De Cobra Norato para o mundo

Hoje é um dia especial. Luiz Bras lançará seu primeiro livro para o público adulto, chamado Paraíso Líquido. Já conhecido por suas obras infanto-juvenis, como A poção da vida, Bia Olhos Azuis, A Família Fermento e A última guerra, em parceria com a querida Tereza Yamashita, agora ele se embrenhou no mundo dos grandinhos e com certeza vai dar o que falar.

Ainda mais com a maneira que ele encontrou de divulgar essa empreitada. Lançar, literalmente, o livro nas mãos de seus leitores. Nas palavras do próprio Luiz:

Este livro significa uma mudança importante na minha vida e na minha literatura. Uma mudança que pede uma celebração, um brinde com os amigos. Mas o tim-tim não será com taças de champanhe. Pensei em algo diferente: que tal brindar com o próprio livro? Darei um exemplar de presente a todos os que forem ao lançamento na AIC, como agradecimento aos amigos que fizeram, fazem e farão parte de minha caminhada literária. Também como agradecimento ao Programa de Ação Cultural, que possibilitou sua publicação.

Será na Academia Internacional de Cinema, às 19h30. Veja o convite abaixo:

Vejo vocês lá! 

O que vai acabar primeiro?

O livro de crônicas O Romance Morreu (Cia. das Letras) abre com o texto que dá título à coletânea, no qual Rubem Fonseca brinca com os diversos anúncios de que a literatura estava fadada ao desaparecimento ou havia perecido com os adventos tecnológicos dos mais diversos, desde o Ford T até a Internet e chega à conclusão (ou a hipótese) de que na verdade quem estaria em vias de escafeder-se era o leitor, não o escritor. Esse resiste com bravura no seu desejo de espelhar o mundo em suas páginas. Depois dos anúncios divertidos, o autor dispara dados tristes:

Uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura no meio universitário chegou a conclusões espantosas: trinta e seis por cento dos pesquisados nunca, repito, nunca haviam lido sequer um livro de ficção. Uma minoria lia um ou dois livros de ficção durante o ano. Um número grande lera apenas um livro a vida inteira. Estamos falando de universitários.

Essa foi a deixa para que Tzetan Todorov, historiador e ensaísta búlgaro, entrasse em cena: A literatura em perigo (DIFEL) é um livro pequeno, mas com um tema poderoso, numa abordagem que não deixa por menos para explicar as razões pelas quais as pessoas não se sentem atraídas pela leitura. Ele, filho de bibliotecários, sempre esteve às voltas com os livros e, sob o jugo da ditadura comunista na Bulgária, foi obrigado a se dedicar à linguística e ao estruturalismo, apesar de pender para estudos de caráter mais ideológico (totalmente proibidos e vigiados pelo regime). Ao chegar na França para um trabalho acadêmico, percebe que o currículo “ocidental” é composto não por leituras, mas pelas provas e obrigações baseadas na leitura, ou seja, ler não como algo prazeroso, mas um “castigo” ou uma espécie de “trabalho forçado”. A literatura torna-se algo importante quando compreendemos seu poder e Todorov diz num trecho:

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.

E quando se compreende isso um mundo novo se abre. Hoje vemos iniciativas governamentais e privadas cada vez mais intensas, como rodas de leitura, visitas de escritores a cidades mais distantes, feiras, festivais e muitos outros acontecimentos. Porém os livros ainda são objetos caros, inacessíveis para muitos, um luxo ainda considerado desnecessário – quando bem deveriam vir, como já disseram, na cesta básica -, por isso ainda falta muito para chegarmos a um nível mínimo e bom de leitura. As pessoas costumam fugir dos livros, evitá-los, como Asmodeu de um bom crucifixo, mas os motivos são diversos, camuflados na famosa frase: não gosto de ler. Tem gente que não gosta mesmo, ponto final. Mas muita gente só precisa de uma exposição mais forte e pumba, taí mais um leitor.

Por isso, não desanimemos, escritores: seja para quem for que escrevamos, ainda há chance de virarmos a mesa e ver esse terreno árido se transformar num manancial pululante de leitores para todos os gostos.

