Irene Aron

Numa das entrevistas que ainda vão ao ar, minha entrevistada começou a me indicar alguns nomes interessantes para que eu procurasse e um desses nomes foi o de Irene Aron. Professora da área de alemão da Universidade de São Paulo, a profa. Irene é tradutora atuante e assina a mais nova tradução do grande romance Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin, lançado pela editora Martins Fontes. Vamos à entrevista:

PR: Profa. Irene, sua atuação como tradutora é notável, em especial em traduções sobre a questão judaica. Peço que a senhora comece contando um pouco dessas experiências.

Irene: Minha primeira tradução de mais fôlego foi Kaspar de Peter Handke, um texto muito instigante sobre língua, linguagem, comunicação e seu papel na sociedade: nada fácil, porém prazeroso. Seguiram-se Stiller, de Max Frisch e Os negócios do Sr. Júlio César, de Brecht. Depois poemas avulsos e textos teatrais. Após esses trabalhos, uma longa pausa acadêmica. Os Diários de Viktor Klemperer, de mais de 800 páginas, foram traduzidos já como docente aposentada. Meu Século, de Günter Grass, veio em seguida. As Passagens de Walter Benjamin, de 1.200 páginas, consumiram quatro anos de trabalho. Paisagens da Memória, de Ruth Klüger, relatam as experiências da então criança nos campos de concentração. Então veio Berlin Alexanderplatz, de Alfred Döblin. Portanto, obras de autores judeus foram quatro até agora: Klemperer, Benjamin, Klüger e Döblin. E a questão do nazismo é enfocada em Klemperer e Klüger, além de Döblin que se concentra em problemas políticos e econômicos dos estertores da república de Weimar e ascensão do nazismo.

PR: Como a senhora vê o aumento das traduções diretas do idioma alemão? Acredita que isso melhorará a recepção da literatura alemã clássica e contemporânea?

Irene: Sem dúvida. A tradução a partir do original alemão sempre é um desafio enriquecedor.

PR: Como a senhora vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

Irene: Infelizmente, na maioria dos casos. A tradução é um “bico”. É mal-remunerada e dependendo do texto, não vale a pena, pelo menos para mim. Exceto para os amantes e estudiosos da literatura, que estão aptos a perceber o esforço e o resultado de uma boa tradução, as pessoas não “enxergam” o tradutor.

PR: A senhora fez parte da comissão julgadora do projeto Litrix de fomento à tradução de literatura alemã em 2007-2008. Conte um pouco sobre esse projeto e sobre sua participação.

Irene: Pude entrar em contato com as mais recentes publicações de editoras alemãs, seja a partir de romances, obras infantis, infanto-juvenis, e obras não ficcionais. Sem a participação no projeto Litrix dificilmente teria a oportunidade de conhecer tantos autores e obras em tão pouco tempo. Os participantes fizeram uma seleção das obras e as apresentaram a editoras para eventual tradução. Várias delas já se encontram publicadas.

PR: O que não pode faltar na mesa de trabalho da senhora?

Irene: Dicionários e livros de consulta.

PR: O que a senhora lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para a senhora?

Irene: Uma tradução alemã de Saul Friedländer, Das Dritte Reich und die Juden.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Irene: Aos que traduzem com empenho, não esmorecer, apesar as dificuldades. Aos que querem começar, não esquecer que traduzir não é só passar as palavras para a outra língua, é preciso conhecer a cultura, a história, o contexto enfim, da língua de partida.

PR: Muito obrigado pela participação.

8 thoughts on “Irene Aron

  1. Bela entrevista, sem dúvida. Tradução é uma janela para o mundo. Se traduzirmos somente do inglês, temos uma janela, grande, bonita, mas só uma. Quando traduzimos de outras línguas, sejam grandes línguas de cultura, como o alemão, seja de “pequenas línguas”, abrimos outras tantas janelas, todas elas grandes e bonitas. Embora só trabalhe com inglês, meu sonho seria ver as nossas livrarias com centenas de traduções de outras línguas, não só porque tradução indireta não é procedimento recomendável, mas, e, principalmente, porque a tradução direta é uma janela a mais.

    Mas cabe um reparo — que, meu amigo Petê Rissati provavelmente já esperava de mim, me conhecendo como conhece. “Infelizmente, na maioria dos casos, a tradução é um “bico”. ” simplesmente não é verdade! Há dezenas de milhares de tradutores profissionais no Brasil, vivendo decentemente bem exclusivamente do que ganham traduzindo. Eu próprio, não faço outra coisa há 40 anos e estou longíssimo de ser o único. A não ser que a profª. Irene Aron ache que “tradução” significa exclusivamente o tipo de tradução que ela faz, que, aliás, poderia ser mais bem paga se os grandes tradutores que têm outro meio de vida, simplesmente fizessem questão de um pagamento mais alto.

