Começo este post com a indicação da leitura do post da Ivone Benedetti (aqui) que condiz muito com a minha visão de tradução e respeito ao leitor. Vale a pena dar uma olhadinha também no primeiro post dela sobre o assunto (aqui), também muito interessante.
A intenção deste pequeno texto não é trazer luz a qualquer assunto já discutido à exaustão, mas sim causar mais questionamentos sobre polarização cultural e tradução. Essa questão mexeu comigo num serviço que terminei há pouco, que muitas vezes tirou meu sono e meu humor, mas que no fim das contas me trouxe uma visão mais ampliada de diversos assuntos, desde mercado editorial, traduções e tradutores e a relação de amor e ódio com “o” texto. Minha relação com esse texto fica em segundo lugar, pois em primeiro lugar está a polarização cultural que o Brasil sofre (Rio-São Paulo e, no máximo, outras capitais maiores definindo o que é cultura) e como isso tem influência direta na questão tradutória. Pois a questão da estrangeirização e da modulação do texto aos padrões hegemônicos também pode ser aplicada dentro de um país continental como é o Brasil, onde as diferenças culturais são imensas, e o que há de marca do tradutor nesses textos (me refiro aqui em especial aos textos literários ou de caráter menos técnico) acaba desaparecendo quando chega nas mãos dos revisores.
Isso está correto?
Se pensarmos economicamente, sim. O texto precisa ter alcance e, para que o tenha, deve ser utilizado um idioma que esteja num padrão compreensível a todos os falantes. Não sendo este um português carioca, paulistano ou mineiro, mas sim um português brasileiro, compreensível a todos, sem as tintas fortes do regionalismo. Porém, se pensarmos ‘tradutologicamente’, cada tradutor imprime sua marca no texto e, por consequência, deixa o rastro de sua vivência em cada texto que traduz. Retirar essas marcas significa apagar a diferença em prol de uma uniformização, o que muitas vezes resulta num texto mais truncado do que o anterior ou num texto sem personalidade alguma. Na entrega do Prêmio União Latina, Denise Bottmann comentou que esse português pasteurizado, ou “português de tradutor”, retira de cada texto sua cara própria, colocando uma máscara igual em todos. Ela brincou que, se pegássemos um livro de física e um livro de psicanálise e trocássemos os jargões, teríamos quase o mesmo texto. Então, o que fazer?
A cara do tradutor e o leitor
Num curso de graduação de tradução, uma das primeiras coisas que aprendemos e que nos persegue durante os anos de estudos tradutórios é que a definição do público alvo de nossa tradução é fundamental para que possamos adequar o registro (a linguagem), a terminologia e outros aspectos textuais. Parece algo óbvio, mas há tantos casos em que surgem dubiedades quanto ao tratamento a se dar a um texto que é pertinente atentarmos a isso. Também se aprende num curso de tradução (e nos de letras também) que a revisão do texto visa a correção sintática e estilística do texto para que ele se torne algo elegante. Há muita gente especializada nisso e rendemos graças aos revisores/preparadores por existirem. Mas existem aqueles (raros, mas que infelizmente se destacam da multidão) que se apossam do texto de tal forma que não há chance de o tradutor sobreviver dentro de sua própria co-criação, limando-se qualquer marca de estilo que possa figurar entre as linhas. Dez livros revistos por esse (raro) revisor/preparador serão dele e de ninguém mais, com a cara dele, as intenções dele e o olhar perscrutrador dele saltando a todo o momento, algo imperceptível ao leitor, contudo, quem já sofreu uma revisão/preparação dessas sabe do que estou falando.
E qual seria a medida? Até onde o revisor/preparador deveria ir para não impingir ao texto um apagamento de identidade tal que ele fique igual aos outros tantos que circulam por aí? Acredito eu que as medidas sejam o bom senso e a humildade. O bom senso para dizer: “Está correto, não precisa mexer. Está correto, mas difícil de compreender, vamos ver o que dá pra melhorar sem desmontar e remontar a frase”. E humildade para pensar que: “Este texto não é meu, é do fulano, então precisa ter a cara dele, não a minha”. Os elementos desse processo de publicação de um texto precisariam conversar, se dar bem e se entrosar, situação realmente ideal nos tempos de hoje. Há um corajoso editor, chamado Vitor Takeshi Sugita, numa editora do interior de São Paulo (não lembro o nome, mas volto aqui para dizer) tentando implantar esse sistema, digamos, colaborativo: tradutor, revisores e editor ficam em diálogo constante para tirar dúvidas, discutir soluções e chegar ao melhor texto possível. Com os recursos tecnológicos de hoje fica muito mais tranquilo e eficaz ao menos tentar esse tipo de interação entre os atores do processo editorial. De acordo com Sugita, no início é complicado afinar as vozes dentro desse esquema, mas uma vez em harmonia, o sistema funciona de forma bastante satisfatória.
Talvez seja esse o caminho, a comunicação. O que existe hoje é um processo estanque e todo separado, cada qual no seu canto, pensando sozinho, sem saber quais foram as intenções do anterior quando escreveu isso ou aquilo. Isso causa problemas, às vezes insolucionáveis, pois não raro os tradutores pegam os livros que traduziram já impressos e não reconhecem o que foi feito com o seu texto. Esse é um problema bastante grave, que merece atenção. Muitos dos problemas de edição poderiam ser resolvidos antes de as bombas estourarem se fossem adotadas medidas simples de comunicação e compartilhamento de informação. Basta boa vontade das partes e comprometimento com aquilo que fazem. Mas isso é uma outra história…
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