iPad e o arrependimento

Assim que comprei o iPad, há pouco mais de um mês, a primeira coisa que me veio à mente foi:

— Vou me arrepender…

Aos poucos percebi que era bacaninha tê-lo, podia fazer muitas coisas nele… por exemplo não me entediar mais enquanto esperava alguém num café, ver e-mails aqui e ali, ler um livro mais pesado que ele sem o incômodo de levar um trambolho na bolsa e por aí vai. Tudo que talvez eu pudesse fazer num celular. E talvez por isso doesse tanto na consciência ter comprado o que muitos chamaram de iPhonão ou iPodão.

Até que um dia eu estava no segundo dia de um curso de tradução no qual o professor havia distribuído uns textos traduzidos para que pudéssemos compará-los aos originais, verificar as influências etc. Muito bem, cheguei no segundo dia com meu brinquedo novo, todo orgulhoso, quando ouvi:

— Hoje vamos trabalhar naqueles textos que dei para vocês na semana passada…

Gelei. Vendo todos tirando seus textos das bolsas e mochilas, do meio dos cadernos. Fui para minha bolsa e, claro, a papelada havia ficado dentro do caderno que eu havia esquecido numa outra mochila. Ótimo, ficaria olhando para o teto durante toda a aula… até que o professor disse:

— Como vocês sabem, retirei esses textos do site…

Ouvi cornetinhas angelicais ao olhar para a tela do iPad. Mais que depressa abri o navegador e voilá, lá estavam todos os textos que analisaríamos nas aulas seguintes. E a aula seguiu sem percalços e eu, agradecido ao equipamento e ao professor, fui para casa pensando: nada de arrependimentos…

E-books: primeiras impressões

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Há uns tempos venho mostrando uma flexibilidade quanto ao assunto livro eletrônico, mais por considerá-lo uma tendência irreversível do que por gostar da ideia de ler numa tela. Já ficou até chato comentar com ar nostálgico que sentir o cheiro do papel e a textura das páginas ainda constitui um ótimo motivo para se rebelar contra a novidade. Hoje já pode ser comparado a falar que temos saudades dos chiados dos LPs ou do barulhinho do telefone de disco.
Resolvi por inúmeros motivos me render aos ebooks, experimentá-los antes de fazer juízo apressado. Os últimos posts que fiz sobre o assunto já mostravam que logo mais eu o faria (até porque, uma das minhas facetas menos exploradas aqui no blogue é minha tara por tecnologia). Então, na onda das recentes mudanças, depois de muito ponderar, acabei adquirindo um iPad. Menos e-reader que seus rivais Nook, Kindle, SonyReader e outros, o iPad foi minha opção exatamente por isso, pois primeiro não queria gastar uma grana para ter o que eu já tenho nos livros em papel, mas desejava algo que me trouxesse também diversão e produtividade. E acredito ter feito a escolha certa.
Nem bem cheguei em casa e comecei a baixar aplicativos. Não, Angry Birds não foi minha primeira aquisição, mas foram os aplicativos iBook (da Apple), KindleApp, B&N eReader e Saraiva Digital Store. Confesso, porém, que demorei um pouco para usá-los de verdade, ainda envolvido pela novidade. E está aí exatamente um contra do iPad como leitor eletrônico: ele vai além disso e sua oferta de distrativos é tanta que a leitura, para a maioria de seus usuários, tem ficado em último plano (se é que existe).
Mas quando fui fazer a primeira experiência real de leitura, escolhi parâmetros para testar a eficácia da maquineta: escolhi um assunto que gosto muito, a literatura, porém em alemão, língua que eu obviamente leio bem, porém numa velocidade menor que em inglês e, claro, que na minha língua materna, o português. O livro se chama “Erst lesen, dann schreiben” (Primeiro leia, depois escreva), organizado por Olaf Kutzmutz, que traz 22 autores alemães contando suas experiências literárias, mas não como escritores, e sim como leitores. Ainda comentarei sobre ele aqui.
Eis a minha grata surpresa: ler na telinha é uma delícia. Entre as facilidades da leitura eletrônica estão as anotações e as marcações que se fazem num clique. Consultas a dicionários também facilitam a vida no caso de textos mais intrincados e/ou antigos. A compra de livros é muito fácil e rápida, o que também representa perigo a viciados como eu.
Bem, essas são as primeiras impressões para mim de um futuro que se consolida. As vendas de ebooks no mundo vêm crescendo espantosamente, a pirataria já surge como uma grande preocupação para as editoras e elas terão que ser rápidas para encontrar soluções. Perdas e ganhos são inevitáveis no mundo digital, mas acredito que elas se sairão melhor que as gravadoras nesse sentido.
Logo terei mais impressões sobre a leitura e a relação com os leitores eletrônicos.
Ah… e este post foi feito no iPad, no aplicativo do WordPress. Talvez isso faça também com que eu volte a ativa no blogue. Torçamos…

