A diferença que faz a diferença. Danilo Nogueira atua na área de tradução desde a década de 1970, sendo uma referência na tradução financeira, na informatização da tradução e no fazer tradutório. Kelli Semolini formou-se na UNESP em 2006, foi professora de inglês e hoje trabalha em tempo integral como tradutora. Eles se encontraram numa comunidade de tradutores do Orkut e desde então dividem serviços de tradução, diversos projetos e a autoria do blogue Tradutor Profissional, um dos mais completos da área no Brasil. Vamos conversar com eles:
PR: Queria saber de vocês como foi esse “encontro de gerações” e como funciona esse trabalho em dupla que dá tão certo.
Danilo: Agora é que eu quero ver se ela conta a verdade. Convidei a Kelli para vir a São Paulo passar o dia comigo. Veio, com uma carinha de inocente que dava gosto. Depois do almoço, perguntei se ela queria conhecer um pouco da cidade ou ouvir uma proposta de trabalho. Ela escolheu ouvir a proposta. Tenho certeza de que não esperava o que ouviu, mas topou.
Até hoje, jura que não esperava proposta alguma, mas não acredito. Não foi pelos meus lindos olhos vesgos que ela se abalou de São Carlos para São Paulo numa fria manhã de agosto — logo ela que detesta levantar cedo.
Convidei a Kelli porque achei que tinha potencial e porque achei que não ia ficar com medo de discordar de mim. Acertei em cheio. Quando não concorda comigo, finca o pé e argumenta até mais não poder. Normalmente, discorda com boas razões e dos nossos desacordos têm nascido excelentes ideias.
Antes dela, quem trabalhava comigo era a Vera, minha mulher. São duas pessoas diferentes e, como resultado da substituição, mudei muitos dos meus planos e conceitos. Muito como trocar de parceira em um espetáculo de dança: muda a parceira, muda a coreografia.
Kelli: O Danilo pode não acreditar, mas eu não esperava nada mesmo daquela viagem. Até porque tenho como lema não esperar muita coisa, assim o que aparecer é lucro. Nem sempre eu consigo, mas naquele dia eu estava esperando conhecer algum museu, ouvir alguma história (o Danilo conhece a história de cada igreja de São Paulo, incrível) e coisas assim. Claro que eu queria falar de trabalho, mas não seria eu a começar a falar disso, e não esperava que o Danilo falasse sem nem me conhecer direito. Bom, ele arriscou, eu criei coragem e deu certo. Tem sido um aprendizado enorme, sem contar que o Danilo virou um pai para mim. Acho que por isso mesmo nem sempre é fácil, e por vezes temos os dois que ser muito pacientes um com o outro, mas temos épocas (como a atual) em que rendemos muito e nos enchemos de boas ideias. É o meio que o meu mestrado/doutorado, já que não sei se ainda tenho paciência para a academia.
Danilo: Não, não conheço a história de todas as igrejas. O truque é só passar em frente daquelas que eu conheço.
PR: Nossa profissão, apesar de comprovadamente necessária, ainda não alcançou, digamos, o devido respeito. Qual é a opinião de vocês quanto à imagem que a tradução tem ainda nos dias de hoje? Vocês veem uma solução para isso?
Danilo: O que se respeita não é a profissão, é o profissional. E eu sou respeitado, desde que comecei a traduzir. Se o cliente não me respeitar, viro as costas e vou embora. Já fiz isso em épocas de pouquíssimo trabalho. Agora, em fim de carreira, vou embora sem nem dizer água vai. Na verdade, ninguém respeita você: você impõe o respeito.
Kelli: Eu concordo, mas acho que ainda falta as pessoas conhecerem melhor nosso trabalho, o que aos poucos está mudando. Era da informação, essas coisas… o “problema” é que agora as críticas começam a ser mais bem fundamentadas e, com a ajuda dos tradutores automáticos, os picaretas vão perder o lugar rapidinho. Para que pagar alguém se eu posso ter o mesmo resultado, talvez melhor, de graça?
PR: Por conhecer o Danilo há uns bons anos, sei que a tradução para editoras não é bem a praia dele. Mas e a Kelli, que acha da tradução para editoras? E qual a opinião do Danilo para o cenário de hoje da tradução editorial?
