
Não sei se comentei aqui de um site bem interessante para quem gosta de literatura e afins: o Musa Rara, do poeta e amigo Edson Cruz. E tem um texto meu lá, aqui do blog, com algumas modificações.
Se quiser conferir, clique aqui.
Acompanhei meio de longe o nascimento de Minha vida de brinquedo (Edição da Autora), da grande escritora e amiga Karla Lima. Digo grande escritora, pois há muito conheço essa moça de cabelos cacheadinhos e língua presa, com sua sinceridade deliciosamente cortante, com sua crítica sempre certeira e sua mão firme para a palavra certa. Mas devo confessar que Minha vida de brinquedo foi uma surpresa. Esperava muito, veio muito mais.
Como a própria Karla, não é uma história cheia de firulas. Um livro sobre a velhice, contada por uma narradora inusitada: a voz de uma menina que invade as páginas do livro consegue atenuar a realidade inevitável para a maioria de nós: o declínio físico, a fraqueza mental e todo o ônus que a idade (e muita idade) traz consigo. A partir do sonho de uma senhorinha alemã que nos deixa na primeira frase do livro é criado um instituto para acolhimento de idosos (asilo? Não gosto dessa palavra…) que tem como principal bandeira o bem-estar total de seus internos. Nele, conhecemos diversas figuras, tristes ou divertidas, que no fim das contas somos nós daqui 15, 20, 30 anos… e, por mais assustadora que seja essa realidade, mergulhar com as personagens de Karla no mundo do ILPES traz lições (sem moralismo) e imagens (sem exageros) que ficam marcados na memória. Não para sempre, pois a cabeça um dia vai falhar…
Vale muito a pena!
Para quem quiser livro, entre em contato com a autora no e-mail karla3001@yahoo.com. Você não vai se arrepender…
No Skoob, para quem quiser saber mais: Minha vida de brinquedo
Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.
Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?
Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.
Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.
Evento imperdível para quem gosta de livros. De 1 a 15 de novembro acontecerá no Conjunto Nacional, em Sampa, a Primavera na Cultura. Lá reúnem-se diversas editoras numa feira pra lá de divertida, com muitos eventos para quem gosta de literatura. O evento realizado pela LIBRE (Liga Brasileira de Editoras) cresce a cada ano e neste ato tem o apoio da Livraria Cultura.
Para mais informações, acesse: http://www.libre.org.br/
Finalmente, um nome conhecido. Depois dos rumores sobre o favoritismo do poeta sueco Tomas Tranströmer e de outros tantos poetas, desponta e vence um nome bastante conhecido e não comentado pela imprensa: o escritor peruano Mario Vargas Llosa, hoje morando em Nova Iorque, atuando como professor em Princeton. E já não era sem tempo de a Academia Sueca olhar em volta, tirar o foco do Velho Continente e reconhecer, como disse Llosa em entrevista, “a literatura latino-americana”.
De acordo com comunidado do comitê, Llosa mereceu o prêmio “por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual”.
Depois de premiar dois quase desconhecidos do grande público (Le Clézio em 2008 e Herta Müller em 2009), o comitê agracia Llosa, membro da Real Academia Espanhola, que antes disso foi condecorado com o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, em 1986, e com o Cervantes, em 1994. Acompanha o galardão um chequinho de US$1,6 milhão, o que não é nada mal. Há 30 anos um escritor latino-americano não recebia o prêmio, desde García Marquez, desafeto do escritor desde essa época. Mesmo após o prefácio de Cem Anos de Solidão, relançado há alguns anos pela Real Academia Espanhol, feito por Llosa, a rixa entre os dois não parece de todo resolvida. Mas ao menos, com esse Nobel, talvez haja uma aproximação.
Além de escritor e ensaísta, Llosa também tentou uma incursão pela política, candidatando-se a Presidente da República do seu País, cargo que perdeu para Fujimori. Além disso, foi responsável pelo famoso livro-reportagem sobre o movimento Sendero Luminoso.
