
Respeito gera respeito. E a recíproca é mais que verdadeira.
Simulação de sexo dentro de transporte público, gritaria, impedimento do funcionamento normal das vias por corpos caídos, bêbados e/ou drogados. Ignorância, invasão, violência, coerção de “minoria” naquele dia, ou seja, dos heterossexuais. Obstrução. Intolerância. Demonstração de força.
Isso foi o que mais ouvi de todo o tipo de gente, desde heterossexuais, até gays e muitos simpatizantes. Essa foi a cara da Parada Gay deste ano.
Não vi nenhuma notícia, por isso venho aqui desarmado e pronto para tomar pedradas de todos os lados. Ontem peguei todos os contrafluxos e, apesar de morar no epicentro do “fervo”, preferi passar o fim de semana com minha mãe, pois foi aniversário dela. Muitos disseram que foi a melhor coisa que fiz nesse domingo. Mas o que vi não me assustou, apesar do visível descontrole de todos.
Daí vão dizer: “Isso é o reflexo do preconceito, do que que esfregam na cara dos gays o tempo todo. Eles tem o direito de liberar sim”.
Tudo bem, boa tentativa. Mas é princípio: a liberdade de um termina quando começa a do outro. Respeito é condição básica e deve ser exigido sim, porém é algo que você só exige se puder dar. As poucas cenas que me foram relatadas mostram que não houve respeito a quem nada tinha a ver com a festa. Ouvi de um amiga simpatizante confessa:
“Se eu não conhecesse tantos gays maravilhosos, teria pegado raiva de todos.”
A mesma amiga, num comentário posterior:
“Me senti separada e acuada. Quando ouvi ‘esse vagão é nosso’, pensei: a luta não é pela igualdade? Então por que separar os vagões?”
É essa imagem que queremos para os gays? Perder aliados, em vez de ganhar, se fechar num mundinho gay onde aparentemente tudo é permitido, não há regras ou amarras? Não é uma luta em prol dos direitos e do orgulho gay? Que orgulho é esse que desrespeita, passa por cima, maltrata? Pagar na mesma moeda os maltratos já e ainda sofridos pelos gays é a solução? Sei que essa é uma discussão muito controversa e por isso mesmo acredito ter chegado a hora de encarar esse problema. Outro amigo, que também mora na região, disse:
“Se você acha que é só uma vez por ano e tudo bem, venha morar aqui nesse dia e vai entender o que eu sinto.”
Por isso, vale lembrar mesmo: respeito gera respeito. Acho lindo quem está lá para comemorar, festejar o orgulho e o faz com dignidade. Como era mesmo o bordão do Leão Lobo? Dignidade, já! Quem traz o colorido da alma para as ruas de São Paulo nesse dia merece todo meu respeito, admiração e carinho. Torço, junto com essas pessoas, para que o mundo enxergue o gay sem as lentes do preconceito, da temeridade ou do ódio. Mas de nada adianta avançar um passo e regredir três. Ter uma festa linda para a opinião pública e ferir a imagem a conta-gotas, perante aquelas pessoas que poderiam estar a um milímetro de vencer todos os preconceitos e voltem 100 metros. Assim, nunca chegaremos a lugar algum.
Respeito. Esse é o início.
Foto: folhaonline - Paulo Withtaker/Reuters
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