Conheço Beatriz Rose há uns bons anos, tradutora excelente dos idiomas alemão e inglês, professora de alemão e inglês e com um parentesco muito interessante: é filha de uma das mais antigas tradutoras públicas do Brasil, a queridíssima Waldtraut Rose, que atuou por muito tempo na ATPIESP (Associação Profissional dos Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais do Estado de São Paulo). Além de tradutora técnica de mão cheia, Beatriz está começando a entrar na área de tradução editorial. Vamos começar?

PR: Beatriz, conte um pouco sobre como a profissão de sua mãe influenciou na sua escolha profissional. E como você chegou de fato à tradução?

Beatriz:  Estudei Letras na USP, mas por muitos anos estive determinada a NUNCA trabalhar como tradutora, justamente por considerar  “território” da minha mãe. Eu buscava minha própria identidade. Atuei em outros campos, onde pudesse utilizar meus idiomas. Trabalhei como secretária, em importação e exportação, em hotéis e restaurantes, dei aula… E certo dia, eu me vi (isto ainda no Canadá) desempregada e decidi trabalhar por conta própria. Na época, a Internet estava apenas começando, eu nem sabia direito do que se tratava. Na casa de uma conhecida, ela me mostrou como utilizar um mecanismo de busca e a primeira ocorrência à minha entrada tosca “tradutora – português brasileiro- Montreal” (ou algo semelhante) foi uma agência procurando um(a) tradutor(a) com português brasileiro que morasse em Montreal. Coincidência? Não acredito em coincidências. Trabalhei vários anos com eles até voltar para o Brasil. Aprendi muito! Quando cheguei aqui, já não era mais novata e já havia descoberto meus pontos fortes (e fracos). Minha mãe e eu partilhamos da mesma profissão, mas ela se mostra de forma muito distinta para as duas. Ela é tradutora pública e eu não, mas além disto temos nossas preferências quanto às áreas com as quais mais nos identificamos, modos diferentes de trabalhar com o texto… Vou sempre ser filha da Waldtraut (e claro que não só em termos profissionais), mas conquistei meu espaço. Meus clientes reconhecem meu trabalho e acredito que os colegas também me vejam como profissional e não simplesmente como filha dela; isto me deixa muito feliz.

PR: Quais as áreas que você mais traduz? E sua área preferida?

Beatriz: Já traduzi/verti muitos textos sobre treinamento de RH, fichas técnicas, normas de segurança, balanços, Biotecnologia (gosto muito!). Mas o que realmente me deixa contente é quando aparece um texto de Medicina. O entusiasmo é tal que tenho que me policiar para não me “perder” na pesquisa. Como tradutora autônoma não posso recusar um tema simplesmente por não fazer meu coração dar pulinhos de alegria. Exceção feita aos textos jurídicos que evito por não me sentir qualificada (ainda!).

PR: Como você vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

Beatriz: Embora a globalização coloque em contato culturas/povos que antes não se comunicavam ou não se comunicavam tanto – o que implicaria em uma necessidade maior de traduzir e verter textos para que eles se entendam – esta mesma globalização em grande parte também adotou o inglês como passaporte. Textos que antes vinham em alemão, por exemplo, agora são redigidos em inglês para que a empresa inteira tenha acesso. E como se espera que os funcionários dominem o inglês, a tradução se tornou “desnecessária” ou então o cliente acha que qualquer um que fale um pouco pode fazê-lo. O que ele não sabe é que este trabalho requer muito mais do que somente saber como se diz X em inglês, francês, alemão (e vice-versa)… Trata-se de acertar o tom, saber em que contexto aquele enunciado está inserido… E isto pressupõe um conhecimento profundo do idioma, aliás dos idiomas envolvidos. Infelizmente, os nossos “consumidores” não se dão conta disto, tampouco de que o trabalho para ser bem feito demanda pesquisa e tempo. A pressão de prazos (sempre apertados) necessariamente compromete a qualidade do resultado.

PR: Tenho comentado no blogue sobre qualidade em tradução. Como você percebe a qualidade das traduções das obras alemãs traduzidas hoje, diretamente do original?

Beatriz: Vou ficar lhe devendo esta resposta, porque tento ler as obras no original, principalmente as alemãs. Estou lendo um livro traduzido do inglês, que só confirma minha resistência. Ao lê-lo, acabo vertendo de volta para o inglês, o que não é difícil, já que o(a) tradutor(a) manteve a estrutura frasal do inglês, expressões idiomáticas foram traduzidas ao pé da letra… Uma lástima! Só insisto na leitura, porque a trama é interessante. Mas é uma pena, não acha? Como avaliar se o autor é bom quando a tradução deixa tanto a desejar? No caso de obras literárias, o tradutor tem uma responsabilidade adicional de re-criar o texto, de preferência sem trair o original.

PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?

Beatriz: Apesar da facilidade de pesquisa via Internet, na maioria dos casos, um dicionário físico. E uma garrafa d’água, mas este é outro assunto…

PR: O que você lê além dos textos que traduz? Qual é o livro do momento para a você?

Beatriz: Estou em falta comigo mesma em termos de leitura. Mas ultimamente tenho me dedicado mais a livros de teor religioso, um assunto que me interessa muito.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Beatriz: É uma excelente opção para alguém que, além de dominar os idiomas, seja detalhista e goste (ou pelo menos não se importe) de trabalhar sozinho. E uma coisa é certa: Não há monotonia em termos de assuntos!

PR: Muito obrigado pela participação.

Beatriz: O prazer foi todo meu!

2 respostas »

  1. ótima entrevista!
    e: “Estou lendo um livro traduzido do inglês, que só confirma minha resistência. Ao lê-lo, acabo vertendo de volta para o inglês, o que não é difícil, já que o(a) tradutor(a) manteve a estrutura frasal do inglês, expressões idiomáticas foram traduzidas ao pé da letra… Uma lástima! Só insisto na leitura, porque a trama é interessante.” – infelizmente com que frequência isso ocorre! a quantidade de reclamações – de leitores e editores – que ouço a esse respeito é de chorar. não à toa tem-se desenvolvido muito a parte editorial pós-tradução, com editing e copidesque, fenômeno que mereceria toda uma reflexão à parte.

    • Oi Denise,
      Estou preparando um texto sobre isso, ainda sob a influência fresca de uma preparação… digamos… que deu o que pensar. Em breve publicarei e conto sempre com seus comentários.

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