Levanta a poeira…

Nelson de Oliveira é um escritor e tanto. Já falei dele diversas vezes por aqui, rasguei muita seda, mas não é à toa: o cara tem a manha. Acabei de ler seu último livro, Poeira: demônios e maldições (Ed. Língua Geral, 399 p.) e fiquei mais uma vez intrigado com o domínio que ele tem da sua ferramenta, quase arma, que é a escrita. A surpresa é um elemento chave para Nelson, bem como o detalhamento, em especial neste livro, com as inúmeras referências a filmes, outros livros e outras artes. O bate-papo com escolas já tradicionais da literatura dão um tempero especial, do realismo fantástico à fantasia distópica.

A história se passa numa realidade alternativa na qual os livros são um grande incômodo: há livros em todos os lugares, em todos os cantos. Há um controle feito por imensas bibliotecas e cada vez mais elas são construídas para suprir a necessidade de espaço e organização dos tomos. Decretos contra novas impressões já foram baixados e tudo parece sobre controle.

Até que novamente começaram a surgir livros clandestinos, reedições e novas obras, sem que ninguém saiba de onde vieram. Fred, um bibliotecário de uma cidade sem nome, ficou transtornado com a chegada de caixas de novos livros como se surgidos do ar em sua repartição. Para resolver essa pendenga, surge Pedro Penna, um engenheiro que aparentemente chegou ali para dar um jeito na situação. Porém, os livros não param de surgir e Fred começa a enfrentar problemas não apenas na sua vida profissional, mas sua vida pessoa vira um inferno: seu casamento com Estela começa a ruir, sua relação com a filha parece distante e tudo fica cada vez mais estranho naquele mundo. Criaturas medonhas rondam a cidade, os depoimentos sobre elas não levam a lugar nenhum, pixações surgem como os livros, de lugar nenhum, avisando que o Mal está presente.

No mínimo surpreendente. A sensação de estranhamento e a ambientação absurda, beirando (e às vezes ultrapassando) o surreal, invadem as páginas de Nelson como em outros livros (veja esse post aqui, sobre O oitavo dia da semana). Este livro é uma aula para quem gosta e se aventura pela escrita, em diversos sentidos.

Pseudo

Sem entrar imediatamente no mérito de tradução boa ou ruim, ainda fico bastante chateado quando vejo a profissão sendo tratada como bico e, não apenas tratada, mas desempenhada como tal.  Vamos à acepção de bico para o Dicionário Houaiss: 

bico 

[...] 

11 Uso: informal. 

biscate 

que, por sua vez, leva a: 

biscate 

1 serviço simples e rápido, de pouca importância; bico 

2 Derivação: por extensão de sentido. 

ocupação ou serviço eventual, de curta duração e não regular; bico 

3 Derivação: por analogia. 

trabalho ou emprego secundário, além do principal, habitual ou regular que alguém exerce a fim de aumentar seu rendimento; bico 

4 Derivação: por metonímia. 

remuneração (ger. pequena) recebida como pagamento por esse tipo de trabalho; bico 

Olha onde foi parar a profissão de tradutor. A gente se esfalfa para aprender um outro (ou outros) idioma(s), para aprender português tão bem quanto, tenta formar clientela, se reciclar, crescer, fazer nosso networking, ajudar os amigos etc. E somos considerados “biqueiros”? Quase como aquela brincadeira sem graça que fazem com os professores: “Você só dá aula, não faz mais nada?”. Essa minha bronca não é de todo infundada, vem da observação de diversas pessoas que têm outra profissão e fazem tradução “de vez em quando” ou “quando aparece”, cobram preços aviltantes (ou não) e no fim das contas levam os louros sobre o que para outros é ganha-pão. 

Agora vamos entra no mérito de tradução boa, ruim, levada a sério ou não: 

Certa vez, numa palestra, um editor ele contou a história de um escritor que traduziu um livro e essa tradução ganhou um prêmio importante. Óbvio que o tal editor foi procurar o tradutor para um projeto que estava guardado para alguém que realmente valesse a pena. O pseudotradutor efetuou seu trabalhinho, ganhou seu dinheirinho e quando o editor foi verificar a tradução, pumba. Caiu para trás: erros crassos de tradução, erros de português e uma porção de outras falhas impensáveis para aquele premiado profissional. Depois ele foi investigar e descobriu: a preparadora da editora era uma mestra em salvar o dia e praticamente refez o texto. 

