Xô, xuá…

O samba do baiano Riachão é exemplar. Não, não aquela que a Cássia Eller canta, Vá morar com o diabo, mas a que Gilberto Gil já cantou e até axé virou: Xô, xuá, cada macaco no seu galho, xô, xuá, eu não me canso de falar…”.

Antes que me interpretem mal, gostaria de dizer que acho muito importante que as pessoas estendam suas capacidades, que se dediquem com afinco àquilo de que gostam, mesmo se isso não for da sua área de competência. O diletantismo é ótimo, a dedicação leva as pessoas a descobrir que podem mais do que acham que podem, e isso é maravilhoso. O amadorismo sério, ou seja, amar algo e fazê-lo com prazer e dedicação é louvável. Agora, não venda um peixe que não é seu, para o qual você não foi treinado, nem tem experiência, utilizando seu nome que brilha aqui e ali para matar uma vontade ou participar de um projeto que, no fundo, vai em detrimento de profissionais sérios que se dedicam com afinco àquela profissão.

O mesmo serve aos artistas que querem ser políticos, aos empresários que querem ser artistas, e aos artistas que querem ser tradutores. Se tiverem a consideração de declarar que não são profissionais naquilo, que é uma experiência de vida, uma paixão, muito bem. Mas não tornem a coisas aos olhos do público uma brincadeira de criança, mas mostrem que, mesmo como experiência ou algo esporádico, que vocês fizeram aquilo com empenho e não entre uma hora de almoço e outra. Pois eu não advogo nas horas vagas, nem opero vesículas quando tenho uma folga na minha agenda. Muito menos subo no palco de uma peça pra fazer algo que não sei, do qual tenho ciência de que preciso estudar, me esforçar, aprender, treinar para poder dar a minha cara a tapa. Nem tento dirigir um filme por que me deu na telha ou a convite de um amigo.

Eu gosto de pintura e já pintei alguns quadros. Mas é um hobby, algo meu e só meu. Se alguém chegar na minha casa e quiser comprar o quadro não terei coragem de vendê-lo, pois sei que ali não há técnica, apenas inspiração. Diletantismo. Amadorismo. Então, respeito os pintores profissionais e digo que nos meus quadros está o fruto de um artista amador, de alguém que pega as tintas e joga na tela pra ver o que dá. Que há artistas plásticos que dedicam anos de sua vida à arte e que eles sim merecem ganhar pelo que criam.

Por isso, este é meu apelo: xô xuá, cada macaco no seu galho…

Imagem: Blog iMasters

O olhar do outro na tradução

Tenho pensado muito na tradução e no fazer tradutório de forma geral e tenho me deparado com questões bastante inquietantes, mais do ponto de vista pessoal do que profissional ou acadêmico, confesso, mas que acredito ser importante dividir aqui no blogue, pois talvez essa seja uma assunto bom para se pensar. Estive matutando em como os tradutores se encaram, ou melhor, como não se põem no lugar do outro colega de profissão. Ouço diversos ecoares em direções distintas, porém saindo de bocas que deveriam ou poderiam ser a mesma. Sim, estou falando de dois blocos de profissionais que parecem estanques, mas não são, apesar dos esforços: o bloco dos tradutores técnicos e o bloco dos tradutores literários. Claro, isso existe em todas as profissões, mas sinto que na tradução (talvez por estar mais próximo, dentro do redemoinho) a coisa beire o preconceito velado. Até porque são dois mundos completamente distintos, esse da tradução técnica e o pragmatismo feroz e o lema time is money levado às útlimas consequências e o outro (mas o mesmo) da tradução editorial (englobando praticamente todas as  literatura), no qual a arte concorre com o lado business do ofício. E no meio disso voam farpas e discussões acaloradas: quem ganha mais, quem faz mais, quem ganha menos?