Sua última obra lançada no Brasil foi Travessuras da Menina Má (Alfaguara, 2006, tradução de Ari Roitman).
Não há o que fazer: as editoras decidem o que vamos ler. Como em quase tudo, alguém decide o que vamos fazer, o que vamos comer e o que vamos vestir. E o que vamos ler não fica de fora nas imposições da vida, porém as coisas tendem a mudar de certa forma com o livro eletrônico, visto que ainda sai mais barato importar um Kindle a ter um e-reader nacional. Tendo um Kindle (ou outro leitor eletrônico gringo), as opções se ampliam para quem lê inglês e essas pessoas vão espalhar para outras (entre elas as que não leem em outra idioma) que acabaram há pouco um livro fantástico, mas que não tem tradução. E a cobrança por essa tradução surgirá e algumas editoras, tão acostumadas a impor suas compras nas grandes feiras internacionais, terão que correr atrás do prejuízo daquelas que têm um faro mais apurado ou bala na agulha para apostar em títulos nos quais outras não apostariam.
Talvez seja uma situação ideal. Mas isso aconteceu com diversos objetos cotidianos que precisaram se adaptar a uma realidade mais global (leia-se, norte-americana ou europeia). Tenho a esperança de que isso ocorra, em médio a longo prazo. Os leitores crescem e os atrativos de leitura para as novas gerações são muitos, de títulos da moda até os próprios e-readers, gadgets que serão sensações nos próximos Dias das Crianças, Natais e outras festividades comerciais. Que pai com condições vai se negar a oferecer aos seus filhos um meio divertido de obter cultura?
Porém, a situação da maioria ainda não é boa. O costume da leitura não é encorajado, apesar de tanta gente boa lutando para que a leitura se torne algo que se almeje de verdade (como projetos que levam autores a cidades do interior, rodas de leitura, eventos em bibliotecas, livrarias e afins). Por isso, se você chegou até aqui, já pensou em incentivar a leitura entre seus amigos, colegas de trabalho, parentes? Montar uma pequena biblioteca no escritório, contar para os irmãos com a empolgação de quem viu um filme de aventura que o livro tal é o máximo, dar a uma amiga aquele livro que tem a ver com ela. Essas pequenas sementes florescem com facilidade, basta regar e insistir. Pois a educação é um passo à frente para formarmos uma sociedade melhor.

Tradutor com orgulho. Assim podemos definir Jorio Dauster, diplomata e atualmente presidente do conselho de adminsitração da Ferrous Resources Ltd. Em todas as entrevistas que pesquisei para esse bate papo, Jorio se apresenta de forma exemplar como tradutor e, quando entrevistado como tal, responde com franqueza sobre suas principais contribuições à tradução literária no Brasil, O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, e Lolita, de Vladmir Nabokov. Uma entrevista ótima e bem diferente, vale a pena conferir aqui.
Acho, também, que fui ajudado pelo fato de ter estudado línguas estrangeiras desde muito cedo e de ter sido desde cedo fascinado pela tradução. Se não fosse escritor, seria tradutor. Aliás, fui e ainda sou; às vezes, traduzo para a Unesco.
A tradução me fascina como trabalho paraliterário ou literário de segundo grau. Quando uma pessoa traduz, quer dize,r quando não é responsável pelo conteúdo original, seu problema não são as ideias do autor – ele já as colocou ali. O que essa pessoa tem que fazer é traduzi-las, e então os valores formais e os valores rítmicos que estão latentes no original passam a ocupar um primeiro plano. Sua responsabilidade é traduzi-los, com as diferenças que existam, de um idioma para o outro. É um exercício extraordinário do ponto de vista rítimico.
Se eu fosse uma pessoa de dar conselhos, diria a um jovem escritor que tenha dificuldades de escrever para deixar de escrever por um tempo por conta própria e passar a traduzir a boa literatura; um dia ele se dará conta de que está escrevendo com uma fluidez que não tinha antes.
