Palestras na USP

A FFLCH, por meio do Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia (CITRAT), sempre organiza palestras gratuitas sobre tradução. São os Ciclos de Palestras sobre Tradução, em geral realizados às sextas-feiras. Neste mês há duas palestras (veja abaixo), sempre muito interessantes. Uma das palestras que vi foi da famosa Mona Baker, estudiosa de tradução conhecida mundialmente por seus livros e pesquisas.

Não é necessário se inscrever, é só chegar. Vejam informações abaixo:

PENSANDO A TRADUÇÃO À LUZ DE O NINHO VAZIO, DE DANIEL BURMAN, E CÓPIA FIEL, DE ABBAS KIAROSTAMI

Profa. Dra. Maria Clara Castelhões de Oliveira

Pretendo discutir nesta palestra questões de tradução, literatura, ética e cultura a partir dos filmes O ninho vazio (2009), do argentino Daniel Burman,  e Cópia fiel (2010), do iraniano Abbas Kiarostami. Primeiramente, traçarei uma analogia entre o tipo de postura de Burman e aquela que considero a mais adequada ao tradutor de textos literários na cena pós-moderna. Para tanto, também lançarei mão de dois contos que têm tradutores como protagonistas:  ”O tradutor cleptomaníaco”, de Dezsö Kosztolányi, e “Notas ao pé da página”, de Moacyr Scliar. Em seguida, utilizarei o filme de Kiarostami para discutir, principalmente, o lugar das reproduções, entre as quais se encontram as traduções, perante seus originais.

Dia 13 de abril, às 14h, na Sala 170 do Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária).

A LITERATURA RUSSA NO BRASIL – UMA HISTÓRIA DE SUAS TRADUÇÕES

Bruno Barretto Gomide (DLO-USP)

Nesta palestra apresentarei um panorama histórico das traduções de literatura russa no Brasil, começando pelo fim do século XIX, marcado pela hegemonia das edições francesas, passando depois pela “febre de eslavismo” dos anos 30, os vários projetos editoriais do Estado Novo, a atividade de Boris Schnaiderman a partir de fins dos anos 50 e chegando ao intenso processo de traduções do último decênio.

Dia 20 de abril, às 14h, na Sala 260 do Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária).

A primeira vez…

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Tenho que admitir o chavão: a primeira vez a gente nunca esquece. Foi no V Prática da Escrita, como eu já disse aqui, que tive minha estreia como palestrante. Ou mediador de bate-papo. Sei lá, sei que conversei bastante com o povo que compareceu, os poucos e bons que abdicaram de sua tarde de sábado para ouvir uma interminável (quase três horas) cantilena sobre tradução. Um assunto pelo qual (vocês já devem ter percebido) sou apaixonado e falo durante horas a fio sem nem ficar com a garganta seca. Foi bastante proveitoso para mim conversar com gente experiente, gente apenas interessada no assunto, gente que está começando seu caminho nas veredas tradutórias e gente que foi só mesmo para me ver, estar ali comigo, me acompanhar de perto, como em todos os momentos.

Por isso, este post serve para agradecer aos participantes, não apenas da minha oficina, mas das oficinas do Kizzy Ysatis, do Marcelo Maluf e do Bruno Cobbi que ajudaram a deixar nossa tarde de sábado mais feliz.

Proibido para menores

Imaginem a situação: seu pai, mãe, irmão ou amigo faz o seguinte e ingênuo pedido:

Posso ver meu e-mail no seu computador?

Você, mais que solicit@, fala Vai lá, fique à vontade. E sua tradução está aberta na tela. E a última linha, aquela atrai os olhares mais resistentes, traz a frase:

E aí, vai um boquete?

A pessoa olha. Olha novamente. Olha de novo e não acredita muito no que vê. Não pode ser! Como a pessoa escreve isso numa tradução?

É, nem só de frases lindas é feita nossa profissão. Às vezes nos deparamos com a situação na qual é necessário escrever o que está lá, sem floreios nem atenuações. Afinal, esse é o nosso trabalho, recriar de braços dados com o texto de partida e muitas dessas recriações exigem toques mais crus, menos floreados. Talvez isso seja um esforço grande para os mais pudicos, mas para a maioria de nós é apenas trabalho. Sempre discuto com amigos e peço a opinião deles sobre uma palavrinha de baixo calão utilizada numa tradução, qual seria o peso daquele termo aqui e “lá” e como melhor expressar o que o autor deseja passar.

Numa dessas discussões, uma amiga comentou: “Fiquei fula da vida, pois o autor claramente usava bunda e a revisora trocou tudo para bumbum. Aquela personagem nunca falaria bumbum!” Por isso é necessário ter tato para saber quando um fuck não passa de um “pô”, ou até mesmo um “poxa” e não um “porra”. Quando um scheißegal não precisa do primeiro elemento para dizer “tanto faz”.

