Faria sentido um post sobre algumas das práticas, porém descobri por meio do blogue do Danilo e da Kelli que a colunista do PublishNews, Cindy Leopoldo, tem feito um ótimo trabalho, mostrando de perto o que rola num departamento editorial. Quinzenalmente ela escreve para o site e nesta semana traz uma entrevista bastante interessante (em duas partes) com a querida e sempre aqui presente Denise Bottmann. Vale a pena conferir, até por que o título da entrevista imprime uma verdade para todos os âmbitos e níveis da tradução. Uma boa tradução é sinônimo de economia e o investimento nela faz com que o custo (e o tempo) de toda a cadeia de produção. Comercialmente falando, vale muito mais a pena entregar o trabalho para um bom tradutor e se preocupar menos com revisões e afins do que fazer exatamente o contrário, mas infelizmente parece que a coisa não funciona bem assim. Vale a pena dar uma olhadinha lá no PublishNews.
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“Infestações” linguísticas

Por indicação de amigos tradutores, estou utilizando agora o HootSuite, um agregador de Twitter que é muito bacana. Nele é possível definir tags (aqueles indicadores com #bla, o de tradução é #xl8) e acompanhar seu assunto preferido. Terça-feira foi um dia cheio, mas consegui marcar como favorito uma tuitada do @CopestoneTeam sobre a infestação linguística que os alemães tentam combater no idioma, transformando o idioma de Goethe no que eles chamam de Denglisch, ou alemanglês. Numa matéria do telegraph.uk, alguns especialistas comentam que a invasão e a mistura do inglês no idioma começa a causar problemas. Inclusive há uma campanha de respeito ao idioma alemão, liderado por Cornelius Sommer, ex-embaixador alemão que aponta os efeitos sociais da mistureba. De acordo com a matéria do site, ele comenta que “o uso do inglês em larga escala teria consequências sociais, pois grande parte da população – especialmente as gerações mais velhas que são menos proficientes em inglês – podem se sentir excluídas”.
Será que no Brasil temos esse problema?
O português, se não tiver errado, é bastante permissivo de um lado, mas ao mesmo tempo os estrangeirismos não são tão agressivos como para outros idiomas. Talvez por não termos o inglês tão facilmente amalgamado ao português (diferente de nossa cultura, que está toda tomada) ou porque grande parte da população ainda não fala inglês ou não fala o suficiente, o uso de anglicismos é bastante pontual. Tirando alguns grupos profissionais que teimam em se deixar dominar por “inglesices”, acredito que ainda não haja (e me alertem se eu estiver pollyano demais) motivo para preocupação.
Um exemplo: mouse. Diferente de outros países, inclusive Portugal, que traduzem o aparelhinho por rato, ou o espanhol ratón, mouse não nos dá margem nenhuma para dúvida: é aquele negocinho que faz a setinha do computador mexer. O povo do Linux tentou impor uma tradução (acho que era dispositivos apontador, que remete aqueles apontadores quadradinhos e coloridos de lápis), mas não colou. E a confusão não se instalou.
Porém, mesmo com a tranquilidade aparente, temos de ter cuidado, principalmente com estruturas gramaticais e afins (vide o artigo ótimo do Danilo Nogueira aqui). Essas estão mais ameaçadas que o léxico em si. Além disso, precisamos evitar (e combater) absurdos com unhas e dentes, como “Delivery e entrega em domicílio” (como se fossem coisas diferentes), “printar”, gerundismos e afins. Na dúvida, uma olhadinha na gramática ou perguntadinha a algum amigo bom de português.
Assim não teremos de instituir a campanha “Salvem o português brasileiro”.
Os tiros e as culatras

Ontem li um post do Danilo Nogueira no blogue Tradutor Profissional sobre uma crítica feita à colega Maria José Silveira pelo jornalista Roberto Kaz, da Folha de São Paulo, sobre uma tradução feita por ela do livro Deixe o Grande Mundo Girar (ed. Record), que Colum McCann lançará na FLIP em agosto próximo, e concordei com ele sobre a postura de ambos os envolvidos: Roberto Kaz, que talvez tenha feito uma tempestade em tampa de coca light (chegou a enviar um e-mail à editora com todos os seus apontamentos) e Maria José, que respondeu com impropérios e esperneios à crítica do jornalista. Pois estamos, sim, sujeitos à crítica a qualquer momento e em qualquer âmbito de nossas vidas. O importante é estarmos prontos para aceitar as críticas e melhorar ou rebater as críticas com civilidade, pois ninguém está acima do bem ou do mal. Como tradução é uma área na qual a interpretação desempenha um papel importantíssimo, se não fundamental, cada qual vai considerar sua maneira correta, porém, não se pode esquecer que a do vizinho também pode estar correta, apesar de estar muito diferente da sua.
E de certa forma, acredito que a iniciativa de Roberto Kaz não seja de todo ruim, apesar de, ao que parece, ter sido um arroubo desnecessário. Se a imprensa desempenhasse seu papel denunciador de forma razoável, ajudaria na extinção do bico tradutório (do qual falei aqui e com o que me irritei nas últimas semanas), da tradução por qualquer pessoa que se julgue conhecedora dos meandros da arte tradutória ou capaz por saber um idioma (e todo tradutor e pessoa sensata sabe que isso não é o suficiente para ser um profissional da tradução). Assim, aos poucos, nossa atividade (inclusive a tradução literária) se profissionalizará cada vez mais, sem perder a característica de arte intrínseca à tradução.
