Conversas entre Tradutores: Ivone C. Benedetti

É um grande prazer receber aqui na salinha de estar do blogue, o Conversas entre Tradutores, Ivone C. Benedetti, um dos grandes nomes da tradução editorial no Brasil. Doutora pela USP, Ivone é uma simpática tradutora que contribui e muito tanto para o pensar como para o fazer tradutório. Conheci Ivone na entrega do Prêmio União Latina, conversei um pouco com ela, mas o suficiente para perceber sua generosidade, o que me encorajou a solicitar a entrevista. Além disso, é escritora e concorreu como finalista ao Prêmio São Paulo de Literatura 2010 com seu Immaculada (WMF Martins Fontes).

Clique aqui para ler a entrevista, que com certeza irão gostar.

Estrangeirização e regionalismo

Começo este post com a indicação da leitura do post da Ivone Benedetti (aqui) que condiz muito com a minha visão de tradução e respeito ao leitor. Vale a pena dar uma olhadinha também no primeiro post dela sobre o assunto (aqui), também muito interessante.

A intenção deste pequeno texto não é trazer luz a qualquer assunto já discutido à exaustão, mas sim causar mais questionamentos sobre polarização cultural e tradução. Essa questão mexeu comigo num serviço que terminei há pouco, que muitas vezes tirou meu sono e meu humor, mas que no fim das contas me trouxe uma visão mais ampliada de diversos assuntos, desde mercado editorial, traduções e tradutores e a relação de amor e ódio com “o” texto. Minha relação com esse texto fica em segundo lugar, pois em primeiro lugar está a polarização cultural que o Brasil sofre (Rio-São Paulo e, no máximo, outras capitais maiores definindo o que é cultura) e como isso tem influência direta na questão tradutória. Pois a questão da estrangeirização e da modulação do texto aos padrões hegemônicos também pode ser aplicada dentro de um país continental como é o Brasil, onde as diferenças culturais são imensas, e o que há de marca do tradutor nesses textos (me refiro aqui em especial aos textos literários ou de caráter menos técnico) acaba desaparecendo quando chega nas mãos dos revisores.

Isso está correto?

Se pensarmos economicamente, sim. O texto precisa ter alcance e, para que o tenha, deve ser utilizado um idioma que esteja num padrão compreensível a todos os falantes. Não sendo este um português carioca, paulistano ou mineiro, mas sim um português brasileiro, compreensível a todos, sem as tintas fortes do regionalismo. Porém, se pensarmos ‘tradutologicamente’, cada tradutor imprime sua marca no texto e, por consequência, deixa o rastro de sua vivência em cada texto que traduz. Retirar essas marcas significa apagar a diferença em prol de uma uniformização, o que muitas vezes resulta num texto mais truncado do que o anterior ou num texto sem personalidade alguma. Na entrega do Prêmio União Latina, Denise Bottmann comentou que esse português pasteurizado, ou “português de tradutor”, retira de cada texto sua cara própria, colocando uma máscara igual em todos. Ela brincou que, se pegássemos um livro de física e um livro de psicanálise e trocássemos os jargões, teríamos quase o mesmo texto. Então, o que fazer?

A cara do tradutor e o leitor

Num curso de graduação de tradução, uma das primeiras coisas que aprendemos e que nos persegue durante os anos de estudos tradutórios é que a definição do público alvo de nossa tradução é fundamental para que possamos adequar o registro (a linguagem), a terminologia e outros aspectos textuais. Parece algo óbvio, mas há tantos casos em que surgem dubiedades quanto ao tratamento a se dar a um texto que é pertinente atentarmos a isso. Também se aprende num curso de tradução (e nos de letras também) que a revisão do texto visa a correção sintática e estilística do texto para que ele se torne algo elegante. Há muita gente especializada nisso e rendemos graças aos revisores/preparadores por existirem. Mas existem aqueles (raros, mas que infelizmente se destacam da multidão) que se apossam do texto de tal forma que não há chance de o tradutor sobreviver dentro de sua própria co-criação, limando-se qualquer marca de estilo que possa figurar entre as linhas. Dez livros revistos por esse (raro) revisor/preparador serão dele e de ninguém mais, com a cara dele, as intenções dele e o olhar perscrutrador dele saltando a todo o momento, algo imperceptível ao leitor, contudo, quem já sofreu uma revisão/preparação dessas sabe do que estou falando.