Papagaio comendo milho e o periquito todo, todo. 

E hoje mesmo tive um exemplo disso com uma pessoa conhecida que recebeu uma dessas “buchas” para fazer. Está salvando com bravura aquele texto que terá outro nome estampado como responsável e venderá (talvez mais, não acredito) por conta daquele nome estampado. Apesar de fazer um excelente trabalho, a pessoa querida não é conhecida. Mesmo com o trabalho hercúleo, seu nome aparecerá nos créditos, bem pequeno e tímido atrás da folha de rosto, mais invisível impossível. Não que se exija louros (olha o papagaio aí novamente), mas ao menos respeito. Diga-se sou “blablablá” e tradutor quando tiver mesmo aquilo que um tradutor precisa ter: um amor incondicional e imensurável pelos idiomas, uma curiosidade infinita e tantas outras coisas que quem se intitula tradutor deve ter. 

Se não for assim, pegue seu banquinho… e respeite o profissional da tradução. 

Foto: http://www.imagensporfavor.com/tag/1/papagaio.htm

 

Lygia Fagundes Telles e Décio Pignatari no Letra Livre

Minha gente boa, 

Notícia do produtor e amigo Edu Nóbrega: dois ícones das letras brasileiras estarão reunidos num especial feito pelo programa Letra Livre, da TV Cultura: Lygia Fagundes Telles e Décio Pignatari. 

Lygia Fagundes Telles é paulistana e uma das grandes escritoras brasileiras. Seu primeiro livro, Porão e Sobrado, foi publicado com ajuda de seu pai. Em seguida ingressou na faculdade de Educação Física e no preparatório do Largo São Francisco. Traduzida para diversos idiomas, entre eles o alemão, o tcheco, o inglês e o italiano, foi agraciada com os maiores prêmios da literatura brasileira. 

Décio Pignatari nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, é poeta, ensaísta, tradutor, contista, romancista, dramaturgo e professor. Formou-se na faculdade do Largo São Francisco em 1953 e lançou, junto com os amigos Haroldo e Augusto de Campos, o movimento da poesia concreta. Também é conhecido como grande pesquisador da semiótica. Seu último livro é Bili com limão verde na mão

 

O evento será na próxima sexta-feira, dia 7 de maio, às 14h00 e acontecerá na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (Largo de São Francisco n° 95), de onde ambos são egressos. A apresentação e a direção é do Manuel da Costa Pinto, crítico literário, muito simpático e mediador bastante competente. Se estiver em São Paulo e quiser participar, basta mandar um e-mail para letralivre@tvcultura.com.br 

As vagas são limitadas, por isso, não perca tempo. 

Ah, e não esqueçam que a partir de hoje, todas as quartas-feiras, estarão no ar as entrevistas da seção Conversa entre Tradutores. Passe o cursor na barra ali em cima, clique no nome da tradutora ou do tradutor e confira! 

Foto Lygia: Agência RIFF
Foto Décio: Jornale
Foto Manuel: Portal SESCSP

A má literatura nas telas

Há pouco levantei a discussão se ler qualquer coisa era melhor que não ler nada (aqui) e recebi muitos retornos (e outras tantas porradas) que me foram muito válidos para pensar melhor na questão à parte do meu desabafo do post anterior. Foram tantas ideias que surgiram com a reflexão que não consegui até hoje formular uma resposta para a pergunta que eu mesmo fiz, deixando-a em aberto, para ser vista caso a caso. Ontem estava tomando um café com amigos e quando comentei que, por exemplo, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional virou um pontão de encontro, sempre cheia e intransitável. A amiga Karla disse: “Melhor que esse ponto de encontro seja numa livraria, ao menos ali as pessoas estão em contato com os livros, pegam, folheiam e talvez se interessem”.

Então a questão de má literatura é relativa? Outra vez ouvi de alguém que o que é bom para um pode não ser para o outro. Chavão certíssimo. E o que é seu e não é bom e, ainda assim, você publica? No Sabático do fim de semana, uma notinha comentou sobre um documentário chamado Bad Writing, produzido por Vernom Lott, que estreia em agosto e traz exatamente essa perguntinha: que bosta foi aquela que botei no papel?