(Conversas com Cortázar, de Ernesto Gonzáles Bermejo, tradução de Luís Carlos Cabral, Jorge Zahar Editor.)
Acredito que estou no caminho certo…
Ivana Arruda Leite é uma escritora ímpar. Escreveu a vida inteira, mas seus livros começaram a ser lançados recentemente, seus dois romances há pouco: Hotel Novo mundo, do qual já falei aqui, e o Alameda Santos, que preciso ler com urgência. Pessoas próximas que leram amaram tanto que releram ou querem reler e ver a Ivana mais de perto.
Ela deu uma entrevista deliciosa no blogue da Dani Arrais, o dont’ touch my moleskine, que me deixou mais encantado com a Ivana escritora e mulher. Mais dela você encontra também aqui.
Veja a primeira parte da entrevista:
Atualização:
A parte dois. Sobre a nova literatura e sobre a internê:
Há tempos não falo de literatura em si, de livros, pois as leituras têm sido ou profissionais (ou seja, ainda vão ser lançadas) ou técnicas. Porém, tive um tempinho e encaixei nas minhas leituras Syngué sabour – Pedra-de-paciência (Estação Liberdade, trad. de Flávia Nascimento), do autor franco-afegão Atiq Rahimi. Nessa novela poética, concisa e certeira, numa mistura de contos antigos e dias modernos, o autor presta homenagem à poeta afegã Nadia Anjuman, espancada até a morte pelo marido com conivência da mãe, pela acusação de ela ser liberal demais. Aqui, Rahimi traz um Afeganistão atingido pelas contendas entre facções inimigas, destruído e abandonado. O choro às vezes contido e outras desbragado de uma mulher afegã permeia as páginas, o lamento pelo marido inerte, entre a vida e a morte. As revelações, dores e angústias dessa mulher são contadas ao marido que vive apenas pelo esforço dela, entre cuidados e perfusões de soro que gota a gota trazem alento de que um dia ele vá levantar. A pedra-de-paciência, o objeto mágico que acolhe tristes confidências e que, quando receber tristezas demais, explodirá numa “erupção apocalíptica”. Ela transforma seu marido nesse objeto mágico, confessionário particular, e apresenta sem pudores a intimidade do casal e sua vida. A poesia muitas vezes desaparece em meio aos golpes da realidade machista e do fundamentalismo religioso, porém ressurge com bravura nos interstícios da lembrança daquela sofredora. Ao mesmo tempo duro como a realidade afegã e poético como as lendas do povo do oriente, Syngué sabour – Pedra-de-paciência recebeu em 2008 o Prêmio Goncourt 2008, um dos maiores prêmios literários da França. Vale a pena.
Lançamento é sempre tudo de bom. E desta vez, junto com grandes amigos. Está chegando a coletânea “Mecanismos Precários“, da Editora Terracota. São 17 escritores reunidos sob as batutas dos queridos Nelson de Oliveira e Claudio Brites. Além dos alunos do curso de pós-graduação em criação literária da Unicsul/Terracota (entre eles os amigos Laura Fuentes e Tiago Araújo), também estão estrelas da literatura brasileira contemporânea, como Marcelino Freire, Edson Cruz e Marcelo Maluf.
Será no dia 11 de setembro, das 17h00 às 19h00, no Espaço Terracota (Av. Lins de Vasconcelos, 1886, Aclimação, São Paulo). Vale a pena.
Veja o convite abaixo:

Os e-books são um fenômeno, como temos visto nos jornais, e o setor livreiro vê com um misto de receio e entusiasmo esse boom nas compras dos livros. A comparação com a derrocada da indústria fonográfica é inevitável, porém precisa ser analisada de forma racional, ou seja, o que será do e-book em longo prazo.
