma linha de estudo de tradução que, acredito eu, tem movimentado muito a massa cinzenta de diversos estudiosos da tradução. Não farei aqui um muito texto acadêmico ou teórico, mas colocarei minhas impressões e o que me tocou nessas duas apresentações, uma do americano Doug Robinson, da Universidade de Mississipi (Narrativity in Translation) e outra da Profa. Dra. Lenita Esteves (Atos de Tradução). Apesar de diferentes, ambos compartilham da mesma visão sobre tradução: ela não é apenas um exercício linguístico, mas um ato concreto e alça o tradutor de sua qualidade de mero instrumento à de narrador (Doug) ou especialista em comunicação intercultural (Esteves). Esse não foi o foco das palestras, mas uma parte que considerei importante repensar.

Depois de ambas as apresentações, refleti sobre como essas qualidades se espelham no meu trabalho e como a realidade dessa condição de narrador/agente está intimamente ligada à nossa profissão, sem considerar a tipologia textual, ou seja, o tipo de texto a ser traduzido. Mais que uma “recompartimentalização” estanque de palavras de um idioma para o outro, somos transmissores de cultura e isso não é novidade para nenhum tradutor ou intérprete profissional. Nesse mundo de glossários, corpora, tradução auxiliada por computador e afins há seres humanos com seus sentimentos, idiossincrasias, escolhas e preferências que dão à profissão o aspecto de arte para a contrapartida do ofício.

Num texto que traduzi há pouco me deparei com essa situação: ter em mãos um texto que me remetia a emoções que não são minhas, não tinham como ser, mas que pela leitura do texto me traziam imagens, de forma consciente ou não, de algo que apenas vi em documentários, filmes, fotografias e na literatura. Segunda Guerra, holocausto, as temeridades e perdas de deportados e refugiados, a frieza ou, ao contrário, a bondade do lado cáqui da força. Poderia encarar o texto como um simples texto, como um profissional isento de sentimentos pela situação, até por que havia um lado ficcional no seu teor. Mas ele me tocou de forma contundente, obrigando paradas constantes para repensar aquilo que havia feito, não como um profissional do idioma, mas como ser humano compadecido com todas as agruras da guerra. Re-narrar era minha missão naquele momento, recontar uma história que havia sido contada em outro idioma para o público brasileiro se aproximar daquela realidade, de maneira fiável, com a emoção do original (sem ser piegas) como se aquele texto houvesse sido escrito em português e, ao mesmo tempo, deixando o gostinho do estranho, do estrangeiro (Fremd) no texto. Mas isso é um outro assunto (viva Vanutti!), que comento em outro post.

Uma obra de tradutor para os tradutores

O tradutor Fabio M. Said é uma das figuras do cenário da tradução que contribui bastante com o crescimento e a compreensão da profissão com seu blogue Fidus interpres. Para mim, em especial, ele se tornou uma referência, pois está há bons anos no mercado e trabalha com os mesmos pares de idiomas que eu: inglês e alemão para o português. E agora ele compilou parte de sua experiência no livro com o mesmo nome de seu blogue.

São tópicos muito interessantes que ele aborda, por exemplo:

- Como ingressar no mercado de tradução?
- É melhor ser empregado ou freelancer?
- Como escolher um curso de tradução?
- O que é preciso para trabalhar em casa?
- O que fazer para ser tradutor juramentado?
- Existe “panelinha” na tradução literária?
- Como fazer um blog de tradutor?
- Como fazer marketing usando a Web 2.0?
- Que investimentos faz um tradutor?
- Quais os problemas da tradução técnica?
- O que é tradução jurídico-comercial?
- O que é localização?
- O que é memória de tradução?
- Como garantir qualidade em traduções?
- Como lidar com cliente mau pagador?

Para quem quiser informações sobre a obra é só clicar aqui. Logo, logo providenciarei o meu!

Parabéns e obrigado Fabio pelo seu trabalho em prol da profissão e dos profissionais da tradução.

P.S.: Não se esqueçam que hoje, no Conversa entre Tradutores, temos Danilo Nogueira e Kelli Semolini, num bate-papo mais que animado.

Pseudo

Sem entrar imediatamente no mérito de tradução boa ou ruim, ainda fico bastante chateado quando vejo a profissão sendo tratada como bico e, não apenas tratada, mas desempenhada como tal.  Vamos à acepção de bico para o Dicionário Houaiss: 

bico 

[...] 

