Mamede Mustafá Jarouche

foto: frascisco emoloO prof. Mamede Mustafá Jarouche ficou famoso por suas traduções d’As mil e uma noites (Ed. Globo) direto do árabe, uma empreitada que lhe valeu reconhecimento e muitos prêmios (entre eles um Jabuti, um APCA e o Paulo Rónai, todos como melhor tradução). De família libanesa, nascido em Osasco (São Paulo), prof. Mamede se dedicou à tradução e interpretação no Iraque e na Líbia antes de se dedicar à literatura e à academia. Hoje é professor na USP, com forte atuação nos temas orientalismo, cultura, literatura e narrativa árabe e tradução.

PR: Para começar, prof. Mamede, duas perguntas em uma: como o senhor entrou na área de tradução e como chegou à academia?

Mamede: Na verdade, foi através da academia, do meu trabalho na academia, que comecei a traduzir. Quando digo “academia” estou também me referindo ao período vivido como aluno, a partir de 84. A bem dizer, era uma alternativa quase que instintiva para quem lida com cultura e literatura árabe no Brasil, onde quase não havia traduções diretas do original. De certo modo, essa continua sendo uma opção para os estudantes de hoje, passado mais de um quarto de século. Quanto à academia, cheguei a ela pelas vias de praxe: formei-me, fiz pós-graduação e em 92, quando houve um concurso em árabe, candidatei-me e passei.

PR: Como o senhor vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

Mamede: Na verdade, não posso me considerar um tradutor profissional, senão que ocasional, uma vez que essa não é a minha principal atividade. Mas quer-me parecer que é um trabalho atualmente mais valorizado, apesar de ainda pagarem pouco. Pelo menos, hoje é muito mais comum que se questione: Quem traduziu tal obra? Foi do original? Note que ninguém mais aceita edições que, como muitas no passado, simplesmente omitiam o nome do tradutor. Hoje, editoras picaretas, como não se cansa de denunciar a Denise Bottmann, chegam a inventar nomes de tradutores. Não deixa de ser, por vias transversas, uma espécie de reconhecimento à sua importância…

PR: Com a visibilidade do mundo árabe nos últimos 10 anos, houve uma procura maior na academia pelos cursos de língua e literatura? Hoje a área de língua e literatura orientais é uma área forte na universidade? Essa pergunta é até certo ponto de meu interesse, pois cheguei a estudar árabe por pouco tempo no Centro de Cultura Sírio-Brasileiro, me encantei com o idioma e, quem sabe num futuro médio, eu volte a estudá-lo.

Mamede: A visibilidade é de todo o Oriente, não só do mundo árabe. A procura tem melhorado quantitativa e qualitativamente. Isso é visível e significativo. Quanto à força das línguas e literaturas orientais na universidade, e aqui só posso falar da USP, ela é difusa: de um lado, admite-se tacitamente (ao contrário do passado recente) a sua importância; do outro, continuam a existir alguns acadêmicos — e falo da área de humanas — que, mercê de alguma ignorância e certa estreiteza mental, nutrem preconceito contra o estudo de orientais, mas, embora continuem à espreita, rara vez alçam a voz, pois o ambiente já não é propício a esse tipo de manifestação. Ademais, seria injusto deixar de observar a já referida melhora, que é bem perceptível, por exemplo, no corpo discente. Se nem sempre os propósitos são alcançados, isso se deve, ainda, à recentidade desse campo de estudos no Brasil: lembre-se que a pressão sócio-intelectual — se é que posso assim chamá-la — para que o campo se desenvolvesse tem uma década, se tanto.

PR: Imagino que traduzir As mil e uma noites, três volumes de ramos diversos, tenha sido uma empreitada e, ao mesmo tempo, trouxe reconhecimento. Como foi essa experiência e como ficou a vida antes e depois desse mergulho profundo num dos textos mais fascinantes da humanidade?

