Hoje o Conversas entre Tradutores temos Carolina Alfaro. Vivendo em Toronto, Carolina é tradutora de inglês e espanhol e também é professora de tradução de legendagem, uma de seus especialidades. É sócia da empresa Scriba Traduções e tirou um tempinho, entre as muitas traduções e partidas de tênis, para nos dar uma entrevista. Vamos lá.

PR: Como você se tornou tradutora?

Carolina: Decidi que queria ser tradutora aos 15 anos. Fiz vestibular para apenas uma universidade, a PUC-Rio, entrei em 1992 e cursei Letras com bacharelado em Tradução. Fiz tudo o que pude lá dentro, todas as disciplinas e atividades opcionais, fui superaplicada e os próprios professores começaram a me indicar oportunidades de trabalho já bem antes de me formar. Assim que me formei, fui contratada por um laboratório de informática da própria PUC-Rio como tradutora e revisora, em meio expediente, e fiz o curso de especialização em tradução também na PUC-Rio – foi onde aprendi os rudimentos da legendagem. Em suma, desde 1996 praticamente não passei um dia sem traduzir profissionalmente.

PR: Quais os grandes desafios da tradução hoje em dia, ao seu ver? E como está o cenário da tradução de legendagem hoje?

Carolina: Eu diria que “o” grande desafio para todo tradutor é demonstrar, permanentemente, que ele é um profissional indispensável, que seu trabalho é fundamental e que o valor investido em contratá-lo é mais do que compensado pelos resultados obtidos com aquela tradução. Isto é, demonstrar que há um abismo entre ele e qualquer software grátis ou barato de tradução ou outra pessoa que apenas conheça a língua estrangeira e “quebre um galho” fazendo uma tradução.

O mercado de legendagem em todo o mundo, e sobretudo no Brasil, está aquecidíssimo. Há uma imensa procura por profissionais capacitados – do tipo que mencionei acima – em todas as áreas. E, para os tradutores experientes e capazes de realizar traduções técnicas (ou com uma boa rede de parcerias) que investirem em técnicas e software de edição de vídeo, o mercado de vídeos institucionais e técnicos é um prato cheio. Cada vez mais presto serviços diretamente para os clientes – as próprias companhias de diversos ramos, não as produtoras de vídeo intermediárias – e realizo a tradução, legendagem e edição dos filmes ou DVDs, cobrando valores na faixa mais alta praticada no mercado.

PR: Na sua opinião, como as pessoas veem a profissão de tradutor e intérprete hoje?

Carolina: Já faz um bom tempo que deixei de ver os tradicionais olhares de pena dirigidos a quem diz ser tradutor. Em conversas informais, muita gente demonstra um interesse genuíno pela especialidade do que eu faço e pelo meu estilo de vida como profissional independente. Como professora de tradução há alguns anos, tenho gostado de ver o entusiasmo da maioria dos alunos com relação à perspectiva de se tornar tradutor profissional.

Às vezes é meio inevitável ouvirmos, seja em tom de sarcasmo ou de preocupação, que daqui a 5 anos nossa profissão não vai existir mais porque os programas de tradução automática vão ocupar nosso lugar. Por outro lado, tenho a impressão de que essa mesma ideia muitas vezes gera até mais admiração quando mostramos que somos profissionais bem-sucedidos, que nosso mercado não para de crescer e que vivemos e vamos continuar vivendo do nosso trabalho. Acho que a tradução automática só empolga a quem não leva a tradução muito a sério e só ameaça a quem não encara a tradução como profissão especializada.

PR: Muitas pessoas criticam a tradução de legendagem, muitas com pouco conhecimento de causa, ou seja, das dificuldades desse tipo de tradução. Como você vê essa postura das pessoas? E qual sua opinião sobre a qualidade da legendagem no Brasil hoje?

