Muito se fala em tradução como profissão e sobre profissionais da tradução e é costume se execrar quem o faz apenas por amor à profissão. Porém, fica bastante difícil ser do contra quando desse amor sincero surgem traduções consagradas, como as de Lolita e d’O apanhador no campo de centeio. Jorio Dauster, entre suas diversas ocupações, sempre faz questão de deixar claro que é tradutor, em geral em lugar destacado. Se diz diletante da tradução e, como se pode observar nas obras que verteu para o português, leva essa condição de séria dedicação à arte por prazer às últimas consequências. Vamos à entrevista:
PR: De onde surgiu o amor pela tradução? Ser chamado de profissional da tradução, tendo em vista tantas obras traduzidas e consideradas modelares, seria incômodo?
Jorio: Eu tenho amor às letras. Ao contrário de Castro Alves, que num poema afirmou “eu sinto em mim o borbulhar do gênio”, nunca me subiu das entranhas a ânsia de dizer algo novo ou de forma diferente, a meu juízo a única boa razão para alguém desejar ser escritor. Sendo assim, adotei com muito orgulho o prazer vicário de trazer para o vernáculo aquilo que alguém produzira de modo notável em outro idioma – gente como Vladimir Nabokov, J.D. Salinger, Thomas Pynchon, Philip Roth e Ian McEwan, que devem figurar em qualquer seleção dos maiores das últimas décadas. Mas não posso me identificar como “profissional” da tradução porque sou diplomata de carreira e, depois de aposentado, consultor de empresas e homem de negócios. A tradução foi e continua a ser um passatempo, um ato de diletantismo.
PR: Em diversas entrevistas o senhor explica como chegou à tradução. E como foi o segundo passo, ou seja, se reconhecer tradutor?
Jorio: Costumo contar que cheguei à tradução pelo amor ao Catcher in the Rye, lido aos dezenove anos quando passei uma temporada nos Estados Unidos. Já no Instituto Rio Branco, encontrei dois outros colegas também apaixonados pela obra de Salinger – Alvaro Alencar e Antônio Rocha – daí nascendo o Apanhador no campo de centeio a seis mãos. Gostei do ofício, sobretudo pelo que ele tem de lúdico – o jogo sutil, arriscado e infinito de encontrar as equivalências em português para o que foi tão brilhantemente construído em inglês (única língua estrangeira com a qual trabalho). Desde então, e lá se vão algumas décadas, a tradução também passou a constituir um refúgio mental, um espaço onde só eu posso penetrar a qualquer hora do dia e da noite – ou, como já disse em outra oportunidade, minha nave espacial.
PR: Como o senhor vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na opinião do senhor?
Jorio: Tenho o maior respeito pelas pessoas que traduzem profissionalmente porque acho que a atividade é pouco reconhecida e mal remunerada. Aliás, embora eu seja um tradutor “literário” por inclinação e condicionamento existencial, dou grande valor aos tradutores “técnicos”, área em que as exigências de qualidade são até maiores. Afinal de contas, uma boa versão de um tratado de medicina pode ajudar a salvar minha vida, enquanto a leitura de Lolita só serve para enriquecê-la. Quanto ao reconhecimento, acho que os resenhistas deveriam gastar ao menos uma frase para comentar os méritos (ou deméritos) da versão que acabaram de ler, enquanto a Academia Brasileira de Letras deveria outorgar seu prêmio de tradução a partir de uma avaliação séria (não o concedendo, como fez agora, a alguém que aparentemente nem mesmo possui alguns dicionários colegiais do francês e do inglês para o português). Quanto à remuneração, é de esperar que a evolução do mercado cuide de melhorá-la, mas não posso deixar de mencionar o fato auspicioso de que Philip Roth exige que a editora (no caso a Companhia das Letras) repasse um por cento do valor da venda de suas obras para o tradutor. Esse exemplo bem que podia pegar…
PR: O senhor foi um dos tradutores que, em solidariedade à Denise Bottmann, lançaram o famoso manifesto em defesa da luta contra o plágio, que recebeu mais de três mil adesões. Podemos comemorar uma mudança no mercado ou ainda há muito o que fazer para evitar o plágio e as contrafações?