Pensemos numa viagem de ônibus de oito horas de São Paulo a Belo Horizonte, sem maiores dificuldades e trânsito. De dia, por exemplo, saída da rodoviária do Tietê às 10h00 e chegada em BH às 18h00. São 480 minutos de viagem, contando as paradas de vinte minutos a meia hora cada. Se eu tiver um tocador de MP3, para ouvir 8 horas ininterruptas de música, levando em conta que cada canção em média tem 3,5 minutos, precisaríamos de 137,2 músicas no meu aparelhinho.
Suponhamos que eu resolva ler oito horas ininterruptas. Dificilmente conseguirei ler nas paradas, então retiremos 50 minutos do meu total, então seriam 7 horas e 10 minutos, ou 430 minutos de leitura. Suponha que você leia 1 página a cada 8 minutos de um livro relativamente simples, digamos, de 120 páginas. Você lerá em 8 horas 57,7 páginas, menos da metade desse livro. Mesmo se você tiver o costumo de ler a uma velocidade maior que essa, irá ler um livro em toda a viagem.
Então, para quê preciso levar minha biblioteca comigo onde eu estiver, 100, 200 ou mais livros? Simplesmente para dizer que tenho tantos livros? Ou seja, o consumismo inicial impulsionado pela propaganda ou pela facilidade de compra (na propaganda do Kindle, em 60 segundos você tem seu novo livro na maquininha) pode fazer com que as pessoas assumam os e-readers como as máquinas do futuro, causando um furor nesse início. Mas será que isso vai durar?
A única opinião que tinha era que não abandonaria tão cedo os livros de papel pelos livros eletrônicos, tanto pela minha paixão por eles como pela minha birra inicial com essa tecnologice (apesar de eu amar tecnologia e fazer uso dela sempre). Essa opinião mudou quando li e tomei conhecimento de alguns recursos dos e-readers e agora tenho para mim que eles são bons e serão cada vez melhores para um tipo específico de leitura: a técnico acadêmica. Digamos que você tenha um trabalho de fim de curso, uma pesquisa ou outro trabalho que exija um volume grande de leitura, anotações, observações e consultas não apenas nos livros, mas também na internet, em jornais e revistas. Num e-reader estará tudo no mesmo lugar, concentrado e, além disso, você poderá pesquisar o que quiser num piscar de olhos e não mais fazer um fichamento imenso para encontrar um trecho, uma informação específica. Não que seja ruim ler o livro todo, aliás é necessário, mas no momento da pesquisa é interessante você encontrar uma informação em páginas que já passaram, que virão, compará-las e nelas anotar, grifar etc. Aí o e-reader é útil e prático e mostra seu valor.
E quem disse que eu só olho o lado ruim das coisas?
Parece estranho o título deste post, ainda mais com tantos comentários sobre a quantidade absurdamente grande de livros existentes e lançados todos os anos no mundo inteiro, mas aqui falo não apenas de literatura, mas de tradução de literatura no Brasil. Apesar de sermos um país que consome tradução de literatura muito mais do que a produz (e isso talvez seja um pouco a relação com o mercado, vendas e apoio bastante escasso [para não dizer inexistente] à criação literária) ainda ficamos devendo e muito para outros países, inclusive vizinhos, como a Argentina.
Estou bastante mexido com a leitura do livro do Umberto Eco que comentei aqui. Ele fala umas verdades incômodas, à primeira vista estranhas, mas verdades.
E, mexido, começo a tentar aplicar o que leio à nossa realidade brasileira: por que será que tantos bons autores por aí têm um ou nenhum livro publicado? E por que ótimos autores estrangeiros às vezes chegam apenas aos olhos de quem procura em revistas especializadas ou em coletâneas que dificilmente saem das estantes das livrarias?
