Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.
A voz
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