Mais uma ótima amizade internética e hoje já ao vivo e em cores que conquistei pelo blogue e twitter foi a Val Ivonica. Com ascendência russa, essa moça formada em química um belo dia mergulhou no mundo da tradução e nunca mais voltou. Aficionada por tecnologia, principalmente no que diz respeito à tradução, Val dá um show quando o assunto é TMs, aplicativos em Mac e afins. Além disso (ou, em primeiro lugar), é mãe coruja da Natalinha. Mantém o site Tradução Via Val, importante para quem quer saber o que está rolando no nosso mercado. Vamos à entrevista:
PR: Val, você faz parte de uma grande parcela de tradutores que não tinham por que se tornar tradutores e mesmo assim estão aí, na luta. Qual foi o seu trajeto até aqui?
Val Ivonica: Na verdade, comecei a traduzir ainda no início dos anos 90 (nossa, já faz tanto tempo assim?), quando ainda trabalhava na empresa da família. Importávamos material escolar e artístico de vários países, então eu traduzia os catálogos dos fornecedores para podermos distribuir para os clientes, além da correspondência referente às importações. Nessa época eu já fazia faculdade de Química Industrial na Oswaldo Cruz. Depois, as voltas da vida me levaram a ter livraria dentro de uma universidade aqui em São Paulo. Um dia, entrou uma aluna do curso de Farmácia precisando traduzir o abstract de um trabalho. Perguntou se eu conhecia alguém que traduzisse. Olhei o texto, era sobre química. Traduzi aquele, depois o da colega da aluna, depois outro, e nunca mais parei. O começo foi complicado, duro, mas devagar fui conseguindo me firmar e hoje não me vejo fazendo outra coisa.
PR: Já falamos sobre isso aqui, mas nunca é demais reforçar: queria saber de você como a tecnologia hoje pode ajudar o tradutor?
Val: A tecnologia é uma aliada poderosíssima, não sei como faria se precisasse trabalhar à moda antiga. Sou péssima datilógrafa, para começar – costumo dizer que eu só “cato milho rápido”. Precisamos fazer a tecnologia trabalhar a nosso favor. Seja aprendendo a usar o máximo de recursos do editor de texto ou da ferramenta de memória de tradução, seja usando dicionários online ou em CD para facilitar as consultas ou usando disco virtual para acessar os arquivos de onde estivermos, vale tudo para aumentar nossa qualidade e produtividade.
PR: Como vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução em sua opinião?
Val: Acho que a maioria ainda percebe mais a tradução de livros ou audiovisual (legendagem e dublagem). Estranham quando eu digo que traduzo textos químicos e farmacêuticos, por exemplo. “Mas pra quê?” é a primeira coisa que perguntam. Depois que explico, fica aquela cara de “nossa, isso é óbvio, como não percebi antes?”. Chega a ser divertido. Mas o tradutor, como profissional, parece ser cada vez mais reconhecido pelos clientes. Apesar da moda do crowdsourcing, os clientes, principalmente os corporativos, parecem estar se dando conta da importância de uma boa tradução para os negócios. Estão procurando tradutores capacitados e com conhecimento na área em que traduzem. O que ainda falta, na minha opinião, é deixar de lado a idéia de que tradutor é “artista da palavra”. Tradutor é comerciante, é prestador de serviços como qualquer outro. Precisamos nos comportar como tal. Neste ponto, minha experiência no comércio é muito útil.
PR: Tradutores literários e tradutores técnicos vivem realidades diferentes, mundos quase irreconciliáveis. Qual a contribuição que um poderia dar para o outro?
Val: O pessoal da literária poderia aprender mais sobre as ferramentas que nós, da técnica, usamos muito mais que eles. Uma parte já usa, não se pode generalizar quanto a isso, mas pelo que vejo nas listas de tradução ainda não é uma atitude generalizada. E nós da tradução tecnica podemos, sem dúvida, aprender a elaborar mais o texto, para que fique mais fluido e menos “seco”. Tenho me empenhado nisso ultimamente.
PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
Val: Estou tentando abandonar os dicionários em papel, usando o máximo possível em CD ou online. O Vocabulando tem lugar cativo, uso diariamente. Deixei de lado também o bloco de anotações que mantinha ao lado do teclado, porque não conseguia mantê-lo organizado. Troquei por um aplicativo tipo “post-it”. Se estiver frio, uma caneca de chá (tomo aos baldes). O que poderia faltar, mas nunca falta, é a confusão. Minha mesa é uma bagunça eterna, meu “buraco negro” pessoal.
PR: O que a você lê além dos textos que traduz? Qual é o livro do momento para você?
Val: Vou confessar: ando com a cabeça tão cheia ultimamente que não estou conseguindo ler muita coisa além dos textos de trabalho. Estou com dois livros começados e empacados: Fidus Interpres, livro sobre tradução do colega Fabio Said, e Mutants, de Armand Marie Leroi, que ganhei da Ana Iaria. Ambos muito interessantes, mas a leitura não está deslanchando por culpa minha mesmo. Gosto de ficção científica (Asimov, Carl Sagan), ciência em geral, terapias alternativas, mas não consigo ler textos que não sejam objetivos, que ficam dando voltas e mais voltas. Não combinam muito comigo.
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Val: Meu conselho é o mesmo de todos os outros entrevistados anteriores: estudar muito a língua de partida (inglês, no meu caso), estudar em dobro a língua de chegada. Não adianta nada ter um inglês perfeito e escrever em português claudicante (adoro esta palavra, mas quase nunca tenho chance usar!). Aproveitar suas experiências anteriores, se tiver alguma, para achar um nicho e se especializar nele. E manter a pulga de estimação, aquela que todo tradutor deveria manter atrás da orelha, sempre muito bem treinada. Às vezes ela cochila e escrevemos cada bobagem…
PR: Muito obrigado pela participação.



que simpatia! e achei muito bom isso: “Aproveitar suas experiências anteriores, se tiver alguma, para achar um nicho e se especializar nele”. penso muito nos mais novos que fazem graduação em tradução, o que pode ser ótimo, mas me dá a impressão de que fica faltando um terreno mais firme em alguma área de conhecimento mais específica.
Eu mesma não tenho formação em tradução, Denise. Foi um conselho baseado em experiência própria, por assim dizer. Pelo menos para tradução química e farma, que é onde mais atuo, a experiência em uma área específica costuma ser mais valorizada que o diploma em tradução.
[...] ultimamente (e não estou reclamando, de maneira nenhuma!) que nem coloquei aqui o link para minha entrevista para o Petê Rissatti. O Petê tem entrevistado um tradutor por semana, publicando depois em uma seção do site. Vale a [...]