Alegre e comunicativa, Adriana Machado desempenha aquele ato que é a ponte direta entre culturas: a interpretação. Pelas palavras dela, pessoas que dificilmente conseguiriam se comunicar conseguem se entender. Além do inglês, também trabalha com o raro dinamarquês, que levou Adriana há pouco a servir de intérprete para Sua Alteza Real Príncipe Joachim da Dinamarca. Vamos ver o que ela tem a nos dizer.

PR: Adriana, conte um pouco como você chegou à tradução simultânea.

Adriana: Primeiramente quero agradecer por estar entre os notáveis entrevistados do “Conversa entre Tradutores”. Uma honra mesmo, porque nem chego perto de ter toda a experiência do pessoal que já li por aqui.

Bem, eu não virei intérprete por acaso ou no susto. Mas também não foi nada planejado. Eu comecei o curso de preparação de tradutores e intérpretes da Associação Alumni em São Paulo num momento da vida em que queria mudar de rumo e iniciar uma nova carreira. Não sabia nada mesmo sobre a profissão. Desde o início do curso há exercícios direcionados à preparação para a interpretação e achei aquilo bem interessante. Quando entrei na cabine pela primeira vez, a professora colocou uma fita pra tocar e eu tinha que traduzir ao mesmo tempo, achei aquilo o máximo e estava decidida! Estava bem claro que não seria nada fácil, mas o desafio também foi o estímulo.

É preciso mais do que vontade para conseguir um lugar nesse mercado, não é como a tradução escrita, na qual a gente manda currículo, faz teste e assim vai conquistando seu lugar. Não é fácil conseguir ”aquele“ primeiro evento. Quem tem coragem de dar uma chance a um novato sem conhecer a qualidade do seu trabalho?

Depois que me formei, comecei um curso de coaching em interpretação e fiquei mais um ano só praticando e, mais importante, conhecendo pessoas. Esse curso oferecia interpretação para um importante evento de ONGs a título de patrocínio e mandava os bons alunos para fazer a simultânea. Conheci vários colegas, alguns inexperientes como eu e outros já experientes e consagrados. Não precisou muito mais do que isso, desde então não parei mais. Contato gera contato, disponibilidade gera receptividade, esforço gera admiração, simpatia gera amizade, e isso tudo gera muito trabalho!

PR: E como é o dia a dia do intérprete?

Adriana: Se pensarmos em dia a dia como rotina, isso não existe! Um dia nunca é igual ao outro. Um dia você passa o dia em casa e sai à noite para interpretar uma palestra, no outro acorda às 5 da manhã para pegar a estrada e ir para a inauguração de uma fábrica no interior. Um dia você está interpretando um príncipe ou estadista numa recepção chiquérrima e no outro você está sentado num sofá empoeirado num casebre na favela traduzindo uma entrevista de pesquisa de mercado. Um dia você está traduzindo sobre meditação transcendental, no outro acompanhando uma visita a uma fábrica de explosivos e no outro procedimentos para implante de desfibriladores. E por aí vai. De tédio a gente não morre.

PR: Os intérpretes enfrentam diversas saias justas e precisam utilizar toda a perspicácia para sair delas, sem deixar a ética da profissão de lado. Você poderia nos contar uma saia justa e como saiu dela?

Adriana: Eu costumo dizer que intérprete não precisa ter nenhum dom especial, um cérebro fora do comum ou todas as coisas que pensam por aí. Importante é uma boa dose de cara de pau e muito jogo de cintura. Você tem poucos segundos para lembrar um termo e às vezes não lembra! Se seu “concabino” também não lembrar para te ajudar, você tem que ter o talento (ou a cara de pau) de encontrar alguma coisa equivalente e conseguir passar a mensagem. O Ulisses Wehby tem muito tempo de estrada e histórias sensacionais. Eu recentemente traduzi num evento no qual vários palestrantes eram indianos, daqueles que moram na Índia e falam aquele inglês que só eles entendem. Basicamente não dava pra entender o que estavam falando, não sabiam falar em público, tinham decorado a apresentação e falavam rapidíssimo. As pessoas do público que entendiam inglês começaram a sair pra ir buscar o receptor para ouvir a tradução. Pensei: “Não adianta não, pessoal! A gente também não está entendendo nada.” Mas como dizia uma professora: “Something has to come out of the booth!” (Algo tem que sair da cabine!). A solução foi ir lendo o que estava escrito no slide e ir traduzindo! Felizmente tinha muito texto, não era dos mais fáceis, mas pelo menos lendo dava pra entender alguma coisa. E ir torcendo pra conseguir terminar antes de ele passar para o slide seguinte! Muitas pessoas pareciam insatisfeitas, mas depois descobrimos que estavam bravas com o palestrante (e com a organização do evento que o convidou) e não conosco. Ufa!

PR: Como você vê nossa profissão hoje? E como as pessoas veem a tradução e a interpretação, na sua opinião?

Adriana: Eu amo minha profissão e vou sempre batalhar por nossa valorização. Isso é remar um pouco contra a maré, mas já engoli muito a seco e recusei trabalhos cujas condições não obedeciam às normas para interpretação e fiz questão de dizer por quê. Tenho toda disponibilidade para ajudar tanto colegas quanto clientes que não sabem como funciona a interpretação. Principalmente a entender que a tradução simultânea não deve ser o último item a se pensar para um evento, aquilo que se contrata com o dinheirinho que sobrou do coffee break fornecido por chef consagrado…

PR: E o dinamarquês? Como você chegou até ele e como é o trabalho com essa língua rara?

Adriana: Eu morei na Dinamarca, estudei o idioma lá e sou casada com um dinamarquês. Já fiz algumas traduções escritas, mas pouquíssima coisa. O mercado é grande para quem traduz para o dinamarquês, principalmente material em português de documentos da União Europeia e eu estou longe de estar qualificada para isto. O mercado para interpretação praticamente não existe, afinal todos os dinamarqueses falam inglês com fluência. Na verdade, para o evento com o príncipe eles haviam solicitado interpretação para o inglês, porque além do príncipe, haveria executivos americanos para quem eu deveria traduzir. Resolveram me contratar para dar uma atenção especial à delegação dinamarquesa, pois falo o idioma. Mas ainda tenho esperança de que a rainha virá ao Brasil e que terei a honra de interpretar em dinamarquês para ela.

PR: O que você sempre leva para suas interpretações?

Adriana: Meu laptop e meu modem 3G, não é sempre que temos internet sem fio e é imprescindível poder pesquisar termos durante a interpretação. Um pen drive para quando saímos implorando pelas apresentações dois minutos antes do início do evento. Um bloco de papel para a comunicação com o concabino e outras anotações. Post-its com cola dos termos mais difíceis e mais frequentes para afixar num lugar de rápida visualização. Muitas canetas. Dicionários, mas não muitos porque nem temos espaço para eles. A cara de pau e a pulga de estimação, aquela que mora atrás da orelha.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Adriana: Interpretação não é coisa do outro mundo. Não é preciso ser uma espécie rara para conseguir. Mas também não é algo que você vá aprender traduzindo a CNN na sala de casa para a sua mãe. Diferente da tradução, é necessário treinamento específico e o Brasil tem excelentes instituições que oferecem teoria e prática de alto nível. Cultura geral é outro item importantíssimo, leia tudo que aparece pela frente, nunca se sabe que exemplo ou historinha o palestrante vai usar para ilustrar a sua fala. E conheça pessoas. Seu colega é sua principal vitrine e seu maior aliado.

PR: Muito obrigado pela participação.

Adriana: Obrigada a você Petê! Foi um prazer.

4 respostas »

  1. interpretação deve ser fascinante! e que jogo de cintura, agilidade e raciocínio rápido precisa ter, num leque de temas tão variados!

    quanto a “não é como a tradução escrita, na qual a gente manda currículo, faz teste e assim vai conquistando seu lugar”, não tenho certeza se é bem assim que funciona.
    “Não é fácil conseguir ”aquele“ primeiro evento. Quem tem coragem de dar uma chance a um novato sem conhecer a qualidade do seu trabalho?” – bom, o mesmo se aplica à tradução “escrita” ou pelo menos à tradução editorial.

  2. É verdade, Denise. Vejo que a diferença é que na simultânea normalmente um colega te convida para dividir a cabine ou, no caso de uma agência, alguém te recomenda. Sem nunca ter feito um evento fica difícil começar. Mas já vi exemplos de tradutores iniciantes que enviaram curriculo para editora, fizeram teste, foram aprovados e começaram a traduzir seu primeiro livro. Talvez não seja fácil, mas depende menos do famoso “QI” do que do seu talento. Mas concordo, começar não é fácil, seja qual for a atividade.

  3. Petê e Adriana,
    Parabéns pela entrevista, ótima. Só acrescento a dica de um livrinho delicioso sobre o mundo da interpretação: “Sua Majestade, o Intérprete”, de Ewandro Magalhães Junior (Ed. Parábola).
    Abraços,
    Luis

  4. Érika disse:

    Adorei, Dri. Amo muito tudo isso. Só não dá pra esquecer que a rapadura é doce mas não é mole, não. :)

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