No meu rol de twitteiros há algumas pessoas que trazem outras e tantas outras que chacoalham minhas ideias em diversos graus. Hoje o escritor João Paulo Cuenca, em seu twitter, me trouxe um belo presente: uma pedra para eu tropeçar e encontrar José Castello e seu texto Ficção e Ilusão. Diversos trechos desse texto me perturbaram, trazendo aquela certeza das quais muitos escritores fogem: que a incompletude da escrevinhação é um dos castigos pelos quais passamos na busca daquela palavra perfeita, o arremate de parágrafo na mosca. Quando pensamos que chegamos lá, basta algum tempo para percebermos que não, que aquele texto ainda pede algo que não tínhamos no momento que o escrevemos.
No início do texto ele faz uma afirmação que me pôs a pensar: “Se há uma ficção que realmente desprezo, é aquela que afirma que a realidade, quando observada de modo direto e sem paixões, está imune às ficções.”
Não me vem à cabeça qualquer texto que se encaixe no desprezo de Castello, mas basta sair de casa para saber que quase tudo que a palavra descreve de alguma forma faz parte de nossa realidade e mescla-se de tal forma que fica negar que a literatura está em tudo e tudo pode estar na literatura.
Nessas divagações não pude deixar de lembrar do Enrique Vila-Matas, uma das minhas últimas paixões literárias com um único livro que li do catalão que foi Bartleby e Companhia (Cosac Naify). Ele discorre em notas de rodapé de um texto inexistente sobre o que ele chama de Escritores do Não, apadrinhados pela personagem Bartbleby, do Hermann Melville, um copista que após muito trabalhar em um escritório em Nova Iorque resolve não fazer mais nada, respondendo às investidas de seu chefe com a frase “Preferiria não o fazer”. A personagem de Vila-Matas, que também se intitula Escritor do Não, apresenta uma lista de literatos reais e imaginários que após uma obra, ou mesmo sem nenhum tomo escrito, negam-se a continuar o fazer literário por diversos motivos. Um deles, Joseph Joubert (nota 18, página 55), apesar de sua preparação para escrever um livro não se sentia preparado para fazê-lo. Quando cutucado por François-René de Chateaubriand a encarar a empreitada lhe respondeu: ”Ainda não posso escrevê-lo, ainda não encontrei a fonte que procuro. E o caso é que se encontro essa fonte, terei mais motivos ainda para não escrever esse livro que você gostaria que eu escrevesse“. Apesar disso escreveu um diário dessa sua busca, publicado postumamente por Chateaubriand.
Castello me trouxe essa lembrança, pois diz também que:
“É comum ouvir de escritores jovens o desabafo de que ainda não estão preparados para escrever. Mas quando alguém está? ‘Ensinar a escrever’, se é que isso é possível, talvez não passe de estimular a crença nessas ilusões decisivas. Ensinar a acreditar e, um segundo depois, a quebrar a cara, para voltar a acreditar ainda uma vez.”
E muitas vezes essa sensação opressora encontra eco não apenas em colegas, mas naquilo que lemos e na crítica que fazemos de nossos próprios escritos, jogando aquilo que tanto almejamos, que é escrever, em um lamaçal difícil de se desatolar.
Escrever, como viver, não é preciso. Não há bússola, astrolábio, mapeamento que traga a segurança que muitos buscar para encarar a página em branco com a valentia que se encara o despertador todos os dias pela manhã ou a condução lotada para voltar para casa. Qualquer que seja a direção é perigosa, movediça, instável e temos apenas a vontade, o desejo de ser ouvido. Há apenas duas opções nesse caso: render-se ao Não Bartlebyriano ou resistir na luta insana da literatura.
Imagem: Martin Rowson, no site da UCL
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