Quem nunca teve essa sensação, que atire o primeiro calhamaço. Porém, muita gente não publica nadica pelo medo da crítica ou pela exigência altíssima. Quem conhece os cursos de Letras por aí sabem que a graduação talvez devesse ter em sua grade prática da escrita criativa, mas o que ela realmente faz é detonar a criatividade, formando excelentes críticos literários, todos com medo de ser criticados ou com um nível de exigência tão alto que não acham que seu próprio texto valha a pena.

Acredito que a premissa do filme seja um empurrão para aqueles que não se aventuram e dão a cara para bater:

Bad Writing é um documentário sobre um homem que deseja ser poeta e se põe em uma busca por respostas sobre a escrita  – má literatura, boa literatura e o processo que há entre esses dois pontos. Que ele vai aprender com algumas das estrelas do mundo literário que inspiram todos aqueles que já sonharam em criar arte?

Será que esse filme chega aqui? Ou teremos que apelar para as cópias alternativas?

Veja o trailer:

Fonte: Estadão, Caderno Sabático de 1.5.2010

Todas as famílias felizes se parecem…

Tenho me aventurado pelo mundo dos quadrinhos há algum tempo, sem muito conhecimento da causa, mas com um ótimo preceptor que é o Tiago Soarez, me guiando pelos meandros das graphic novels, os quadrinhos com forte apelo literário e que discutem questões diversas, onde as personagens não são heroicas e os dramas são bem humanos. Sem fugir desse lastro de quadrinhos modernos onde bem se encaixam Fun Home, Jimmy Corrigan e outros, Umbigo Sem Fundo, escrito por Dash Shaw aos 23 anos (e traduzido em 2009 por Érico Assis para a Cia. das Letras), tem as suas peculiaridades sem, entretanto, fugir do epíteto de graphic novel.

Uma história normal que tem de certa forma como ponto de partida a célebre frase inicial de Anna Kariênina*, de Liev Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem, cada a família infeliz é  infelizes à sua própria maneira”. Dash começa traçando os diversos tipos de família até chegar na sua própria, os Loony, que à distância parece uma família normal. Até que Maggie e David Loony resolvem se separar após quarenta anos de casamento. Dennis, o filho mais velho, não se conforma com a separação e chega à beira da loucura, deixando de certa forma sua mulher, Aki, e seu filhinho à deriva. Claire, a filha separada do meio, esconde num jeito descolado sua face de mãe apavorada, sempre tentando proteger sua filha adolescente, Jill. Peter, o caçula, é o reflexo da disfunção familiar: cineasta fracassado, ele é o desencaixado da família Loony, tanto que é representado durante todo o livro como um sapo (apenas revelando seu rosto em uma situação-chave). É como ele se sente, um sapo, do qual todos mantêm uma distância saudável, alguns acham engraçadinho, mas no fundo querem se livrar dele. Além disso, sofre de uma insegurança crônica que o paralisa quando precisa tomar alguma decisão.

Todos essas personagens pertencem ao que se convenciona chamar no livro de ‘Família Loony Buraco Negro’, na qual “cada membro é uma entidade flutuante e separada dos outros membros”.

Depois de ter lido Jimmy Corrigan com toda a sua arte e ainda encantado com o delicioso e colorido delírio de Chris Ware, comecei Umbigo Sem Fundo com certo desapontamento. Não se podem chamar os desenhos de Shaw para o livro de bem feitos, ao contrário, podem mesmo ser chamados de toscos. A feiura dos quadrinhos é compensada por uma força narrativa incrível e talvez os traços descuidados tenham uma influência grande sobre a nossas recepção da história. De forma irônica (e não por não conseguir retratar as ações nos quadrinhos) Shaw indica os movimentos das personagens, como ‘sobe escada’ ou ‘abana, abana’. E há mais um belo indício de que essa hipótese não está longe de ser verdade: confira seu mais novo projeto, Body World, com desenhos bem melhores que os lançados em UsF. Mas se houver dúvida de que David saiba desenhar, não há dúvida de que ele sabe como usar a palavra e a imagem juntos, em cortes e continuações quase cinematográficas e a carga literária necessária para fazer um bom livro. Mais uma experiência intrigante com quadrinhos que divido com vocês. Espero que vocês se aventurem um dia desses também. Vale a pena!

