Mãe é mãe

Já falei de outro livro de Bernardo Carvalho aqui (O sol se põe em São Paulo), numa resenha muito breve. Foi o primeiro livro que li dele, gostei muito. Mas não se compara ao que encontrei em O filho da mãe, da coleção Amores Expressos (Cia. das Letras), lançado faz um tempo e que ficou na fila esperando leitura. Se eu soubesse, teria furado a fila e começado por este livrinho enorme. Enorme porque Carvalho, com sua ficção vigorosa e enxuta, trata de dois temas universais: mãe e guerra. Seja na Rússia ou em qualquer lugar onde o texto nos leve, não há como não se envolver com as personagens do autor, construídas com muito detalhe, até mesmo aquelas que se prestam a coadjuvantes da trama. São diversas histórias que se encontram nos erros e acertos, no desespero e na luta pela sobrevivência das mães que perdem seus filhos na guerra e, novamente, poderia ser na guerra do Golfo ou numa guerra de tráfico. Pois o sentimento dessas mães é único e ao mesmo tempo compartilhado por toda. Apenas elas poderiam descrevê-lo, mas Carvalho conseguiu dar ao menos um vislumbre do que são essas agruras maternas.

Mas o que marca mesmo o romance é o estranhamento.

Não pela paisagem de São Petersburgo ou por outras que são descritas no livro, mas pelo desajuste das personagens. São pessoas que não se encaixam em sua vida, deslocadas daquilo que elas percebem como ideal, enfrentando as dificuldades de desempenhar um papel que não lhes cabe. São filhos desencaminhados, pais ausentes, famílias fragmentadas que buscam entrar nos eixos, vivências partilhadas e repartidas, tudo isso numa paisagem confusa de um país em eterna reconstrução. Vale a pena.

A indissolúvel mentira

Algumas pessoas me falavam de Alberto Manguel, conhecido escritor e editor argentino por diversas obras sobre a literatura (como “Uma história da leitura“). Seu nome surge agora num romance, Todos os homens são mentirosos (Cia. das Letras, trad. de Josely Vianna Baptista), não apenas como escritor, mas como a personagem do primeiro dos cinco depoimentos acerca da morte do (fictício) escritor Alejandro Bevilacqua, que no romance de Manguel alcança fama pelo livro Elogio de la mentira e morre na sucessão do lançamento. O primeiro depoimento é do homônimo Alberto Manguel, em seguida da namorada de Bevilacqua, Andrea. Em seguida lê-se uma carta do misterioso Chancho e o relato de Tito Gorostiza que, como Manguel e Bevilacqua, também é um argentino exilado em Madri. Por fim, o próprio jornalista que colhe esses depoimentos, Jean-Luc Terradillos, dá sua versão (ou antiversão) dos fatos.

Nessas conversas com Terradillos, cada um pinta Bevilacqua à sua maneira e as cores variam entre o cinza esmaecido ao vermelho vivo, passando pelo amarelo covardia e outras tantas que fica difícil saber quem é quem nesse intrincado jogo cheio de camadas duvidosas. Entre a objetividade de Andrea e a má vontade de Manguel, passando pela crueldade de Chancho e os delírios de Gorostiza, o leitor pode montar seu próprio Bevilacqua, mas com a prévia certeza de que a mentira está por trás de cada esquina madrilenha.

Fragmentado, o romance retrata a realidade dos intelectuais latino-americanos que, espantados pelas ditaduras que assolavam o continente, aterrissavam na Europa em busca de uma nova vida, de um novo sentido para sua arte. A lembrança inevitável (inclusive, mencionada) do Bartleby de Vila-Matas e sua discussão sobre os livros nunca escritos e da força que eles têm nas entrelinhas da literatura. Vale a pena.

Noites de livros e gentes

Books

Imagem via Wikipedia

Ontem fui a um bate-papo com blogueiros e os editores da Cia. das Letras: Luiz Schwarcz (não sei de onde tirei o Roberto que estava… thanks Diana), Matinas Suziki Jr. e outros. Uma grande conversa sobre o blogue da Cia. das Letras lançado há pouco e as dúvidas que todos têm sobre como serão os encontros e desencontros dos blogues das grandes editoras e os nossos blogues. Muitas sugestões, perguntas e alguns devaneios, no final com saldo positivo: conhecer diversos ótimos blogueiros pessoalmente, trocar figurinhas, abraços e apertos de mão. As vontades dos blogueiros, como consumidores, foram ouvidas com atenção pelos presentes e tanto Schwarcz como Suzuki expuseram que em grandes editoras estrangeiras essa preocupação já está na pauta de discussões: como os blogues influenciam o mercado editorial e como fazer para participar desse mundo. Matinas Suzuki até comentou algo que todos sentimos: nunca se sabe qual será o passo seguinte no desenvolvimento da Grande Rede.