Mamede: Traduzir as Mil e uma noites foi e é uma experiência interessante, mas estafante, se é que neste caso cabe a adversativa. De toda forma, acho que é um pouco sobrevalorizada: no final das contas, estamos diante de um texto ficcional. Devo admitir que o trabalho com ele produziu em mim algum distanciamento crítico, diferentemente de quando eu apenas o lia, quando então, no meu caso como no de muitos leitores, era possível falar em fascínio. Hoje, o que mais me gratifica é o fato de ter ajudado a realçar, de alguma maneira, a importância do trabalho do tradutor de maneira geral. Minha relação com o texto, insisto, é como deve ser a de um médico com o paciente: profissional. Caso contrário, como se trata de um volume muito grande de material, não conseguiria trabalhar. Mas talvez eu não seja exatamente a melhor pessoa para falar da minha relação com esse texto… Seria mais justo se esse texto pudesse falar da relação dele texto comigo. Quem sabe ele não dissesse: para esta língua de Camões, gostaria de estar sendo traduzido assim, e não assado. Ou: Exijo outros tradutores!

PR: O que não pode faltar na mesa de trabalho do senhor?

Mamede: Dicionários e gramáticas. Mas por algum motivo nela também se amontoam inutilidades: contas pagas que por algum motivo não vão para gaveta, esse lixo de marketing que recebemos pelo correio e que por algum motivo tardo a jogar fora, canetas de todo tipo, a grande maioria das quais não escreve, e, enfim, pilhas de papel que alguém acumula quando não estou olhando.

PR: O que o senhor lê além dos textos que traduz? Qual é o livro do momento para o senhor?

Mamede: Atualmente estou lendo um autor egípcio contemporâneo, Sonallah Ibrahim, muito bom. Terminei sua melhor obra, ”O Comitê”, romance de cunho kafkiano escrito na década de 70, e estou lendo o último, “Espionagem”, muito bom, mas inferior ao outro. Também estou lendo de maneira meio desordenada alguns tratados árabes medievais de erotismo e obscenidade.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Mamede: Bem, admiro tanta gente que seria difícil nomear a todos. Mas sabem que os admiro! Quanto ao recado para quem quer começar na árdua profissão de arabista, o conselho é: estude árabe sem a obsessão de falar como um árabe. No caso dessa língua, que não tem nenhum parentesco com a nossa (a enorme quantidade de palavras de origem árabe em nosso vocabulário não chega a configurar parentesco), na maioria das vezes um bom domínio instrumental já é mais que suficiente. O Brasil vai precisar de bons arabistas em escala cada vez maior.

PR: Muito obrigado pela participação.

Foto: USP – Espaço Aberto

6 thoughts on “Mamede Mustafá Jarouche

  1. muito, muito bom! considero o trabalho de mamede uma das estrelas que compõem a constelação dos avanços tradutórios no brasil. depois da arrancada do russo, essa arrancada do árabe é maravilhosa, ao lado tb do húngaro e do japonês.
    não li as mil e uma noites de mamede, mas comprei e li o leão e o chacal mergulhador, poema misto de tratado político de um anônimo do século XI, na primeira tradução em todo o mundo! fico muito feliz que a editora globo, ao lançar essa tradução de mamede, e aliás numa bela edição, se some a outras editoras que têm contribuído para o amadurecimento editorial no país.
    agradeço a menção à briga contra plágios de tradução: mamede não deixa de estar certo – “Não deixa de ser, por vias transversas, uma espécie de reconhecimento à sua importância”.

    • Uma delícia também é a tradução e organização dele de “Histórias para ler sem pressa”, também pela Ed. Globo. São pequenos contos de uma ou duas páginas leves e que devem, como o nome diz, ser lidos com bastante calma e sobre eles se deve refletir e, acima de tudo, curtir.

  2. Sim, Petê, esse ‘Histórias para ler sem pressa’ é maravilhoso. Devia haver por aí mais textos encantadores como estes disponíveis. Temos uma visão caricatural e reduzida do mundo árabe, às vezes até preconceituosa (falo da sociedade no geral, não eu ou você). Quem dera tivéssemos mais e mais tradutores como o Mamede e mais editoras apostando em títulos desta cultura, e mais blogs abrindo espaço para estas discussões. Grande abraço, Lucas.

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