Imagem do autor: New York Books Author Profile
*Tradução de Bóris Schneiderman, Cosac Naify.

O mapa da escrita

karte_berlin_stadtschlossA Revista da Cultura deste mês traz uma matéria que dá o que pensar para quem escreve ou quem tem vontade. Uma pergunta que cresce como os cursos e oficinas de escrita que pululam por aí: é possível ensinar a escrever? Há um mapa ou uma fórmula da escrita?

Sou egresso de um curso de escrita. Trabalho há bastante tempo com as palavras, então ao menos nessa parte eu tinha certa segurança. Até chegar lá e ver que não era apenas isso. Nem qualquer outra coisa que eu tivesse em mente. Lá conheci gente boa e não tão boa, ao meu ver. Gente que realmente tem gosto pela palavra e pelo trato com o verbo e gente que apenas quer descarregar medos, culpas e afins no papel em branco. Não sei onde me encaixo nisso, mas ainda insisto na escrita pois ela me dá um prazer imenso.

Na matéria da revista há entrevistas com diversos instrutores e professores de oficina, como Luiz Antonio de Assis Brasil, João Silvério Trevisan e Raimundo Carreiro na velha guarda de oficinas e cursos de literatura. Entre a nova geração está o mestre e amigo Nelson de Oliveira e o agitador cultural agitadíssimo Marcelino Freire, ambos atuando em São Paulo (e Marcelino correndo pra lá e para cá pelo Brasil). Esse tipo de oficinas é uma novidade quase recente no Brasil, mas lá foram os cursos se espalham como grama, muitos com o mesmo formato, outro como uma espécie de brainstorming (ou “toró de parpite”) entre escritores.

No fim das contas, há ao menos uma provável resposta para uma das perguntas do início do post: não há mapa ou fórmula se você deseja fazer literatura. O fazer literário, acredito eu, é uma junção de diversos fatores, controláveis e incontroláveis, que acabam desaguando numa obra. De qualquer forma, aprendi que literatura é trabalho, é suor, é um debruçar-se sobre o texto com vontade. Desenvolver técnicas, se deixar levar pela inspiração, montar esquemas de trabalho e treinar exercícios de respiração para manter a calma quando aquela bendita palavrinha-filha-da-puta não chega. E, acima de tudo, escrever, e muito. E ler mais ainda para se alimentar e ter forças para encarar o teclado quieto ou a caneta em delicioso repouso. E “ouvir a rua”, como manda Marcelino na entrevista. E aquela música. E ver a pintura e se incomodar a ponto de ver o texto se formar na cabeça, como deve acontecer com Sérgio Sant’anna (como comentou no último Sempre um Papo, com Afonso Borges, no Sesc Vila Mariana). Ou nada disso que escrevi , o que também é uma possibilidade.

O mapa não vem pronto. A gente precisa escrever…

Escrever não é preciso

No meu rol de twitteiros há algumas pessoas que trazem outras e tantas outras que chacoalham minhas ideias em diversos graus. Hoje o escritor João Paulo Cuenca, em seu twitter, me trouxe um belo presente: uma pedra para eu tropeçar e encontrar José Castello e seu texto Ficção e Ilusão. Diversos trechos desse texto me perturbaram, trazendo aquela certeza das quais muitos escritores fogem: que a incompletude da escrevinhação é um dos castigos pelos quais passamos na busca daquela palavra perfeita, o arremate de parágrafo na mosca. Quando pensamos que chegamos lá, basta algum tempo para percebermos que não, que aquele texto ainda pede algo que não tínhamos no momento que o escrevemos.

No início do texto ele faz uma afirmação que me pôs a pensar: “Se há uma ficção que realmente desprezo, é aquela que afirma que a realidade, quando observada de modo direto e sem paixões, está imune às ficções.”

Não me vem à cabeça qualquer texto que se encaixe no desprezo de Castello, mas basta sair de casa para saber que quase tudo que a palavra descreve de alguma forma faz parte de nossa realidade e mescla-se de tal forma que fica negar que a literatura está em tudo e tudo pode estar na literatura.