Jorio: Tenho asco desses mercadores de livros que, para não pagar uns vis reais a tantos bons tradutores necessitados de trabalho, roubaram sistematicamente o patrimônio intelectual de pessoas muitas vezes já mortas. Isso é caso de polícia, porém ficaria imerso no mar de ignorância e impunidade que infelizmente ainda banha o Brasil não fosse a garra e a persistência de Denise Bottmann. Estou com ela desde a primeira hora e, nessa luta, vou com ela até as últimas consequências, sobretudo quando os próprios autores desses plágios indecentes têm o descaramento de tentar coagi-la com ações judiciais.
PR: Boris Schneiderman é um incansável tradutor e retradutor das próprias obras que traduziu, inclusive renegando algumas delas feitas no início de sua carreira. Em entrevista ao Correio Braziliense o senhor disse que se fosse rever O apanhador no campo de centeio, convocaria um painel de jovens para ajudá-lo. O senhor pensa em fazê-lo algum dia? Na opinião do senhor, as traduções precisam de novas versões com certa frequência ou há traduções “intocáveis”?
Jorio: Ao que eu saiba, os direitos de tradução de O apanhador continuam nas mãos da Editora do Autor. Caso ela me solicite, sem dúvida farei uma revisão em que, dado o caráter absolutamente coloquial do texto, caberia ouvir os jovens de hoje com respeito às gírias ali registradas. Não há tradução intocável porque a língua está em evolução constante, com palavras que caem de moda e também com alterações de estilo, mudanças na forma em que as coisas são ditas, etc. Eu próprio já fiz traduções “novas” de Lolita, do Nabokov, e de Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação, de Salinger. Seria até interessante que alguém estudasse a evolução da linguagem de uso corrente comparando traduções de épocas diversas, mas não creio que isso tenha sido feito.
PR: O que o senhor lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para o senhor?
Jorio: Leio de tudo e, seguindo o conselho básico de Nabokov, também releio. No momento estou lendo um livro de contos da excelente escritora norte-americana Annie Proulx, That Old Ace in the Hole. Mas estou mesmo é imerso na tradução de mais um Roth, ainda inédito também nos Estados Unidos.
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão, ou melhor, na grande paixão que é a tradução.
Jorio: Como nunca li nenhum tratado sobre tradução, sugiro que os iniciantes se deixem guiar pelo prazer – desde que entendam que é vital conhecer muito bem os dois idiomas sobre os quais pretendem operar o pequeno milagre da transposição.
PR: Muito obrigado pela participação.



Petê,
apesar de não comentar leio todas suas ótimas entrevistas.
Esta, em particular, me emocionou e me confortou pela defesa contudente da luta de Denise Bottmann, o plágio de traduções no Brasil.
Se me permite colocarei uma nota no Jane Austen em Português. Obrigada.
Para você ver, Raquel, que a Denise está bem amparada em sua luta contra os descalabros de plagiadores e outros bandidos.
Abraço e obrigado pela divulgação.
considero jorio dauster um dos grandes tradutores literários do país, com uma visão e uma prática lúcida e madura do ofício. e vejo como um engrandecimento do ofício que ele sempre inclua com destaque, em seus artigos sobre política, economia, relações exteriores etc., sua atividade de tradutor.
parabéns pela entrevista, e agradeço a menção a meu nome na luta contra o plágio. com efeito, jorio sempre esteve na linha de frente dessa briga.
[...] Rissatti entrevistou, para sua série “Conversas entre tradutores”, Jorio Dauster, que já traduziu obras de Vladimir Nabokov e Philip Roth, entre [...]
A observação do tradutor e embaixador Jório Dauster sobre as “re-traduções” remete a outra questão: um clássico só o é quando também tem uma história editorial. As reedições – e as múltiplas leituras desses reedições por gerações de leitores – é que renovam o significado do escrito para a atualidade. E, nos casos mais antigos, as próprias intervenções editoriais são fundamentais: quem teve em mãos a edição comemorativa dos quatrocentos anos do Quixote, publicada pela Alfaguara e viu as amostras facsimilares das primeiras edições percebe que seria extremamente difícil a leitura, hoje, do romance se não tivesse havido, no decorrer dos séculos, a normatização de ortografia, pontuação, abertura de parágrafos, etc. Sem falar nas notas.
As traduções também se incorporam no corpus da obra, tal como as sucessivas edições no idioma original.
[...] Entrevista completa de Jorio Dauster no blog de Petê Rissati [...]