Lançamento…

Agora é o meu que venho anunciar aqui.

Como comentei aqui e até abri um blog para tanto, vou lançar meu livro Réquiem: sonhos proibidos. Será no dia 23 de junho de 2012, das 17h30 às 21h30, no Espaço Terracota Editora (Rua Lins de Vasconcelos, 1886, Vila Mariana – mapa aqui; para marcar sua presença no Facebook, clique aqui). Vejam abaixo o texto da divulgação e, logo que o e-flyer ficar pronto, boto aqui pra todo mundo.

O que você faria se não pudesse mais sonhar?

“A química do Réquiem estava em sua corrente sanguínea, não havia com que se preocupar, pensou. Sua mãe dissera, não precisava temer. Rolou na cama algumas vezes, ligou o abajur para tentar ler um pouco na sua multitela, mas não conseguia se concentrar. Até que finalmente adormeceu. E teve um sonho.” (Trecho do livro)

O sonho proibido. A extrapolação da sociedade da informação. A necessidade de ter de volta a capacidade de ser livre de verdade. Em Réquiem: sonhos proibidos, Ivan é um homem normal, sem muitas aspirações na vida, até que recebe uma carta do Governo Mundial: todos seriam obrigados a ingerir uma droga inibidora do sonho. A partir deste momento, seu destino está traçado, mas as linhas não são claras.

Espero vocês todos lá, hein?

Abraço e logo divulgo o lançamento também em BH.

¡Hola!

Don Quijote, Pablo Picasso

Sim, comecei a aprender espanhol. Minha única experiência real com o idioma de Cervantes foram as aulas com a professora Roseli Daltério, na Ibero-Americana (era a língua complementar para os cursos de tradução) e uma pequena viagem a Cuba para um congresso de germanística, uma experiência fantástica na isla del Capitán. E apenas com essa viagem que percebi como é rica e bonita a língua dos hermanos. Não comecei do básico, pois esse aprendizado, mesmo que distante, ficou na cabeça e pude dar uma avançadinha e entrar no nível intermediário.

A primeira aula foi na segunda-feira passada e uma das minhas dificuldades foi a de me concentrar para não disparar a falar português. Acredito que no início esse seja o grande problema, que pelo visto algumas pessoas não conseguem superar em médio prazo.

Aprender um idioma (de verdade, eu digo) exige algumas coisas das pessoas que hoje em dia quase ninguém está disposto a ter e se conceder. Inclusive, essas coisas costumam causar pavor nas pessoas e os fast courses se multiplicam como coelhos por conta dessa ojeriza que a maioria tem delas. Tempo, dedicação e paciência são elementos fundamentais (ao meu ver) para se aprender um idioma. Mesmo que seja um idioma mais próximo do nosso, como no caso do espanhol, e mais ainda quando o idioma ficar muito distante da nossa realidade.

Encontrei uma moça, a Tatiana, que acaba de começar o curso na mesma escola que eu. Por acaso, quando viu que eu estava voltando da mesma escola, me pediu para que eu a acompanhasse até o seu carro, pois havia um cara meio estranho rondando a escola e ao que parece havia escolhido a moça como possível vítima. Conversamos um pouco, ela teve uma experiência com o aprendizado do alemão e me disse logo de cara algo que ninguém nunca havia dito para mim de primeira, algo em que acredito muito: para aprender o alemão, é necessária dedicação praticamente diária, ao menos no início, para que o restante do aprendizado (que pode levar vidas e vidas [risos]) seja mais tranquilo. Acredito que não excluo nenhum idioma dessa regra, visto que o aprendizado vem com a repetição e internalização de estruturas e, em seguida, com a liberdade para brincar com essas estruturas dentro das possibilidades da língua e do léxico. Errar, acertar, como ao aprender sua primeira língua, e corrigir no banco de dados da cabeça o que seja necessário. Um ótimo [e muito rígido] professor que tive no Goethe, o Henrique Oliveira, sempre dizia: Die Wiederholung is die Mutter der Sprache, a repetição é a mãe do idioma.

