O saber e o querer saber

A perspicaz Karla Lima, amiga de letras, cafés e teutonices, me mandou uma croniquinha que o Rubem Alves publicou na Folha de S. Paulo (link para assinantes Folha.com ou UOL) sobre tradução e traição. Não gosto desse trocadilho já passado, mas tive que aceitá-lo, pois Rubem comentou alguns fatos interessantes numa tradução publicada. A frase de destaque da crônica é de certa forma exemplar (apesar de exagerada e de precisar de uma certa humanização):

O tradutor tem de ser um dicionário que contenha as palavras conhecidas e as palavras não conhecidas.

Um pouco nos coloca na condição de objetos, máquinas de saber, quando na verdade somos mais máquinas de interpretar, ou melhor, organismos interpretativos e questionadores. Condição sine qua non para se exercer a profissão é esse questionamento ou, como diria a tradutora Ana Iaria, a pulga amestrada atrás da orelha, sempre bem alimentada. Os exemplos que ele dá são no mínimo engraçados, fruto de algo muito simples: falta de um simples querer, desejar saber, ultrapassar os limites do texto em busca de uma compreensão maior do que se tem nas mãos. Esse talvez seja um assunto batido, mas na falta de profissionalismo e de mudanças na visão do próprio tradutor de seu trabalho, vamos batendo na mesma tecla até quem sabe acontecer algo maior.

A questão não é metralhar o tradutor, mas já disse e repito aqui minha opinião: falta de tempo ou de orçamento não pode ser desculpa para um serviço meia-boca. Contratar “profissional” despreparado por ser mais barato é, no mínimo, irresponsabilidade de quem quer que seja. Falta de respeito imensa com quem confia no produto final da empresa. E isso serve para qualquer coisa, não apenas para tradução: usar material mais em conta, não treinar, não estudar, não querer ser melhor. E como começar? Há muitas maneiras, entre elas de baixo, o que é bastante difícil, mas dá frutos. Todo mundo quer começar por cima e o tombo, aí, é mais alto.

O que mais me conforta é saber que as pessoas já estão atentas à questão da má tradução, ao menos no que tange à tradução literária. Fui procurar o tal tradutor d’O país das sobras longas (Ed. Record), livro que Rubem Alves comenta, e uma pessoa no site da Livraria Cultura comenta sobre a tradução que prejudica a leitura. Ao menos uma pessoa, um vagalume no breu do “deixa pra lá, isso nunca vai mudar”. Por isso, enquanto houver voz, é preciso botar pra circular esse tipo de situação, dar a mão à palmatória e tentar melhorar. Infelizmente, para chegar aos nossos ouvidos (ou aos nossos olhos), é necessário que alguém da grande imprensa divulgue – não há tempo para tantos livros -, que as pessoas reivindiquem o direito a uma boa tradução, como a um bom serviço, uma boa comida e um bom atendimento, seja lá qual e onde for. Com a cobrança vem a melhoria e com ela também um melhor retorno para todos, assim espero.

Palavras não conhecem limites

Surpreendente como o amor às palavras nos torna seres únicos e iguais. Somos únicos no jeito de nos expressarmos, mas não deixamos de ser iguais em momento algum. E quando vemos parecido ou vivemos parecido, isso geralmente está calcado na linguagem, no idioma que falamos. E Sergio Corrêa da Costa (1919-2005) foi um homem que se empenhou em mostrar como as palavras não conhecem limites. Palavras sem fronteiras (Record), livro do diplomata, historiador e membro da Academia Brasileira de Letras, primeiro lançado em francês e depois traduzido pelo próprio Sergio, nos mostra como diversas palavras até mesmo cotidianas podem perpassar as tramas que nós, tradutores, tanto nos esfalfamos para reconstituir. Diferente do que possa parecer, o livro não se presta ao eruditismo, mas apresenta-se como um trabalho árduo de pesquisa, inclusive com limitações impostas pelo próprio autor para que se pudesse lidar com tantos dados. Num trabalho de coleta estimado em 24 meses, Sergio verificou em diversos periódicos e documentos palavras de diversos idiomas que eram emprestadas a outros, na falta delas no léxico próprio ou pelo seu caráter mais abrangente. Além das 3 mil palavras e expressões em 16 mil exemplos de uso, há uma introdução para cada idioma ou grupo de idiomas afins que torna a leitura bastante agradável e instrutiva. Não apenas aos tradutores, recomendo a obra para todos aqueles que se interessam pela palavra, pois é uma obra de referência, consulta e também de entretenimento. Não deixem de conferir.

Eco, Carrière e o futuro dos livros

Algumas vezes aqui no blogue comentei sobre o futuro dos livros, e-books e afins, numa tentativa de afirmar minha visão sobre a mudança vaticinada por muitos de que as edições em papel têm seus dias contados e darão lugar em breve a bits e bytes em telas de Kindles e iPads. Tenho minhas dúvidas sobre essa mudança e, mesmo que haja, o suporte não muda (ou não deveria mudar) o que o livro traz para cada um. Já escrevi sobre esse assunto aqui, aqui e menos aqui. Para minha felicidade e por indicação preciosa da querida Karla Lima, megulhei em _não contem com o fim do livro, do semiólogo e escritor Umberto Eco e do escritor, dramaturgo e roteirista Jean-Claude Carrière (Ed. Record, Trad. André Telles, link aqui), um bate-papo delicioso mediado pelo jornalista Jean-Philippe de Tonnac. Percorrendo milhares de anos da história do livro, os dois bibliófilos, colecionadores de livros antigos e raros (os incunábulos) nadam contra a maré digital e batem no peito quando dizem: o livro não vai acabar. Trazem inúmeros motivos para que o objeto livro continue a ser cultivado como tem sido até hoje e, diferente dos vinis e de outros objetos que voltam na onda vintage, o livro, como a roda, desempenha seu papel com perfeição há tempos e prova que não é substituível. Apesar de sua classificação de Ensaio/Teoria Literária, esse livro é recomendável a todos aqueles que amam o livro e a leitura e acreditam, como os autores, que essa paixão não é vã nesses tempos de fibras ópticas, conexões rápidas e telas eletrônicas. O sério Jean-Philippe Tonnac conduz bem a entrevista e os entrevistados, num descontraído bate-papo, mostram que não foram chamados para essa troca de ideias por acaso. Livro para ter e consultar, para anotar e rabiscar, deixar as marcas da leitura, pois é disso que trata: do livro como objeto pessoal e afetivo.

Entre os comentados no livro, fiquei bastante feliz em encontrar algumas vezes mencionado o nome de José Mindlin, brasileiro que nos últimos tempos representou essa paixão pelos livros com bastante força. Vale a pena.