Danilo: As nossas editoras estão pagando muito melhor que antigamente. Parece que acordaram para a necessidade de trabalharem com tradutores profissionais, quer dizer, tradutores que vivam de traduzir, não que levem a tradução como bico ou distração. Dado o fato de que trabalhar para editora, por vários motivos, permite uma produção mais alta, somado ao fato de que os horários são mais flexíveis do que no tipo de trabalho que eu faço, já não é tão má ideia o traduzir livros — ao menos para as editoras de primeira linha.
Kelli: Se você conhece algum tradutor que nunca quis traduzir um livro, me apresente, porque eu não conheço nenhum. Conheço gente, como eu, que acabou encontrando um nicho de que gostava e se acomodou. Acredito que os prazos geralmente largos dos livros compensem o pagamento um pouco mais baixo em relação à tradução técnica, por permitirem encaixes (em troca de muita disciplina, claro). Até tenho ido atrás de algumas editoras, que não me faria mal algum aprender o que elas têm a ensinar, mas é uma demora para se entrar… Enquanto isso, estou feliz da vida traduzindo meus contratos, balanços e coisas do gênero.
PR: Vocês têm um projeto conjunto de um curso de tradução à distância. Como será esse curso?
Danilo: É mais do que isso. É um projeto muito amplo, que inclui pelo menos um livro, que estamos escrevendo a quatro mãos, e é basicamente por causa desse projeto que convidei a Kelli para trabalhar comigo. Muitos mais do que “a minha revisora” ela é a parceira nesse projeto.
A ideia básica é trabalhar a técnica de tradução, ou seja, preencher um vácuo entre a teoria e a prática. Nada que vá ficar nos anais da tradutologia moderna, mas, esperamos, algo que vá ficar na mesa do tradutor, para consulta e análise.
O curso, espero eu, será bem diferente dos outros, por pelo menos dois motivos. Primeiro que, em vez de se concentrar em textos complicados, concentra-se em textos simples, breves, sem problemas terminológicos, para pode focar não a complexidade literária, não os problemas lexicográficos, mas sim a técnica de tradução. Segundo, que o participante recebe retorno imediato: traduziu, eu comento na hora.
Não existem “traduções certas”, aquela coisa do “veja a tradução maravilhosa que eu achei para este texto complicadíssimo. Existe “por tal e tal razão, acho que ficaria melhor trocando X por Y”.
Que fazer com a enorme quantidade de “yous” dos textos em inglês? Existe algum modo de lidar com os advérbios terminados em -mente que não seja encher minha tradução dos famigerados “de modo X”, “de maneira Y”? Principalmente, explicar os porquês das nossas sugestões. Porque para tudo há um porquê. Não basta dizer “ah, eu faço assim”: essas coisas têm um fundamento e é só entendendo qual o fundamento que o tradutor pode aplicar a lição a situações novas e crescer profissionalmente.
O que anunciamos é simplesmente a palestra inicial do curso. Vem mais. Esperamos que muito mais.
Kelli: Não sobrou muito para eu falar. Só posso dizer, então, que fui/sou meio que uma cobaia do Danilo, e que meus textos melhoram a cada dia com as dicas, técnicas e macetes que ele me ensina.
Danilo: E eu com os “mas” da Kelli: “Você diz que X, mas…”
Kelli: O tal rabinho do elefante
PR: Que não pode faltar na mesa de trabalho de vocês?
Danilo: Bagunça. Minha mesa é o caos. Nada de muito relevante para o que estou fazendo, mas tem sacos de coisas. Livros, CDs, papeis, mil coisas. Não deixo na mesa nem comida nem bebida, porque prefiro ter de levantar e pegar na cozinha. Mas inutilidades em geral é o que não falta — nem pode faltar.
Bagunça inspira.
Kelli: Além da bagunça, água (não muito, para eu ter que levantar sempre), o Vocabulando e o dicionário do Marcílio. Glossários Mil&um Termos, outros dicionários e materiais de referência não ficam na mesa, mas ao alcance.
Danilo: Eu deixo tudo longe, para tirar o rabo da cadeira e ir pegar.
PR: Eu já sou mais preguiçoso, deixo tudo do meu lado: água, café, dicionários… Na tradução, que tipo de texto vocês preferem?
Danilo: Muitos dos textos que eu venho traduzindo há quarenta anos são muito semelhantes. Há quem ache isso um horror, mas eu gosto muito, porque são uma oportunidade única de testar novas soluções para velhos problemas. Embora use intensamente memória de tradução, só aprovo os “100% matches” sem mexer quando o prazo é mais curto que o urgente-urgentíssimo habitual. Fora isso, sempre mudo, reformulo, dou uma arrumadinha. Em parte é desse constante rearrumar que nasceu o curso de tradução.