Sim: contexto é tudo.

Por isso, todo cuidado é pouco. Muitas vezes, nem tudo o que reluz (ou fede) é ouro (ou merda).

A rede de segurança

Pelas tantas da minha leitura atual, O complexo de Portnoy, de Philip Roth (Cia. das Letras, excelente tradução de Paulo Henriques Britto), a personagem Alex, desabafando com o terapeuta suas agruras com a família, comenta que seu pai pensa a todo o momento nas “redes de segurança” que as pessoas devem ter durante a vida e não têm. Essa necessidade de segurança (o pai dele é corretor de seguros) é um dos elementos que fazem com que Alex busque o terapeuta para entender seus antagonismos, sendo ele um advogado bem sucedido e, ainda assim, infeliz.

Pensei muito nessas redes de segurança. E na nossa profissão-perigo.

Nós também temos uma rede de segurança (ou várias). Essa rede precisa trazer segurança ao tradutor e ele precisa ter em mente que essa rede não deve de forma alguma levá-lo à negligência. Por isso, deve ser um exímio acrobata, conhecer a corda na qual ele fará suas peripécias e dominar seus recursos como ninguém. Quase chover no molhado, essa história de entender do riscado, mas cada vez mais vejo como as pessoas não dão valor à própria profissão. Pessoas que se dizem tradutoras e se arvoram o direito de ensinar o Padre Nosso ao vigário. Que exigências fazer ao cliente se a contrapartida manquitola em frases mal escritas, imprecisões vocabulares e terminológicas?

“Vou fazer aqui qualquer coisa e a rede que me segure – o revisor, o preparador ou seja lá quem for.”

Ninguém é perfeito, nunca será. Erros acontecem. Há pouco, soube de um num livro que traduzi, quase morri de catapora. Apesar de o erro não prejudicar a compreensão do todo e a pessoa que achou o tal erro ter elogiado a tradução, me doeu como se todo o livro estivesse errado. Mas quando a gente vê um texto que simplesmente não foi bem tratado, que não houve interesse por parte do tradutor em pesquisar o melhor termo, o ritmo e todas as outras coisas que já sabemos (ou deveríamos saber) ao botar a mão na massa, nem nada disso, dá tristeza. Pelo desrespeito ao profissional que eu custei anos para admitir ser, por me chamar tradutor e saber que tantos que trazem o mesmo nome no peito não deveriam fazê-lo, não com tanta empáfia.

Perdoem o desabafo. Poucas coisas me tiram do sério. Uma delas é a falta de compromisso, não com uma pessoa, mas com uma classe inteira de profissionais.

Da arte de se comprometer

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Uma velha máxima de toda profissão, que se aplica obviamente à tradução: se prometeu, cumpra. A desculpa de que ‘paga pouco, então faço nas coxas’ ou ‘é só pro curso, não tem importância’ faz com que as pessoas tenham dúvida quanto a sua capacidade de comprometimento e isso pode ser uma mancha que nunca mais se apaga. Essa mácula será um dos fatores determinantes para o sucesso ou fracasso de um tradutor. Pior que o atraso de um serviço é o cliente sentir que o ‘job’ dele é tratado como qualquer coisa. E mesmo que seja qualquer: você aceitou a bronca, agora leve até o fim e com dignidade.
E isso não vale apenas para o seu cliente. Vale também para os colegas tradutores que, não raro, indicam a gente quando não conseguem ou não sabem o que fazer com aquela patente complicada, com aquele manual técnico infernal ou receitas de bolos e doces diversos. Você levará o nome do colega contigo, então faça bonito para você e para ele também.

Por isso, como diz o capitão Nascimento: missão dada é missão cumprida.

Dois eventos: um já-já, outro daqui a pouco

Minhas gentes, saudadocês, viu?

Mas a vida tá doidinha. Daí já viram, né?

Por isso, passei aqui rapidinho para divulgar dois eventos. Tudo bem que um deles está em cima da hora, mas acredito que valerá a pena, então vamos lá:

TRANSFUSÃO – I Encontro de Tradutores do Centro de Estudos de Tradução Literária “Casa Guilherme de Almeida”. Acontece de 30 de setembro a 3 de outubro e o evento é totalmente gratuito. As inscrições (acho que ainda dá tempo) devem ser feitas por e-mail ou telefone, diretamente com o Centro de Estudos. Mais informações, clique aqui.

