Vocês já pensaram o quanto a gente corre todo dia. Desesperadamente, como se o mundo fosse acabar daqui a pouquinho. Isso tem me incomodado sobremaneira nos últimos tempos, nesses nos quais não tenho tempo para respirar e inicio a madrugada fazendo tudo aquilo que preciso mas não encontro maneira de fazer durante o dia, como escrever no blogue, dar uma arrumada na casa, ler algum livro. E faço sabendo que tenho que acordar no outro dia cedo para não ter tempo para nada e dormir novamente tarde fazendo aquilo que preciso.
Rotina, mas que de maçante não tem nada, por incrível que pareça.
E todo mundo está assim. Se você não está, jogue as mãos para o céu e cante toda a musiquinha do Kid Abelha para agradecer, pois está entre privilegiados não acossados pelo tridente incandescente desse demônio chamado realidade. E se estou fazendo essa divagação batida é porque finalmente tive um tempinho para o ócio criativo, tão louvado por Domenico Di Masi. Numa entrevista no site de Mario Persona (com tradução de Cladia Fioretti), Di Masi comenta que o ócio criativo é também uma arte que precisa ser aprendida e aperfeiçoada, pois para que o ócio vire trabalho e mais trabalho não basta muito. Às vezes, quando estamos sem serviço, sentimos uma pontinha de culpa, como se estívessemos fazendo algo errado. Essa herança judaico-cristã e capitalista está deveras arraigada em nosso dia-a-dia. Certa vez eu estava entre amigos numa apertada hora de almoço quando vimos uma moça num café, pernas cruzadas, olhando para o vazio e mexendo seu café lentamente, enquanto nós engolíamos nossos espressos e capuccinos e corríamos desesperados para “bater o ponto” do retorno do almoço. Ao ver a moça tão distraída, alguém comentou: “Deve estar vagabundando, deve ser rica, que ódio”.
Talvez seja isso que a gente sente quando vê alguém desfrutando de seu tempo de ócio como bem entende. Nos acostumamos com oito horas de trabalho, cinco dias por semana, 22 dias por mês, e soltamos fogos de artifício quando há um feriadinho que quebre essa rotina. E o que mais ouço é que não há tempo para nada, que as pessoas hoje, quando têm uma brechinha, dormem ou se distraem na frente da TV, sem ao menos saber o que está acontecendo na sua vida. E quando chegará o tempo de tomar as rédeas da própria vida, ao menos de parte dela, e poder separar um momento para aprender um novo idioma, ler aquele livro imenso que sempre teve vontade, aprender ou reaprender a cozinhar coisas diferentes e gostosas, passear no parque, escrever algumas coisas interessantes ou, no último e mais delicioso caso, fazer absolutamente “nada”, ficar de bobeira? De acordo com a sua vontade? O seu desejo?
Di Masi propõe em seus livros (especialmente em O ócio criativo) a mistura de atividades profissionais, lúdicas, estudo e tempo livre para tentar se ver livre dos grilhões e do peso que tem o trabalho. Complicado e muito nos dias de hoje, precisamos dar conta de muitas coisas antes de ter um tempo livre e esse tempo de lazer é totalmente separado do nosso tempo produtivo, que é separado de nosso estudo e de nossa produção intelectual, tudo compartimentado de forma que as coisas não se mesclem. Quando alcançamos esse sonho de começar a tingir nossa vida profissional com as cores da diversão e do aprendizado, a dúvida nos acomete e a culpa nos invade. Não é fácil, minha gente, conciliar tudo, mas não custa tentar, lutar para que o trabalho nos divirta, nos ensine e para organizar o tempo de tal forma que nos sobre um momento nosso. Sei que para muitos é difícil, o trânsito rouba esse tempo, as obrigações no lar roubam também, o estudo às vezes forçado e os problemas familiares, o trabalho maçante, e são tantas coisas que nos tiram o prazer da vida que viramos autômatos, encarregados de arrastar nossa vida nas costas como Atlas modernos. Mas é isso mesmo que queremos da nossa vida?
PS: Esse texto foi escrito no ócio de segunda-feira à tarde, ao lado de uma xícara de café, depois de um fim de semana quase todo perdido. Viva Di Masi!
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