Hoje o Conversas entre Tradutores traz Heloisa Velloso, tradutora e intérprete bastante conhecida pela sua excelente atuação na área desde os últimos anos de 1980, além de ser professora em um dos mais respeitados cursos de capacitação de tradutores e intérpretes do Brasil, o curso de tradução e interpretação Alumni.
PR: Heloisa, sua relação com inglês vem de muito cedo. Como isso influenciou sua decisão de se tornar tradutora e intérprete?
Heloisa: Fomos morar em Londres antes dos meus dois anos de idade. Meu pai foi trabalhar na BBC. Eu só falava português com a minha mãe. Com meu pai e o resto do mundo, inglês. Saía com tias que vinham do Brasil nos visitar e interpretava para elas quando saíamos para fazer compras. Quer dizer: sou intérprete desde sempre! Além disso, meu pai também foi tradutor e intérprete.
PR: Como você vê o mercado de tradução e interpretação de ontem e este mesmo mercado hoje? O que melhorou? E o que está visivelmente pior?
Heloisa: O mercado de tradução já foi melhor para os tradutores, pois pouca gente entendia, e menos ainda falava, o inglês. Quando comecei a trabalhar como secretária bilíngue ganhava mais que muito médico em início de carreira, sem brincadeira! E a concorrência aumentou, já que a cada dia vêm novas levas de tradutores e intérpretes (entre aspas ou não). É preciso ser cada vez melhor e mais preparado! Quanto a melhoras, a internet é a principal responsável pela rapidez nas pesquisas. Antigamente era preciso procurar especialistas em determinados assuntos, ir a bibliotecas físicas, ainda que fosse apenas para traduzir referências passageiras. Hoje em dia, é só procurar nos vários motores de busca. As ferramentas de tradução são, também, um passo gigantesco com relação à agilidade.
PR: Na sua opinião, como as pessoas veem a profissão de tradutor e intérprete hoje?
Heloisa: Muitas ainda nos consideram “maquininhas” de traduzir, algo como “um mal necessário”. Mas, pouco a pouco, as pessoas nos vão percebendo como gente de talento, criativa e eficiente. A ética é fundamental para não deixarmos cair a peteca!
PR: Você utiliza alguma ferramenta de auxílio à tradução?
Heloisa: Sim, uso Wordfast. Meus textos são quase todos em Windows Office, aos quais o WF se aplica bem. Também uso conversor de PDF para poder trabalhar em Word, sempre que necessário.
PR: Na sua mesa de trabalho não pode faltar:
Heloisa: Ixi, parece não faltar nada aqui!! Preciso arrumar. Mas a sério: bloquinhos pautados e mais bloquinhos de bilhetes, autoadesivos e não, lápis e esferográficas, borrachas, calculadora (sim, para $$ cotações inclusive!), pincel (para limpar o teclado)… Ah, e a minha gata acha que também não pode faltar aqui do lado e às vezes quase em cima do teclado!
PR: O que você lê tem lido ultimamente? Qual é o livro do momento para você?
Heloisa: Sempre leio vários livros de uma vez e sempre na hora em que me deito, ou então nas salas de espera da vida. Entre outros, estou lendo El Paraíso en la otra esquina, de Mário Vargas Llosa e Herzog, de Saul Bellow. Livro do momento? Acho que depende do nosso próprio momento!
PR: Deixe um recado para quem admira ou quer começar na profissão.
Heloisa: Embeber-se, embebedar-se em suas línguas de trabalho! Ler tudo que estiver ao seu alcance nessas línguas, inclusive bulas de remédio (nunca se sabe se o palestrante vai citar algum mal passageiro). Ver televisão, inclusive — eu diria até principalmente — esportes. O baseball, por exemplo, é uma fonte riquíssima de metáforas na língua inglesa, assim como o futebol é na nossa. Ver séries na TV, ir ao cinema, prestar atenção nas expressões. Não tenha preconceito de gírias. Se o seu texto ou palestra as incluírem, você vai ter que traduzir! E, por fim, MUITA ética!!! Nada de passar cartão de visita quando o evento é do(a) colega! Nem se aventurar a traduzir assuntos que não conhece e que requerem conhecimentos profundos. Citando o saudoso Stanislaw Ponte Preta, ética é como higiene: nunca é demais.
PR: Muito obrigado, foi um prazer tê-la conosco.



Posso contar uma história sobre a Helo? Dizem que a primeira impressão é a que vale. Pois, no nosso caso, não valeu, porque, quando nos conhecemos, lá para 1998, não fui com a cara dela. Achei antipática e pouco confiável, embora inteligente. Hoje, uma dúzia de anos depois, é uma colega de quem me sinto muito perto. Brincalhona, divertida, inteligente, afetuosa, honesta, dona de uma vitalidade surpreendente e de uma sinceridade mais surpreendente ainda. Ser concabino dela deve ser uma festa.