Isa Mara Lando é professora, tradutora do inglês e francês, formada pela PUC São Paulo em Língua e Literatura Inglesa. Com quase 100 livros traduzidos, sua estreia foi em 1986 com Instinto Assassino, de W. R. Stevens. Desde então já traduziu autores como George Orwell, Salman Rushdie, Amós Oz, Bernard Malamud, Susan Sontag, John Fante, Edgar Allan Poe, Emily Dickinson. Também é autora adaptadora de livros infantis e infanto-juvenis. Participa regularmente de eventos e palestras para tradutores.

A maioria dos tradutores usa seu dicionário de dificuldades de tradução do inglês, o VocabuLando – Vocabulário prático inglês-português. Seus lançamentos mais recentes da série são o VocabuLando WorkbookExercícios de tradução e versão e o Mini-VocabuLando – 500 palavras úteis para leitura e tradução em inglês (todos pela DISAL Editora).

Vejam a generosa entrevista com ela a seguir:

PR: Todos conhecem a Isa Mara Lando do dicionário VocabuLando, mas não sei se os tradutores em geral sabem que você foi e é antes professora. Como foi a transição, ou melhor dizendo, o acréscimo da profissão tradutora em sua carreira?

Isa: Sempre gostei de aprender línguas e de dar aulas. Lecionei inglês na Cultura Inglesa durante dez anos. Depois disso fui programadora de computadores, assistente editorial na Ática e, finalmente, tradutora freelance. Acho que professora + tradutora foi uma feliz combinação, pois é o que me permitiu escrever o VocabuLando – um dicionário especial para tradutores que é louvado por ser muito claro e didático.

Unindo as duas vocações, nos últimos anos tenho me dedicado também às aulas de tradução, que costumo ministrar aqui no Rio nos cursos Flash e Brasillis, além de dar oficinas de tradução em várias outras cidades.

PR: Como você vê nossa profissão de tradutor quanto ao conhecimento do grande público e o respeito ao profissional de tradução?

Isa: Na área de livros, a Companhia das Letras tem se destacado, desde a sua fundação,  por seus excelentes tradutores. Alguns sites de notícias, como a BBC-Brasil, também são bem traduzidos. Mas a tradução alcança o grande público sobretudo pela televisão, e são poucos os programas bem traduzidos e que mencionam o nome do tradutor. Poucos, mas existem – gostaria de destacar o canal GNT e alguns programas como Oprah Winfrey, Project Runway, Extreme Makeover. Infelizmente os programas de ciência, que eu aprecio muito, como os dos canais Discovery e National Geographic, com frequência têm traduções muito ruins. Não há nenhum controle de qualidade, nenhuma preocupação com a exatidão e muito menos com a naturalidade do português. Por exemplo, há pouco vi um programa sobre Marte que citava a distância da Terra a Marte como de 480 km…. (pouco mais do que Rio-São Paulo). E é tão simples fazer a conversão das medidas – basta usar o Google.

Seria preciso haver muita pressão do público para que algo melhorasse nesse aspecto. Eu já reclamei com a distribuidora desses programas, já dei sugestões para melhorar e até já me ofereci à dubladora que faz essas péssimas traduções para ministrar gratuitamente uma oficina para os tradutores, mas nem assim houve interesse. Qualidade custa dinheiro, e as empresas só investem em qualidade quando têm algum forte motivo para isso. Do contrário elas procuram reduzir o custo dos serviços ao mínimo, e sempre encontram pessoas dispostas a ganhar muito pouco em troca de uma tradução medíocre e feita às pressas.

PR: O seu VocabuLando é o livro de cabeceira de muito tradutor, sempre muito útil. Mas nós, brasileiros, muitas vezes temos que nos render às versões e, para isso, falta uma obra parecida com a sua. Então, diga pra gente: haverá um VocabuLando Português/Inglês?

Isa: Não, esse seria um trabalho para um native speaker do inglês, não para mim. Não tenho grande experiência em versão, ao contrário da tradução para o português, que me permitiu escrever o VocabuLando ao longo de 20 anos de trabalho, sempre anotando e reunindo materiais.

PR: Na sua mesa de trabalho, o que não pode faltar?

Isa: Fisicamente na minha mesa de trabalho ficam sempre o dicionário Houaiss inglês-português (todo arrebentado por décadas de uso intenso) e  meu baby VocabuLando, onde estou sempre anotando novas palavras. Também gosto muito do Houaiss português-português, que tenho em CD. Os demais dicionários consulto on-line, sobretudo em www.thefreedictionary.com e www.onelook.com.

