Espera, espera

Ótimo combustível para a imaginação é a espera. Em geral ela é cheia de acontecimentos, por mínimos que possam parecer. Mas a gente não dá muita bola, ansiosos que somos, vidrados na espera sem arredar o pensamento daqueles momentos angustiantes (ou que se fazem angustiantes pela nossa impaciência). Centramos nossa mente no esperar como se tivéssemos que estar de prontidão o tempo todo: o médico, o amor, a fila do banco, a comida do restaurante. Até quando a espera é pela diversão nos estressamos e perdemos detalhes. Não nos damos conta de que o mundo continua sua marcha cada vez mais veloz sem dar importância a essa ansiedade e que não adianta, por mais que queiramos, empenhar tantas forças no esperar. Por que não aproveitar esses tempos de espera para se pensar em coisas (in)úteis, escrever uma carta [coisa antiga que gosto muito... se quiser, transforme em e-mail depois] ou algo que queira, ler algo bom? Não temos mais o costume saudável da espera, da desaceleração.

Percebi o quanto minha marcha estava descontrolada na minha última viagem ao Inhotim, museu a céu aberto e parque em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte. Ali o mundo tem outro ritmo, algo menos desesperado, a natureza berrando num silêncio que ecoa entre as obras de arte, os animais ali tão pertinho, um café numa sombra revigorante. Não que esse possa (ou seja) meu dia a dia, mas ali percebi aos poucos meu desespero em fazer tudo ao mesmo tempo agora já, quando não precisava me afligir com nada, apenas no fim da tarde com o horário do ônibus. E ainda eram onze da manhã, olha que beleza.

Por isso, na próxima vez que seu amigo(a)/amor/médico/gerente de banco/[ponha aqui o que quiser] atrasar, relaxe e pense que esse tempo será para você. Nada mais justo que aproveitá-lo.

Foto: Rita Angel

Correr, correr…

Vocês já pensaram o quanto a gente corre todo dia. Desesperadamente, como se o mundo fosse acabar daqui a pouquinho. Isso tem me incomodado sobremaneira nos últimos tempos, nesses nos quais não tenho tempo para respirar e inicio a madrugada fazendo tudo aquilo que preciso mas não encontro maneira de fazer durante o dia, como escrever no blogue, dar uma arrumada na casa, ler algum livro. E faço sabendo que tenho que acordar no outro dia cedo para não ter tempo para nada e dormir novamente tarde fazendo aquilo que preciso.

Rotina, mas que de maçante não tem nada, por incrível que pareça.

E todo mundo está assim. Se você não está, jogue as mãos para o céu e cante toda a musiquinha do Kid Abelha para agradecer, pois está entre privilegiados não acossados pelo tridente incandescente desse demônio chamado realidade. E se estou fazendo essa divagação batida é porque finalmente tive um tempinho para o ócio criativo, tão louvado por Domenico Di Masi. Numa entrevista no site de Mario Persona (com tradução de Cladia Fioretti), Di Masi comenta que o ócio criativo é também uma arte que precisa ser aprendida e aperfeiçoada, pois para que o ócio vire trabalho e mais trabalho não basta muito. Às vezes, quando estamos sem serviço, sentimos uma pontinha de culpa, como se estívessemos fazendo algo errado. Essa herança judaico-cristã e capitalista está deveras arraigada em nosso dia-a-dia. Certa vez eu estava entre amigos numa apertada hora de almoço quando vimos uma moça num café, pernas cruzadas, olhando para o vazio e mexendo seu café lentamente, enquanto nós engolíamos nossos espressos e capuccinos e corríamos desesperados para “bater o ponto” do retorno do almoço. Ao ver a moça tão distraída, alguém comentou: “Deve estar vagabundando, deve ser rica, que ódio”.

Talvez seja isso que a gente sente quando vê alguém desfrutando de seu tempo de ócio como bem entende. Nos acostumamos com oito horas de trabalho, cinco dias por semana, 22 dias por mês, e soltamos fogos de artifício quando há um feriadinho que quebre essa rotina. E o que mais ouço é que não há tempo para nada, que as pessoas hoje, quando têm uma brechinha, dormem ou se distraem na frente da TV, sem ao menos saber o que está acontecendo na sua vida. E quando chegará o tempo de tomar as rédeas da própria vida, ao menos de parte dela, e poder separar um momento para aprender um novo idioma, ler aquele livro imenso que sempre teve vontade, aprender ou reaprender a cozinhar coisas diferentes e gostosas, passear no parque, escrever algumas coisas interessantes ou, no último e mais delicioso caso, fazer absolutamente “nada”, ficar de bobeira? De acordo com a sua vontade? O seu desejo?