Nessas divagações não pude deixar de lembrar do Enrique Vila-Matas, uma das minhas últimas paixões literárias com um único livro que li do catalão que foi Bartleby e Companhia (Cosac Naify). Ele discorre em notas de rodapé de um texto inexistente sobre o que ele chama de Escritores do Não, apadrinhados pela personagem Bartbleby, do Hermann Melville, um copista que após muito trabalhar em um escritório em Nova Iorque resolve não fazer mais nada, respondendo às investidas de seu chefe com a frase “Preferiria não o fazer”. A personagem de Vila-Matas, que também se intitula Escritor do Não, apresenta uma lista de literatos reais e imaginários que após uma obra, ou mesmo sem nenhum tomo escrito, negam-se a continuar o fazer literário por diversos motivos. Um deles, Joseph Joubert (nota 18, página 55), apesar de sua preparação para escrever um livro não se sentia preparado para fazê-lo. Quando cutucado por François-René de Chateaubriand a encarar a empreitada lhe respondeu: ”Ainda não posso escrevê-lo, ainda não encontrei a fonte que procuro. E o caso é que se encontro essa fonte, terei mais motivos ainda para não escrever esse livro que você gostaria que eu escrevesse“.   Apesar disso escreveu um diário dessa sua busca, publicado postumamente por Chateaubriand.

Castello me trouxe essa lembrança, pois diz também que:

É comum ouvir de escritores jovens o desabafo de que ainda não estão preparados para escrever. Mas quando alguém está? ‘Ensinar a escrever’, se é que isso é possível, talvez não passe de estimular a crença nessas ilusões decisivas. Ensinar a acreditar e, um segundo depois, a quebrar a cara, para voltar a acreditar ainda uma vez.”

E muitas vezes essa sensação opressora encontra eco não apenas em colegas, mas naquilo que lemos e na crítica que fazemos de nossos próprios escritos, jogando aquilo que tanto almejamos, que é escrever, em um lamaçal difícil de se desatolar.

Escrever, como viver, não é preciso. Não há bússola, astrolábio, mapeamento que traga a segurança que muitos buscar para encarar a página em branco com a valentia que se encara o despertador todos os dias pela manhã ou a condução lotada para voltar para casa. Qualquer que seja a direção é perigosa, movediça, instável e temos apenas a vontade, o desejo de ser ouvido. Há apenas duas opções nesse caso: render-se ao Não Bartlebyriano ou resistir na luta insana da literatura.

Imagem: Martin Rowson, no site da UCL

Já deu sua contribuição?

USE EM SEU BLOG/SITE

Até dia 10 de abril (próximo sábado) está aberta a lista de assinaturas em apoio ao manifesto feito em prol da Denise Bottmann, aberta pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone Castilho Benedetti. Já são mais de 2.500 assinaturas em defesa do trabalho árduo dos tradutores de obras espoliadas por editoras caras de pau que ganham às custas de obras esgotadas ou fora de circulação. Denise sofreu alguns processos e  um deles  acaba de ser recusado pela segunda vez pela justiça (veja aqui o caso Martin Claret). Esse trabalho hercúleo de Denise não pode parar por capricho dos piratas literários e por isso sua assinatura é tão importante. Passe lá, dê sua contribuição. NÃO AO PLÁGIO!

O livro infantil, em todo o seu vigor

Dois de abril, esse feriado preguiçoso e ensolarado em terras paulistanas, é aniversário de um ilustre dinamarquês: Hans Christian Andersen, o mestre da literatura infanto-juvenil. Hoje comemora-se o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil, em homenagem ao escritor e poeta nascido em Odense, em 1805 e falecido em Copenhague, em 1875.

Um dos gêneros mais difíceis, na minha opinião, a literatura infanto-juvenil traz a maravilha de diversos mundos e, ao mesmo tempo, verdades tão latentes que impressionam. O leitor mirim e adolescente é implacável, não dão brecha para incoerências, a não ser que essa incoerência esteja bem encaixada dentro do texto. O texto infanto-juvenil deve ser lapidado de forma a ser simples, direto, mas não idiotizante, pois isso causa desconforto nos pequenos. Por todas essas características, é quase injusto separar literatura adulta de literatura infanto-juvenil, pois muitos títulos são literatura de boa qualidade e ponto.