Foi ótimo conhecer também as duas responsáveis pelo blogue, as simpáticas Juliana Vettore e Diana Passy. Não passaram despercebidas as presenças do escritor Lourenço Mutarelli, além da jornalista do Sabático, Raquel Cozer, e muitos blogueiros atuantes na área de literatura, como o Lucas de Sena, do blogue Estrela Selvagem, sobre o Roberto Bolaño.

No intervalo, encontro fortuito com Alberto, querido amigo.

Depois, segundo tempo no Bar São Cristovão, ali na rua Aspicuelta, na sempre agitada Vila Madalena. Não vou comentar do bar, pois quem fará isso será o Tiago Soarez em breve, no Bossa Nova Café, que me acompanhou no lançamento d’A bola entre palavras. Realmente, o livro ficou uma graça, na edição sempre bem cuidada do selo [e]. Lá conheci o “técnico” Adolfo Montejo Navas, que escalou os 11 escritores, artistas e críticos de arte que fizeram parte dessa seleção de letras. E dele ouvi que o autor do texto, Wolfgang Bock, gostou muito da tradução que fiz. Ri à toa. Lá encontrei também o querido Vanderley Mendonça, editor do selo Demônio Negro (o irmão do selo [e]), que me chamou para traduzir o texto do Wolfgang, e o Zé Roberto, da Annablume. Também Reynaldo Damazio, crítico literário da FSP, que bateu um bolão com sua crônica e compareceu com sua camisa do Corinthians.

Saldo positivíssimo para uma noite de quarta-feira. Encontros marcantes, chopps geladinhos, vinho tinto e livros. Que mais querer da vida?

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Amores e lançamentos

Eu gosto de coleções. Mais de algumas que de outras. E quando envolvem livros, literatura e viagens, gosto mais ainda. E essa é a proposta da Coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, que numa empreitada ambiciosa enviou 17 autores para diversas partes do mundo para escrever sobre o amor, em todas as suas formas. De acordo com matéria d’O Globo sobre essa coleção, além da coleção de livros, dois cineastas também retratarão essas viagens por suas lentes. De volta ao Brasil, cada autor foi incumbido de fazer uma história inspirada no local para o qual foi enviado. Já foram lançados Estive em Lisboa, lembre de você, de Luiz Ruffatto, O filho da mãe, do Bernardo de Carvalho, Cordilheira, do Daniel Galera, ao que me consta. Os últimos dois já estão na minha estante, aguardando sua vez para serem lidos. Já folheei ambos e o do Galera começa de forma arrebatadoramente simples: um pai que percebe como sua filha virou adulta. É lindo.

E na próxima terça-feira, dia 1º de junho, haverá outro lançamento: Do fundo do poço se vê a lua, do Joca Rainers Terron, é o próximo livro da coleção e trata de um tema bastante manjado na literatura, gêmeos que se separam, mas com uma visão tão inovadora que deu água na boca. Abaixo a resenha da Cia. das Letras:

Do fundo do poço se vê a lua conta a história de Wilson e William, gêmeos nascidos em São Paulo nos anos finais da ditadura. Órfãos de mãe e criados pelo pai, ator, os meninos são treinados para atuarem juntos, mas as brincadeiras da infância, porém, revelam que a semelhança dos irmãos é apenas física. William é violento, taciturno e masculino, enquanto Wilson é feminino e dono de inteligência tão sagaz quanto compulsiva.
A espinha dorsal do romance é a batalha de Wilson para livrar-se da imagem espelhada do irmão e se transformar numa figura feminina inspirada pelo objeto de sua obsessão, a rainha egípcia Cleópatra, sobretudo como encarnada no cinema por Elizabeth Taylor.

Bem, vamos conferir em breve, daí comento por aqui. Vejam o convite virtual, tirado do blogue de Terron, Sorte & Azar S/A: