Há pouco conheci pessoalmente e de primeira me encantei com Ana Iaria. Formada em Direito e há anos morando na Inglaterra, ana acumula uma vasta experiência na área de tradução assistida por computador, além de uma experiência de 9 anos em uma editora. Além disso, é bastante conhecida pelos tradutores por seus cursos de tradução jurídica e também por lecionar em universidades inglesas. Vamos às perguntinhas:
PR: Ana, a explicação de como você chegou à tradução está em seu blogue, então a primeira pergunta está respondida aqui. Então, como foi o segundo passo, ou seja, firmar-se na profissão?
Ana Iaria: Quando se começa por acaso, é mais difícil se firmar na profissão. Eu traduzia para uma distribuidora de computadores e programas em SP e sempre tinha serviço. Um recomenda daqui, outro dali… Arranjei um emprego de meio período em uma editora pequena: traduzia, revisava, fazia o dtp. Jack of all trades. Aprendi muito ali. E tinha as traduções em casa também, inclusive livros. Demorou, mas fiquei só na tradução, abandonando o Direito. Hoje, leciono pelo prazer de lecionar e para sair de casa 1 dia por semana. Em 2004 terminei o mestrado em tradução no Imperial College em Londres e, ainda escrevendo a dissertação, fui chamada para lecionar prática de tradução em português. Depois passei a dar mais umas aulas e hoje dou aulas de várias matérias, inclusive editoração eletrônica para tradutores e prática de tradução audiovisual.
PR: Como você vê a teoria e os estudos da tradução? Como aliar teoria e prática de forma eficiente?
Ana: Pra dizer a verdade, não dou bola, não vou dourar a pílula e fazer oba-oba porque tradutor tem que gostar de teoria. Sou eminentemente prática e ao traduzir não fico pensando no que diz fulano ou sicrano. Sim, eu uso a teoria para as aulas, mas separo totalmente da vida prática. Tanto é que no mestrado achei mais interessante History of Translation do que Translation Studies. Com os prazos que temos não dá para ficar nas elucubrações mentais de como um recomenda traduzir assim ou assado. Como disse, a teoria para mim é só para preparar aulas.
PR: Como vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução em sua opinião?
Ana: Com certo pessimismo. Há muita gente desinformada no meio, tanto no quesito língua e conhecimento quanto profissionalmente. O que tenho visto morando na Inglaterra é que as associações profissionais esmeram-se em mostrar ao tradutor que ele não é artista: ele está num mundo competitivo, altamente profissional e que é preciso ser empresário para sobreviver. Há cursos sobre “entrepreunerial skills” para tradutores, que ensinam como negociar com cliente, como se comportar – isto as escolas não ensinam. A bem dizer, em nenhuma profissão. Mas por tradução ser o que é, um balaio de gatos com profissionais sérios, que vivem apenas da tradução, gente que faz bico e aqueles que traduzem por paixão, nossos colegas não sabem ser trabalhar. Quem é profissional vem se impondo no mercado e o moldando a seu modo, quem está só no bico, logo logo será alijado. Existe ainda aquela ideia romântica do tradutor artista pobre e explorado. Felizmente, esta nova geração, ao menos aqui, mudará logo. Espero que isto se difunda no Brasil, mas eu acho que as redes sociais, listas, o recente congresso do Proz, eminentemente prático com palestras dadas por tradutores profissionais, estão ajudando a mudar o panorama, muito mais do que as duas associações existentes no Brasil. Quem sabe na próxima geração.
As pessoas não têm uma idéia do que seja a profissão por pura falta de informação. Quando um tradutor aparece na imprensa é para falar do livro que demorou cinco anos para traduzir. Não há uma preocupação na imprensa em mostrar o outro lado da profissão, o que nós, tradutores não literários fazemos. Ainda há a percepção de que qualquer um que fale 2 línguas sabe traduzir. São mitos que se perpetuam. Quem sabe nós, com blogs, suas entrevistas, Twitter e tudo o mais não consigamos mudar isto? A maioria acha que só existe tradução literária e de filmes. Os manuais técnicos são traduzidos do nada?
PR: O tradutor técnico hoje precisa ter múltiplas funções e estar à frente nas questões tecnológicas. Qual sua dica para os tradutores que ainda tem receio das máquinas?
Ana: Perder o medo. Computador não morde, embora emita grunhidos e apitos. Em alguns anos, acredito que será impossível se trabalhar sem computadores e ferramentas. Este medo é um mito. O computador sempre teve uma aura de intocável, só para especialistas. No começo, sim, hoje, não. Não se precisa mais esperar o analista descer do Olimpo para apertar 2 botões e fazer o computador voltar a funcionar. Lembro-me das horas de trabalho perdidas onde trabalhava, pois tinha que esperar “deus descer do Olimpo”. Hoje, os computadores estão bem mais simples de se operar e com vontade dá, sim, para aprender e não depender do “moço do computador” até para trocar cartucho de impressora (se for HP, o moço tem que morar na casa do cliente).
O que muitos não percebem é que o diferencial do tradutor está naquilo que ele oferece. Ferramenta custa, mas a mentalidade prevalecente no meio tradutório é que “custa caro então não compro”. E fica nesta roda-viva de “perdi o trabalho porque não tinha a ferramenta”. Oras, se não tem, investe e passa a competir com quem tem a ferramenta e ficou com o trabalho da outra vez. Por exemplo, reviso arquivos PDF para finalização. É um serviço a mais que ofereço e que meus clientes prezam. Se eu não tivesse investido no Acrobat Standard, estaria muito limitada. Quem gasta tem retorno.
PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?
Ana: Meus trocentos papeizinhos, minha jarra de água, livros de consulta, como o do Agenor e o Vocabulando. Os dicionários estão quase todos no computador, apesar de amar livros, são mais práticos. E não ocupam espaço na mesa, pois tenho que deixar um cantinho livre pra Lord Winston [o famoso gato] dormitar e ronronar.
PR: O que a você lê além dos textos que traduz? Qual é o livro do momento para você?
Ana: Nada de livro cabeça, já passei desta fase há séculos. No momento estou lendo Lustrum, do Robert Harris, sobre meu ídolo causídico, Cícero. É o segundo livro de uma trilogia, o primeiro foi Imperium. Na pilha, o terceiro da trilogia Millenium do Stieg Larson. E na bolsa, sim, tem um na minha gigantesca Antonov, The Immortal Life of Henrietta Lacks. Uma história real fascinante sobre células cancerosas (HeLa) imortais que muito ajudaram a pesquisa médica. Há outros na fila. E meu e-book reader deve chegar a qualquer momento
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Ana: Leia, estude, principalmente o nosso tão espezinhado português, pesquise, entre para as redes sociais. Nada de viver em casulo. O melhor amigo do tradutor é o colega tradutor. Não tenha medo da tecnologia, ela é sua amiga. E repito o que digo para meus alunos: se você não gosta de estudar e pesquisar, faça outra coisa.
PR: Muito obrigado pela participação.
Ana: Eu que agradeço.