Gosto muito, também, de traduzir para o inglês material sobre tributação. É uma dor de cabeça única, porque tenho de transformar o engrimanço advocatácio costumeiro em inglês que se entenda, sem tupiniquinglish. Além disso, como eu venho dizendo há muitos anos, é como completar um quebra cabeças com peças tiradas de outro, porque pouquíssimos termos relacionados com tributação têm um com correspondente em inglês. Mas há tempos não faço esse tipo de serviço, porque raro é o cliente que quer me pagar o que eu quero para enfrentar um perereco desses.
Kelli: Eu não sou tão específica quanto o Danilo. Prefiro textos bem escritos, sem que o escritor “tente” escrever bonito. Sempre que alguém “tenta” escrever bonito, sai uma porcaria sem tamanho – quem sabe escrever bonito, escreve, não tenta. Então, não sendo isso e nem chinenglish ou japenglish ou qualquer coisa assim, tá de bom tamanho.
PR: E fora do horário de trabalho, quais suas leituras preferidas?
Danilo: Você sabe que a minha arte predileta é a música, não a literatura. Sou capaz de distinguir vários estilos e épocas na história da música clássica, sei que sonata é uma forma musical, sei como funciona e que na famosa Sonata “ao Luar” falta um pedaço. . Meu pensamento tradutório é fundamentalmente musical. Para mim, o original que eu traduzo é como a partitura que o pianista realiza em som. Mas, de literatura, conheço muito pouco.
Minhas leituras lúdicas se concentram em história e história da música e mais umas coisinhas. Nada de muito trancendental do ponto de vista literário.
Kelli: Ainda me sinto voltando a ler. Sempre gostei, até entrar na faculdade. Lá, criei uma certa aversão que está diminuindo aos poucos. Mas não tenho um estilo preferido. Gosto de romances de tribunal, por exemplo, e atualmente estou me divertindo com As brumas de Avalon. Amanhã, posso estar folheando o Mensagem, de Fernando Pessoa ou lendo gibi da Turma da Mônica.
PR: Querem deixar um recadinho para quem admira ou quer começar na profissão?
Danilo: Traduzir é uma festa, mas tradução não é leitura remunerada. Você tem que gostar de traduzir, mesmo que o texto seja do tipo que você jamais leria nas suas horas de lazer. Para cada grande obra literária, há cem volumes de Bianca, Sabrina e Júlia a traduzir. O mesmo com audiovisuais. Para cada episódio de uma serie de sucesso, há, ao menos, uma centena de vídeos de treinamento a traduzir.
Kelli: Canso de dizer que o Danilo e eu temos definições bem diferentes para “festa”, “divertido” e umas outras coisas. Para mim, tradução não é festa, por mais que eu goste. Talvez um dia venha a ser, mas hoje é trabalho árduo, com coisa demais para aprender, e muitas vezes chego a duvidar se dou conta de aprender tudo o que quero/preciso. Claro que eu já quis ganhar dinheiro legendando as séries que assisto, ou traduzindo os livros que leio… só não é o que acontece com todo mundo, e eu criei um gosto pela área de finanças que nunca pensei que fosse ter. Imagina, fui fazer Letras para fugir de números!
PR: Eu pensava que a área de contratos era árida. Me surpreendi quando comecei nela. E o Danilo desde sempre me diz: “Você é sortudo, ganha para se divertir”. Concordo com ele nesse ponto. Muito obrigado e até a próxima!
Danilo: Eu é que agradeço. Até a próxima.
Kelli: Obrigada, Petê!



delicioso!
“Traduzir é uma festa, mas tradução não é leitura remunerada.” – verdadíssima.
ótimo espaço, petê, parabéns pela ideia.
A sociedade do Danilo e da Kelli ter dado tão certo foi mais que sorte grande: foi providencial. Agora, ninguém segura essas feras! Nem é preciso dizer “keep up the good work”, é apenas consequência lógica!
Confesso que, atrasadíssima, só agora comecei a ler as famosas entrevistas do Petê. Além de eu ser fã da dupla dinâmica, como todo mundo sabe, preciso dizer que adorei seu jeito de conduzir a entrevista, Petê. Um trabalho de qualidade mesmo! Parabéns! Que venham muitos outros!
Nunca é tarde, Thaysita. Bem-vinda ao meu mundo meio do avesso.