11 Uso: informal. 

biscate 

que, por sua vez, leva a: 

biscate 

1 serviço simples e rápido, de pouca importância; bico 

2 Derivação: por extensão de sentido. 

ocupação ou serviço eventual, de curta duração e não regular; bico 

3 Derivação: por analogia. 

trabalho ou emprego secundário, além do principal, habitual ou regular que alguém exerce a fim de aumentar seu rendimento; bico 

4 Derivação: por metonímia. 

remuneração (ger. pequena) recebida como pagamento por esse tipo de trabalho; bico 

Olha onde foi parar a profissão de tradutor. A gente se esfalfa para aprender um outro (ou outros) idioma(s), para aprender português tão bem quanto, tenta formar clientela, se reciclar, crescer, fazer nosso networking, ajudar os amigos etc. E somos considerados “biqueiros”? Quase como aquela brincadeira sem graça que fazem com os professores: “Você só dá aula, não faz mais nada?”. Essa minha bronca não é de todo infundada, vem da observação de diversas pessoas que têm outra profissão e fazem tradução “de vez em quando” ou “quando aparece”, cobram preços aviltantes (ou não) e no fim das contas levam os louros sobre o que para outros é ganha-pão. 

Agora vamos entra no mérito de tradução boa, ruim, levada a sério ou não: 

Certa vez, numa palestra, um editor ele contou a história de um escritor que traduziu um livro e essa tradução ganhou um prêmio importante. Óbvio que o tal editor foi procurar o tradutor para um projeto que estava guardado para alguém que realmente valesse a pena. O pseudotradutor efetuou seu trabalhinho, ganhou seu dinheirinho e quando o editor foi verificar a tradução, pumba. Caiu para trás: erros crassos de tradução, erros de português e uma porção de outras falhas impensáveis para aquele premiado profissional. Depois ele foi investigar e descobriu: a preparadora da editora era uma mestra em salvar o dia e praticamente refez o texto. 

Papagaio comendo milho e o periquito todo, todo. 

E hoje mesmo tive um exemplo disso com uma pessoa conhecida que recebeu uma dessas “buchas” para fazer. Está salvando com bravura aquele texto que terá outro nome estampado como responsável e venderá (talvez mais, não acredito) por conta daquele nome estampado. Apesar de fazer um excelente trabalho, a pessoa querida não é conhecida. Mesmo com o trabalho hercúleo, seu nome aparecerá nos créditos, bem pequeno e tímido atrás da folha de rosto, mais invisível impossível. Não que se exija louros (olha o papagaio aí novamente), mas ao menos respeito. Diga-se sou “blablablá” e tradutor quando tiver mesmo aquilo que um tradutor precisa ter: um amor incondicional e imensurável pelos idiomas, uma curiosidade infinita e tantas outras coisas que quem se intitula tradutor deve ter. 

Se não for assim, pegue seu banquinho… e respeite o profissional da tradução. 

Foto: http://www.imagensporfavor.com/tag/1/papagaio.htm

 

V CIATI

Minha gente boa, tá chegando o dia. O Congresso Iberoamericano de Tradução e Interpretação (CIATI) chega à sua quinta edição. Lembro da primeira, lá no final dos anos 90 (vixe), no qual participei bastante. Estava no meio da graduação, ainda sem a perspectiva do que seria a tradução na minha vida, mas sabendo que não poderia escapar dela. A tradução é uma senhora bastante convincente e me tragou por completo depois daquele congresso. Aliás, dois fatos marcaram minha decisão pela carreira: o primeiro foi a primeira aula que tive com o queridíssimo e saudoso Fernando Dantas, o segundo foi o I CIATI.

Depois de quatro edições eu finalmente poderei participar. Neste ano, o tema é “Tradução e Interpretação: (des)construindo Babel”. Pelo visto, conhecerei pessoalmente diversos colegas que até o momento são virtuais, reencontrarei amigos e professores e aproveitarei as palestras e discussões para trazer material pro blogue.

De 17 a 20 de maio, na UNIBERO: av. Brigadeiro Luís Antônio, 871.

Vejo vocês lá!