III Conferência proZ.com no Rio de Janeiro – 12 e 13 de novembro. Evento organizado pelo site proZ.com sobre tradução e afins, uma ótima oportunidade para rever amigos, conhecer colegas e saber mais sobre o que acontece no mundo da tradução. As inscrições de “early bird” foram prorrogadas até a próxima sexta-feira, 30 de setembro. Mais informações, clique aqui.

Nos vemos lá?

Versão: um erro conceitual

Na área de tradução no Brasil (não sei se em outro país isso também ocorre) convencionou-se chamar de versão qualquer texto que parta do nosso idioma para um idioma estrangeiro. Talvez seja uma implicação não apenas minha de que esse termo não apenas significa pouca coisa no que diz respeito ao ato tradutório, mas também carregue consigo uma ideia perigosa que ainda grassa na mente dos leigos: que a tradução seja um espelho do texto original. Nesse caso, cabe muito bem o termo versão que, grosso modo, seria apenas uma modificação de um mesmo produto, ou seja, “versionar” um texto, como muitos dizem fazer, significa alterar algo existente e o resultado: a mesma coisa.
Para quem leva a tradução a sério, é claro que no título do livro de Umberto Eco sobre tradução, “Quase a Mesma Coisa”, o quase carrega muito mais do que se imagina. E considerar o texto traduzido o mesmo texto que o original em outro idioma pode indicar duas coisas: tremenda ingenuidade ou, no pior dos casos, temerosa má-fé. Juridicamente temos a prova de que o texto traduzido não é a mesma coisa coisa nenhuma. Pela lei dos direitos autorais, o tradutor é considerado nada menos que o coautor da obra autor de obra derivada (muito obrigado, Denise Bottmann), pois o tradutor, na condição de humano, cria um novo texto a partir de outro texto codificado em outro idioma (ou original), sendo ele elaborado, pensado e transformado, e não apenas processado, como faria uma máquina.
Talvez eu seja cri-cri, talvez implique com bobagens. Porém, as palavras escondem camadas e segredos e os tradutores devem estar afeitos às mirabolâncias da língua. Para quem acredita que é tudo a mesma coisa, coloque seus textos num tradutor eletrônico e sinta a diferença de não ter um ser pensante no comando…

P.S 1.: Agradeço à Ana Iaria pela ajuda com o tema.

P.S. 2: A correção muito pertinente por quem entende do assunto. Denise Bottmann, sempre atenta, veio ao auxílio da questão, indicando que não seria coautoria a tradução, mas autoria de obra derivada. Está no comentário da Denise, mas coloco aqui também o link para a Lei dos Direitos Autorais: http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/Leis/L9610.htm

Errando e aprendendo

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Os erros são parte importante da vida.

Algo que faz parte da vida de todos, mas que fica cada vez mais difícil de as pessoas aceitarem: o aprendizado com erros e acertos. Todos estamos fadados a errar e ter a glória do acerto na conta, mesmo assim poucos se dão conta do valor da falha na vida de todos. Cada vez mais as pessoas tentam jogar seus erros para debaixo do tapete e expor acertos como troféus de uma vida ilibada. Ora, se todo mundo erra, por que teimamos em nos esquivar e às vezes atribuir ao alheio a nossa falha? Assim fazem os pais, quando não aceitam que seus filhos têm problemas, que muitas vezes foram causados por eles próprios, ou quando fazemos vista grossa aos defeitos de nosso amor para evitar atritos. Até mesmo entre amigos, muitas vezes, temos medo de repreendê-los e, ao meu ver, a partir do momento no qual não temos a liberdade de dizer a quem gostamos que ele ou ela está errado (ou nos melindramos ao ouvi-lo), não há amizade sincera.

Tenho uma historinha sobre os erros e a capacidade de aceitá-los para melhorar. Numa aula de pós, o prof. João Azenha nos apresentou um trecho de um livro traduzido e pediu para que apontássemos os problemas daquela edição, comparando-o com o original. Na primeira parte da aula encontraríamos os problemas e discutiríamos na segunda parte. Quando a segunda parte da aula começou, houve um bombardeio: eram erros recolhidos por nós, imprecisões que achávamos e outras coisas que eram mais implicações que erros de verdade. Azenha só anotava e dava duas próprias opiniões. No fim, disse algo assim:

— Traduzi esse livro no início da minha carreira, ainda engatinhando na tradução. Suas observações foram ótimas, quem sabe se eu puder um dia refazer essa tradução eu possa usá-las.

