Primeiro post do ano: uma leitura (e que leitura)

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Acompanhei meio de longe o nascimento de Minha vida de brinquedo (Edição da Autora), da grande escritora e amiga Karla Lima. Digo grande escritora, pois há muito conheço essa moça de cabelos cacheadinhos e língua presa, com sua sinceridade deliciosamente cortante, com sua crítica sempre certeira e sua mão firme para a palavra certa. Mas devo confessar que Minha vida de brinquedo foi uma surpresa. Esperava muito, veio muito mais.
Como a própria Karla, não é uma história cheia de firulas. Um livro sobre a velhice, contada por uma narradora inusitada: a voz de uma menina que invade as páginas do livro consegue atenuar a realidade inevitável para a maioria de nós: o declínio físico, a fraqueza mental e todo o ônus que a idade (e muita idade) traz consigo. A partir do sonho de uma senhorinha alemã que nos deixa na primeira frase do livro é criado um instituto para acolhimento de idosos (asilo? Não gosto dessa palavra…) que tem como principal bandeira o bem-estar total de seus internos. Nele, conhecemos diversas figuras, tristes ou divertidas, que no fim das contas somos nós daqui 15, 20, 30 anos… e, por mais assustadora que seja essa realidade, mergulhar com as personagens de Karla no mundo do ILPES traz lições (sem moralismo) e imagens (sem exageros) que ficam marcados na memória. Não para sempre, pois a cabeça um dia vai falhar…
Vale muito a pena!

Para quem quiser livro, entre em contato com a autora no e-mail karla3001@yahoo.com. Você não vai se arrepender…
No Skoob, para quem quiser saber mais: Minha vida de brinquedo

O saber e o querer saber

A perspicaz Karla Lima, amiga de letras, cafés e teutonices, me mandou uma croniquinha que o Rubem Alves publicou na Folha de S. Paulo (link para assinantes Folha.com ou UOL) sobre tradução e traição. Não gosto desse trocadilho já passado, mas tive que aceitá-lo, pois Rubem comentou alguns fatos interessantes numa tradução publicada. A frase de destaque da crônica é de certa forma exemplar (apesar de exagerada e de precisar de uma certa humanização):

O tradutor tem de ser um dicionário que contenha as palavras conhecidas e as palavras não conhecidas.

Um pouco nos coloca na condição de objetos, máquinas de saber, quando na verdade somos mais máquinas de interpretar, ou melhor, organismos interpretativos e questionadores. Condição sine qua non para se exercer a profissão é esse questionamento ou, como diria a tradutora Ana Iaria, a pulga amestrada atrás da orelha, sempre bem alimentada. Os exemplos que ele dá são no mínimo engraçados, fruto de algo muito simples: falta de um simples querer, desejar saber, ultrapassar os limites do texto em busca de uma compreensão maior do que se tem nas mãos. Esse talvez seja um assunto batido, mas na falta de profissionalismo e de mudanças na visão do próprio tradutor de seu trabalho, vamos batendo na mesma tecla até quem sabe acontecer algo maior.

A questão não é metralhar o tradutor, mas já disse e repito aqui minha opinião: falta de tempo ou de orçamento não pode ser desculpa para um serviço meia-boca. Contratar “profissional” despreparado por ser mais barato é, no mínimo, irresponsabilidade de quem quer que seja. Falta de respeito imensa com quem confia no produto final da empresa. E isso serve para qualquer coisa, não apenas para tradução: usar material mais em conta, não treinar, não estudar, não querer ser melhor. E como começar? Há muitas maneiras, entre elas de baixo, o que é bastante difícil, mas dá frutos. Todo mundo quer começar por cima e o tombo, aí, é mais alto.

O que mais me conforta é saber que as pessoas já estão atentas à questão da má tradução, ao menos no que tange à tradução literária. Fui procurar o tal tradutor d’O país das sobras longas (Ed. Record), livro que Rubem Alves comenta, e uma pessoa no site da Livraria Cultura comenta sobre a tradução que prejudica a leitura. Ao menos uma pessoa, um vagalume no breu do “deixa pra lá, isso nunca vai mudar”. Por isso, enquanto houver voz, é preciso botar pra circular esse tipo de situação, dar a mão à palmatória e tentar melhorar. Infelizmente, para chegar aos nossos ouvidos (ou aos nossos olhos), é necessário que alguém da grande imprensa divulgue – não há tempo para tantos livros -, que as pessoas reivindiquem o direito a uma boa tradução, como a um bom serviço, uma boa comida e um bom atendimento, seja lá qual e onde for. Com a cobrança vem a melhoria e com ela também um melhor retorno para todos, assim espero.