O Conversa de Tradutores de hoje traz o ensaísta e professor Tercio Redondo, que acaba de assumir uma cadeira de literatura alemã na Universidade de São Paulo. Como tradutor tem uma lista extensa e de qualidade no currículo, como

As penas do dragão, de de Arnica Esterl, Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger e Woyzeck, de Georg Büchner. Vamos ver o que Tercio tem a nos dizer.
PR: Tercio, uma pergunta que sempre assombra os germanistas brasileiros: por que a escolha pelo alemão?
Tercio: Comecei a aprender o idioma pelo desejo de ler a obra de Freud no original, numa época em que eu estava envolvido com o estudo e a formação psicanalítica. A atividade clínica ficou para trás, restou o alemão, do qual sou eterno aprendiz.
PR: Como você começou a traduzir?
Tercio: Minha primeira tradução foi a de um texto em inglês de apresentação da Flauta Mágica, de Mozart. Eu estava na faculdade e nosso cineclube iria exibir a adaptação que o Bergman fez para o cinema. Traduzi essa apresentação, que constava num álbum de LPs. Anos mais tarde, um pouco antes de ingressar no mestrado em literatura alemã, traduzi um conto discutido em sala de aula com a saudosa profa. Ruth Röhl, na USP. Depois disso não parei mais.
PR: Como você vê nossa profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?
Tercio: Embora trabalhe constantemente para editoras a tradução não constitui minha principal atividade. Traduzo sempre, mas relativamente pouco, e sempre de modo muito lento.
A percepção do trabalho tradutório varia muito de leitor para leitor. Os leitores mais atentos e exigentes acompanharão com maior interesse a luta do tradutor, que digladia sempre em duas frentes: Em primeiro lugar, procurando compreender da melhor forma possível o texto original, interrogando-lhe os sentidos, os matizes, como o faz todo bom leitor. Em segundo, esforçando-se por redigir na língua de chegada um texto que corresponda ao original não apenas em seu conteúdo, stricto sensu, mas na forma, o que implica atentar para o tom, para o estilo, para as inúmeras marcas que caracterizam todo texto, sobretudo o literário. Há leitores que virtualmente dialogam com o tradutor, aceitando ou recusando suas opções, e há aqueles que mal se dão conta de que ao lerem as Flores do Mal, não estão lendo exatamente Baudelaire, que de resto não é responsável por uma única vírgula daquilo que se apresenta numa versão brasileira de seus poemas: leem tão-somente aquilo que foi escrito por um tradutor.
PR: Como é conciliar a carreira acadêmica com a tradução? Há uma maneira efetiva de aliar teoria e prática na tradução?
Tercio: A tradução se vincula ao trabalho acadêmico como tudo o mais; dedico a ela uma parcela de meu tempo diário. Em geral, para não perder o ritmo, que idealmente se obtém pela lida cotidiana, a tradução é minha primeira tarefa do dia, estendendo-se tanto quanto o permita a corrida agenda docente.
Aliam-se teoria e prática estudando tradução e praticando tradução. Se isso se torna rotina, atividade regular, as coisas se casam. Devo acrescentar, contudo, que meus conhecimentos teóricos são escassos, restritos à leitura de uns poucos livros específicos da área. Sou um tradutor mais intuitivo, com os ganhos e perdas que esse modo de trabalhar acarreta.
PR: O que não pode faltar sua mesa de trabalho?
Tercio: Disposição para o trabalho.
PR: O que você lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para você?
Tercio: Acho que leio de tudo um pouco e isso depende também da época e dos interesses do momento. Leio agora O tempo e o cão, de Maria Rita Kehl, e Die Ringe des Saturn (Os anéis de Saturno), de W. G. Sebald.
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Tercio: Ler e escrever regularmente e não esperar pelo dia em que o idioma a ser traduzido esteja aprendido: esse dia não chegará nunca. Traduzimos malgrado as deficiências que temos, inclusive no que diz respeito à própria língua materna.
Muito obrigado, Tercio.
muito bonito.