E qual seria a medida? Até onde o revisor/preparador deveria ir para não impingir ao texto um apagamento de identidade tal que ele fique igual aos outros tantos que circulam por aí? Acredito eu que as medidas sejam o bom senso e a humildade. O bom senso para dizer: “Está correto, não precisa mexer. Está correto, mas difícil de compreender, vamos ver o que dá pra melhorar sem desmontar e remontar a frase”. E humildade para pensar que: “Este texto não é meu, é do fulano, então precisa ter a cara dele, não a minha”. Os elementos desse processo de publicação de um texto precisariam conversar, se dar bem e se entrosar, situação realmente ideal nos tempos de hoje. Há um corajoso editor, chamado Vitor Takeshi Sugita, numa editora do interior de São Paulo (não lembro o nome, mas volto aqui para dizer) tentando implantar esse sistema, digamos, colaborativo: tradutor, revisores e editor ficam em diálogo constante para tirar dúvidas, discutir soluções e chegar ao melhor texto possível. Com os recursos tecnológicos de hoje fica muito mais tranquilo e eficaz ao menos tentar esse tipo de interação entre os atores do processo editorial. De acordo com Sugita, no início é complicado afinar as vozes dentro desse esquema, mas uma vez em harmonia, o sistema funciona de forma bastante satisfatória.

Talvez seja esse o caminho, a comunicação. O que existe hoje é um processo estanque e todo separado, cada qual no seu canto, pensando sozinho, sem saber quais foram as intenções do anterior quando escreveu isso ou aquilo. Isso causa problemas, às vezes insolucionáveis, pois não raro os tradutores pegam os livros que traduziram já impressos e não reconhecem o que foi feito com o seu texto. Esse é um problema bastante grave, que merece atenção. Muitos dos problemas de edição poderiam ser resolvidos antes de as bombas estourarem se fossem adotadas medidas simples de comunicação e compartilhamento de informação. Basta boa vontade das partes e comprometimento com aquilo que fazem. Mas isso é uma outra história…