Não tenho uma resposta à essa pergunta, talvez seja apenas uma provocação para quem pensa em literatura. Fui acometido por essa comichão provocadora ao ler um conto do alemão Daniel Kehlmann chamado Töten (Mortos), do livro Unter der Sonne (editora rororo), de uma poética pouco imaginável para o tema do vazio e da falta de perspectiva que levam à violência. Quando acabei de lê-lo, fui procurar o que havia traduzido do Herr Kehlmann e para a minha surpresa apenas um romance, A Medida do Mundo (Cia. das Letras, trad. de Sonali Bertuol) consta dos sites e livrarias. Em outros idiomas também acontece o mesmo: desconhecemos os grandes autores, os bons autores e aqueles que talvez não sejam tão bons, mas que o texto nos agrada. Ao passo que somos bombardeados por best-sellers inúteis, inócuos e intragáveis.
Acho que sei tudo que ouvirei depois desse post: o mercado é assim mesmo, as pessoas precisam trabalhar, deixe de ser ingênuo e aceite que literatura é mercado também. Não me afasto dessa visão em momento algum, muito pelo contrário, acredito que haveria público para esses autores, desde que houvesse um outro movimento anterior: o da valorização da leitura. Mas precisaria ser algo radical, utilizar todo o arsenal midiático, mercadológico e marketeiro para levar às pessoas a ideia de que ler, saber e conhecer é o máximo. Não fazem isso com o refrigerante da moda, com a roupinha da novela e com as bandas coloridas? Então…
Às vezes me pego assim, idealista. Mas fazer o quê? Enquanto isso, vou mergulhar no próximo conto do Kehlmann e imaginar como ficaria traduzido… e como meus amigos iriam gostar.
Fiz um texto sobre e-readers que ainda vou postar aqui sobre como eles podem ser (in)úteis, porém o texto ficou no meu caderninho de anotações e este, por sua vez, foi esquecido na casa da minha avó. Em breve vou buscá-lo e trago novas considerações amalucadas sobre os leitores eletrônicos e o quanto eles podem nos trazer de alegria ou decepção. Enquanto isso, fiquem com um trecho do livro Sobre a Literatura - Ensaios, de Umberto Eco (Ed. Record, trad. Eliana Aguiar) que sempre me surpreende com suas divertidas elocubrações sobre o tema:
É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel. Mas houve um tempo em que se incorporavam na voz de quem recordava uma tradição oral ou mesmo em pedra, e hoje discutimos o futuro dos e-books., que permitiriam ler seja uma coletânea de piadas, seja a Divina Comédia em uma tela de cristal líquido. Aviso logo que não pretendo me deter esta noite na vexata questio do livro eletrônico. Pertenço, naturalmente, àqueles que, um romance ou um poema, preferem lê-lo em um volume de papel, do qual haverei de recordar até mesmo as orelhas e o peso. Dizem, porém, que existe uma geração digital de hackers que, nunca tendo lido um livro na vida, com o e-book conheceram e provaram agora, pela primeira vez, o Dom Quixote. Quanto proveito para suas mentes e quanta perda para sua vista. Se as gerações futuras chegarem a ter uma boa relação (psicológica ou física) com o e-book, o poder do Dom Quixote não mudará.
Eu já disse que virei fã desse moço?
“Acredito que seja mais adequado, em muitos casos, decepcionar um autor a enganar centenas de milhares de leitores.”*
Aos 90 anos (completados em junho), um dos papas da crítica literária alemã reafirma seu credo profissional. Estou com ele e não abro…
(* Ich glaube, dass es eher angebracht ist, in manchen Fällen, einen Author zu kränken als Hunderttausend von Lesern zu betrügen.)
Fonte: DW-World Podcasts – Bücherwelt.
Foto: picture-alliane, no site Germany-Info USA.
“De complicada, já basta a vida. Quero livros para me divertir.”
