Entrevista tripla, vamos lá? Érika Lessa, Cláudia Belhassof e Marcelo Neves, três tradutores profissionais que conheci nos meus passeios virtuais, tiveram uma iniciativa bem bacana: o TradCast, primeiro podcast brasileiro para tradutores. Os episódios quinzenais são no modelo bate-papo, com dicas para tradutores iniciantes e já na estrada. Vamos ver o que os três têm a dizer no Conversas entre Tradutores.
PR: Meus caros, vamos ver como vai funcionar essa tripla entrevista. Queria saber dos três: como chegaram e se estabeleceram na área de tradução?
Cláudia: Quando eu ainda era secretária (parece que foi em outra vida), já fazia muitas traduções internamente para as empresas em que trabalhava, mas não era nada formal. Quando estava terminando a faculdade de Administração, em 2003, um amigo me indicou para fazer a revisão de um livro da área. Aceitei, apesar de nunca ter feito nada parecido. Morri de medo de fazer besteira, mas acho que gostaram do meu trabalho, pois a editora me contratou de novo para outros livros. Depois uma outra amiga me indicou para outra editora e consegui uma terceira editora por conta própria, sem indicação.
Fazendo revisão para três editoras, percebi que havia uma oportunidade para traduzir, pois encontrava muitos erros de tradução. Sabe aquela sensação de “posso fazer melhor”? Pois é. (Não me olhem torto. Vocês sabem que existem profissionais ruins em todas as áreas de atuação.) Foi aí que insisti, insisti e consegui que me dessem um teste de tradução. Fui aprovada com louvor e passei a traduzir também. Fiz alguns cursos e participei de vários congressos e palestras da área para aprender e me aperfeiçoar. De lá para cá, já foram 15 livros traduzidos e quase 90 revisados, em sete editoras diferentes.
Érika: Oxi, e quem disse que já sou estabelecida? Ainda ralo muito para um dia poder dizer isso.
Marcelo: Eu estava voltando de uma temporada na Alemanha e uma colega me disse que uma empresa aqui no Rio estava dando treinamento de tradução alemão-português. Foi uma oportunidade única, porque a probabilidade de abrir uma turma nesse par de idiomas é próxima de zero. Comecei o curso e, quando estávamos na metade, um dia me ligaram da empresa, porque um cliente deles precisava de um tradutor (e, só depois fui saber, também intérprete) e o que já estava contratado teve um contratempo, não poderia comparecer, e a pessoa teria que estar lá na segunda-feira (me ligaram no sábado!) para passar a semana inteira (detalhe: isso era em outra cidade!). Pedi meia hora para pensar, pesei todos os contras (não tinha experiência, teria que passar a semana inteira numa cidade desconhecida, etc), e antes de pensar também nos prós, não deu cinco minutos, liguei aceitando. Aquele trabalho de uma semana acabou levando a um contrato de três meses, depois um ano e, depois disso, logo eu estava conseguindo me estabelecer como tradutor/intérprete autônomo. Só alguns anos depois eu me qualifiquei como intérprete simultâneo, que é a atividade a que mais me dedico hoje.
PR: E como surgiu a ideia do TradCast? E como vocês ajeitam a agenda para manter os programas?
Cláudia: Em 2008, participei como convidada do podcast “Fala Freela”, falando sobre tradução e revisão. Foram apenas 20 minutos de gravação, e, com isso, não tive tempo de abordar todos os assuntos que eu gostaria. Aí me veio a ideia de fazer um podcast só sobre tradução. Fiquei ainda mais animada quando descobri que ainda não havia um podcast brasileiro sobre o assunto. Tive a ideia de convidar o Marcelo e a Érika para fazerem parte da equipe porque os dois são competentes e bons amigos. Achei que seria um grupo interessante.
Quanto à agenda, esse é nosso maior problema. Foi por isso que demoramos tanto para gravar, editar e publicar o primeiro episódio. O site já existia há um ano e ainda não tínhamos conseguido fazer nada. Incrível, né? Quando o registro do domínio estava para vencer, sentamos e decidimos que aquela era a hora do “dá ou desce”: ou íamos pra frente ou desistíamos. E estamos aí, firmes e fortes.