Prêmio União Latina – Alegria e Balanço

Em primeiro lugar, quero parabenizar novamente Miriam Bettina Oelsner pelo primeiro lugar na 10ª Edição do Prêmio União Latina para Tradução de Especialidade, pela tradução de LTI - A Linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer (Ed. Contraponto). Os jurados em sua análise comprovaram a boa tradução de Miriam e seu esforço de muitos anos para trazer essa obra fundamental para quem quer entender um pouco mais sobre o fenômeno do nazismo. E, segundo, dizer que provavelmente essa escolha tenha sido feita para mostrar que a tradução de especialidade está além do que conhecemos sobre tradução técnica, mas exige um conhecimento sólido da língua portuguesa que Denise Bottmann, também jurada, clamou para os tradutores (além de providência por parte da CBL e da União Latina para que o prêmio volte a ser anual). Em sua fala na mesa redonda sobre tradução especializada, Denise expôs que na maioria das 80 obras inscritas sentiu uma padronização à qual chamou de “português de tradução”, algo que a seu ver prejudica a legibilidade e empobrece o texto em prol de algo que deixa de ser português e passa a ser um texto estranho, permeado de estruturas estrangeiras que substituem excelentes soluções tão à mão existentes no português. Ivone C. Benedetti, outra jurada do prêmio, deu um apanhado de como foi feita a escolha do primeiro lugar, num processo longo e exaustivo de discussão entre os tradutores (Denise Bottmann, Marcos Seligmann-Silva e a própria Ivone, além de um tradutor de grego para uma obra que entrou nos inscritos). Ivone, corroborando com a colega Denise, ainda trouxe à mesa que essa tendência vem ao encontro das teorias preconizadas por Antoine Berman e Lawrence Venutti, dois teóricos da tradução que veem como qualidade e ideal de uma tradução a estrangeirização do texto e não sua domesticação. Contudo, somos “um país de tradução”, a nossa produção já é estrangeirizante per se e se ainda incluirmos em nossos textos mais estruturas e a “cara” do outro idioma daremos cabo de uma vez por todas pelo que se entende de bom português. Essa hegemonia dos textos traduzidos traz um alerta, pois de acordo com a profa. Ivone, essa estrangeirização às avessas tem sido encontrada em textos feitos diretamente em português, mostrando o grau de contaminação e a força do texto fonte sobre o texto alvo. O tradutor e professor de literatura italiana e tradução literária Maurício Santana Dias apontou outro motivo que poderia causar essa língua estranha: a cadeia de feitura do livro. Em muitos casos, essa padronização não vem do próprio tradutor, mas do preparador (o primeiro leitor da tradução) e dos revisores, editores e todos que trazem o texto até a publicação. A falta de acesso à última prova do livro para que sejam feitos ajustes e para que o tradutor possa ter voz antes da publicação de sua co-autoria é vista como um idealismo, algo que não se permite em virtude da pressão do tempo e do mercado. Adauri Brezolin, tradutor e professor bastante conhecido, deu um apanhado sobre recursos como o Termisul , o Iate e o COMET/CorTec e comentou que muitas vezes o translationism (segundo Mona Baker) pode ser evitado muitas vezes com pesquisas apuradas, trazendo novamente o gosto do português verdadeiro aos nossos textos. O mediador foi o prof. Francis Aubert que, como sempre, amarrou com diversos esclarecimentos os apontamentos dos participantes da mesa, dando nomes aos bois (“essa interlíngua tradutória e um ser chamado standard English que surgiu e continua no planeta terra”) e confirmando que o fenônemo ”tradutês” não se reduz a nós, mas há estudos na Europa que se ocupam com o fenômeno de língua dominante x língua dominada. Comentou que muitos aventam a possibilidade de os estudos de tradução estarem ligados à comunicação ou a outros campos do saber que não Letras e Literatura, inclusive na Suécia eles são ligados à faculdade de Economia, mas que essa ligação com os cursos de letras salvam a Tradução, como disciplina, de se perder de alguma forma. Ao seu ver, mais importante do que a discussão puramente tradutória seria buscar um aprofundamento no estudo das variedades dos “portugueses” falados em diversos países e que uma reforma ortográfica de cunho superficial de pouco vale para reforçar a importância do português no mundo moderno. Após a fala do prof. Francis, o diretor de Terminologia e Indústria da Língua da União Latina, Daniel Prado, fez uma apresentação na qual demonstrou que o português ainda possui um potencial inexplorado de produção de texto e divulgação científica e comentou sobre o portal Portolingua.com. Em seguida, houve a entrega do prêmio pela presidente da CBL, Rosely Boschini, e por Daniel Prado.

Esse foi um breve apanhado do que foi dito e, com certeza, aqui há um manancial para diversas discussões entre os tradutores. Espero que suscite comentários e outras contribuições de vocês. Aos que também participaram, por favor me corrijam se houver alguma bobagem muito grande.

Já deu sua contribuição?

USE EM SEU BLOG/SITE

Até dia 10 de abril (próximo sábado) está aberta a lista de assinaturas em apoio ao manifesto feito em prol da Denise Bottmann, aberta pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone Castilho Benedetti. Já são mais de 2.500 assinaturas em defesa do trabalho árduo dos tradutores de obras espoliadas por editoras caras de pau que ganham às custas de obras esgotadas ou fora de circulação. Denise sofreu alguns processos e  um deles  acaba de ser recusado pela segunda vez pela justiça (veja aqui o caso Martin Claret). Esse trabalho hercúleo de Denise não pode parar por capricho dos piratas literários e por isso sua assinatura é tão importante. Passe lá, dê sua contribuição. NÃO AO PLÁGIO!

Contra a censura, em favor da boa literatura e tradução

Recebi um e-mail da Denise Bottmann com mais uma iniciativa em favor de sua luta contra o plágio descarado de diversas editoras que já foram desmascaradas por ela. O que fazem essas editoras: se apropriam de títulos esgotados e em domínio público traduzidos no passado e inventam ou colocam o nome de outros tradutores a esses textos já traduzidos e ganham dinheiro sobre o suor alheio. E agora, a corajosa Denise recebeu mais um apoio de quatro grandes tradutores: Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivone C. Benedetti e Ivo Barroso entraram na corrente de solidariedade à colega que sofre processo movido por uma editora denunciada por ela, a Landmark (mais detalhes aqui). Eles lançaram um blogue chamado Apoio à Denise e também um abaixo assinado com manifesto dessa solidariedade à tradutora.

Não deixe de ver o blogue e aderir ao abaixo assinado se você diz NÃO À INJUSTIÇA, À CENSURA E AO PLÁGIO!