Xampu no olho

Olhos fechados
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Meio do banho. Esfrega a cabeça com vigor contra as estranhas caspas que apareceram com o uso do xampu anticaspa, tenta se livrar delas com o raspar demente de unhas curtas, um banho quente e confortante depois de dia(s) de cargas jumentas. Os olhos espremidos que evitam o contato do produto com o olho, mas de nada adianta, aquela abridinha faz com que a espuma escorra pela fronte e alague as bolsas e as pálpebras, pingando no cantinho do globo ocular. Um ardor tremendo e a busca pela toalha pendurada na porta do box, a toalha já morna pelo vapor do banho, ai, esfrega os olhos e não se sabe se a situação está pior ou melhor. Então vem a ideia. Saber por que cargas d’água ela chega assim sorrateira, como se fosse a espuma daquele xampu maldito. Entra pelo ouvido, pela boca e pelos olhos, logo ele se vê murmurando um nome. Esse nome toma rapidamente um corpo enquanto ele acaba de se enxaguar, um corpo de menina, de adolescente confusa. E a tragédia e uma mágoa e algo que a estranha moça não consegue explicar, nem expandir, apenas guarda, incute, introjeta. Ela já não é mais ideia, é alguém de carne e osso, ao menos nas bossas e fossas da massa cinzenta invadida. E o chuveiro é fechado, respingando poucas gotas como num suspiro.

Ao puxar a toalha com aquele barulho ascendente do tecido raspando no metal, mais ideias surgem e a criatura se materializa, abre os olhos e quase fala. Ele se enxuga devagar, sorvendo pedaços daquele turbilhão que pede para ser escrito. A criatura precisa de um mundo, de um dia, um cotidiano e uma dor. Quase triste a menina, quase fúnebres suas falas, ela choraminga num canto da cabeça pedindo que seu destino não seja aquele, mas agora já é tarde. Seu destino já foi cravado na memória, sua história nasceu com ela, essa brincadeira sacana de deus levada às últimas consequências. Ela não tem escolha, a moça magra e desengonça, mas tem um nome: Almina. Ela estará em uma, duas, dez folhas de papel carta ou A4 em corpo 12, talvez Times, talvez Arial. Entre as linhas ela pedirá perdão e exigirá que sua adolescência não seja perturbada por incidentes fora de seu controle. Coitada, não terá essa chance. A ruptura é inevitável e a esperança que nutre impossível. Ele veste uma roupa confortáve, já está pronto para dormir, e aquela história atormenta seus minutos antes do sono. Pede para ser liberta, ao mesmo tempo que tem medo de ser escrita.

Ele se senta na frente da tela branca e pela primeira vez a história vem sem percalços. Almina toma vida, medrosa ainda, mas aos poucos mostra-se tão viva que assusta. Olha suas mãos, sua calça comprida de colégio, sua bolsa rosa e seus braços compridos e ossudos. Anda do colégio até sua casa, vê o jardim mal-cuidado e o portão verde de ferro, abre e entra em casa. Onde sua vida vai mudar de uma vez por todas.

Espero de novo a visita de Almina. Num sonho, num banho, num banco de ponto de ônibus. Espero que ela não me abandone, que me traga mais histórias que não desgrudem da minha cabeça. E que eu possa escrevê-las e fazer jus à visita da menina-história, que ela me seduza e me ensine como dar vida às palavras. Não é mais uma mania, nem um passatempo. É uma delicada necessidade.

A primeira vez é assustadora…

(Sim, isso aconteceu. E essa história nasceu. E talvez dela nasçam outras. Talvez eu as publique aqui… um dia.)
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O mapa da escrita

karte_berlin_stadtschlossA Revista da Cultura deste mês traz uma matéria que dá o que pensar para quem escreve ou quem tem vontade. Uma pergunta que cresce como os cursos e oficinas de escrita que pululam por aí: é possível ensinar a escrever? Há um mapa ou uma fórmula da escrita?