 Desejem-me sorte nessa nova empreitada. Também tenho uma pergunta a quem se interessar a responder: para você, qual seria uma boa fórmula para aprender um idioma?

Tempo de plantar, tempo de colher…

Quando se passa muito tempo num lugar, diferente de antigamente, fica-se desacostumado com o mercado. Prega-se em altos brados que o limite hoje é de 5 anos numa empresa. Pois bem, passei 11 anos numa empresa de tradução, dos quais ao menos seis foram como tradutor de fato. Onze anos nos quais aprendi muito, ensinei bastante e cresci. Não existe para mim o ‘se’, não penso nele. Se eu tivesse saído antes, se eu tivesse feito diferente. O que de fato aconteceu nestes 11 anos 1 mês e 1 dia é com o que posso contar e confesso: achei ótimo. Nesse tempo aprendi a me chamar tradutor e conheci muita gente, participei de grandes projetos e me apaixonei pela profissão, apesar de todos os percalços. Desde o final da faculdade, quando fiz uma entrevista surreal com a dona do escritório, até o dia 11, quando acertei meus últimos dias na empresa, aproveitei cada segundo, cumpri meus deveres e tentei ao máximo ser profissional e autêntico. Espero ter conseguido ser ambos na maior parte do tempo. Agora é tempo de renovar, de plantar outras sementes e trabalhar duro para que as colheitas sejam cada vez mais especiais.
Agradeço a todos que fizeram parte dessa jornada. Apesar de clichê, não há palavra melhor para descrever essa década. Espero reencontrar muita gente e conhecer outros tantos nessa nova fase da vida… E vamos que vamos!

Pra quê?

Você escreve pra quê? Pra quê, se ninguém lê? E se alguém ler, valerá a pena? E a história de que todas as histórias já foram escritas, fica onde? São tantas perguntas antes da grande e invisível interrogação da página em branco. A tela, claro, em branco. Aquele cursor, toc-toc-toc, sem rumo nenhum, sem bússola. E você escreve para quem quiser ler e para quem não quiser e até para aquele que pouco se importa se você escreve ou não, pois está interessado não na sua escrita, mas na dele ou dela. Não lê o que você escreve, mas adoraria que você lesse aquelas poucas páginas que surgiram num repente furioso no meio da noite, olha só, nem queria escrever tanto e veio de uma vez, você pode ler?

Não.

E daí encaramos um texto. E analisamos um texto. E chegamos a diversas conclusões, sendo uma delas muito simples: não devia ter sido escrito. Nem ao menos pensado. Não precisava. E é o nosso texto.

Alguém tem essa humildade, admitir que o próprio filho é torto?

Não.

E quando o filho é do outro? E você precisa cuidar dele como se fosse seu e alguém diz: hum… tá torto. Dá um medo de que a sua intervenção, seus mimos e cuidados tenham entortado aquele rebento alheio. Deixado fraco, insosso, ou forte demais, não era para ser assim. Pesa uma mão aqui, alivia demais ali e acaba deixando o filho alheio frouxo ou duro demais. Ou transforme em filha. Possibilidades e realidades que amedrontam.

E o cursor ainda ali, toc-toc-toc.

Embriaguez, talvez seja a solução. Aborto preventivo, talvez.

Não, também não.

Agora já foi, já não tem mais volta. Já está ali, pedindo mais. E já mimamos o bastante para voltar atrás. Não tem outro jeito. É encarar e ver no que dá.

Ao menos, há sempre aquele ombro com o qual contar…

Coceiras

Sim, eu sou uma pessoa sem sossego na minha vida. De tanto ver e ouvir colegas e outros fazendo podcasts, me deu uma coceira quase irresistível de fazer um para este blogue.

Sobre o quê?

Essa é uma ótima pergunta. Em primeiro lugar para quem não sabe o que é um podcast: é uma gravação em áudio que as pessoas fazem sobre determinados assuntos (ou nenhum assunto) que as pessoas acompanham, em geral semanalmente. Diversas celebridades, subcelebridades e jornalistas mantêm seus podcasts para fazer comentários sobre suas áreas de especialidade e eu comentei aqui sobre o TradCast, o primeiro podcast sobre tradução em português brasileiro. Acompanho também o podcast de uma alemã chamada Annik Rubens há uns bons anos, chamado Schlaflos in München, que é bastante divertido e, caso eu faça realmente essa loucura de podcast, vou seguir o estilo dela: falar sobre tudo e um pouco mais, mas o foco em geral será em literatura e tradução. Será que vai rolar?