Carolina: A legendagem é fácil de criticar (digo “criticar” no sentido neutro, não necessariamente negativo) pois o cotejo com o original é inevitável. Cotejar qualquer outra forma de tradução é difícil e trabalhoso, mas no caso da legendagem o nosso cérebro tenta comparar o que ouve com o que lê de forma quase inconsciente. Por isso, muita gente que nem seria capaz de entender o original sem legendas e muito menos seria capaz de traduzi-lo se sente no direito de apontar falhas na tradução, sejam elas procedentes ou não.

As críticas totalmente infundadas são irrelevantes. Mas é claro que muitas vezes são identificados erros reais na legendagem. Em casos assim, o consumidor do produto final pode e deve reclamar. Mas é importante que a reclamação seja dirigida ao responsável por aquela tradução, que é a distribuidora, ou o canal, ou a produtora que encomendou aquela tradução. Nenhum tradutor escolhe o que traduzir por conta própria e joga as legendas diretamente na tela do cinema sem seu cliente perceber. Ele é contratado, remunerado, e seu trabalho é revisado, aprovado e geralmente editado pelo cliente antes de chegar ao público. Portanto, é preciso tomar nota de quando e onde o erro foi detectado e procurar nos créditos finais a empresa responsável pela tradução, para reclamar aos responsáveis. Existem tradutores ruins, sim, mas quem os contrata, remunera e acha que aquele serviço está bom é tão ruim quanto eles.

A qualidade da legendagem no Brasil é excelente. Os padrões de qualidade estão cada vez mais rigorosos e os clientes são cada vez mais exigentes ao selecionarem seus profissionais. O que não é muito óbvio, sobretudo no caso de DVDs e de canais de TV a cabo, é saber quais traduções são feitas no Brasil e quais vêm do exterior. Os canais Sony, Warner e parte da programação da Fox, por exemplo, são traduzidos fora do Brasil e apresentam graves problemas linguísticos e técnicos. Basta compará-los a canais como Multishow, GNT ou os Telecines para notar a diferença.

PR: Na sua mesa de trabalho não pode faltar?

Carolina: Em volta do computador cheio de programas, dicionários, recursos mil e banda larguíssima, o VocabuLando, meu Caderno de Serviços (para saber mais sobre ele, clique no link), blocos de Post-It, meia dúzia de canetas e lapiseiras diferentes, minha garrafa de água e uma caixa de chicletes. A estante com os dicionários e gramáticas em papel fica logo atrás de mim.

PR: O que você tem lido ultimamente? Qual é o livro do momento para você?

Carolina: O último que terminei foi um romance histórico argentino. Abertos e parcialmente lidos, na mesa de cabeceira (minha mesa de cabeceira é enorme), tenho três livros teóricos sobre tradução ou legendagem, um livro de contos ingleses traduzido em português, um de contos de uma autora canadense jovem, um livrinho humorístico sobre gatos, a edição recentemente relançada de Emília no País da Gramática, uma coleção de quadrinhos de estilo jornalístico e uma pilha imensa de revistas Língua Portuguesa e ATA Chronicle. Os próximos da fila são um romance do Salman Rushdie e um livro sobre neurolinguística. Estou tão sobrecarregada de trabalho que não estou lendo nada sistematicamente; pego o que sinto vontade no momento.

PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.

Carolina: Tradução exige MUITA ralação. Muito estudo, muita pesquisa, muita luta com cada palavra, cada vírgula e caractere. Isso deve começar quando se pisa na sala de aula ou se redige o primeiro e-mail de natureza profissional. Se você é do tipo que repara e ajusta a largura exata do travessão, que fica nervoso quando vê que alguém pôs um espaço antes de uma vírgula, que por via das dúvidas contrasta um mesmo verbete em dicionários diferentes, se você já se deliciou navegando em um dicionário de sinônimos ou já gritou de alegria ao encontrar o nome exato daquela pecinha de um motor a jato, e se você curtiria fazer isso pelo resto da vida, você está no caminho certo para se tornar um daqueles profissionais indispensáveis.

PR: Muito obrigado, Carol.

2 respostas »

  1. denise bottmann disse:

    superlegal!

  2. Min disse:

    Lindo!
    Essa entrevista deveria receber capa dura – “Guidelines for Translators”.
    Completíssima.
    Parabéns, Carol.

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