Penso, logo desabafo

Acabei de escrever um desabafo caudaloso e salvei como rascunho. Talvez um dia eu possa publicá-lo em alto e bom som, talvez todo em caixa alta, caps lock na veia, desopilando o fígado. Às vezes me pego assim, ranzinza, e o estopim logo surge para que eu estoure. Engulo seco, os olhos enchem d’água, enrubesço, fico inquieto e explodo, meus cacos se espalham por todos os cantos, então me ponho no trabalho inglório de recolher pedaços tristonhos e me refazer. Fico melhor assim, mesmo que as cicatrizes doam um pouquinho.

E, por incrível que pareça, meu lado profissional que causou o último desabafo. Ao menos minha vida pessoal vai de vento em popa.

Daí lembro das férias. Das viagens. Da espera pelo fim de semana e fico mais tranquilo. Sei que chegarão e nada do que aconteça vai abalar minha trilha. Já está traçada, já trabalho para chegar aonde quero e dificilmente desisto. Não posso desistir, agora que estou no meio do caminho.

Enquanto isso, o desabafo está lá, relegado à qualidade de rascunho, rabiscos descontrolados na tela saídos de dedos em fúria, mente em colapso, tudo ao mesmo tempo agora. Deixe ele lá, fermentando. Quando estiver no ponto, ponho à prova e seja o que os deuses quiserem.

Já basta a vida

puppy dog eyes

“De complicada, já basta a vida. Quero livros para me divertir.”

Quando ouvi essas palavras olhei para o lado. Havia um grupo de quatro mulheres e uma menina de boné. No meio da seção de literatura estrangeira, bem de frente ao senhor Kafka, essas palavras rasgaram o ar numa agudeza peculiar, palavras sobre salto, unhas compridas, cabelo tingido e maquiagem carregada. Apenas uma delas tinha um estilo bem diferente: cabelo tigela, alta e corpulenta, olhos tristes e sorriso desconcertado. Quando meus olhos bateram com o dela falaram mais alto que o rosário de estranhezas de suas amigas. Ela estava com um Hemingway na mão, acho que O velho e o mar.  E os tristes olhos dela, tristonhos, tentavam me dizer algo. Ela participava da conversa, ria e tudo mais, mas enquanto eu vasculhava a seção como de costume, à cata de algo novo e interessante, ela me olhava. As três amigas balançavam a cabeleiras longas e os perfumes se misturavam e tomavam o espaço do cheiro dos livros. Elas diziam nomes de escritores e escritoras, numa desenvoltura impressionante. “Tô fora de livro cabeça”, determinavam, “quero me distrair”. Tateavam nas estantes, puxavam alguns, liam sua quarta capa e, num crivo incompreensível, balançavam a cabeça e torciam a boca, num muxoxo. Uma delas, ainda, soltou “só leio para dormir, então tem que ser algo leve, né?”.

Não, pensei eu. E a moça de olhos tristes me fitava, ria com as outras e suspirava. Tentava entender aquele sorriso que não falava a mesma língua das amigas em polvorosa. Em vão.

Não demorei, já havia escolhido meu livro e fui ao caixa. Elas em pouco tempo me seguiram, já haviam selecionado seu livro divertido e rechaçado fileiras de autores cabeças e chatos. Enquanto pagava, a menina de boné debruçou sobre o balcão, como se estivesse comigo, enquanto a mãe tagarelava com as amigas, numa tentativa óbvia de mostrar conhecimento e cultura. A menina exalava tédio e tinha um livro na mão: O diário de um banana 3, livro que adorei ler, tanto ele como os dois primeiros. Saí da livraria com aquela primeira frase rodando na minha cabeça, tentando entender, decifrar tudo que havia escondido por trás daquela sentença quase mórbida. Não cheguei a conclusão nenhuma, na verdade. Acho que fiquei apenas triste. Como os olhos da moça que deixei para trás.

Imagem por The_bosshog via Flickr
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Respeito gera respeito

Respeito gera respeito. E a recíproca é mais que verdadeira.

Simulação de sexo dentro de transporte público, gritaria, impedimento do funcionamento normal das vias por corpos caídos, bêbados e/ou drogados. Ignorância, invasão, violência, coerção de “minoria” naquele dia, ou seja, dos heterossexuais. Obstrução. Intolerância. Demonstração de força.

Isso foi o que mais ouvi de todo o tipo de gente, desde heterossexuais, até gays e muitos simpatizantes. Essa foi a cara da Parada Gay deste ano.

Não vi nenhuma notícia, por isso venho aqui desarmado e pronto para tomar pedradas de todos os lados. Ontem peguei todos os contrafluxos e, apesar de morar no epicentro do “fervo”, preferi passar o fim de semana com minha mãe, pois foi aniversário dela. Muitos disseram que foi a melhor coisa que fiz nesse domingo. Mas o que vi não me assustou, apesar do visível descontrole de todos.

Daí vão dizer: “Isso é o reflexo do preconceito, do que que esfregam na cara dos gays o tempo todo. Eles tem o direito de liberar sim”.