Houve um silêncio constrangedor, seguido de risadas. João se expôs, mostrou seus erros e como anos depois conquistou um lugar entre os profissionais mais respeitados. Acredito que tenha feito isso para mostrar o quanto aquele primeiro degrau, meio torto e capenga, fez com que ele chegasse lá. Sem aqueles erros ele não teria aprendido a acertar, sem os acertos os erros ficariam irreconhecíveis. Assim é na tradução e, muito antes, na vida.
Por isso, não tenha medo de errar. A lição estará logo ali, te esperando…

Correndo a favor do tempo…

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Há pouco mais de um mês me tornei 100% autônomo, o que até então era um sonho longínquo. Por diversos motivos que não cabem neste blog, tomei coragem e me lancei no desconhecido. Até agora, 25 de junho, tudo corre muito bem, obrigado. A única coisa que tem me deixado cabreiro é o que deve deixar todo tradutor autônomo maluco: o famigerado prazo.
Tenho uma cabeça ainda de peão, a pressão ainda é o fio condutor de muitas das coisas que faço. Se há pressão, há produção. Aos poucos, porém, tenho aprendido a gerenciar meu tempo de forma que eu possa aproveitar o que minha escolha me trouxe de melhor (ou seja, um controle sobre minhas atividades durante o dia e a decisão sobre fazer ou não um serviço) e controlar o que ela ao mesmo tempo proporciona, uma liberdade nunca antes experimentada por mim na história deste País. Há um tempo comentei aqui sobre o esquema pomodoro que para mim funciona quando a concentração resolve dar uma volta no sofá ou quando há metas muito urgentes. Mas cada um lida como se sente melhor com a famosa tia Dédi Laine, senhora maldosa e sádica, sempre com um chicotinho na mão e o salto-agulha pisoteando nosso teclado (me lembrou a Mara Tara, do Angeli).
Agora quero saber de vocês: como gerenciam o tempo e fazem 24 horas renderem?

Tempo de plantar, tempo de colher…

Quando se passa muito tempo num lugar, diferente de antigamente, fica-se desacostumado com o mercado. Prega-se em altos brados que o limite hoje é de 5 anos numa empresa. Pois bem, passei 11 anos numa empresa de tradução, dos quais ao menos seis foram como tradutor de fato. Onze anos nos quais aprendi muito, ensinei bastante e cresci. Não existe para mim o ‘se’, não penso nele. Se eu tivesse saído antes, se eu tivesse feito diferente. O que de fato aconteceu nestes 11 anos 1 mês e 1 dia é com o que posso contar e confesso: achei ótimo. Nesse tempo aprendi a me chamar tradutor e conheci muita gente, participei de grandes projetos e me apaixonei pela profissão, apesar de todos os percalços. Desde o final da faculdade, quando fiz uma entrevista surreal com a dona do escritório, até o dia 11, quando acertei meus últimos dias na empresa, aproveitei cada segundo, cumpri meus deveres e tentei ao máximo ser profissional e autêntico. Espero ter conseguido ser ambos na maior parte do tempo. Agora é tempo de renovar, de plantar outras sementes e trabalhar duro para que as colheitas sejam cada vez mais especiais.
Agradeço a todos que fizeram parte dessa jornada. Apesar de clichê, não há palavra melhor para descrever essa década. Espero reencontrar muita gente e conhecer outros tantos nessa nova fase da vida… E vamos que vamos!

Quem mexeu no meu texto?

Já comentei aqui sobre a eterna briga entre tradutores e preparadores/revisores, sobre mandos e desmandos e sobre brios e sentimentos feridos. Uma das conclusões às quais cheguei (corroborada por diversos comentários aqui e ao vivo) é a de que a solução seria um trabalho conjunto (sinérgico, como gosta o pessoal da administração e afins) do início ao fim do processo editorial. Inclusive comentei que já houve tentativas, mas não soube se foram bem sucedidas.
O que vejo ainda é um sistema estilo Escravos de Jó: um põe o texto, outro tira, outro põe, o próximo tira, sem que as pessoas se relacionem de verdade. Não há troca, essa atividade humana tão benéfica, mas apenas assunção (ou entrega) de responsabilidades (ou de acusações). Foi o tradutor, ou o preparador, às vezes o editor ou o revisor… e não há uma discussão sadia. Mas quando o livro aterrissa na livraria começam os ataques e a pancadaria. Estou para ver um mea culpa nesse jogo, de qualquer lado. Difícil, não é?
Não seria se, a fogueira não fosse de vaidades e apenas aquecesse, sem chamuscar os envolvidos. Por isso é imprescindível que os papéis sejam repensados e que o limite de cada elemento no processo de feitura de um texto seja bem delineado, sem que haja coibição da criatividade de ninguém. Funções estabelecidas, próximo passo seria a conscientização de todas as partes interessadas: tradutor faz um trabalho decente, preparador se esmera em deixar o texto redondo sem descaracterizá-lo, revisor toma conta da parte mais técnica e editor/cliente/agência (de preferência com o tradutor) dá a palavra final, bate o martelo e publica ou entrega ao cliente final. Sei que não é tão simples, uma situação praticamente ideal, mas acredito que se todo mundo estiver no mesmo ritmo, acreditar que o barco é um só, ninguém vai querer remar contra.
Que vocês acham?

