Conheci Ivone C. Benedetti no evento da União Latina deste ano e pude finalmente conversar um pouco com uma grande tradutora, a qual admirava de longe pelas traduções e por descobrir que é também uma escritora já reconhecida (inclusive concorreu ao Prêmio São Paulo de Literatura deste ano). Doutora pela USP em Literatura francesa, tem uma carreira bastante sólida e reconhecida na área de tradução e os textos sobre área em seu blogue, A Grenha, são imperdíveis e bastante esclarecedores. A convite deste blogue ela conversará um pouco com a gente
PR: Ivone, como você chegou à tradução?
Ivone: Ela sempre esteve como potencial no meu destino. Um dia resolvi cumprir esse destino. Mas, como a magia sempre se concretiza com instrumentos prosaicos, a mola do ato foi meu senso de responsabilidade materna. Em 1987 eu havia me separado fazia pouco tempo, estava trabalhando em tempo integral, e o menino ficava longe de mim o dia inteiro. Então decidi largar o bom emprego que tinha e tentar a única profissão que me deixaria perto do meu filho: tradução. Encontrei, felizmente, quem confiou em mim e me entregou o primeiro texto. No dia em que me despedi do meu chefe (pessoa muito querida, aliás), ele me perguntou: “Quanto você acha que vai ganhar?”. Eu respondi: “Se der para a feira, está bom”. O comentário dele foi: “Você é louca”. Bem, estou fazendo feira até hoje.
PR: Não há como desvincular seu nome dos círculos de grandes tradutores brasileiros e também do livro Conversas com Tradutores, inspiração para este espaço aqui no blogue. Por isso lanço aqui uma perguntinha que está lá: “o que seria considerado erro e acerto em tradução?”
Ivone: Tudo depende de uma tipologia textual. Vamos considerar os chamados textos veiculares, aqueles que são escritos com o intuito principal de transmitir informações, sem pretensão artística. Um primeiro nível, o mais óbvio, seria aquele que os jornalistas captam quando criticam traduções: a não coincidência entre signo e referente. Por exemplo: você chamar de trompa o que é trompete. O que te dá a medida do erro? O exame do referente, elemento extralinguístico comum aos dois mundos culturais em jogo, que serve como terceiro elemento aferidor, no caso um instrumento musical determinado. Quando o referente é concreto tudo é mais fácil, mas há referentes abstratos. Por exemplo, podemos dizer que há erro na tradução de eventually por eventualmente; nesse caso a aferição se dá por meio de um terceiro elemento, um conceito, e justamente por isso esse tipo de confusão tende a ser mais duradoura. Aliás, estou citando esse caso porque me cansa ver eventualmentes em legendas da tevê que eu pago como assinante, o que me transforma numa consumidora lesada. Outro tipo de erro bastante comum, que vai além da simples relação entre signo e referente, entra no nível conceitual-contextual; trata-se da incompreensão do sentido de toda uma frase. Você pode dizer que as palavras estão todas lá, geralmente traduzidas ao pé da letra, mas o sentido não é aquele. Como ocorre isso? Em geral, nos momentos em que só o contexto pode elucidar que escolha fazer entre várias possibilidades de tradução de uma palavra, uma expressão, uma correlação de termos, e essa escolha depende do conhecimento que o tradutor tenha do assunto. Esse tipo de erro só pode ser captado por meio de um raciocínio mais complexo, que pode escapar a um tradutor apressado ou, quem sabe, não muito preparado para aquele texto. Esse raciocínio não será redutível a um terceiro elemento aferidor, a um referente simples. O leigo pode ler a frase e ser induzido em erro, entender coisa diferente do que realmente o texto diz, e essa coisa pode até ter um sentido, que não será o verdadeiro. Em suma, nos três exemplos que te dei, qual seria a essência do erro? Na minha opinião, induzir o leitor a entender coisa diferente daquela que está no texto de origem. Parece-me importante considerar o destinatário da mensagem na discussão do erro, coisa que pouco vejo por aí. E aqui quero fazer um parêntese para dizer que é preciso ter cuidado com o relativismo em teorias da tradução. Quem leva a sério certas ideias relativistas aplicadas a esse campo pode acabar dizendo coisas como “não existe erro em tradução”. Já ouvi isso. É uma demonstração do ponto a que pode chegar o pensamento quando dissociado da realidade, um verdadeiro autismo teórico. É certo que há coisas discutíveis, que uns podem considerar erro, outros não. Mas isso não autoriza generalizações desse tipo.