Tudo bem, boa tentativa. Mas é princípio: a liberdade de um termina quando começa a do outro. Respeito é condição básica e deve ser exigido sim, porém é algo que você só exige se puder dar. As poucas cenas que me foram relatadas mostram que não houve respeito a quem nada tinha a ver com a festa. Ouvi de um amiga simpatizante confessa:

“Se eu não conhecesse tantos gays maravilhosos, teria pegado raiva de todos.”

A mesma amiga, num comentário posterior:

“Me senti separada e acuada. Quando ouvi ‘esse vagão é nosso’, pensei: a luta não é pela igualdade? Então por que separar os vagões?”

É essa imagem que queremos para os gays? Perder aliados, em vez de ganhar, se fechar num mundinho gay onde aparentemente tudo é permitido, não há regras ou amarras? Não é uma luta em prol dos direitos e do orgulho gay? Que orgulho é esse que desrespeita, passa por cima, maltrata? Pagar na mesma moeda os maltratos já e ainda sofridos pelos gays é a solução? Sei que essa é uma discussão muito controversa e por isso mesmo acredito ter chegado a hora de encarar esse problema. Outro amigo, que também mora na região, disse:

“Se você acha que é só uma vez por ano e tudo bem, venha morar aqui nesse dia e vai entender o que eu sinto.”

Por isso, vale lembrar mesmo: respeito gera respeito. Acho lindo quem está lá para comemorar, festejar o orgulho e o faz com dignidade. Como era mesmo o bordão do Leão Lobo? Dignidade, já! Quem traz o colorido da alma para as ruas de São Paulo nesse dia merece todo meu respeito, admiração e carinho. Torço, junto com essas pessoas, para que o mundo enxergue o gay sem as lentes do preconceito, da temeridade ou do ódio. Mas de nada adianta avançar um passo e regredir três. Ter uma festa linda para a opinião pública e ferir a imagem a conta-gotas, perante aquelas pessoas que poderiam estar a um milímetro de vencer todos os preconceitos e voltem 100 metros. Assim, nunca chegaremos a lugar algum.

Respeito. Esse é o início.

Foto: folhaonline - Paulo Withtaker/Reuters

Pseudo

Sem entrar imediatamente no mérito de tradução boa ou ruim, ainda fico bastante chateado quando vejo a profissão sendo tratada como bico e, não apenas tratada, mas desempenhada como tal.  Vamos à acepção de bico para o Dicionário Houaiss: 

bico 

[...] 

11 Uso: informal. 

biscate 

que, por sua vez, leva a: 

biscate 

1 serviço simples e rápido, de pouca importância; bico 

2 Derivação: por extensão de sentido. 

ocupação ou serviço eventual, de curta duração e não regular; bico 

3 Derivação: por analogia. 

trabalho ou emprego secundário, além do principal, habitual ou regular que alguém exerce a fim de aumentar seu rendimento; bico 

4 Derivação: por metonímia. 

remuneração (ger. pequena) recebida como pagamento por esse tipo de trabalho; bico 

Olha onde foi parar a profissão de tradutor. A gente se esfalfa para aprender um outro (ou outros) idioma(s), para aprender português tão bem quanto, tenta formar clientela, se reciclar, crescer, fazer nosso networking, ajudar os amigos etc. E somos considerados “biqueiros”? Quase como aquela brincadeira sem graça que fazem com os professores: “Você só dá aula, não faz mais nada?”. Essa minha bronca não é de todo infundada, vem da observação de diversas pessoas que têm outra profissão e fazem tradução “de vez em quando” ou “quando aparece”, cobram preços aviltantes (ou não) e no fim das contas levam os louros sobre o que para outros é ganha-pão. 

Agora vamos entra no mérito de tradução boa, ruim, levada a sério ou não: 

Certa vez, numa palestra, um editor ele contou a história de um escritor que traduziu um livro e essa tradução ganhou um prêmio importante. Óbvio que o tal editor foi procurar o tradutor para um projeto que estava guardado para alguém que realmente valesse a pena. O pseudotradutor efetuou seu trabalhinho, ganhou seu dinheirinho e quando o editor foi verificar a tradução, pumba. Caiu para trás: erros crassos de tradução, erros de português e uma porção de outras falhas impensáveis para aquele premiado profissional. Depois ele foi investigar e descobriu: a preparadora da editora era uma mestra em salvar o dia e praticamente refez o texto. 

Papagaio comendo milho e o periquito todo, todo. 

E hoje mesmo tive um exemplo disso com uma pessoa conhecida que recebeu uma dessas “buchas” para fazer. Está salvando com bravura aquele texto que terá outro nome estampado como responsável e venderá (talvez mais, não acredito) por conta daquele nome estampado. Apesar de fazer um excelente trabalho, a pessoa querida não é conhecida. Mesmo com o trabalho hercúleo, seu nome aparecerá nos créditos, bem pequeno e tímido atrás da folha de rosto, mais invisível impossível. Não que se exija louros (olha o papagaio aí novamente), mas ao menos respeito. Diga-se sou “blablablá” e tradutor quando tiver mesmo aquilo que um tradutor precisa ter: um amor incondicional e imensurável pelos idiomas, uma curiosidade infinita e tantas outras coisas que quem se intitula tradutor deve ter. 

Se não for assim, pegue seu banquinho… e respeite o profissional da tradução. 

Foto: http://www.imagensporfavor.com/tag/1/papagaio.htm