Monteiro Lobato, Ligia Bojunga, Eva Furnari, Ana Maria Machado, Neli Novaes Coelho, Luiz Bras e Tereza Yamashita, Índigo, Andréa del Fuego, Ivana Arruda Leite e tantos outros nomes no Brasil fazem bonito na escrita e pesquisa de literatura infanto-juvenil e valem muito a pena. Prestigie essa boa literatura, não apenas presenteando os pequenos, mas consumindo o que há de melhor na deliciosa escrita para os pequenos de todas a idade.

De volta à volta

Voltei. Depois de alguns dias escrevendo ou recuperando antigos escritos para publicar aqui, voltei. E por um motivo muito simples: eu precisava. Como quem precisa comer, beber, ir ao banheiro e vestir, amar e ler, se divertir e sofrer, eu preciso escrever. Não é mais uma opção, deixou de sê-lo há muito e por muitas vezes pensei que a fonte havia secado de vez.

Ledo engano.

Ontem fui ao lançamento de Poeira: demônios e maldições, do amigo e mestre Nelson de Oliveira, alguém que admiro não apenas pela postura literária, mas pela pessoa afável que faz dele alguém que se quer sempre por perto. Não apenas por isso ele se tornou para muitos escritores uma referências, mas por sua produção insana, de muitos e bons livros, do qual este último eu não espero menos que a confirmação da minha admiração por ele.

Típico daquele que se recusa a fazer parte dos “Escritores do Não”, retratados de forma incrível no inclassificável livro do Enrique Vila-Matas, “Bartleby e companhia” (Cosac Naify).

Então também comecei a colocar a mão na massa. Isso não significa que eu não possa sumir novamente, mas que não quero deixar de escrever. E agora tenho algumas pessoas que me cobram textos e isso é mais que inspiração. São como aquelas pessoas que, com muito carinho, mandam você ir jantar, colocar uma blusa e não ficar na friagem. São pessoas que conheci há pouco no mundo virtual e que já fazem a diferença.

Por isso, bora escrever, criar, pensar e repensar. Pois no fim das contas, vale muito a pena…

Trocas

Ouvir. Ouvir e às vezes falar. Essas trocas valem um texto ou uma vida num texto ou a própria vida. Ver quem sabe falar, falar e absorver aquelas palavras quase num louvor. Não sei se esse é o caminho, mas pode ser um deles, por que não? E seguimos tentando domar a palavra ou soltá-la numa manada verborrágica sobre a tela branca desértica e frígida. Falar aberto, sem rodeios ou intermédios, direto na cara para quem quiser ouvir, goste ou não, é isso. E ouvir tranquilamente e esperar o resultado daqueles discursos dentro da cabeça, como o fermento que age na massa pequena e inerte, fazendo-a crescer, se movimentar. E explode num texto, numa frase, numa ideia que estala no teclado. Essa é minha esperança quando ouço gente boa falar. Na sexta última foi assim, ouvir gente boa falar, receber palavras seminais. Agora é gestar…

Lançamentos

Vamos aos lançamentos (até o momento):

Para tradutores e interessados: dias 4 de março e 7 de abril haverá lançamento de dois dicionários jurídicos. Um deles é da Marina Bevilacqua de Toloubre, no dia 4, na Saraiva do Shopping Iguatemi, das 19h30 às 22h00 (veja convite virtual abaixo):

O segundo será o do Marcílio Moreira, pela Editora Forense, que será na livraria Martins Fontes da Paulista (pertinho do metrô Brigadeiro). A primeira não conheço, mas as obras jurídicas da Saraiva são bastante conhecidas pela sua qualidade. Já o do Marcílio já conheço e utilizo a versão “artesanal”, que tem bastante qualidade e é de alguém que conheço pessoalmente. No blogue Tradutor Profissional, no qual soube do lançamento do Marcílio, Danilo Nogueira comenta que o autor inseriu mais mil verbetes, além de correções e uma ajudinha do pessoal da Forense. Esse lançamento eu não perco! Será no dia 7 de abril, a partir das 19h00.

Para todo mundo: A querida Ivana Arruda Leite lança seu segundo romance, chamado Alameda Santos, na Livraria da Vila, com continuação sempre animada na Mercearia São Pedro. Será no dia 9 de março, a partir das 19h00, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho. Mais detalhes no convitinho virtual abaixo. Vale a pena!