Palestras na USP

A FFLCH, por meio do Centro Interdepartamental de Tradução e Terminologia (CITRAT), sempre organiza palestras gratuitas sobre tradução. São os Ciclos de Palestras sobre Tradução, em geral realizados às sextas-feiras. Neste mês há duas palestras (veja abaixo), sempre muito interessantes. Uma das palestras que vi foi da famosa Mona Baker, estudiosa de tradução conhecida mundialmente por seus livros e pesquisas.

Não é necessário se inscrever, é só chegar. Vejam informações abaixo:

PENSANDO A TRADUÇÃO À LUZ DE O NINHO VAZIO, DE DANIEL BURMAN, E CÓPIA FIEL, DE ABBAS KIAROSTAMI

Profa. Dra. Maria Clara Castelhões de Oliveira

Pretendo discutir nesta palestra questões de tradução, literatura, ética e cultura a partir dos filmes O ninho vazio (2009), do argentino Daniel Burman,  e Cópia fiel (2010), do iraniano Abbas Kiarostami. Primeiramente, traçarei uma analogia entre o tipo de postura de Burman e aquela que considero a mais adequada ao tradutor de textos literários na cena pós-moderna. Para tanto, também lançarei mão de dois contos que têm tradutores como protagonistas:  ”O tradutor cleptomaníaco”, de Dezsö Kosztolányi, e “Notas ao pé da página”, de Moacyr Scliar. Em seguida, utilizarei o filme de Kiarostami para discutir, principalmente, o lugar das reproduções, entre as quais se encontram as traduções, perante seus originais.

Dia 13 de abril, às 14h, na Sala 170 do Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária).

A LITERATURA RUSSA NO BRASIL – UMA HISTÓRIA DE SUAS TRADUÇÕES

Bruno Barretto Gomide (DLO-USP)

Nesta palestra apresentarei um panorama histórico das traduções de literatura russa no Brasil, começando pelo fim do século XIX, marcado pela hegemonia das edições francesas, passando depois pela “febre de eslavismo” dos anos 30, os vários projetos editoriais do Estado Novo, a atividade de Boris Schnaiderman a partir de fins dos anos 50 e chegando ao intenso processo de traduções do último decênio.

Dia 20 de abril, às 14h, na Sala 260 do Prédio de Letras, FFLCH-USP (Av. Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária).

Ao lado do mestre

Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.

Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?

Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.

Patrik 1,5: bom, mas poderia ser melhor

Gostei de Patrik 1.5 (Suécia, 2008), filme baseado na peça de Michael Druker, com roteiro e direção de Ella Lemhager. Se fosse uma produção estadunidense, talvez resultasse em algo mais água com açúcar, o que não é o caso. Nas mãos da diretora Ella Lemhager o filme passa a marca do desnecessário e torna-se um filme que arranca risadas e emociona. Mas tem seus poréns.

Göran e Sven acabam de se mudar para o pacato subúrbio sueco com um sonho: adotar uma criança. Na verdade, sonho mais de Göran que de Sven, que já tem a experiência da paternidade e não se anima tanto quanto o companheiro. Há anos com a permissão da adoção, eles aguardam Patrik, com um ano e meio (1,5). Porém a carta de aviso da chegada da criança tem um erro de digitação e na verdade eles adotaram Patrik, 15 anos, delinquente juvenil que considera todos homossexuais pedófilos. Sven, arredio, não quer saber de Patrik pelo risco que representa. Göran, com espírito beirando o maternal, quer dar uma chance ao garoto. Enquanto isso, a vizinhança começa se revelar menos pacata e a hipocrisia dá lugar ao esperado comportamento homofóbico.

E aí está o maior porém do filme: a superficialidade. Talvez fosse necessário um filme maior ou uma trama que focasse menos o casal e mais a relação da sociedade com os novos formatos familiares. À exceção de alguns rompantes coadjuvantes e dissimulações entre os vizinhos, o filme não evolui nesse sentido. Sendo essa uma boa discussão, Patrik 1.5, perde uma boa oportunidade de explorá-la. Agora, resta esperar The Kids Are All Right, com Julianne Moore e Annette Bening.

A má literatura nas telas

Há pouco levantei a discussão se ler qualquer coisa era melhor que não ler nada (aqui) e recebi muitos retornos (e outras tantas porradas) que me foram muito válidos para pensar melhor na questão à parte do meu desabafo do post anterior. Foram tantas ideias que surgiram com a reflexão que não consegui até hoje formular uma resposta para a pergunta que eu mesmo fiz, deixando-a em aberto, para ser vista caso a caso. Ontem estava tomando um café com amigos e quando comentei que, por exemplo, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional virou um pontão de encontro, sempre cheia e intransitável. A amiga Karla disse: “Melhor que esse ponto de encontro seja numa livraria, ao menos ali as pessoas estão em contato com os livros, pegam, folheiam e talvez se interessem”.