Censura tecnológica

Bronze statue of James Joyce, Pula, Croatia
Imagem via Wikipedia

Quem diria que, em tempos de liberdades e avanços tecnológicos, James Joyce e Oscar Wilde ainda dariam trabalho. Ao menos para os puritanos eles causaram frisson nas últimas semanas com a política do Non-Niple (algo como “sem pagar peitinho”) no conteúdo para iPhone e iPad, fazendo a Apple retirar imagens de nudez de Leopold Bloom em Ulysses, de Joyce, e de dois homens seminus se beijando em A importância de ser Honesto, de Wilde. Como entender essa sociedade que libera popozudas rebolantes e gangsta rappers violentíssimos e proíbe a reprodução em quadrinhos ou imagens dos clássicos?

Em 1930, o mesmo Ulysses foi julgado por ser considerado obsceno e o juiz deu ganho de causa ao Joyce por não ver nada de abusivo em sua obra. Já Oscar Wilde penou bastante por sua postura vista como indecente pela sociedade vitoriana, levando-o à cadeia e quase ao ostracismo. Décadas depois, ambos enfrentam os olhos cruéis da censura. O romance de Joyce foi transformado em quadrinhos por Robert Berry, que o considera um “complemento” ao romance e não uma substituição: “Tentei ler cinco vezes antes de finalmente conseguir. Teria sido bom ter uma ajuda”. Então percebeu que pela Internet as coisas ficariam mais fáceis, criando “Ulysses Seen“, ou seja, a obra com F1: todas as partes em outros idiomas estão traduzidas, é só colocar o mouse sobre o trecho e voilá, um ponto a mais para compreender as impossibilidades do senhor Joyce.

O que poderia ser uma ótima iniciativa para evitar a pornografia por parte da Apple, pode abrir brecha para a censura. A alegação da empresa é que, por ser multicultural e vendido em todo o mundo, seu conteúdo pode ser adequado em um lugar e inadequado em outros se não houver controle. Porém, quem precisa ter controle prévio sobre isso é a própria empresa. Muito do conteúdo do iTunes não está disponível para o Brasil, por exemplo, mas não por motivos culturais, mas econômicos ou técnicos. Se conseguem bloquear conteúdo por grana ou por outro motivo, que deem um jeito de fazer a triagem para países com regras mais estritas. O site da revista alemã “Stern” também sofreu censura de seu conteúdo e o aplicativo para ler a revista nos dispositivos da Apple ficou por duas semanas bloqueado por trazer fotos consideradas eróticas. O porta-voz da revista diz que quando se tratar de entretenimento haverá uma limitação, mas quando houver relação com notícias nada será censurado. Será?

Ao menos os protestos contra a censura das obras literárias funcionou: a Apple liberou ambos os livros sem cortes para serem baixados, conforme planejado anteriormente. De acordo com o site do jornal Frankfurter Allgemein, Robert Barry comemorou por twitter: “Vejo um pênis no meu iPad!”.

Fontes: FAZ.net e info.online

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