Bom, o que eu disse acima, repito, refere-se principalmente a textos veiculares. No entanto, se considerarmos também os textos poéticos ou a prosa literária, a discussão sobre o erro pode ampliar-se, levando em conta outros elementos, como literalidade ou não, registro, frequência de uso, táticas mais ou menos apropriadas de abordagem, percepção ou não de intertextualidades e alusões, transposição ou não de elementos formais e coisas do gênero. Para isso, seria preciso escrever um tratado. E há vários sobre o assunto em várias línguas.
PR: Como você vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?
Ivone: Depende do mercado em que o profissional atue. Gosto de deixar claro que não divido os tradutores em técnicos e literários, como faz a maioria. Essa divisão não é operacional. O que divide realmente os tradutores são os diferentes mercados em que atuam, mercados que, por funcionarem segundo regras diferentes, determinam diferenças no poder de barganha das partes envolvidas. Esses mercados são essencialmente dois: o do cliente que precisa da tradução para uma finalidade exterior a ela e o das editoras, que têm na tradução um produto final concretizado na forma de livro. Os dois encaram o tradutor de modos diferentes. O primeiro considera que o tradutor lhe presta um serviço que não faz parte da sua própria especialidade: o tradutor é então um especialista contratado. O segundo vê o tradutor como um elemento da sua linha de produção. Na prática, o primeiro pergunta quanto o tradutor cobra; o segundo informa quanto paga, sem aceitar contraproposta. É bem verdade que de algum tempo para cá entrou um terceiro ator nesse jogo: as agências. Estas têm contribuído bastante para aviltar o preço dos tradutores que atuam no mercado não editorial. O poder de barganha do tradutor é, portanto, muito maior naquele primeiro caso e bem menor no caso da editora e da agência. De qualquer modo, independentemente disso, em qualquer área de atuação a tradução é uma atividade cuja complexidade não é sequer pressentida por quem não a pratica. Por isso é subestimada. Junte-se a isso a pífia capacidade de união dos tradutores como categoria profissional, e você tem condições deploráveis de preço no mercado editorial, cujos preços não mudam há pelo menos dois anos. Quanto ao público, desinformado e mal informado, quando lê uma tradução nem se dá conta de que um ser humano com nome, endereço e RG fez aquilo. Principalmente se o trabalho estiver bom.
PR: Muitos dizem ser impossível conciliar teoria e prática de tradução, outros são muito mais otimistas e buscam maneiras de ter claro a teoria e aplicá-la no dia a dia tradutório. Qual a sua opinião sobre esse “impasse” entre teoria e prática?
Ivone: Acho que não me enquadro em nenhum dos dois casos. O que vejo na realidade atual é uma dissociação completa entre as duas, e isso tem relação com o modo como o pensamento ocidental se constituiu e com as peculiaridades com que ele se implantou no Brasil. A discussão das relações entre teoria e prática em todos os campos é tão velha quanto a Grécia, portanto o assunto não deve ser simples. De modo geral, os teóricos da tradução no Brasil são vistos como seres dados à pura especulação, enquanto os tradutores, os “braçais”, se entregam à faina diária sem reflexão sobre o que fazem. Em grande parte isso é verdade. Mas é simplificar. Na realidade, há teorias para todos os gostos. Há desde os teóricos considerados mais normativos, que analisam as opções a partir da prática e indicam o que consideram melhor, até os que teorizam a partir de alguma corrente de pensamento mais geral, sem se aterem à prática, passando pelos que abordam a tradução em contextos históricos específicos, levando em conta as interações da tradução com seu meio e trazendo para o jogo, inclusive, a figura humana do tradutor. Tudo me parece válido, desde que recebido com atitude crítica. Para começar, é preciso saber o que se quer da teoria. Toda teoria é fruto de uma reflexão de alguém sobre algo. Sempre é enriquecedor saber o que algumas boas mentes pensaram sobre certos assuntos, sobretudo se esse assunto é o nosso ganha-pão. O grande problema é que toda boa reflexão sempre chama uma contrarreflexão, mas esta nem sempre atende, pois o hábito de refletir faz parte da vida de um número ínfimo de pessoas, mesmo das que são pagas para isso. Assim, muitos dos que deveriam refletir sobre dado assunto na verdade o que mais fazem é refletir o que se disse sobre tal assunto, de preferência no exterior. E, quando alguém apenas reflete o que disse outrem, por definição não se tem reflexão, e sim reflexo… muitas vezes distorcido. O tradutor prático, de modo geral, é mais permeável às teorias que tenham mais proximidade com seu fazer diário. Perfeitamente compreensível. Por isso, os teóricos mais puros são vistos como uma espécie extraterrestre que diz coisas inaplicáveis. Acontece que o objetivo deles não é a “aplicação”, e sim a dedução de um sistema ou de alguma essência, e o teor do que dizem é puramente abstrato, faz parte de um espectro de pensamento de cunho filosófico mais amplo. Do meu ponto de vista — reitero: é opinião pessoal —, eu diria que são mais profícuas as teorias que refletem sobre a prática, de tal maneira que essa reflexão possa tornar o praticante mais consciente daquilo que faz e possibilitar que ele questione o modo como o faz e o modo como ele mesmo se situa no seu meio. Trata-se de uma interrelação dinâmica e idealmente crítica entre teoria e prática. E isso é sempre mais difícil do que ficar papagaiando o que outros dizem sem se perguntar se aquilo não é uma bobagem.