Boris Schnaiderman

Não me lembro quando li pela primeira vez uma tradução feita por Boris Schnaiderman, mas sei que foi uma experiência fantástica, pois declaro sem pejo que sou fã. Ucraniano naturalizado brasileiro, o professor e profícuo tradutor do russo dá uma aula em suas obras traduzidas dessa língua tão distante. Um dos pioneiros na tradução desse idioma no Brasil, quando as obras daquelas paragens chegavam apenas por intermédio do francês, do espanhol e mais tarde do inglês, ele também foi expedicionário na Segunda Grande Guerra, cujas experiências são retratadas em seu livro Guerra em surdina (Cosac Naify), além de ter iniciado mais tarde o curso de língua e literatura russa na USP.

Numa entrevista para o Zero Hora/Blogue Mundo Livro (tuitado pela Denise Bottmann) ele comenta brevemente sobre a sua carreira e suas impressões de guerra. Num dado momento renega de certa forma traduções anteriores de suas obras, dizendo insatisfeito com elas. Comentei na semana passada num post sobre a incompletude de uma obra literária e, por conseguinte, sobre a infinitude de uma tradução. Pois tanto a escrita como a reescrita tradutória são maneiras de expressão que amadurecem muito com o passar do tempo. Às vezes, e isso acontece com uma frequência inimaginável, o tradutor que pensou neste exato momento numa solução satisfatória para o seu enrosco tradutório conseguirá uma solução melhor daqui dez minutos. Ou após dez longos anos. Tempos depois percebe-se que aquela expressão ficaria melhor em outro ponto do texto, aquele verbo não tem a força de um outro, ou um deslize pode mudar tudo e gerar relatos engraçados ou histórias menos divertidas. Mas em geral está fora de nosso alcance, depois de entregue o serviço, a possibilidade do ajuste.

Apesar de curta, a entrevista com Bóris Schnaiderman mostra uma postura controversa, que pode deixar os leitores das traduções prévias com uma sensação estranha. Com o título O homem que retraduzia, a matéria mostra o lado perfeccionista do tradutor, cuja versão lançada recentemente de Khadji-Murát, de Liev Tolstói, é a quarta do mesmo título feita por ele. E se ele retraduzisse A morte de Ivan Ilitch (Ed. 34), também do Tolstói, como eu, leitor, me sentiria com a obra que tanto gosto remexida?

Como comentado na matéria, apesar de seus quase 93 anos e do reconhecimento da excelência de seu trabalho com prêmios e outros loas de suas obras, “continua refazendo o trabalho de uma vida inteira”. De qualquer forma, vale a pena ler a entrevista e saber um pouco mais sobre esse mestre.

Plus: primeira parte do encontro com Boris Schnaiderman no Tertúlia: Tradutores, evento realizado em 2009 pelo SESC Pompeia com diversos tradutores (em 11 partes no Youtube ou integral no link acima).

Já deu sua contribuição?

USE EM SEU BLOG/SITE

Até dia 10 de abril (próximo sábado) está aberta a lista de assinaturas em apoio ao manifesto feito em prol da Denise Bottmann, aberta pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone Castilho Benedetti. Já são mais de 2.500 assinaturas em defesa do trabalho árduo dos tradutores de obras espoliadas por editoras caras de pau que ganham às custas de obras esgotadas ou fora de circulação. Denise sofreu alguns processos e  um deles  acaba de ser recusado pela segunda vez pela justiça (veja aqui o caso Martin Claret). Esse trabalho hercúleo de Denise não pode parar por capricho dos piratas literários e por isso sua assinatura é tão importante. Passe lá, dê sua contribuição. NÃO AO PLÁGIO!

Contra a censura, em favor da boa literatura e tradução

Recebi um e-mail da Denise Bottmann com mais uma iniciativa em favor de sua luta contra o plágio descarado de diversas editoras que já foram desmascaradas por ela. O que fazem essas editoras: se apropriam de títulos esgotados e em domínio público traduzidos no passado e inventam ou colocam o nome de outros tradutores a esses textos já traduzidos e ganham dinheiro sobre o suor alheio. E agora, a corajosa Denise recebeu mais um apoio de quatro grandes tradutores: Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivone C. Benedetti e Ivo Barroso entraram na corrente de solidariedade à colega que sofre processo movido por uma editora denunciada por ela, a Landmark (mais detalhes aqui). Eles lançaram um blogue chamado Apoio à Denise e também um abaixo assinado com manifesto dessa solidariedade à tradutora.

Não deixe de ver o blogue e aderir ao abaixo assinado se você diz NÃO À INJUSTIÇA, À CENSURA E AO PLÁGIO!