Érika: Eu fui chamada pela Cláudia, que veio com aquela cara de “tive uma ideia genial”. Mesmo sem saber como íamos levar aqui adiante, topei. Quanto ao lance de agendas, é complicado, viu? Tentamos manter um dia na semana para fazer isso, mas temos que ser flexíveis.
Marcelo: Dei entrevista a um podcast sobre tradução dos EUA durante o congresso da ATA em Orlando, em 2008, e na época fiquei pensando que poderíamos fazer algo assim por aqui também. Depois, conversando com a Cláudia, vi que ela também já tinha essa ideia, fomos unindo forças também com a Érika e começamos a por em prática. Demorou um pouquinho, justamente por causa das nossas agendas, mas saiu. Quanto a ajeitar a agenda, essa, sem dúvida, é a parte mais difícil. Já houve dois episódios, por exemplo, em que eu não pude estar presente, porque volta e meia viajo a trabalho. Mas vamos levando, não tem mesmo uma fórmula para isso, pois nossas agendas, além de cheias, são imprevisíveis.
PR: Como vocês veem a nossa profissão hoje? E como as pessoas veem a tradução na opinião de vocês?
Cláudia: As pessoas têm mania de dizer que a nossa profissão está acabando, que tudo será feito por máquinas daqui em diante. Não creio nisso. Acho que nenhuma máquina substituirá o “feeling” do tradutor humano. Algumas sutilezas a máquina não capta. Pelo menos por enquanto.
E acho que as pessoas estão aprendendo a valorizar nossa profissão a cada dia. Já aconteceu de pessoas me parabenizarem por uma tradução. E isso nos dá, além de orgulho, claro, uma sensação de dever cumprido, de valorização do nosso trabalho. É bom demais.
Érika: É uma profissão com muito mercado, já que é rica em nichos e especificidades. É instigante também, se você pensar na quantidade de informação – seja para usar no próprio trabalho, seja extraída dele – a que somos expostos diariamente é imensa. Como dizia uma professora, “o tradutor é especialista em generalidades”. É assim que me sinto. Mas, de modo geral, não acho que a tradução seja bem vista. Não é mimimi. Ou você nunca teve de ouvir aquela lista de “erros de tradução” depois de descobrirem que você é tradutor?
Marcelo: Uma das mudanças que vejo na profissão desde que comecei a trabalhar foi uma valorização das redes de contato, desde as listas de discussão até os congressos não-acadêmicos, que têm sido de muito alto nível. Quanto às pessoas “de fora”, ainda existe um pouco a noção de que tradução é um bico, mas acho que a tendência é uma valorização por parte desse público também.
PR: Como vocês lidam com as ferramentas de tradução tão em voga hoje? Especialmente a Cláudia, que se dedica mais à tradução editorial?
Cláudia: Faço uso diário do Wordfast e provavelmente passarei a usar o MemoQ em breve. Essas ferramentas agilizam a tradução porque não nos obrigam a anotar nem guardar na nossa memória (a do cérebro, não a do computador) os termos que aparecem com frequência no texto. Antes de usar essas ferramentas, eu trabalhava com uma lista de termos de cada livro na minha frente, todos anotados à mão. Imagina o caos?
Érika: Eu acabo usando unicamente o Wordfast. Meus trabalhos de tradução escrita são sempre em Word. Não sei se teria demanda para investimento em outras. Mas é algo que tenho avaliado, procurado conhecer.
Marcelo: Quando acompanho as novidades pelo Twitter, pelas listas ou pelos congressos, percebo que estou um pouco desatualizado, especialmente porque me dedico mais à interpretação, mas tenho muita curiosidade e vontade de investir mais nas ferramentas que aumentam a produtividade.
PR: O que não pode faltar na mesa de trabalho de vocês?
