O pânico sobre os e-books

Sem motivo para pânico

Um novo estudo sobre e-books também ecoa na imprensa. Em virtude da pequena parcela de mercado dos livros eletrônicos, a mídia se espanta com os resultados da Börsenverein, a Associação Alemã de Editoras e Livrarias (“Vivemos em 2011 a hora zero dos e-books”).

O jornal “Frankfurter Rundschau” não reconhece nos números apresentados sobre o mercado de e-books na  segunda-feira passada (15 de março de 2011) comprovação alguma para um boom iminente dos livros eletrônicos. “De onde vem o otimismo da associação? Por um lado, das editoras e livreiros varejistas que esperam para os próximos anos triplicar o faturamento com e-books – de qualquer jeito. Por outro lado, de Hans Huck, porta-voz do Grupo de Trabalho para Publicações Eletrônicas da Associação, que espera para o quarto trimestre de 2011 um grande aumento de vendas na área de tablets, ou seja, iPad e companhia. Conclusão do jornal: o medo dos livreiros não teria fundamento, pois “de fato nada vai acontecer”.

Este é um trecho da notícia do site Buchreport, um site alemão sobre o mercado editorial, ao estilo do nosso PublishNews. E o estudo comentado corrobora os diversos comentários e prognósticos sobre o mercado livreiro, apesar de as bruxas estarem soltas no mercado livreiro norte-americano, por exemplo, com a quebra de algumas grandes e antigas livrarias. O fim do livro de papel pode ser inevitável, ao menos da forma que conhecemos, mas não é iminente, não deve assolar a humanidade agora e muito menos extinguir o objeto-livro. Esses dias dei uma passeada pelas seções de e-readers de algumas lojas e tive mais certeza do que nunca de que os livros eletrônicos ainda estão longe de conquistar uma massa de leitores no Brasil por um simples motivo: o preço. Do iPad, que custa entre 1.300 e 2 mil e poucos reais, ainda é um brinquedão com muitas funcionalidades, muito diferente do que se pode imaginar de um leitor de livros. Todos os distrativos de um computador estão lá: os jogos, as redes sociais e afins. Vi também outros leitores, como o iRiver Story, por 969 reais, o Cybook Opus, de 899 reais, o brasileiro Alfa da Positivo, por 700 reais,  e o mais em conta, o leitor eletrônico ER-7001, da Elgin, que pode ser encontrado até por 600 (apesar de sua tela colorida e capacidade para exibição de filmes e reprodução de músicas). Vejam esses preços. Isso explica por que o e-book não vai decolar tão cedo, pois, para gastar entre 700 e 1.000 reais num “negócio” que só dá para ler, os consumidores talvez prefiram colocar um pouco mais (ou fazer mais parcelas) e adquirir o tão desejado iPad (mesmo com a promessa de uma versão melhor do dispositivo da Apple no fim do ano). E a possibilidade do Angry Birds ganhar do Dostoiévski é muito real.

Por isso, ainda acredito que os fabricantes de leitores de livros precisarão reduzir seus preços e muito para conquistar a parcela leitora dos consumidores, aqueles que investiriam uma grana para ter um dispositivo exclusivamente para leitura. Pois quem lê não está muito interessado em ter praticamente o mesmo numa tela por um preço que seja equivalente à compra de uns 20 ou 30 livros. E os preços dos e-books ainda estão altos, o que leva as pessoas que realmente leem pensarem duas vezes antes de adquirir um leitor eletrônico.

De fato, o futuro é dos e-books, sobre isso não resta dúvida. Mas ainda há tempo para os livreiros se adaptarem à nova realidade.

Vale a pena ter um e-reader?

Os e-books são um fenômeno, como temos visto nos jornais, e o setor livreiro vê com um misto de receio e entusiasmo esse boom nas compras dos livros. A comparação com a derrocada da indústria fonográfica é inevitável, porém precisa ser analisada de forma racional, ou seja, o que será do e-book em longo prazo.

Pensemos numa viagem de ônibus de oito horas de São Paulo a Belo Horizonte, sem maiores dificuldades e trânsito. De dia, por exemplo, saída da rodoviária do Tietê às 10h00 e chegada em BH às 18h00. São 480 minutos de viagem, contando as paradas de vinte minutos a meia hora cada. Se eu tiver um tocador de MP3, para ouvir 8 horas ininterruptas de música, levando em conta que cada canção em média tem 3,5 minutos, precisaríamos de 137,2 músicas no meu aparelhinho.

Suponhamos que eu resolva ler oito horas ininterruptas. Dificilmente conseguirei ler nas paradas, então retiremos 50 minutos do meu total, então seriam 7 horas e 10 minutos, ou 430 minutos de leitura. Suponha que você leia 1 página a cada 8 minutos de um livro relativamente simples, digamos, de 120 páginas. Você lerá em 8 horas 57,7 páginas, menos da metade desse livro. Mesmo se você tiver o costumo de ler a uma velocidade maior que essa, irá ler um livro em toda a viagem.

