Renate Müller

Temos hoje no Conversa entre Tradutores Renate Müller. Atua como tradutora da área médica e vive na Alemanha, um dos casos bem-sucedidos de profissionais da área que se tornam excelentes tradutores profissionais. A conheci pelos bate-papos no twitter e não tenho tantas informações sobre ela, apenas que é uma pessoa bastante querida entre os tradutores e muito animada.

Fico feliz em recebê-la aqui, no Conversa entre Tradutores.

PR: Renate, você relutou em me dar entrevista, depois topou, o que me deixou bastante animado. Sua história para mim é muito interessante, pelo pouquinho que você me contou (em 140 caracteres twitticos) de ter sido médica e se tornado tradutora. Como isso aconteceu?

Renate: PR, você devia tomar cuidado com suas perguntas. Velhinhas como eu adoram contar “causos”. Talvez fosse melhor desmembrar esta entrevista em duas partes! Mas

vou tentar ser concisa.

Eu aprendi o português quando fui à escola. Em casa, falávamos o alemão. Tive excelentes professoras de Português, mesmo na Escola Pública. Me ensinaram um Português correto e, de quebra, me mostraram o quanto é gostoso escrever. Mas em casa também tive o exemplo de meu pai, que era um excelente redator. Sempre gostei de escrever. Quando fui fazer especialização em Neuropediatria no Hospital das Clínicas da USP em São Paulo, eu fazia resenhas sobre artigos científicos, que eram publicadas numa revista do Departamento. Eu era a única que achava um tempinho para isso e gostava de fazê-lo. De qualquer forma, sempre estava às voltas com trabalhos científicos em inglês e alemão. Ajudava um ou outro professor com os abstracts, revisava algum trabalho. Um dia, o médico chefe do Departamento, Prof. Lefèvre, me apresentou um editor que precisava de um tradutor alemã

o – português para um livro relacionado à neuropediatria. Eu aceitei e não parei mais. Fui médica e tradutora por muitos anos. Depois, exerci uma profissão administrativa na área médica e continuei traduzindo. Não tanto quanto hoje, pois não tinha muito tempo disponível. E sempre imaginei que, uma vez aposentada, iria me dedicar só à tradução. Aposentada nem cheguei a ser. Casei com o Pedrão e nem pensei em revalidar o diploma aqui. Passei a traduzir em tempo integral e estou feliz assim!

PR: Como você vê nossa profissão de tradutor hoje, aqui no Brasil e aí na Alemanha? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

Renate: Não acho que existam grandes diferenças entre ser tradutor no Brasil e na Alemanha. Nossa profissão está passando por uma fase complicada e, ao mesmo tempo, muito boa. Trabalho não nos falta, mas é preciso investir em ferramentas que facilitam e melhoram nosso trabalho. E olhe, eu relutei muito em me render ao canto da sereia dos CATs e hoje vejo quanto tempo perdi, quantos glossários desperdicei, quanta MT joguei no ralo, quantos livros poderia ter traduzido sem me descabelar. Mas isso é Schnee von vorgestern, não adianta lamentar o tempo perdido.

Você me pergunta como as pessoas veem a tradução. Ô pergunta espinhosa! Muitos não a veem como uma profissão, um ganha-pão. Acham que é um bico, que a gente é preguiçoso e só fica surfando na internet o tempo todo. Que traduzir é tão fácil que nem mesmo deveríamos cobrar. Ou acham que o valor que cobramos é muito alto. Será que estas pessoas discutem o valor do pãozinho na padaria, negociam o valor de uma consulta médica, compram um carrão e querem pagar o valor de uma bicicleta?

PR: Você faz apenas traduções da área médica? Em quais outras áreas você atua?

Renate: Eu trabalho somente com traduções da área médica. Sou basicamente uma tradutora de livros médicos. Faço um e outro trabalho para agências, mas o grosso do meu trabalho é com editoras médicas. O que não quer dizer que não tenho um sonho. Gostaria muito de tentar traduzir literatura ou poesia. Acho isso um desafio e tanto. Mas não acredito que venha a fazê-lo um dia. Já não tenho tempo suficiente para tudo o que faço agora.

PR: O que não pode faltar sua mesa de trabalho?

Renate: Uma garrafinha de água mineral, telefone, um HD externo, o bloco de PostIt que ganhei da Ana Iaria. Minha mesa de trabalho é pequena. Não cabe muita coisa. Mas o entorno… Tenho um painel de fotos de viagens, fotos da minha netinha, uma cortiça onde prendo 246 papéis com anotações, estante abarrotada de livros, uma caixa cheia de apetrechos. Do resto nem é bom falar. Meu escritório é a filial do bazar de Istambul.

PR: O que você lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para você?

Renate: Eu sempre li muito e de tudo. Ultimamente, tenho sérios problemas para ler na cama, meu local de leitura predileto além do banheiro. Meus olhos não acomodam mais a visão para perto. Até de óculos a situação está complicada. Coisa de tia velha. Mas estou terminando um livro ótimo, Tanz der Gene, de Armand Marie Leroi. Recomendo muito.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Renate: Admiro muitos colegas de profissão. Alguns me ajudaram a ser uma tradutora melhor, outros partilham seu tempo comigo quando o fuso horário não é favorável e a solidão atormenta a alma. Tenho colegas generosos, que doam conhecimento sem pedir nada em troca. Amigos que encontrei pelo caminho tradutório. A vocês todos, um abraço de ursa berlinense.

Muito obrigado, Renate.

* Coloquei a foto de outra Renate Müller, cantora e estrela do cinema dos anos 30, que foi cortejada pelos nazistas, mas gentilmente recusou-se a participar do movimento. Ontem fiquei sabendo que o nome da Tante vem dessa bela atriz.
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3 thoughts on “Renate Müller

  1. Então, um dia, eu vinha descendo a vilinha, abraçado com minha mulher, quando a Renate, que estava na porta da casa dela, me parou e puxou conversa, sobre tradução. Na época, eu tinha uns oito ou nove anos de experiência, e achava que sabia das coisas; hoje, com mais de quarenta anos de tradução na cacunda, sei que não sei de nada, o que já foi um grande progresso. Mas o achar que eu sabia das coisas me levou a tentar ensinar a ela mil coisas e a formar uma amizade sólida, que já tem mais de trinta anos.

    A vida foi aumentando a distância física entre nós. Antes, a Renate, milha mulher e eu conversávamos de quintal para quintal, porque o fundo da minha casa fazia divisa com a lateral da casa dela; hoje ela mora na Alemanha e eu estou aqui no Brasil. Mas, quando ela vem a passeio, a gente tem de se encontrar.

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