Cláudia: Água (ok, a maioria das vezes é refrigerante), uma agenda de papel, canetas (de preferência, bem coloridas), meu computador, um apoio para o original do livro que estou traduzindo naquele momento. Além disso, tenho sempre por perto o Dicionário de Sinônimos e Antônimos do Houaiss; o Dicionário de Verbos do Houaiss; o Dicionário de Regência Verbal e o de Regência Nominal, ambos do Celso Luft; o VocabuLando, da Isa Mara Lando; e a Moderna Gramática Portuguesa, do Evanildo Bechara. Esses livros me ajudam quando estou traduzindo e/ou revisando traduções e autores nacionais.
Érika: Depende. Em evento, não fico sem Post-it, por exemplo. Mas, no geral, água.
Marcelo: Pelo menos um computador, claro, e água.
PR: O que a vocês leem além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para vocês?
Cláudia: Ai, Petê, eu leio muita bobagem. Adoro chic-lit! Marian Keyes e Meg Cabot me divertem muito! Depois de um dia de trabalho com textos mais técnicos (traduzo muitos livros de Administração), gosto de ler bobagens mesmo.
Érika: Leio sobre várias coisas diferentes… O último foi “O menino do pijama listrado”, que superou as minhas expectativas, por ser sensível e ácido ao mesmo tempo. Comecei a ler agora o “Nosso Lar”, por causa da estreia do filme, em setembro.
Marcelo: Por causa do mestrado, estou lendo muito texto acadêmico, e também muita coisa do Borges, pois minha pesquisa envolve esse autor. Mas na fila está o “Trapo” do Cristóvão Tezza, pois me apaixonei por esse autor depois que li “O filho eterno”. Dos autores brasileiros contemporâneos, ele e o Milton Hatoum estão, para mim, no topo.
PR: Deixem um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Cláudia: Ai, que difícil. Se conselho fosse bom era vendido, né? Mas deixo um conselho que pode servir para todos: estudem sempre; e muito. Estudem a língua de origem e, principalmente, estudem português. Lembrem-se que, antes de qualquer coisa, o tradutor é um autor. Ele reescreve o texto em seu idioma, então precisa conhecer muito bem este idioma.
Saibam se relacionar com os colegas, aprendam a vender seu nome, tenham um site e/ou blog para falar da profissão, participe de cursos, seminários, congressos: faça contatos com colegas novos e experientes. Na nossa profissão, contato é algo especialmente importante. Como eu disse no início da entrevista, fui indicada por amigos para quase todas as editoras para quem trabalho. Apenas uma delas foi por conta própria. É lógico que existe concorrência, mas também existe uma camaradagem muito grande no nosso meio. Aprenda a conquistar as pessoas e a conviver bem com elas. Isso é essencial não só para a profissão, mas para a vida, né?
Érika: Leia. Muito. Tudo. Qualquer coisa. O conceito de “cultura inútil” inexiste na profissão. Aquilo que parece inútil vai ter um valor gigantesco quando dito pelo palestrante e você tiver a referência na mente, ou quando lhe poupar alguns minutos de busca… Seja curioso também. Aliás, se você não é, não gosta de fuçar, pesquisar, nem tente seguir na profissão…
Marcelo: Quem nos ensina a ser cada vez melhores são nossos concorrentes, portanto não os tema: agradeça a eles todos os dias. E lembre-se que não se consegue nada sem esforço.
PR: Muito obrigado pela participação.



Que meninos simpáticos, não?
ótimo! como é séria e profissional essa nossa atividade! parabéns aos três e a petê, por entrevista tão simpática.
Parabéns ! Para alguém que está pensando em começar é maravilhoso sentir o quanto vocês são entusiasmados pelo que fazem.
Gostei muito da entrevista, mas também fiquei preocupado com o comentário da Cláudia sobre a substituição de tradutores humanos por máquinas. Será que o risco é grande? Estou pensando na tradução, mas quero ter certeza que meu esforço não será em vão.
Um abraço!