(Eu acho que agora eu vou tomar porrada… Vai vendo…)

Ganhar e/ou perder

Nem sempre ganhamos ou perdemos na vida. E isso se aplica sobremaneira à tradução. Voltei a pensar nessa questão depois de uma das aulas do curso sobre dificuldades de tradução literária, ministrado pelo prof. Maurício Santana Dias, tradutor de italiano e acadêmico. Uma participante do curso perguntou sobre trocadilhos, expressões idiomáticas e afins, ficou mais do que claro que devemos contar com um imenso jogo de compensações.
Lembro da Maria Alice Vergueiro, num dos episódios de “Tapa na Pantera”, dizendo ‘fuma aqui, toma um chá, fuma aqui, toma um chá’. Na tradução acontece um pouco dessa forma: ganha aqui, perde ali, ganha ali, perde lá, numa sucessão que é o risco assumido pelo profissional. E isso não se restringe à tradução literária, mas a todo o tipo de tradução, pois esse jogo das compensações também se aplica à tradução não literária. Quando se percebe que a tradução não é um jogo de espelhos, fugindo da ideia de palavras e frases como compartimentos estanques que recebem o conteúdo de outros compartimentos estanques, esse jogo começa a ficar mais prazeroso e interessante.
Traduzir é escolher. Escolher é enfrentar. Não é possível afastar-se dessa afirmação no mundo da tradução, ou seja, não dá para deixar as opções lá e dizer: “Oi leitor, escolha a que melhor se encaixe ao seu gosto, ideologia, modo de pensar etc.”. Numa análise de uma tradução, surgiu o comentário de que uma palavra utilizada por ele, logo no início do texto, estava carregado de significados dentro do contexto daquela obra. O tradutor, corajosamente, ultrapassou a barreira das definições dicionarizadas e inseriu naquela obra um dado que talvez nem o próprio autor teria pensado. Abuso? Não, criatividade. Pois a palavra inserida não prejudicou em nada o sentido do texto, não fugiu, digamos, de um “alcance” semântico da palavra escolhida para o autor. Ao mesmo tempo, trouxe um dado importante da obra logo no início, informação que foi mesmo pensada pelo tradutor.
E aí nos diferenciamos da máquina.
Quando fazemos nossas escolhas conscientes, descobrimos nossa voz dentro da obra ou do texto e tornamos essa voz mais alta que a voz do texto na língua fonte. Não precisamos encobri-lo por completo, mas no texto traduzido deve prevalecer a voz do tradutor. Em resumo, num conceito bastante caro nos dias de hoje: recriação.
Por isso, da próxima vez que estranhar uma tradução (e para usar um jargão, “salvo erro manifesto”), pense que o tradutor escolheu aquela frase/palavra/termo com cuidado. Ou ao menos deveria tê-lo feito. Pois é exatamente o que fazemos o tempo todo. Escolhas.

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Tradutor, sim!

Li a carta do editor na edição de fevereiro da revista mensal da Associação Americana de Tradutores (ATA), a ATA Chronicles, que trata de orgulho e preconceito da nossa tradução. Mark Herman, de Minnesota, fazendo referência a uma coluna escrita por Jost Zetzsche (também presente na edição de fevereiro), diz que “como Jost, ‘aceito totalmente o termo tradução e tenho orgulho de dizer que sou tradutor”‘. Em seguida, Herman comenta como os tradutores são mal vistos, em especial nos EUA, ao ponto de muitos tradutores oferecerem seus serviços sob máscaras e epítetos dos mais diversos, como “globalizador”, “internacionalizador”ou “localizador”. É a tal história do traduttore, traditore fazendo escola por aí, coisa tão de séculos passados, mas que infelizmente ainda se aplicam a alguns, o que acaba tornando fácil a generalização. Em seguida, depois de um discurso inflamado sobre os preconceitos sofridos pela nossa classe, Mark para algumas ‘dicas’ ou ‘comportamentos’ que os tradutores deveriam ter para honrar as páginas que traduzem, discorrendo sobre definições e normas (algumas das quais úteis para se pensar o ser tradutor).

Até aqui, falamos de Estados Unidos, um dos recantos onde mais se utilizam serviços de tradução em todas as áreas, dos mais diversos idiomas para o inglês. E aqui na nossa pátria mãe gentil, como seria a situação dos tradutores?