Quando ouvi essas palavras olhei para o lado. Havia um grupo de quatro mulheres e uma menina de boné. No meio da seção de literatura estrangeira, bem de frente ao senhor Kafka, essas palavras rasgaram o ar numa agudeza peculiar, palavras sobre salto, unhas compridas, cabelo tingido e maquiagem carregada. Apenas uma delas tinha um estilo bem diferente: cabelo tigela, alta e corpulenta, olhos tristes e sorriso desconcertado. Quando meus olhos bateram com o dela falaram mais alto que o rosário de estranhezas de suas amigas. Ela estava com um Hemingway na mão, acho que O velho e o mar. E os tristes olhos dela, tristonhos, tentavam me dizer algo. Ela participava da conversa, ria e tudo mais, mas enquanto eu vasculhava a seção como de costume, à cata de algo novo e interessante, ela me olhava. As três amigas balançavam a cabeleiras longas e os perfumes se misturavam e tomavam o espaço do cheiro dos livros. Elas diziam nomes de escritores e escritoras, numa desenvoltura impressionante. “Tô fora de livro cabeça”, determinavam, “quero me distrair”. Tateavam nas estantes, puxavam alguns, liam sua quarta capa e, num crivo incompreensível, balançavam a cabeça e torciam a boca, num muxoxo. Uma delas, ainda, soltou “só leio para dormir, então tem que ser algo leve, né?”.
Não, pensei eu. E a moça de olhos tristes me fitava, ria com as outras e suspirava. Tentava entender aquele sorriso que não falava a mesma língua das amigas em polvorosa. Em vão.
Não demorei, já havia escolhido meu livro e fui ao caixa. Elas em pouco tempo me seguiram, já haviam selecionado seu livro divertido e rechaçado fileiras de autores cabeças e chatos. Enquanto pagava, a menina de boné debruçou sobre o balcão, como se estivesse comigo, enquanto a mãe tagarelava com as amigas, numa tentativa óbvia de mostrar conhecimento e cultura. A menina exalava tédio e tinha um livro na mão: O diário de um banana 3, livro que adorei ler, tanto ele como os dois primeiros. Saí da livraria com aquela primeira frase rodando na minha cabeça, tentando entender, decifrar tudo que havia escondido por trás daquela sentença quase mórbida. Não cheguei a conclusão nenhuma, na verdade. Acho que fiquei apenas triste. Como os olhos da moça que deixei para trás.
Lançamentos de livros sempre dão o que falar e pensar. Sempre encontro uma querida escritora nesses festins literários, a Andréa del Fuego, e me divirto muito nos nossos papos que são por vezes sérios, mas em sua maioria beiram o surreal nas minhas taças de vinho branco (que, de acordo com Xico Sá, é branco pra não manchar livro ou outras obras) e nos copos com água fresca dela. Um belo dia, falávamos sobre o sonho do escritor. É publicar na editora da moda? É receber uma crítica crocante de um crítico encrenqueiro? Ou seria estar no top ten das revistas de grande circulação? Foi no lançamento do Luiz Roberto Guedes, de seu livro de contos deliciosamente verdadeiros, que chegamos à conclusão:
O sonho do escritor é ter uma casa própria.
E rimos. E rimos muito.
Rimos, apesar de conhecermos a lida do escritor. Nos esfalfamos para criar e trabalhar a palavra. Operários, isso que somos. Tanta obra e tanta gente que obra sobre as páginas e tem de tudo. Cai no gosto da freguesia essa gente, tira de letra e aparece aqui e ali sorridente. Mas há quem honre a profissão, a arte de ser um profissional da escrita, escritor com garbo e elegância e sem pejo de se declarar como tal. Esses valem a pena. E sonham, como sonham. Às vezes com isso, às vezes com aquilo, mas não estão no mundo da lua, estão na realidade, no bater-se diário com as palavras. E aí que está a diferença básica do escritor para aquele que se diz: amor profundo pelo que bota na tela, no papel, no guardanapo, no papel higiênico, não importa. É com eles que vou, que quero estar, me espelhar e também sonhar que um dia também poderei eu sonhar mais alto.