Então a questão de má literatura é relativa? Outra vez ouvi de alguém que o que é bom para um pode não ser para o outro. Chavão certíssimo. E o que é seu e não é bom e, ainda assim, você publica? No Sabático do fim de semana, uma notinha comentou sobre um documentário chamado Bad Writing, produzido por Vernom Lott, que estreia em agosto e traz exatamente essa perguntinha: que bosta foi aquela que botei no papel?

Quem nunca teve essa sensação, que atire o primeiro calhamaço. Porém, muita gente não publica nadica pelo medo da crítica ou pela exigência altíssima. Quem conhece os cursos de Letras por aí sabem que a graduação talvez devesse ter em sua grade prática da escrita criativa, mas o que ela realmente faz é detonar a criatividade, formando excelentes críticos literários, todos com medo de ser criticados ou com um nível de exigência tão alto que não acham que seu próprio texto valha a pena.

Acredito que a premissa do filme seja um empurrão para aqueles que não se aventuram e dão a cara para bater:

Bad Writing é um documentário sobre um homem que deseja ser poeta e se põe em uma busca por respostas sobre a escrita  – má literatura, boa literatura e o processo que há entre esses dois pontos. Que ele vai aprender com algumas das estrelas do mundo literário que inspiram todos aqueles que já sonharam em criar arte?

Será que esse filme chega aqui? Ou teremos que apelar para as cópias alternativas?

Veja o trailer:

Fonte: Estadão, Caderno Sabático de 1.5.2010

Mary, Max, Melbourne e Aspie

“O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse em uma ilha deserta então eu teria que me acostumar com minha própria companhia – apenas eu e os cocos. Disse que eu teria que me aceitar, com meus defeitos e tudo mais, e que não posso escolher meus defeitos. Eles são parte de nós e temos que conviver com eles. Mas os amigos podemos escolher e estou feliz por ter escolhido você”. De uma das cartas de Max para Mary*

Há poucos dias falei sobre graphic novels, quadrinhos literários que dão pano para a manga. Já pensaram também nas animações? Se ainda não, acho que é o momento de assistir Mary & Max (Austrália, 2009), com roteiro e direção de Adam Elliot. Filme inspirado numa história real traz Mary (quando menina, Bethany Whitmore de Pequena Miss Sunshine, e Toni Collete quando adulta), menina que vive no subúrbio australiano com sua mãe, uma bêbada de plantão, e com seu pai ausente, funcionário de uma fábrica de saquinhos de chá. Leva uma vida monótona até que um incidente faz com que ela encontre o endereço de Max Horowitz (o impagável Philip Seymour-Hoffmann), um quarentão judeu de Nova Iorque que come compulsivamente para compensar suas ansiedades. O que une os dois: o gosto pelo desenho animado Noblets e a primeira carta que Mary envia a Max. A partir daí a amizade cresce, mas os desencontros são inevitáveis.

Mary enfrenta os problemas de ser a “perdedora” e a “gordinha” da turma, de sua passagem para a adolescência e dos modelos errados que servem de espelho para ela. Entre copos de sherry e taxidermias, ela cresce tentando reunir dinheiro suficiente para visitar Max, no cenário em tons mostarda que mostram o clima modorrento de onde vive. Enquanto isso, Max passa seus dias num apartamento da cinzenta Nova Iorque, com seu peixe, seu gato, seu amigo imaginário, entre reuniões de uma espécie de vigilantes do peso e consultas ao psiquiatra. Ele sofre do Mal de Asperger, apelidado por ele de Aspie, que o torna desconectado do mundo real ou daquilo que chamamos de normalidade. A animação em stop-motion e massa de modelar conferem ao filme uma crueza que só não supera a dos diálogos ácidos e das piadas ferinas do roteiro. Com tudo para ser uma espécie de comédia mórbida e apesar de se passar entre 1974 e os anos noventa, Mary & Max destrincha um sentimento muito moderno: a solidão. A improvável amizade por correspondência entre a menina australiana e o senhor americano é emoldurada pelas suas teorias sobre o mundo e a vida, as perturbações mentais e a inexorável distância dos dois.

Mas para longe com a simples compaixão! Adam Elliot mescla nas frustrações das personagens pitadas de humor que fazem com que olhemos para os amigos de correspondência de forma carinhosa. E repensemos diversos temas jogados no nosso colo: amor, sexo, solidão, superação, tristeza, morte, suicídio e o primordial: a amizade. Esse é o leitmotiv desse filme que num caldeirão joga a delicadeza e a ironia em cores pardas e acinzentadas. Vale a pena!

PS.: O filme é ótimo, mas a tradução e revisão da tradução das legendas é sofrível. Playarte, dá um jeito que tá ficando frequente…
*Fonte: imdb – Tradução livre feita por mim