Já basta a vida

puppy dog eyes

“De complicada, já basta a vida. Quero livros para me divertir.”

Quando ouvi essas palavras olhei para o lado. Havia um grupo de quatro mulheres e uma menina de boné. No meio da seção de literatura estrangeira, bem de frente ao senhor Kafka, essas palavras rasgaram o ar numa agudeza peculiar, palavras sobre salto, unhas compridas, cabelo tingido e maquiagem carregada. Apenas uma delas tinha um estilo bem diferente: cabelo tigela, alta e corpulenta, olhos tristes e sorriso desconcertado. Quando meus olhos bateram com o dela falaram mais alto que o rosário de estranhezas de suas amigas. Ela estava com um Hemingway na mão, acho que O velho e o mar.  E os tristes olhos dela, tristonhos, tentavam me dizer algo. Ela participava da conversa, ria e tudo mais, mas enquanto eu vasculhava a seção como de costume, à cata de algo novo e interessante, ela me olhava. As três amigas balançavam a cabeleiras longas e os perfumes se misturavam e tomavam o espaço do cheiro dos livros. Elas diziam nomes de escritores e escritoras, numa desenvoltura impressionante. “Tô fora de livro cabeça”, determinavam, “quero me distrair”. Tateavam nas estantes, puxavam alguns, liam sua quarta capa e, num crivo incompreensível, balançavam a cabeça e torciam a boca, num muxoxo. Uma delas, ainda, soltou “só leio para dormir, então tem que ser algo leve, né?”.

Não, pensei eu. E a moça de olhos tristes me fitava, ria com as outras e suspirava. Tentava entender aquele sorriso que não falava a mesma língua das amigas em polvorosa. Em vão.

Não demorei, já havia escolhido meu livro e fui ao caixa. Elas em pouco tempo me seguiram, já haviam selecionado seu livro divertido e rechaçado fileiras de autores cabeças e chatos. Enquanto pagava, a menina de boné debruçou sobre o balcão, como se estivesse comigo, enquanto a mãe tagarelava com as amigas, numa tentativa óbvia de mostrar conhecimento e cultura. A menina exalava tédio e tinha um livro na mão: O diário de um banana 3, livro que adorei ler, tanto ele como os dois primeiros. Saí da livraria com aquela primeira frase rodando na minha cabeça, tentando entender, decifrar tudo que havia escondido por trás daquela sentença quase mórbida. Não cheguei a conclusão nenhuma, na verdade. Acho que fiquei apenas triste. Como os olhos da moça que deixei para trás.

Imagem por The_bosshog via Flickr
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καλαμπόκι

καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.

Estrangeiro.

Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.

Do lado de fora.

Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polentaisso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.

Não era dali.

Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.

Realidade farpada

Foi um abraço doído e tudo aconteceu muito rápido. Quinze reais, moço, e eu janto e durmo ali no albergue. Quanto eu tenho?, acho que dez. Serve, moço. Mas sabe o que mais vale? A atenção que vocês me deram. E ela me olhou nos olhos. Com seu cabelo crespo queimado e seus olhos um pouco puxados. Dentes grandes de criança e dentro de sua barriga outra criança e aquele sorriso de uma melancolia tão imensa como se fosse velha. Olhos pretinhos pelos quais fui tragado num turbilhão de dores e incertezas naqueles minutos, numa história que se repete em todos os lugares. Em situação de rua a menina de camisetão de futebol de cor indefinida pela sujeira e bermudinha de sarja tinha, apesar da tristeza, um brilho no olhar. Olhei, olhei e falei que ela deveria se cuidar e tudo mais.

Mas sabe o que mais vale? A atenção que vocês me deram.

Então me dê um abraço.

Foi um abraço doído e fui eu quem pediu. Eu precisava tanto quanto ela daquele carinho numa noite abafada numa rua qualquer, na saída de um teatro, na minha vida tão confortável. Poderia, sim, acontecer qualquer coisa naqueles segundos do abraço. Crueldade e insanidade são marcas tão patentes de nosso cotidiano que aquele abraço serviu de chibatada em todos os preconceitos e medos.

Na volta para casa eu estava impotente. O mormaço da noite me oprimia, minha consciência me prensava nas paredes da rua Augusta como uma onda gigantesca. Eu me arrastava imaginando os passos da menina até aquele albergue. Ou até a lata de cola dentro da qual ela nadaria para longe daquela realidade farpada. Queria voltar, mas para quê? Queria tirá-la da rua e dar o carinho que tive quando fui tirado da rota dos toldos e perseguições e estupros e crimes. Mas eu estava impotente. Apenas a lágrima não me acusava, me redimia de alguma forma. E apesar da distância e de ter essa cena cunhada na minha cabeça, não voltei. E a menina? Nunca mais vi…