Laurence Venutti, polêmico teórico da tradução, sempre causa um furduncinho quando fala de (in)visibilidade do tradutor. Sempre duma perspectiva do país hegemônico (sua maneira de eufemizar dos EUA), ele diz que não dá mais para sermos fantasmas tão úteis a todos. Porém, quando falamos de realidades de países não hegemônicos (ou seja, o resto do mundo, em especial os países em desenvolvimento), o tradutor é um ilustre desconhecido, obrigado. Acredito que já comentei aqui sobre a reação da maioria das pessoas quando digo que sou tradutor: ou me perguntam se trabalho em editora, me questionam sobre o idioma ou fazem aquela cara de ‘oh’, que ao pé da careta significa ‘não tenho noção do que esse cara faz’.

Certo, ninguém precisa espalhar aos quatro ventos que é tradutor e que se especializou em plataformas petrolíferas nos idiomas islandês e urdu, mas quando falar de sua profissão, colega, não a desmoralize. Não faça cara de dor de barriga quando disser “Sou tradutor” e nem diga, quando já estabelecido na profissão, “Trabalho com tradução”. Assuma essa bronca (que não é pouca) e fale com orgulho sobre o que você faz e que faz com amor. Profissão tão importante, essa nossa, não pode parecer um bico ou algo do tipo, até porque suamos tanto os dedos e teclados (sem falar no suor real dos intérpretes em suas cabines, fechadinhos, concentrados e falantes) que desmerecer nosso ofício me parece até ofensa. Não é busca de louros e confetes, mas sim do reconhecimento merecido dos tradutores, de quem faz e acontece para tornar o mundo mais acessível para todos.

Se não gosta do que faz ou não se encontrou na profissão, há um milhão de outras coisas que podem precisar do seu esforço. Pode apostar.

Gostei de um trecho da carta de Mark Herman e a traduzo livremente (e por força do hábito) para vocês aqui:

Primeiro, como Jost, sugiro que nós, tradutores, declaremos com orgulho o que somos sempre e quando possível. Devemos também ressalvar as limitações da tradução automática, ao mesmo tempo que admitimos sua utilidade.

Não é difícil. A maioria de nós deve ter bastante orgulho do papel que desempenha. Então, mãos à obra. E boca no trombone.

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Uma questão de humildade?

Acredito que a maioria dos tradutores (senão todos) já passaram pela seguinte situação: ver seu texto ligeiramente ou mesmo muito alterado por um revisor. Pela editora, agência ou cliente, pois muitas vezes os profissionais de revisão e preparação são indivíduos sem nome ou rosto que deixam a marca naquele texto que você suou para produzir. Trocou aquele termo, aquela expressão de um jeito que, a primeira vista, você torce o nariz, pois não foi aquilo que você escreveu. Às vezes demora um pouco até admitir que, bem, ficou bom. Sim, ficou melhor. Ou, se não acha que ficou melhor, ao menos há uma fundamentação para a mudança.

E você ainda assim fica puto(a) da cara com aquela alteração.

E muitas vezes fica puto(a) à toa.

Texto é igual filho, você cria para o mundo. Tudo bem, tem revisor que exagera e mete a mão como se não houvesse amanhã, contestando tudo e mais um pouco, inclusive aquilo em que ele não tem razão nenhuma. Muitas vezes é falta de experiência e com certeza o editor pega o problema antes de o tradutor ter o desgosto de ver sua obra desfigurada, padronizada. Quando comecei, eu mesmo passei por essa experiência, mudar o texto de um cara muito fera e tomar um puxão de orelha da chefe. Essa foi a primeira vez que senti como o texto do outro é importante… mas não intocável.

Há uma tendência de padronização em muitas áreas, comentei sobre isso num outro post, uma espécie de tradutês, o português traduzido. Outras vezes, palmas para o revisor (aqui digo revisor, mas pode-se ler também preparador, editor e quem mais mexer no texto antes do lançamento ou da entrega do texto), o texto ficou melhor, mais redondo do que quando saiu das minhas mãos. E agora, eu sou incompetente?

Não, a primeira vista não. Aqueles profissionais que vieram depois de você têm outro olhar, tem a distância necessária para encontrar o que você, por distração, cansaço ou deslize (oi, você não é infalível) deixou passar. Ou para dar uma solução melhor para aquela ótima estrutura que você está acostumado a usar. Isso não diminui o tanto que você se empenhou, seu conhecimento e sua busca contínua em melhorar, seu talento e a sua profissão. Você é o tradutor, o responsável pela ponte cultural e tudo mais que não preciso repetir aqui.