Então, para quê preciso levar minha biblioteca comigo onde eu estiver, 100, 200 ou mais livros? Simplesmente para dizer que tenho tantos livros? Ou seja, o consumismo inicial impulsionado pela propaganda ou pela facilidade de compra (na propaganda do Kindle, em 60 segundos você tem seu novo livro na maquininha) pode fazer com que as pessoas assumam os e-readers como as máquinas do futuro, causando um furor nesse início. Mas será que isso vai durar?

A única opinião que tinha era que não abandonaria tão cedo os livros de papel pelos livros eletrônicos, tanto pela minha paixão por eles como pela minha birra inicial com essa tecnologice (apesar de eu amar tecnologia e fazer uso dela sempre).  Essa opinião mudou quando li e tomei conhecimento de alguns recursos dos e-readers e agora tenho para mim que eles são bons e serão cada vez melhores para um tipo específico de leitura: a técnico acadêmica. Digamos que você tenha um trabalho de fim de curso, uma pesquisa ou outro trabalho que exija um volume grande de leitura, anotações, observações e consultas não apenas nos livros, mas também na internet, em jornais e revistas. Num e-reader estará tudo no mesmo lugar, concentrado e, além disso, você poderá pesquisar o que quiser num piscar de olhos e não mais fazer um fichamento imenso para encontrar um trecho, uma informação específica. Não que seja ruim ler o livro todo, aliás é necessário, mas no momento da pesquisa é interessante você encontrar uma informação em páginas que já passaram, que virão, compará-las e nelas anotar, grifar etc. Aí o e-reader é útil e prático e mostra seu valor.

E quem disse que eu só olho o lado ruim das coisas?

Imagem: Collective London

Mais sobre e-readers

Umberto Eco - italian philosopher and novelist

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Fiz um texto sobre e-readers que ainda vou postar aqui sobre como eles podem ser (in)úteis, porém o texto ficou no meu caderninho de anotações e este, por sua vez, foi esquecido na casa da minha avó. Em breve vou buscá-lo e trago novas considerações amalucadas sobre os leitores eletrônicos e o quanto eles podem nos trazer de alegria ou decepção. Enquanto isso, fiquem com um trecho do livro Sobre a Literatura  - Ensaios, de Umberto Eco (Ed. Record, trad. Eliana Aguiar) que sempre me surpreende com suas divertidas elocubrações sobre o tema:

É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel. Mas houve um tempo em que se incorporavam na voz de quem recordava uma tradição oral ou mesmo em pedra, e hoje discutimos o futuro dos e-books., que permitiriam ler seja uma coletânea de piadas, seja a Divina Comédia em uma tela de cristal líquido. Aviso logo que não pretendo me deter esta noite na vexata questio do livro eletrônico. Pertenço, naturalmente, àqueles que, um romance ou um poema, preferem lê-lo em um volume de papel, do qual haverei de recordar até mesmo as orelhas e o peso. Dizem, porém, que existe uma geração digital de hackers que, nunca tendo lido um livro na vida, com o e-book conheceram e provaram agora, pela primeira vez, o Dom Quixote. Quanto proveito para suas mentes e quanta perda para sua vista. Se as gerações futuras chegarem a ter uma boa relação (psicológica ou física) com o e-book, o poder do Dom Quixote não mudará.

Eu já disse que virei fã desse moço?

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De novo, os e-books

Catalog of the books which are forbidden in th...

Image via Wikipedia

Acho que sempre voltarei às considerações sobre o livro eletrônico, pois envolvem duas das minhas paixões: livros e gadgets. Hoje, conversando com o Tiago sobre isso, ele comentou que o e-book poderá desestabilizar a indústria livreira, como a música digital fez com a fonográfica. Concordei em parte, discordei em parte e ainda aventei uma grande utilidade dos livros digitais. Cada coisa em seu lugar:

Concordei, pois o fenômeno tem se mostrado mais abrangente do que o esperado. Milhares de e-readers já foram vendidos desde a popularização do Kindle, da Amazon, e o iPad fez com que disparasse a vontade das pessoas de conhecer o negocinho. Bom para a indústria de eletrônicos e bom para as livrarias que já lançam livros digitais e montam e-stores para as obras recém-lançadas e convertem os antigos livros físicos em versões digitais. Não muda o processo de feitura do livro, ou seja, o processo editorial continua o mesmo, só não haverá mais o custo com a impressão, o gasto de papel. Isso é uma vantagem ecológica do e-book (se não pensarmos, óbvio, no lixo eletrônico) e pode ser um atrativo para ainda mais vendas dos bichinhos.