Sou egresso de um curso de escrita. Trabalho há bastante tempo com as palavras, então ao menos nessa parte eu tinha certa segurança. Até chegar lá e ver que não era apenas isso. Nem qualquer outra coisa que eu tivesse em mente. Lá conheci gente boa e não tão boa, ao meu ver. Gente que realmente tem gosto pela palavra e pelo trato com o verbo e gente que apenas quer descarregar medos, culpas e afins no papel em branco. Não sei onde me encaixo nisso, mas ainda insisto na escrita pois ela me dá um prazer imenso.

Na matéria da revista há entrevistas com diversos instrutores e professores de oficina, como Luiz Antonio de Assis Brasil, João Silvério Trevisan e Raimundo Carreiro na velha guarda de oficinas e cursos de literatura. Entre a nova geração está o mestre e amigo Nelson de Oliveira e o agitador cultural agitadíssimo Marcelino Freire, ambos atuando em São Paulo (e Marcelino correndo pra lá e para cá pelo Brasil). Esse tipo de oficinas é uma novidade quase recente no Brasil, mas lá foram os cursos se espalham como grama, muitos com o mesmo formato, outro como uma espécie de brainstorming (ou “toró de parpite”) entre escritores.

No fim das contas, há ao menos uma provável resposta para uma das perguntas do início do post: não há mapa ou fórmula se você deseja fazer literatura. O fazer literário, acredito eu, é uma junção de diversos fatores, controláveis e incontroláveis, que acabam desaguando numa obra. De qualquer forma, aprendi que literatura é trabalho, é suor, é um debruçar-se sobre o texto com vontade. Desenvolver técnicas, se deixar levar pela inspiração, montar esquemas de trabalho e treinar exercícios de respiração para manter a calma quando aquela bendita palavrinha-filha-da-puta não chega. E, acima de tudo, escrever, e muito. E ler mais ainda para se alimentar e ter forças para encarar o teclado quieto ou a caneta em delicioso repouso. E “ouvir a rua”, como manda Marcelino na entrevista. E aquela música. E ver a pintura e se incomodar a ponto de ver o texto se formar na cabeça, como deve acontecer com Sérgio Sant’anna (como comentou no último Sempre um Papo, com Afonso Borges, no Sesc Vila Mariana). Ou nada disso que escrevi , o que também é uma possibilidade.

O mapa não vem pronto. A gente precisa escrever…

De volta à volta

Voltei. Depois de alguns dias escrevendo ou recuperando antigos escritos para publicar aqui, voltei. E por um motivo muito simples: eu precisava. Como quem precisa comer, beber, ir ao banheiro e vestir, amar e ler, se divertir e sofrer, eu preciso escrever. Não é mais uma opção, deixou de sê-lo há muito e por muitas vezes pensei que a fonte havia secado de vez.

Ledo engano.

Ontem fui ao lançamento de Poeira: demônios e maldições, do amigo e mestre Nelson de Oliveira, alguém que admiro não apenas pela postura literária, mas pela pessoa afável que faz dele alguém que se quer sempre por perto. Não apenas por isso ele se tornou para muitos escritores uma referências, mas por sua produção insana, de muitos e bons livros, do qual este último eu não espero menos que a confirmação da minha admiração por ele.

Típico daquele que se recusa a fazer parte dos “Escritores do Não”, retratados de forma incrível no inclassificável livro do Enrique Vila-Matas, “Bartleby e companhia” (Cosac Naify).

Então também comecei a colocar a mão na massa. Isso não significa que eu não possa sumir novamente, mas que não quero deixar de escrever. E agora tenho algumas pessoas que me cobram textos e isso é mais que inspiração. São como aquelas pessoas que, com muito carinho, mandam você ir jantar, colocar uma blusa e não ficar na friagem. São pessoas que conheci há pouco no mundo virtual e que já fazem a diferença.

Por isso, bora escrever, criar, pensar e repensar. Pois no fim das contas, vale muito a pena…