Até porque chovem exemplos de traduções capengas de obras merecedoras de um tratamento todo especial.
Faço coro com o Danilo: não li o livro, não conheço a tradutora (que por sinal conhece ou acompanha o blogue de alguns amigos e conhecidos meus) e não leio a Folha (apesar de ter lido matérias ótimas do Roberto Kaz na revista Piauí). Meu contato é totalmente de terceiro, que vem por intermédio de uma tuitada da querida Denise Bottmann.
PS.: Muito estranha a Folha de São Paulo: numa matéria levanta que a tradução pode ter problemas, no próximo artigo do mesmo assunto (na edição impressa, provavelmente, na mesma página) Joca Rainers Terron elogia a tradução de Maria José. E aí?
Google Translator: qual a sua opinião?
Entre os tradutores, essa é uma pergunta que não quer calar.
O desempenho do tal Google Translator está assustando algumas pessoas e foi até mesmo capa de revista. A tradução automática, ou seja, a compreensão de um idioma estrangeiro no seu idioma por meio de uma maquininha, já é sonhada pelos homens há muito e há poucos anos a ideia de tradução automática ainda era motivo de chacota entre os profissionais. Até surgir a ideia de memória de tradução e os engenheiros e profissionais da tecnologia de informação começarem a trabalhar sobre esse conceito e ter a ajuda benevolente (e gratuita) de diversos usuários dos sites de busca (em especial o maior e mais conhecido deles, o Google). Numa explicação bastante simplificada, o Google Translate, quando tem uma tradução ruim, pede ao usuário que dê uma tradução melhor. Assim, ele alimenta a própria memória e reorganiza possibilidades de tradução para as próximas consultas. E assim sucessivamente.
E você, tradutor? Tem medo do que essa maquininha cada vez mais poderosa pode fazer com seu trabalho?
Muita gente já está tremendo, prevendo um futuro sem tradutores, só as máquinas trabalhando, roubando o espaço conquistado com tanto esforço e labuta, ó, como farei?, dizem muitos tradutores. E como não podia deixar de ser, deu muito pano para manga no CIATI, inclusive com profissionais respeitadíssimos e estudiosos da tradução aventando a possibilidades do uso dessa ferramenta. Acredito que John Milton não estava brincando quando disse, numa de suas palestras: “Se você não usou, provavelmente vai.” Depois dessa afirmação, um riso nervoso ecoou na plateia. Toda de tradutores e profissionais do idioma.
E por que não?
Numa ótima palestra virtual com Danilo Nogueira, intitulada Como fazer o Google Translator comer poeira, a discussão sobre a utilização atual do site e suas possibilidades vieram à baila e a única maneira de realmente deixar o programa para trás é a profissionalização cada vez maior dos tradutores. O Google Translator pode até ter o intuito maléfico de tomar dos tradutores o seu trabalho, mas quantas profissões já não foram ameaçadas pela tecnologia e ainda resistem bravamente, representadas por profissionais de competência ímpar e força para mostrar ao mundo que são necessários? Ele ainda será muito utilizado para que as pessoas possam saber do que trata um determinado texto ou site em outro idioma, para adiantar algumas coisas no processo de tradução e para decidir o que deve ser traduzido de verdade e aquilo que não é necessário, mas a mente humana continuará guiando os passos estranhos e vacilantes do programinha. Vejam um pequeno exemplo do idioma alemão para o português de um site de dicionário chamado LEO:
Texto na língua fonte (alemão):
Vier Jahre werden die Wörterbücher mittlerweile durch die LEO GmbH angeboten. Wie zahllose aus jeder Zeitung herausfallende Jubiläumsprospekte deutlich machen, müssten wir diesen Jahrestag eigentlich mit entsprechenden Sonderangeboten verknüpfen. Da dies bei einem kostenlosen Angebot schwer fällt, preisen wir schlicht an, was sich in den letzten Monaten entwickelt hat:
Tradução do GT para o português:
Quatro anos é oferecido dicionários já foi substituído por LEO GmbH. Como destacar inúmeros aniversário de cada jornal queda folhetos fora, teríamos que realmente esta ligação aniversário com ofertas adequadas. Desde que este é difícil oferecer uma queda livre, louvamos simplesmente o que tem desenvolvido nos últimos meses:
Agora um exemplo tirado do New York Times (aqui) para vermos que, por outro lado, o avanço é grande também, dependendo do idioma:
Texto na língua fonte (inglês):
The conflict, which prompted the government to declare a state of emergency over the weekend, pits supporters of Christopher Coke, wanted in the United States on gun and drug charges, against Prime Minister Bruce Golding, who has relied on Mr. Coke’s influence to win votes in the west Kingston neighborhood that both men share.
Tradução do GT para o português:
O conflito, que levou o governo a declarar estado de emergência no fim de semana, poços apoiantes de Christopher Coke, queria nos Estados Unidos na arma e posse de drogas, contra o primeiro-ministro Bruce Golding, que baseou-se na influência do Sr. da Coca-Cola para ganhar votos no bairro West Kingston que compartilham os dois homens.
Entendeu? Pois esse é o tipo de tradução que você conseguirá ao utilizar o Google Translate. Dá para saber do que se trata? Talvez. Mas nesse caso (e acredito que na maioria deles) será esse o produto final sem um trato de um verdadeiro profissional. E talvez no futuro nós, tradutores, viremos grandes revisores e preparadores de material traduzido eletronicamente e aí é que são elas: ou você conhece ou não conhece do que está falando. E quem ficará no mercado? Aposto nos tradutores profissionais.
E você?