Discordei, por outro lado, exatamente por ser um fenômeno. Em geral, fenômenos tecnológicos vêm e vão com uma rajada de vento. E o livro é algo como a colher, a roda: reinventá-los com êxito é algo bastante complicado. Não estou sendo purista, em breve terei meu leitor de livros digitais, mas não acredito no fim do livro para amanhã. Talvez em algumas décadas, se o oba-oba inicial for superado e os editores apostarem muitas (ou todas) as fichas em tecnologia, marketing e convencimento, o e-book dê certo. Antes disso, antes de termos segurança suficiente para levarmos nosso e-reader para onde quisermos e não precisarmos restringir seu uso a locais sem risco de roubo e afins, o livro ainda será um grande aliado. Ou já souberam de algum assalto à mão armada de livro em ônibus, ou na rua?

Utilidade? Espaço. Moro num apartamento de espaço limitado e estou quase tropeçando nas pilhas de livros e tenho um grave defeito: não me desfaço dos meus livros. Ainda terei a coragem de separar aquilo que já li, aquilo que não lerei mesmo e outros (não me perguntem, nem eu sei o que seriam “outros”) e doar. Enquanto isso, um leitor digital seria uma boa, ter o que eu quiser ler em estantes de bytes e megabytes que terão, no máximo, o tamanho de um livro apenas. Dispensaria estantes, cubos, prateleiras que ocupam um espaço danado. Apartamentos menores, cada vez menores, talvez peçam uma solução dessa para armazenar partes de nossa vida.

Enquanto esse futuro deveras tenebroso não chega de vez, vou dar um pulo na livraria…

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E-bookfobia

Você está preparado para a mais avançada tecnologia para leitura? Veja esse vídeo bem divertido, em espanhol.

 

Há pouco tempo houve uma grande desconfiança sobre o futuro dos blogues. Houve até o anúncio da morte dessa ferramenta (e talvez essa morte ou seu cerceamento esteja prestes a acontecer em virtude do Marco Civil, mas essa é uma outra história) por conta das redes sociais e do sucesso instantâneo dos microblogues (sendo o Twitter seu principal, senão único, representante famoso). Esses vaticínios relâmpago muitas vezes são esperanças, outras vezes blefes, mas todos voltam nossos olhos para as novidades do passado. Como o antes milionário mercado fonográfico andou mal das pernas por conta dos avanços tecnológicos, quando da explosão dos blogues houve um rebuliço, pois significava a retirada do poder absoluto de expressão por grandes empresas ou formadores de opinião. Qualquer um com acesso a Internet hoje pode colocar na tela seu ponto de vista democraticamente, com alguma intervenção ditatorial em determinados casos, mas na maioria das vezes o mundo sem fronteiras da Internet aceita tudo.

Talvez esteja acontecendo o mesmo com a questão dos livros eletrônicos, os famigerados e-books, que têm sido indicados como o apocalipse do mercado editorial. Com o lançamento dos leitores de e-books como o Kindle, da Amazon, o Sony Reader e seguidos meio de longe pelo iPad da Apple e por outros tablets, esse sentimento foi reforçado pela mídia e sua avalanche de achismos sobre o destino dos livros físicos. Já comentei sobre esse tópico aqui, e volto a dizer: muda o suporte, não o conteúdo. Há suposições de que as possibilidades de interatividade diminuiriam o poder de fantasia e imaginação das pessoas, outras de que a “tecnologização” de um sistema de aquisição de conhecimento centenário seria a ruína do saber. Ao meu ver, e apesar de ser um apoiador do livro de papel, não temo o sumiço do livro, mas vejo uma nova forma de lidar com os conteúdos. Já fazemos isso com jornais há muitos anos e eles continuam aí, impressos e em circulação. As informações que consumimos hoje vêm muito mais da tela que do papel e isso tende a crescer com a democratização do uso da Internet, as “lan houses” públicas e o maior acesso das pessoas ao computador pessoal. Em quinze ou vinte anos, esse é um chute meu, com gerações já acostumadas ou nascidas sob os domínios WWW, os livros de papel serão menos usuais, menos consumidos, como hoje ocorre com os jornais. Mas isso não causará sua morte.

O mais importante: o conteúdo e o meio de produção não muda, exceto pela impressão. Quem já viu um livro eletrônico sabe que ele é idêntico ao livro de papel, porém serve para exibição num e-reader, que tem lá suas vantagens: você pode buscar palavras no meio do texto, fazer marcações e anotações, acompanhar seu progresso, fazer pesquisas na Internet durante a leitura e outras novidades. Mas o que você lerá daqui para frente, no papel ou na tela, continuará dependendo apenas da sua vontade.