O Prof. Dr. João Azenha Júnior é uma referência na área de tradução, tanto pela sua atuação como tradutor de fato por muitos anos como pela orientação nas áreas de linguística contrastiva e tradução no mestrado e doutorado da USP. Sua contribuição para a compreensão dos condicionantes culturais em todos os níveis da tradução (inclusive na tradução técnica) é das mais importantes. Além disso, assinou a tradução a do best-seller O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder. Sempre atencioso e generoso, João concedeu uma entrevista ao Conversa entre Tradutores.

PR: João, você tem uma trajetória bastante diversa de outros acadêmicos, pois trouxe a visão do profissional da tradução para o seu trabalho na Universidade. Conte um pouco sobre essa experiência.

João: De fato, eu comecei a trabalhar com tradução editorial ainda durante o curso de especialização em tradução da USP. Foram sete anos consecutivos de muito trabalho, que me renderam autonomia e alguns prêmios. Na transição para o governo do então presidente Fernando Collor de Mello, fiquei desempregado e procurei escritórios de tradução de São Paulo. Comecei, então, a trabalhar na área técnica. Em março de 1990, ingressei na USP. E o que eu tinha de mais concreto para levar aos estudantes e à reflexão nos trabalhos acadêmicos era a minha experiência. A passagem pelas editoras eu a aproveitei como tema para a minha dissertação de mestrado. Já a experiência com a tradução técnica foi transformada na minha tese de doutorado. Tudo isso me propiciou uma forma privilegiada de conciliar teoria e prática. E, é claro, acho que isso foi e é de proveito também para os estudantes.

PR: Como você começou a traduzir? E como chegou ao idioma alemão?

João: De certa forma, a lida com as línguas estrangeiras sempre esteve presente na minha vida: da ida aos Estados Unidos como “exchange student”, ainda na adolescência, ao meu trabalho numa companhia aérea. Do gosto pelas línguas para a questão da tradução foi um passo. E, de novo, minha visão da atividade esteve sempre ligada a pressupostos funcionais, pragmáticos e culturais. Quanto ao alemão, eu sou bisneto de uma alemã. Mas nunca cheguei a conhecer minha bisavó. Ao entrar na faculdade, consultei uma orientadora profissional para saber qual, das línguas possíveis, teria um efeito mais garantido em termos de retorno profissional. Depois de analisar a questão, ela me disse que com o alemão eu teria mais chances. Parece que ela estava certa.

PR: Como você vê a profissão de tradutor hoje? E como as pessoas veem a tradução na sua opinião?

João: Penso que as pessoas, de um modo geral, continuam vendo a tradução como uma atividade secundária. Um mal necessário, por assim dizer, em vista da impossibilidade de alguém dominar muitas línguas. Além dessa visão de atividade de segunda mão, o senso comum também considera a tradução, a meu ver, uma atividade mecânica, uma substituição automática de itens lexicais de uma língua para a outra com o auxílio de alguma ferramenta de busca e de pesquisa. Tudo isso ainda se reflete seriamente na profissão: descaso, desprestígio, abusos. Daí a necessidade de um curso de tradução solidamente estruturado, que tenha como pilares a derrubada dessa visão ingênua de linguagem e de tradução, de um lado, e a construção de um profissional ciente de seu papel social na mudança desse estado de coisas, ainda desfavorável.

PR: Aliar a teoria à prática, a meu ver, é uma tarefa difícil, mas não impossível. Há uma real aproximação dessas duas “áreas”?

João: Todo tradutor, se estudante de tradução ou não, traz na bagagem uma teoria de tradução interiorizada. Em geral ela é aquela que associa a tradução a uma atividade mecânica, como eu disse na resposta anterior, à qual todos os que conhecem duas línguas teriam acesso. O que muitas vezes não se sabe é que essa “teoria”, que guia essa prática, tem por base uma visão correlata de linguagem: a noção de que a cada palavra, ou grupo delas, vincula-se um sentido. Este, por sua vez, estaria como que fixado de forma perene naquela palavra, independentemente de quem a lesse ou interpretasse. Bem, sabemos que não é assim: o mundo dos sentidos e a sua construção estão aí para serem experimentados por cada um à sua maneira. O que a gente faz quando lê é projetar nossa vivência, é fazer inferências pessoais, é estabelecer redes associativas que não são as mesmas para todos. Ler, enfim, é uma atividade singular. Assim como toda operação de tradução. Aliar teoria à prática significa, então, colocar os pés no chão e entender que tudo muda ao longo do tempo. É aproximar da vida a atividade de traduzir.