Dificilmente chegaremos a um consenso. Talvez por ser uma questão de gosto, por um lado, de aptidão por outro. Há muitos anos se dizia (e em muitos casos isso ainda é verdade) que a tradução literária paga uma miséria e, veja bem, tradutor é aquele que vive de tradução. Então, nem todo o amor do mundo pela arte encheria a barriga do tradutor e dos seus, de modo que ele precisaria procurar algo mais rentável. Esse algo seria a tradução técnica (e isso engloba todas as traduções que tenham uma área de especialidade em setores econômicos definidos), à qual se dedica a maioria dos meus colegas. Porém essa verdade hoje está algo difusa, visto que já soube (e já recebi propostas) de serviços de tradução editorial que, se não ultrapassavam, se equiparavam ao que as agências de tradução têm pagado por aí. Não digo os preços vergonhosos praticados por algumas, mas preços bastante razoáveis.

Então assim seguimos: de um lado alguns tradutores literários recebendo loas (sem as merecer às vezes) em revistas e na mídia e os tradutores técnicos, que são maioria, sem reconhecimento algum (porém [ou talvez] melhor remunerados]. Há o valor da arte, óbvio, incomensurável, mas ninguém pensa que no manual do secador de cabelo ou do micro-ondas houve trabalho e suor de tradutor e ninguém se dá ao trabalho de lembrar que ali também agiram as mãos de um profissional (que deveria ao menos ser) capacitado. E quando algo dá errado, de certo a culpa é do tradutor. Não entrarei nesse mérito, pois é outra história e outra briga que posso comprar aqui, quase de graça.

Para desempatar e fechar o texto (e nunca o assunto), talvez falte muita coisa para que esses gêmeos siameses parem de brigar: humildade e respeito. O tempo não dá apenas rugas e dores, mas sabedoria para saber que quem está começando precisa de apoio, e não de porrada. Que não é pelo fulano fazer apenas best-seller que é uma besta célere ou a sicrana se dedica exclusivamente a manuais de informática que lhe falte tato (ou talento) para traduzir alta literatura. Muitas vezes é falta de oportunidade, as panelas são pequenas para vontades tão grandes. Então, tradutores, pensem que aquele a quem você ataca pode ser o que lhe dará a mão ali na frente. E o que você tanto louva pode não ser tão bom quanto parece, mas vende bem o seu peixe e consegue façanhas inimagináveis. O mundo gira, a Lusitana roda e o que importa é valorizar o próprio trabalho e ter prazer naquilo que faz. O que vem depois? Consequências e resultados.

Imagem: http://digital-photography-school.com/10-ways-to-take-stunning-portraits

“Infestações” linguísticas

Por indicação de amigos tradutores, estou utilizando agora o HootSuite, um agregador de Twitter que é muito bacana. Nele é possível definir tags (aqueles indicadores com #bla, o de tradução é #xl8) e acompanhar seu assunto preferido. Terça-feira foi um dia cheio, mas consegui marcar como favorito uma tuitada do @CopestoneTeam sobre a infestação linguística que os alemães tentam combater no idioma, transformando o idioma de Goethe no que eles chamam de Denglisch, ou alemanglês. Numa matéria do telegraph.uk, alguns especialistas comentam que a invasão e a mistura do inglês no idioma começa a causar problemas. Inclusive há uma campanha de respeito ao idioma alemão, liderado por Cornelius Sommer, ex-embaixador alemão que aponta os efeitos sociais da mistureba. De acordo com a matéria do site, ele comenta que “o uso do inglês em larga escala teria consequências sociais, pois grande parte da população – especialmente as gerações mais velhas que são menos proficientes em inglês – podem se sentir excluídas”.

Será que no Brasil temos esse problema?

O português, se não tiver errado, é bastante permissivo de um lado, mas ao mesmo tempo os estrangeirismos não são tão agressivos como para outros idiomas. Talvez por não termos o inglês tão facilmente amalgamado ao português (diferente de nossa cultura, que está toda tomada) ou porque grande parte da população ainda não fala inglês ou não fala o suficiente, o uso de anglicismos é bastante pontual. Tirando alguns grupos profissionais que teimam em se deixar dominar por “inglesices”,  acredito que ainda não haja (e me alertem se eu estiver pollyano demais) motivo para preocupação.