PR: Você é uma das idealizadoras do manifesto de apoio à Denise Bottmann. Qual a sua opinião sobre a questão do plágio e como vê a situação hoje, depois desse tempo de luta da Denise contra o crime contra a cultura e seus agentes?
Ivone: Não sei se posso dizer muito mais do que a Denise disse, pois ela sempre deu declarações claras e lúcidas a respeito. Tenho certeza de que, graças a ela, hoje nos meios intelectuais há muita gente pensando no assunto, há mais consciência sobre a importância da tradução e sobre o papel do tradutor. Mas uma coisa que sempre me impressionou nesse processo todo é aquilo que está implicado na prática do plágio, ou seja, a crassa ignorância sobre o que é tradução. Alguém que tenha a mínima percepção de tudo o que o ato da tradução envolve jamais poderá acreditar que um mesmo texto passará para outro idioma de maneira idêntica pelas mãos de duas pessoas diferentes, e que as diferenças nunca estão apenas no nível vocabular. Seria de se esperar um mínimo de informação por parte daqueles que fazem do livro a sua profissão.
PR: Conte-nos um pouquinho sobre a escritora Ivone C. Benedetti e como a tradução auxilia esse outro lado de criação.
Ivone: Engraçado, essa pergunta me foi feita pelo Cadão Volpato num dos eventos em torno do prêmio São Paulo. Respondo a você mais o menos o que disse a ele. No meu caso, não é a tradução que auxilia a escrita literária, mas o inverso. Sempre escrevi, e a facilidade que tenho de me expressar por escrito acaba por se refletir na prática da tradução. Posso dizer que hoje a criação literária mobiliza muito mais o meu interesse do que a tradução, e que o tempo dedicado à tradução eu sinto como um tempo roubado à criação literária. No entanto, quem traduz está sempre recebendo informações. Por exemplo, enquanto escrevia Immaculada, traduzia Voltaire. Quando li a opinião dele sobre a propriedade privada em mãos de camponeses logo pensei: ótimo tema para uma conversa de latifundiários num almoço de fim de semana.
PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
Ivone: Há uns vinte anos eu te daria uma longa lista de dicionários, em papel ou CD. Eles continuam imprescindíveis. Mas hoje eu acrescento: uma boa conexão de banda larga.
PR: O que você lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para você?
Ivone: Tudo. Sempre fui leitora voraz. No momento estou dando um tempo, saindo de uma fase de leitura intensiva dos ficcionistas brasileiros contemporâneos. Essa fase durou uns dois anos. E ainda falta muita gente. Mas preciso dar um tempo e voltar aos franceses e aos italianos.
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Ivone: O que posso dizer? Vamos ao que sinto hoje em dia. Primeiro, ter a humildade socrática de admitir que, em tradução, tudo o que sabemos é que nunca saberemos tudo. Segundo, ter a paciência de chegar às últimas consequencias na busca do termo ou da informação e não ceder à preguiça. Terceiro, contar até dez antes de dizer que o autor escreveu uma frase sem sentido; em geral somos nós que não entendemos. Quarto, sempre desconfiar, desconfiar, desconfiar. Quinto: estudar muito e não se limitar a uma só cultura e a uma só língua: a tradução põe em movimento uma quantidade tão imensa de conhecimentos, que, quanto mais janelas abrirmos, maior será nossa parcela de visão desse imenso panorama que se chama civilização.
Muito obrigado pela participação.
COMO FICO FELIZ QUANDO SE PERGUNTA SOBRE O COMO COMEÇAR !
HA MUITA COISA NAS LIVRARIAS PARA SE LER …. SEMPRE É BOM SE LER DE TUDO ! COMO ELA BEM DISSE … A CIVILIZAÇAO É MUITA COISA E TEM QUE LER, LER, LER E….LER !