Por isso, da próxima vez em que você estiver preparando um vodu para aquele que mudou seu texto, pense bem: esse trabalho “em equipe” não gerou um texto melhor? Este não é o objetivo final, um bom texto para fazer o leitor feliz? Não seria isso uma questão de exercer um pouco da tão esquecida humildade?

[Nota mental: vou tomar porrada por conta deste texto, vai vendo...]

O que ele quis dizer?

Talvez essa seja uma frase que todo tradutor já se fez alguma vez quando aquele texto capcioso surge a sua frente, sem compaixão, lacerando o cérebro e queimando os olho. O que ele quis dizer? muitas vezes se apresenta como uma bifurcação, em muitos casos é apenas uma linha tortuosa na qual devemos tomar cuidado para não derrapar, uma senda obscura na qual devemos nos lançar com coragem. Mas não sem o cuidado necessário para que por trás dessa névoa não haja um precipício.

E há um outro problema: quando você lê aquilo que quer mais do que aquilo que o autor disse. Aí reside um grave problema, pois muitas vezes, por mais estranho que possa parecer ao leitor, o seu querido autor quis dizer exatamente aquilo. Num exemplo prático e fictício  - digamos que nosso autor escreveu o seguinte:

There is a fight for hamburger, honek laker and babaganouch.

Temos aí três representantes gastronômicos de culturas diversas: o americano hambúrguer, o bolo de mel judaico e a pasta de beringela árabe. No discurso são, de certa forma, três opostos culturais e é muito provável que a intenção do autor seja contrastar esses três elementos culturais. Não há dúvida sobre o que devemos reproduzir na nossa tradução, não é mesmo?

Errado.

Não raro o tradutor se incomoda com o autor e sente que pode alterar algo para que faça mais sentido, por mais que a frase bem traduzida faça todo o sentido do mundo. Digamos que a tradução seja:

Há uma briga pelo hambúrguer, pelo honek laker e pela pasta de legume.

Sim, o sentido está aí. Talvez o tradutor pense que o importante é a briga ou o que vem após a briga e não os elementos que a causam. Talvez ele tenha razão. E o perigo reside no talvez: intepretação demais, exatidão de menos. E a pulga atrás da orelha ronca em alto e bom som. Seria melhor que ela estivesse acordada, bem alimentada e adestradinha.

Nesse exemplo tosco fica claro que a tradução de babaganouch por pasta de legume é desnecessária. Mas a minha intenção é mostrar que, às vezes, uma decisão tomada à revelia pode retirar do texto um elemento importante. E essa mudança às vezes pode também ser feita pelo preparador ou pelo revisor com o mesmo efeito: tirar a oportunidade do leitor de conhecer a real intenção do autor. Será entendido, perfeitamente compreendido, mas algo ali vai se perder. E a tradução já é um jogo de perdas e ganhos, no qual nosso desafio maior é perder o mínimo possível e, se der, ganhar alguns pontos para o nosso leitor. Afinal, é para ele que trabalhamos.

Então, da próxima vez que vir um babaganouch, saiba que ele não está ali à toa…

Bolaño e seus tradutores

Lograr que la música de un libro suene igual en el original y en su traducción es como trasladar el líquido de un recipiente a otro con cucharitas de café. El tapete siempre acaba mojado.*

Assim começa o artigo que o Lucas, do blogue bolañesco Estrela Selvagem, mandou para mim ontem sobre as dificuldades da tradução de Roberto Bolaño, escritor chileno que conseguiu grande reconhecimento nos últim0s anos, em especial depois que sua obra foi traduzida para o inglês. Em seguida vieram traduções para outros idiomas, como mostra a matéria de Daniel Verdú, do El País (leia a entrevista aqui, em espanhol). O artigo retrata as dificuldades diárias pelas quais passam os tradutores, que precisam lidar não apenas com um outro idioma, mas com toda uma cultura, muitas vezes bastante diversa daquela para a qual se traduz. É um grande jogo de perdas e ganhos, no qual o tradutor é responsável pelas suas escolhas. O tradutor é leitor e não está acima do bem e do mal: o texto acaba passando por uma malha de vivências, opiniões, conceitos (e preconceitos) que inevitavelmente se refletem na tradução.

Lembro de uma colega que, por ser uma espécie de sumidade no assunto do qual traduzia, brigava com o texto à exaustão, dizendo: “Esse cara não sabe o que tá falando, tá pirado” e desfiava um rosário de impropérios que acabava sobrando para o revisor (eu, no caso) e para todos os envolvidos. Apesar da competência elevadíssima, por vezes sua opinião pessoal influía diretamente no resultado do seu trabalho. Graças aos deuses, na maioria das vezes melhorava o texto de chegada e o cliente ficava satisfeitíssimo.

