Neste dia do tradutor, trago para o Conversas entre Tradutores aquela que considero minha madrinha de traduções alemãs, Clara Azank. Conheci a aplicada Clara num curso de oficina de tradução do Instituto Goethe, aqui em São Paulo, e sempre fiquei muito impressionado que, mesmo tradutora já estabelecida, inclusive tradutora pública, ainda continuou (e continua) a estudar junto com iniciantes na arte da tradução, como eu era naquela época (em 2004). Depois de certa hesitação, ela topou a entrevista, o que me deixou muito feliz. Aposto que vocês também irão gostar.
PR: Clara, conte pra gente como foi seu ingresso na tradução?
Clara: Em meados dos anos 60 tive as primeiras aulas de alemão em um anexo do Colégio Porto Seguro, que na época funcionava na Praça Roosevelt. Desde então aprendê-la tem sido um grande e estimulante desafio. Dois anos e meio em Munique nos anos 70 reforçaram o aprendizado, ao mesmo tempo em que criaram forte vínculo meu com o País, com a região da Baviera e com o simpático dialeto bávaro. O trabalho durante 29 anos em uma empresa multinacional alemã permitiu o contato freqüente com pessoas de origem alemã, com a mentalidade empresarial alemã e com a língua. Elaborar e traduzir textos técnicos, de correspondência e burocráticos era parte da rotina de escritório. Na transição da vida profissional para a aposentadoria me preocupei em buscar uma nova atividade que me desse satisfação, além de flexibilidade de horário. Surgiu então a primeira oportunidade de tradução livre. Fiz parte de um grupo de tradutores, que traduzia a série de ficção científica Perry Rodan. Assim, o ingresso nesse mundo plural, exigente e controverso da tradução aconteceu de modo muito natural. Fui levada a ele pelo prazer de lidar com a língua alemã.
PR: Você é tradutora pública, do último concurso (1999)? Em dez anos alguma coisa mudou para o TPIC?
Clara: Sim, sou TPIC da última leva. A profissão, que é regulamentada por decreto bem antigo (1943), e que foi complementado por um regulamento mais recente (Setembro/2008), parece não ter tido grandes mudanças ao longo desses anos. O novo regulamento, que contou com a instância da ATPIESP – Associação Profissional dos Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais, atualizou a tabela de emolumentos e há um projeto de lei para disciplinar o exercício do TPIC em todo território nacional. Aguarda aprovação. Uma mudança desejável seria a regulamentação da profissão de tradutor em todas as categorias (tradutores técnicos, tradutores literários etc.).
PR: Como vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução em sua opinião?
Clara: Com muita admiração. No mundo globalizado em que vivemos e com a intensificação do intercâmbio entre povos, culturas, sociedades, empresas, o papel do tradutor cresce em importância. Há necessidade constante de disseminação de informação, tanto cultural, científica, tecnológica como empresarial/comercial. Além disso, o acesso a muitas das “grandes obras” da cultura mundial – literatura, cinema, teatro – se dá através de traduções. O papel central do tradutor como mediador nesse processo fica bastante evidente.
No exercício da profissão o tradutor tem de atender exigências de mercado que conflitam com o ato intelectual e prazeroso de transpor textos de um idioma para outro. O domínio do idioma, a cultura abrangente, a rapidez, uma das características mais importantes nos dias atuais, a pontualidade, e tantos outros itens importantes, fazem da atividade um verdadeiro triathlon intelectual. Nem sempre o tradutor é reconhecido. Prova disso são os baixos valores pagos pelas editoras aos tradutores proporcionalmente à importância do seu trabalho na edição de livros estrangeiros. Com freqüência temos, os TPICs, dificuldade de explicar a necessidade de cobrar de acordo com a tabela da JUCESP, o que mostra como o cliente atribui pouco valor ao trabalho intelectual da tradução juramentada de documentos. Por outro lado, noto uma valorização do papel do tradutor por parte da imprensa, ao mencionarem seu nome nas resenhas e críticas de livros estrangeiros.
PR: Você foi a responsável pela minha primeiríssima tradução profissional do idioma alemão, da série de ficção científica Perry Rhodan. Conte um pouco sobre essa experiência.
Clara: Perry Rhodan era uma viagem! Fantasiar aqueles extraterrestres e paisagens espaciais era um divertimento. Os autores da série criavam com freqüência termos quase intraduzíveis. O grupo de tradutores, com apoio da editora, criou um glossário próprio, que nos auxiliava na tradução e padronizava os termos com maior ocorrência. Foi uma experiência gostosa.
PR: Como você vê a recepção das traduções de obras alemãs hoje, praticamente todas vindo diretamente do original?
Clara: Vir diretamente do original é imprescindível, em qualquer idioma. Veja o comentário de Monteiro Lobato sobre os Contos de Grimm, que vinham de Portugal, distribuídos pela Editora Garnier: “Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos que refazer tudo isso, abrasileirar a linguagem”. É surpreendente o aumento de títulos de autores jovens alemães sendo publicados por editoras como Iluminuras, Estação Liberdade, SENAC, Cia. Das Letras etc., com tradução direta do original, e mesmo reedição de títulos consagrados, agora com tradução direta do alemão. Isto é animador.
PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
Clara: Os sites de tradução. Sou dependente desses sites e do meu próprio glossário.
PR: O que você lê além dos textos que traduz? Qual é o livro do momento para você?
Clara: Gosto de ler histórias bem escritas, não tenho um gênero definido. Leio devagar, analisando sempre a linguagem. Terminei de ler um livro delicioso de Siegfried Lenz, “Schweigeminute” e, paralelamente, “Sua Majestade o Intérprete”, de Ewandro Magalhães Jr., que descreve com muito humor o mundo da tradução simultânea e faz excelentes observações sobre particularidades da atividade do intérprete. Estou bastante interessada no “Die Weltensammler” de Ilija Trojanow. Talvez seja minha próxima leitura.
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Clara: Vou citar Ewandro Magalhães Jr., que compara sua experiência como intérprete à escalada de uma montanha: “Aprendi a buscar o aprendizado da experiência pela experiência. … Sugiro que você faça o mesmo. Suba sem pressa, parando de vez em quando para apreciar a paisagem e reverenciar a opulência das rochas e abismos que encontrará pelo caminho. Ao fim, cuide de resgatar e guardar consigo um profundo senso de gratidão pela experiência e pelas oportunidades que a vida lhe dá. De tudo, isso talvez seja a única coisa que realmente importa.” Feliz Dia do Tradutor!
PR: Feliz Dia do Tradutor a todos nós! E Muito obrigado pela participação, Clara.



que maravilhoso! e que bela citação a de ewandro. parabéns a clara e obg ao entrevistador por trazer esse depoimento a seus leitores.
Ótima entrevista. Adorei a Clara. Pet, parabéns pelo seu blog e muito sucesso sempre! Beijos
Obrigado Telma… mas… e a Telminha? Tá chegando? Já chegou? E você ainda tá postando, menina? Vai dar a luz já!
Beijos.
Depoimento fantástico. Você não podia ter escolhido uma profissional melhor para sua entrevista. Além de excelente profissional a Clara é uma amiga maravilhosa.
Parabéns e muito sucesso!
Clara, seus comentários são sempre tão lúcidos! Parabéns ao Peterso pelo presente com que nos brinda! Saudades das nossas “oficinas” com o mestre Herr Keller. Beijos, Manuela.
Petê, super bacana seu site, em especial conversas entre tradutores…