    1. Oi Danilo,
      Concordo. Com as aspas o impacto do bico talvez ficasse menor, porém ainda é um incômodo a quem, como nós, vivemos exclusivamente de tradução. Porém, vejo e vivencio cada vez mais que muitas vezes a tradução é encarada como tal e essa é minha (nossa, com certeza) briga: a tradução precisa ser insistentemente pelos profissionais alçada a condição de profissão, o que um médico ou um engenheiro não precisa fazer. Isso é um absurdo. Fiz e farei quantos posts forem necessários aqui e compartilharei minha opinião sempre para que possamos cada vez menos precisar nos afirmar como profissionais. E as coisas estão mudando…
      Abraço e obrigado sempre pela contribuição.

  2. A tradução é de fato vista como bico por muita gente, inclusive por alguns tradutores.

    Mas cabe a mim e a você insistirmos que não é. E cabe a nós também dizermos a esses grandes tradutores que têm outra fonte de renda e, por isso, podem fazer das suas traduções um violino de Ingres (o que não me é dado fazer), que, dada sua capacidade, cabe-lhes o direito, e quiçá o dever, de exigir um pagamento condizente com a qualidade de seu trabalho, um pagamento que, se desistissem de seu “trabalho” em favor de dedicar mais tempo à tradução, lhes permitiria viver exclusivamente do traduzir sem baixar seu nível de vida.

    Porém o erro maior, a meu ver, está em generalizar e achar que o que se aplica a um pequeno grupo de intelectuais que traduz nas horas vagas reflete a realidade da tradução como um todo. Ou, talvez (e oxalá não seja o caso da profª Irene Aron) a ideia de que só é tradução o que eles próprios fazem.

  3. são delicadas essas questões. mesmo eu, que sou fervorosa defensora dos direitos do diletantismo, reconheço o que diz danilo, mesmo não concordando plenamente.
    digamos que faltou uma certa ponderação nas palavras de irene aron, e que acabam sendo um pouco, talvez, quiçá, porventura, quem sabe, levemente ofensivas aos chamados profissionais da tradução. mas tenho certeza de que não foi por mal e, que se ela parasse para pensar um minutinho, teria colocado de outra maneira, e levaria em conta que talvez, quiçá, porventura, quem sabe, não tenha muita familiaridade com o mundo da tradução profissional.

    por outro lado, fica a lição para o entrevistador: não colocar o entrevistado perante perguntas que ele não tem conhecimento de causa suficiente para responder, e que responde sem maldade apenas generalizando uma experiência muito restrita a seu próprio universo. no fundo, quem criou a saia justa foi vc, né, petê?

    pessoalmente eu teria muito mais interesse em conhecer a opinião de irene aron, e que neste caso seria muito mais abalizada, sobre, por exemplo, o desenvolvimento dos estudos germanísticos na usp ou o trabalho da revista de estudos germânicos do depto., que é de altíssimo nível, e assim por diante.

    1. Oi Denise,
      Não acredito que houve uma saia justa, mas apenas um mal entendido. Como comentei na resposta ao Danilo, as aspas inspiram o cuidado que a profa. Irene teve ao nomear a tradução como bico. Na visão de outros, talvez, mas não acredito que seja na visão dela. E convenhamos, é o que muita gente acha (que tradução é tão-somente um bico) e é contra o que devemos lutar para não virar uma verdade absoluta.
      Sabe aquela história de quando perguntam a um professor: “Então você só dá aula?”. É por aí que não deve ser.
      Meu interesse aqui é mostrar a opinião do(a) tradutor(a) quanto ao que ele/ela vê no mercado no qual atua. De qualquer forma, vou atentar a esses “detalhes”. Ainda sou um menino nesse negócio de entrevistas, mas eu chego lá.
      E mais uma vez agradeço a prof. Irene, pela gentileza e sinceridade nas respostas.

  4. Para encerrar, do meu lado, diga-se que não me senti ofendido, mas achei que era minha obrigação, como profissional há 40 anos, corrigir uma afirmação, que, embora dada de boa fé, não condiz com a verdade. Também não me ofendi com as aspas, que, na minha opinião, foram corretamente usadas para identificar a palavra como gíria ou coloquialismo.

    De resto, blogue é discussão, comentário.

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