Uma discussão que talvez pareça inútil essa que proponho agora, até por que sempre foi e sempre será desse jeito, cada qual com a sua opinião ou com sua mudança de opinião a cada brisa mais forte: a literatura é arte, inspiração e, talvez, possa se viver dela ou é trabalho e ganha-pão e precisa ser encarada como tal? Conheço duas pessoas com opiniões totalmente divergentes quanto a esse assunto (e não vou mencionar nomes, por motivos óbvios), mas que ainda assim se respeitam e se querem bem. Uma delas sempre diz que “a literatura é trabalho e o escritor precisa sair de sua torrinha de marfim e pisar no chão, participar, se envolver com seus semelhantes, ir a lançamentos, festas e afins para não ficar sozinho, pois sozinho não se chega a lugar algum”. Visão bastante pragmática para algo tão inexplicável quanto a literatura, mas válida nesse mundo de networking e relações interpessoais incalculáveis. Pensando que todo mundo teve sua turminha, seu exército, como diria Marcelino Freire, até é plausível essa visão de que o escritor precisa estar no olho do furacão para saber o que fazer, por onde ir e como chegar. Do contrário, estará enclausurado em suas próprias linhas e entrelinhas, solitário em suas divagações e dificilmente (a não ser em casos de genialidade indiscutível) alcançará o que essa vertente literária também busca: reconhecimento de seus pares e, por conseguinte, do público.
O outro lado da moeda traz à luz não o escritor ermitão, mas aquele que acredita estar a arte acima de qualquer esforço contábil, ou seja, se ela virar um ganha-pão, que seja por um interesse genuíno de seu público e não pela aceitação dos pares ou pelo empenho em torná-la algo vendável. Que a arte é algo muito maior que o trabalho, o dinheiro e que a inspiração, ao contrário do que preconiza João Cabral de Melo Neto, é componente fundamental da criação artística (em especial da poesia, que nessa visão precisa do sopro das musas para que se ponha em movimento). Essa vertente sofre por sua arte não alcançar o grande público, ou seja, há ainda a necessidade de se ter um emprego qualquer para se manter e fazer a arte como segunda opção até que algum crítico descubra o artista e o torne queridinho da crítica, que o estampa em algum jornal e ganhe o público. Não é tarefa fácil.
Então, como lidar com essas duas vertentes quase antagônicas? É possível a mescla?
Na minha opinião, sim. Pegue um pouquinho de cada uma dessas visões e mais outras que possam vir a surgir (como a de David Shields, comentada aqui) e escolha a medida que você quer. Eu acredito na moderação: não precisa ser o arroz de festa, mas também não há motivo para se isolar. Ouvi certa vez, numa roda de conversa, sobre um poeta que não lia outros poetas, nem romancistas, para não se contaminar. Nascemos e a partir daí momento somos, quer queriamos ou não, contaminados de todas as formas, então isso para mim foi uma grande idiotice. Também não precisa encarar a arte como um simples trabalho, até porque em nosso vernáculo e nas nossas bases judaico-cristãs essa palavra está intimamente ligada à punição, e não à criação. Nem dispensar o suor e a labuta do operário da palavra, aquele que se esmera para escolher o termo certo para a hora certa, deixando a inspiração de lado e fazendo os cortes e os acréscimos (mais os primeiros que os segundos) que se fazem necessários para o nascimento de algo que valha a pena.
Se a chave está no equilíbrio? Não sei não, não gosto muito das certezas, pois elas acomodam as nossas bundas na cadeira e o passo arriscado por vezes imprescindível fica muito difícil quando elas se instalam. Às vezes os arroubos, em outras a precaução, tudo em pitadas medidas para que não nos percamos em divagações meditabundas e inócuas. Assim fazemos a vida e assim fazemos literatura.
Foto: Ileana Says
καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.
Estrangeiro.
Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.
Do lado de fora.
Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polenta, isso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.
Não era dali.
Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.