PR: Nas horas vagas, quais são suas leituras preferidas?

Isa: Varia muito. O que eu mais leio são  jornais online, principalmente New York Times e Huffington Post. Me interesso muito por política americana e assuntos internacionais do momento. Também gosto de ciência popular, de ler sobre a evolução, o início da vida na Terra, a genética, a vida dos grandes cientistas.

Ultimamente tenho lido bastante sobre Emily Dickinson, para embasar melhor o livro que estou finalizando com traduções de 55 poemas e uma breve biografia dessa poeta excepcional. Sempre gostei muito de poesia brasileira – Vinícius, Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Adélia Prado, Paulo Leminski. Outra vertente importante é a judaica, sobretudo Isaac Bashevis Singer, um grande contista que saboreio muito. Outros contistas que me dão muito prazer são Tchécov e Katherine Mansfield. Mas minha autora favorita, a quem volto sempre, como quem bebe água pura da fonte sem nunca se cansar, é Clarice Lispector.

PR: Gostaria de deixar um recado para quem admira ou deseja iniciar na profissão de tradutor?

Isa: É preciso praticar bastante, como em qualquer outra profissão. Ler, escrever e pesquisar, ampliar o vocabulário em inglês. Ler os bons autores e bons jornalistas nas duas línguas, inglês e português. Hoje em dia tudo é tão fácil – o New York Times está ao alcance de qualquer um, basta ter internet. Nos sites onelook e thefreedictionary temos acesso imediato e gratuito aos melhores dicionários, como Oxford, Cambridge, American Heritage, dicionários etimológicos etc.

Acho importantíssimo morar algum tempo em país de língua inglesa, fazer um intercâmbio ou pelo menos uma viagem longa por lá.

Também sugiro aproveitar todas as chances para traduzir, mesmo sem remuneração. Às vezes os alunos se queixam de falta de trabalho e de oportunidades, mas não se pode querer entrar no mercado e ganhar dinheiro logo de saída, sem experiência. É preciso primeiro ter algo de sólido para oferecer – viajar, ler, estudar, adquirir conhecimentos, ter uma cultura geral ampla e variada. Especializar-se em alguma área é muito importante. Aprender outro idioma. Aperfeiçoar-se ao máximo no inglês, preparando-se para  o Cambridge Proficiency e outros exames difíceis que realmente atestam o domínio da língua, fazer uma segunda faculdade que ensine a ler e escrever melhor, como, por exemplo, História, Jornalismo ou Marketing. Destacar-se, enfim – ter algo a mais para oferecer, e não apenas o que a média dos formados em Letras oferece.

E, sobretudo, gostar de línguas e gostar traduzir. Fazer o que nos dá prazer. “Do what you like – the rest will follow.”

PR: Muito obrigado pela entrevista.

7 respostas »

  1. denise bottmann disse:

    muito legal!!

  2. Danielle Sales disse:

    Adorei a entrevista. E pensar que, em meados da década de 90, a Isa Mara me mostrou os rascunhos do maravilhoso VocabuLando…

  3. Carolina C. Coelho disse:

    Adorei a entrevista, Petê.
    Parabéns a Isa Mara!

  4. Martha Gouveia da Cruz disse:

    Gostei muito da entrevista, Petê.

    Parabéns a você e à Isa Mara, de quem aliás sou uma grande fã. Já assisti a vários cursos dela e sempre aprendi muito em todos eles.

    Um abraço aos dois.

  5. Carla disse:

    Amei a entrevista!!

    Bjs

    Carla

  6. [...] tem uma entrevista com a autora, para quem ainda conhece suas traduções literárias feitas para várias editoras de primeira [...]

  7. [...] InícioBlogueTextosQuem?Conversas entre tradutoresCarolina Caires CoelhoDanilo Nogueira e Kelli SemoliniIsa Mara LandoHeloisa VellosoTercio RedondoCarolina AlfaroMonica NottonRenate MüllerCéline GracietPortuguêsEnglishJoão Azenha JúniorRoseli Dornelles dos SantosIrene AronBeatriz RoseMamede Mustafá JaroucheEquipe TradCastVal IvonicaAna IariaJorio DausterClara AzankAdriana MachadoIvone C. BenedettiContatoCurrículoTraduçãoLiteratura [...]

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