Um exemplo: mouse. Diferente de outros países, inclusive Portugal, que traduzem o aparelhinho por rato, ou o espanhol ratón, mouse não nos dá margem nenhuma para dúvida: é aquele negocinho que faz a setinha do computador mexer. O povo do Linux tentou impor uma tradução (acho que era dispositivos apontador, que remete aqueles apontadores quadradinhos e coloridos de lápis), mas não colou. E a confusão não se instalou.

Porém, mesmo com a tranquilidade aparente, temos de ter cuidado, principalmente com estruturas gramaticais e afins (vide o artigo ótimo do Danilo Nogueira aqui). Essas estão mais ameaçadas que o léxico em si. Além disso, precisamos evitar (e combater) absurdos com unhas e dentes, como “Delivery e entrega em domicílio” (como se fossem coisas diferentes), “printar”, gerundismos e afins. Na dúvida, uma olhadinha na gramática ou perguntadinha a algum amigo bom de português.

Assim não teremos de instituir a campanha “Salvem o português brasileiro”.

Respeito gera respeito

Respeito gera respeito. E a recíproca é mais que verdadeira.

Simulação de sexo dentro de transporte público, gritaria, impedimento do funcionamento normal das vias por corpos caídos, bêbados e/ou drogados. Ignorância, invasão, violência, coerção de “minoria” naquele dia, ou seja, dos heterossexuais. Obstrução. Intolerância. Demonstração de força.

Isso foi o que mais ouvi de todo o tipo de gente, desde heterossexuais, até gays e muitos simpatizantes. Essa foi a cara da Parada Gay deste ano.

Não vi nenhuma notícia, por isso venho aqui desarmado e pronto para tomar pedradas de todos os lados. Ontem peguei todos os contrafluxos e, apesar de morar no epicentro do “fervo”, preferi passar o fim de semana com minha mãe, pois foi aniversário dela. Muitos disseram que foi a melhor coisa que fiz nesse domingo. Mas o que vi não me assustou, apesar do visível descontrole de todos.

Daí vão dizer: “Isso é o reflexo do preconceito, do que que esfregam na cara dos gays o tempo todo. Eles tem o direito de liberar sim”.

Tudo bem, boa tentativa. Mas é princípio: a liberdade de um termina quando começa a do outro. Respeito é condição básica e deve ser exigido sim, porém é algo que você só exige se puder dar. As poucas cenas que me foram relatadas mostram que não houve respeito a quem nada tinha a ver com a festa. Ouvi de um amiga simpatizante confessa:

“Se eu não conhecesse tantos gays maravilhosos, teria pegado raiva de todos.”

A mesma amiga, num comentário posterior:

“Me senti separada e acuada. Quando ouvi ‘esse vagão é nosso’, pensei: a luta não é pela igualdade? Então por que separar os vagões?”

É essa imagem que queremos para os gays? Perder aliados, em vez de ganhar, se fechar num mundinho gay onde aparentemente tudo é permitido, não há regras ou amarras? Não é uma luta em prol dos direitos e do orgulho gay? Que orgulho é esse que desrespeita, passa por cima, maltrata? Pagar na mesma moeda os maltratos já e ainda sofridos pelos gays é a solução? Sei que essa é uma discussão muito controversa e por isso mesmo acredito ter chegado a hora de encarar esse problema. Outro amigo, que também mora na região, disse:

“Se você acha que é só uma vez por ano e tudo bem, venha morar aqui nesse dia e vai entender o que eu sinto.”

Por isso, vale lembrar mesmo: respeito gera respeito. Acho lindo quem está lá para comemorar, festejar o orgulho e o faz com dignidade. Como era mesmo o bordão do Leão Lobo? Dignidade, já! Quem traz o colorido da alma para as ruas de São Paulo nesse dia merece todo meu respeito, admiração e carinho. Torço, junto com essas pessoas, para que o mundo enxergue o gay sem as lentes do preconceito, da temeridade ou do ódio. Mas de nada adianta avançar um passo e regredir três. Ter uma festa linda para a opinião pública e ferir a imagem a conta-gotas, perante aquelas pessoas que poderiam estar a um milímetro de vencer todos os preconceitos e voltem 100 metros. Assim, nunca chegaremos a lugar algum.

Respeito. Esse é o início.

Foto: folhaonline - Paulo Withtaker/Reuters