Di Masi propõe em seus livros (especialmente em O ócio criativo) a mistura de atividades profissionais, lúdicas, estudo e tempo livre para tentar se ver livre dos grilhões e do peso que tem o trabalho. Complicado e muito nos dias de hoje, precisamos dar conta de muitas coisas antes de ter um tempo livre e esse tempo de lazer é totalmente separado do nosso tempo produtivo, que é separado de nosso estudo e de nossa produção intelectual, tudo compartimentado de forma que as coisas não se mesclem. Quando alcançamos esse sonho de começar a tingir nossa vida profissional com as cores da diversão e do aprendizado, a dúvida nos acomete e a culpa nos invade. Não é fácil, minha gente, conciliar tudo, mas não custa tentar, lutar para que o trabalho nos divirta, nos ensine e para organizar o tempo de tal forma que nos sobre um momento nosso. Sei que para muitos é difícil, o trânsito rouba esse tempo, as obrigações no lar roubam também, o estudo às vezes forçado e os problemas familiares, o trabalho maçante, e são tantas coisas que nos tiram o prazer da vida que viramos autômatos, encarregados de arrastar nossa vida nas costas como Atlas modernos. Mas é isso mesmo que queremos da nossa vida?

PS: Esse texto foi escrito no ócio de segunda-feira à tarde, ao lado de uma xícara de café, depois de um fim de semana quase todo perdido. Viva Di Masi!

Tânia

Não sabia quanto tempo estava ali sentada com uma mão embrulhada na outra sobre o colo olhando o tempo que se recusava a caminhar. Sob as mãos a pequena bolsa de crochê vermelha e preta. Depois de dias de calor forte fazia um tempo ameno beirando o frio, que ela nunca entendeu. Nunca entendeu muita coisa, para falar a verdade.

Esperava seu ônibus ali sentada com as mãos embrulhadas e o tempo que não se apressava dava a impressão de ter parado. Mas a cada minuto que parecia não passar ela se sentia mais velha e cansada e sem viço e sem atrativos. Pintar o cabelo, fazer as unhas eram coisas que há muito não fazia. Trabalhava apenas. E esperava. E vinham ônibus para todo os lugares menos para o seu bairro, bem longe, quase noutra cidade e ela aguardava com uma ânsia tão grande. Mas não demonstrava, apenas embrulhava suas mãos e estalava os dedos num nervosismo contido como era sua vida. Toda esquadrinhada sua vida de acordar tão cedo, dormir cedo, não ir ao cinema ou a um restaurante, não tomar café em lugares da moda, apenas a sua vida: um imenso vazio, cheio de horários.

Mas naquele dia algo já não estava tão nos eixos. Acordara atrasada e chegou depois do horário no trabalho. A chefe chiou, chiou. Nada havia dado muito certo naquele dia e a volta para casa parecia impossível. Resolveu andar até o próximo ponto de ônibus para ter ao menos a sensação de tempo passando, vendo os carros na avenida mais parados que andando.

Sua caminhada durou muito tempo. Não sabia precisar quanto tempo estava a esmo, mas a tarde já se esgueirava por entre os vãos dos prédios dando lugar ao oco da noite. Havia esquentado e o vento morno trazia vontade de abrir uns botões e andar mais devagar. Não sabia o que fazia ali, apenas estava, como desde o seu nascimento era de costume: estava. Quando não havia mais sinal do sol e os postes cuspiam uma luz amarelada no chão ela entrou num bar, comprou uma água, andou mais alguns metros e parou. Encostou-se à parede e imaginou-se outra. Viva novamente e não sabia se foram os goles de água gelada ou o acalento da noite cálida, mas viva.

Até que um carro parou. O motorista acenou e ela atendeu. Perguntou o preço, e ela deu. Entrou no carro e sumiu.