PR: O que não pode faltar na sua mesa de trabalho?

João: Eu uso as ferramentas de busca e de pesquisa disponíveis online atualmente, mas não dispenso os bons e velhos dicionários impressos que venho acumulando ao longo da carreira. Muitas vezes são eles que dão a direção confiável da busca na internet. Uma boa gramática (do alemão e do português) também está sempre presente. Mas o que não pode faltar mesmo é a tranqüilidade, o bom senso, a paciência. Quem traduz profissionalmente precisa ter bons olhos, boa coluna e não pode se assustar com a solidão.

PR: O que você lê além dos livros que traduz? Qual é o livro do momento para você?

João: Um efeito colateral indesejável da vida acadêmica é não poder escolher o que ler. Conforme os compromissos vão surgindo, a gente vai se adaptando a eles. No momento, estou trabalhando na tradução dos escritos críticos do compositor alemão Robert Schumann. Foi este o tema da minha livre-docência defendida em 2009. Ler Schumann, então, suas cartas, seus aforismos, trechos dos seus diários tem sido uma coisa que me ajuda a associar dever e prazer.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

João: Muito do meu recado está embutido nas respostas até aqui: o refletir sobre a tradução de um local próximo da vida de todo dia, a sabedoria de lidar com a instabilidade, com as mudanças, exageros e paradoxos, o prazer de escrever, de ler, mas – sobretudo – de compartilhar. Traduzir é estabelecer pontes, como diz o título do livro do José Paulo Paes. Será um tradutor bem sucedido quem tiver vocação para a paz, para o entendimento. Quem, sem nunca ter estudado diplomacia, for capaz de evitar uma guerra. E aceitar quem nem todo mundo vai reconhecer esse trabalho de bastidores.

PR: Muito obrigado pela participação.

5 respostas »

  1. dbottmann disse:

    maravilhoso!

  2. ana rüsche disse:

    oi!

    hoje estou fazendo coro com a denise, é isso? hahá.

    o azenha foi um dos bons professores que tive na faculdade. até hoje lembro de alguns exercícios, como algo que parecia simples – traduzir contos de fada – fica bem complexo na prática (ah, quanta palavra que não tem no “meu repertório de brasilerês”, deus meu).

    lembro também de comentários de aula sobre traduzir receitas – há verbos e expressões típicos de um certo fazer (ex.: “a confecção passa pelo pisar do sal com a erva aromática e o alho”), há nomes de ingredientes difícies de serem encontrados aqui, enfim, traduzir é sempre um brave new world.

    legais as entrevistas!

    um beijo grande

    • Nunca comento aqui, mas hoje vai: João é uma pessoa que admiro e agradeço demais, pois provavelmente por ele entrei na pós-graduação. Ele acreditou que eu teria potencial para acompanhar o curso, apesar do parco alemão. Me viu como profissional já naquela época de incipiências tradutórias e, por isso, tenho todos os motivos para admirá-lo.

  3. Lorena Leandro disse:

    Nossa, como fiquei feliz em ler essa entrevista. O Mundo de Sofia foi um dos livros mais marcantes na minha vida. Poder conhecer um pouco mais sobre seu tradutor, a pessoa que possibilitou essa leitura tão maravilhosa, certamente é incrível.

  4. Rapaz, trabalhar com os escritos de Robert Schumann! E eu que te conheço há tanto tempo e não sabia disso. Tio Bertão é um dos meus compositores prediletos. Pena que meu alemão é curto e não tenho condições de ler o que ele escreveu. Que bom que é você que está tratando disso. Espero que publique e espero ter a chance de ler. Robert Schumann! Que glória!

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