Ouvi falar de Roseli Dornelles pelo Danilo Nogueira que comentou comigo que ela seria uma ótima entrevistada. Pois bem, depois de um rápido contato, eis que ela nos concedeu uma entrevista. No Conversa entre Tradutores de hoje saímos do inglês e do alemão e caímos direto no italiano, idioma que Roseli estuda e com o qual trabalha. Pós-graduanda de Língua e Literatura Italiana pela Universidade de São Paulo, seu foco está na lexicografia bilíngue. Mantém o blogue In altre parole, interessantíssimo para quem aprecia a língua de Dante. Vamos à entrevista.

PR: Como alguns dos entrevistados, você teve um caminho meio tortuoso para chegar à tradução, passando primeiro pela… biologia! Conte um pouco sobre isso.

Roseli:  Na verdade, não foi tortuoso, foi um percurso em círculo que se fechou. Sempre me interessei por outros idiomas e comecei a traduzir como muitos tradutores: dicionário em uma mão e lápis na outra, traduzindo músicas dos Beatles e Rolling Stones, palavra por palavra. Sempre fui bem em biologia na escola, era um assunto que me fascinava e acabei fazendo a faculdade, me formando; trabalhei como professora (inclusive para deficientes auditivos, usando a linguagem de sinais)por muitos anos. Já no início da faculdade comecei a estudar italiano, depois de um tempo passei um ano na Itália e quando voltei comecei a dar aulas de italiano e, ocasionalmente, a traduzir. Nunca mais trabalhei com biologia, embora seja ainda um assunto que me fascina muito.

PR: Seu mestrado tem ênfase na lexicografia bilíngue italiano-português e, provavelmente, esses estudos tiveram como ponto de partida a necessidade de materiais em outros idiomas que não os mais “cotados”. Poderia falar um pouco sobre sua pesquisa?

Roseli: Meu mestrado é sobre uma estrutura verbal que está pouco presente nos dicionários bilíngues IT-PT. Se você quisesse comparar com o inglês, corresponderiam aproximadamente aos phrasal verbs. A pesquisa nasceu de uma dificuldade em uma tradução, na qual me deparei com o verbo “tirarsela”, que conhecia em italiano, mas não sabia exatamente como dizer em português. Não há, ainda, menção a esse e a outros verbos desse tipo nos dicionários bilíngues e nem dicionários especializados italiano – português. Pra você ter uma idéia, o primeiro dicionário bilíngue de italiano – português/BR é de 2004. Sempre fui muito curiosa e sempre adorei dicionários, então acho que uma coisa puxou a outra.

PR: Como você vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

Roseli: Comecei a traduzir de modo completamente amador. Hoje vejo como o nível de profissionalização é alto para você conseguir ter sucesso profissional. É a sua postura (nos dois sentidos, hehe), a tecnologia envolvida na tradução, o tino comercial, o networking, a atualização, o gerenciamento de tempo e por aí vai. O tempo do dicionário na mão e traduzir palavra por palavra(!) passou há muito. Acho que as pessoas (e entre eles alguns tradutores) veem a profissão de tradutor ou como uma coisa romântica ou como bico. Ainda é comum você ouvir alguém te dizer “Você é tradutor, que lindo!” ou “E o que mais você faz?”.

PR: Além do trabalho como tradutora, você também é professora de italiano. O ensinar ajuda na hora do traduzir e vice-versa?

Roseli: No momento não estou dando aulas porque não consigo conciliar tudo. Como estou na reta final da dissertação, o tempo está curtíssimo. O último curso que dei foi de italiano instrumental, no qual você ensina os alunos a lerem e interpretarem em italiano e a tradução tem um papel importante nisso. Lembro-me de muitas vezes ter pedido para os alunos esperarem um pouquinho, enquanto eu escrevia a tradução de alguma palavra ou expressão que eles ou eu havíamos encontrado e que parecia muito interessante.

PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?

Roseli: Meus óculos e uma boa conexão. Um copo de água. Café. Silêncio.

PR: O que você lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para você?

Roseli: Não vá rir: “Panorama Geral da Lexicografia Pedagógica”, do Welker e “As Ciências do Léxico”, de Alves e Isquierdo. Na reta final da redação da dissertação não dá tempo pra ler mais nada. Costumo ler um livro em italiano e um em português ao mesmo tempo. O último italiano que li foi “La grammatica di Dio” de Stefano Benni, excelente. Em português acho que foi “A menina que roubava livros” de Markus Zusak (tradução de Vera Ribeiro). Só uma ressalva, Petê. Como muitos tradutores de italiano, não traduzo só livros, traduzo o que aparece, se acho que vou conseguir dar conta. É difícil você ter uma especialização num nicho de mercado como o de italiano-português. Morreria de fome.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Roseli: Agradeço a indicação do querido amigo e mestre Danilo Nogueira. Com ele e com outros colegas da 50302 (comunidade do Orkut) e do Twitter aprendo a cada dia. Aliás, pra quem está começando, digo que a gente nunca para de aprender, de estudar, de se profissionalizar. Curiosidade, saber pesquisar, saber selecionar as informações e acima de tudo, ter a pulga sempre desperta atrás da orelha, são boas qualidades para o tradutor.

PR: Muito obrigado pela participação.

Roseli: Agradeço a oportunidade e o espaço que você abriu para os tradutores.

3 respostas »

  1. Lorena Leandro disse:

    A Roselix Risole é daquelas pessoas que você gosta desde o primeiro momento. Pelo menos comigo foi assim. E dos nossos poucos encontros pessoalmente, digo que é simpática mesmo! Adorei a entrevista e me deu vontade de ter aulas de italiano instrumental =)

  2. Acho que a Roseli esqueceu de um ponto que a mim parece importante: a passagem pela biologia deixou nela as marcas de um raciocínio rigoroso que, ao que tudo indica, vai fazer dela uma lexicógrafa de primeira — e todo esse rigor sem perder a ternura e o carinho para com todos.

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