E não há como escapar, mas temos que lutar com nossas armas e tentar chegar à melhor solução, à melhor saída para que nosso leitor (seja ele um advogado com seu contrato ou o aficcionado pelo autor que você traduziu) fique satisfeito. Sem entrar nos meandros da visibilidade ou não do tradutor, nossa primeira tarefa (e talvez na qual muitos de nós pensamos em desistir, lembrando a Aufgabe de Benjamin) é deixar nosso leitor confortável. Difícil? Mas quem disse que a vida é fácil?

HD

Vejo por aí algumas pessoas que se negam. Negam-se a conhecer a cultura pop, as breguices que pululam nos televisores, nas bancas de jornal, nas livrarias. Viram as costas à possibilidade de tomar o mínimo contato com a chamada baixa cultura. Daí eu me pergunto: qual a relação que essa pessoa tem com o meio no qual, infelizmente para ela e para o próprio meio, ela vive? Talvez seja a hora de as pessoas pensarem um pouco o quão carregado de preconceitos são algumas suposições.

Com isso não estou dizendo que precisamos ficar na frente da televisão vendo Big Brother em vez de ler um livro ou fazer algo que valha mais a pena.

Porém, ao menos na minha profissão e naquilo que ainda quero me profissionalizar, repertório diverso constitui ferramenta imprescindível. A gente nunca sabe quando, no meio daquela tradução, vai aparecer a menção a um programa de auditório, um filme B ou uma atriz de predicados duvidosos do cinemão hollywoodiano. Hoje existem pesquisas, os sites de busca estão aí para isso mesmo. Mas muitas vezes aquela novela besta pode ser um ótimo gancho para um belo texto, um romance com sucesso de crítica e público, ou apenas para dar um refresco para a cabeça.

Aliás, é sempre bom lembrar isso: nosso HD não tem limite. E como diria o querido professor Fernando Dantas se estivesse ainda conosco: para um tradutor, não existe cultura inútil.

Literatura, escolhas e sociedade

Não há o que fazer: as editoras decidem o que vamos ler. Como em quase tudo, alguém decide o que vamos fazer, o que vamos comer e o que vamos vestir. E o que vamos ler não fica de fora nas imposições da vida, porém as coisas tendem a mudar de certa forma com o livro eletrônico, visto que ainda sai mais barato importar um Kindle a ter um e-reader nacional. Tendo um Kindle (ou outro leitor eletrônico gringo), as opções se ampliam para quem lê inglês e essas pessoas vão espalhar para outras (entre elas as que não leem em outra idioma) que acabaram há pouco um livro fantástico, mas que não tem tradução. E a cobrança por essa tradução surgirá e algumas editoras, tão acostumadas a impor suas compras nas grandes feiras internacionais, terão que correr atrás do prejuízo daquelas que têm um faro mais apurado ou bala na agulha para apostar em títulos nos quais outras não apostariam.

Talvez seja uma situação ideal. Mas isso aconteceu com diversos objetos cotidianos que precisaram se adaptar a uma realidade mais global (leia-se, norte-americana ou europeia). Tenho a esperança de que isso ocorra, em médio a longo prazo. Os leitores crescem e os atrativos de leitura para as novas gerações são muitos, de títulos da moda até os próprios e-readers, gadgets que serão sensações nos próximos Dias das Crianças, Natais e outras festividades comerciais. Que pai com condições vai se negar a oferecer aos seus filhos um meio divertido de obter cultura?

Porém, a situação da maioria ainda não é boa. O costume da leitura não é encorajado, apesar de tanta gente boa lutando para que a leitura se torne algo que se almeje de verdade (como projetos que levam autores a cidades do interior, rodas de leitura, eventos em bibliotecas, livrarias e afins). Por isso, se você chegou até aqui, já pensou em incentivar a leitura entre seus amigos, colegas de trabalho, parentes? Montar uma pequena biblioteca no escritório, contar para os irmãos com a empolgação de quem viu um filme de aventura que o livro tal é o máximo, dar a uma amiga aquele livro que tem a ver com ela. Essas pequenas sementes florescem com facilidade, basta regar e insistir. Pois a educação é um passo à frente para formarmos uma sociedade melhor.

Jorio Dauster no Conversas entre Tradutores

Tradutor com orgulho. Assim podemos definir Jorio Dauster, diplomata e atualmente presidente do conselho de adminsitração da Ferrous Resources Ltd. Em todas as entrevistas que pesquisei para esse bate papo, Jorio se apresenta de forma exemplar como tradutor e, quando entrevistado como tal, responde com franqueza sobre suas principais contribuições à tradução literária no Brasil, O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, e Lolita, de Vladmir Nabokov. Uma entrevista ótima e bem diferente, vale a pena conferir aqui.

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