Atualização: Já fiz o número zero do PETÊCast, depois de ter escrito este post. Impublicável, cheio de hums e hãs, mas ao menos tá bem montadinho, com introdução e até disclaimer. Acho que vai rolar.

PS.: Para quem estuda alemão, Annik também tem um podcast chamado Slow German.
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Inspiração ou suor?

Uma discussão que talvez pareça inútil essa que proponho agora, até por que sempre foi e sempre será desse jeito, cada qual com a sua opinião ou com sua mudança de opinião a cada brisa mais forte: a literatura é arte, inspiração e, talvez, possa se viver dela ou é trabalho e ganha-pão e precisa ser encarada como tal? Conheço duas pessoas com opiniões totalmente divergentes quanto a esse assunto (e não vou mencionar nomes, por motivos óbvios), mas que ainda assim se respeitam e se querem bem. Uma delas sempre diz que “a literatura é trabalho e o escritor precisa sair de sua torrinha de marfim e pisar no chão, participar, se envolver com seus semelhantes, ir a lançamentos, festas e afins para não ficar sozinho, pois sozinho não se chega a lugar algum”. Visão bastante pragmática para algo tão inexplicável quanto a literatura, mas válida nesse mundo de networking e relações interpessoais incalculáveis. Pensando que todo mundo teve sua turminha, seu exército, como diria Marcelino Freire, até é plausível essa visão de que o escritor precisa estar no olho do furacão para saber o que fazer, por onde ir e como chegar. Do contrário, estará enclausurado em suas próprias linhas e entrelinhas, solitário em suas divagações e dificilmente (a não ser em casos de genialidade indiscutível) alcançará o que essa vertente literária também busca: reconhecimento de seus pares e, por conseguinte, do público.

O outro lado da moeda traz à luz não o escritor ermitão, mas aquele que acredita estar a arte acima de qualquer esforço contábil, ou seja, se ela virar um ganha-pão, que seja por um interesse genuíno de seu público e não pela aceitação dos pares ou pelo empenho em torná-la algo vendável. Que a arte é algo muito maior que o trabalho, o dinheiro e que a inspiração, ao contrário do que preconiza João Cabral de Melo Neto, é componente fundamental da criação artística (em especial da poesia, que nessa visão precisa do sopro das musas para que se ponha em movimento). Essa vertente sofre por sua arte não alcançar o grande público, ou seja, há ainda a necessidade de se ter um emprego qualquer para se manter e fazer a arte como segunda opção até que algum crítico descubra o artista e o torne queridinho da crítica, que o estampa em algum jornal e ganhe o público. Não é tarefa fácil.

Então, como lidar com essas duas vertentes quase antagônicas? É possível a mescla?

Na minha opinião, sim. Pegue um pouquinho de cada uma dessas visões e mais outras que possam vir a surgir (como a de David Shields, comentada aqui) e escolha a medida que você quer. Eu acredito na moderação: não precisa ser o arroz de festa, mas também não há motivo para se isolar. Ouvi certa vez, numa roda de conversa, sobre um poeta que não lia outros poetas, nem romancistas, para não se contaminar. Nascemos e a partir daí momento somos, quer queriamos ou não, contaminados de todas as formas, então isso para mim foi uma grande idiotice. Também não precisa encarar a arte como um simples trabalho, até porque em nosso vernáculo e nas nossas bases judaico-cristãs essa palavra está intimamente ligada à punição, e não à criação. Nem dispensar o suor e a labuta do operário da palavra, aquele que se esmera para escolher o termo certo para a hora certa, deixando a inspiração de lado e fazendo os cortes e os acréscimos (mais os primeiros que os segundos) que se fazem necessários para o nascimento de algo que valha a pena.

Se a chave está no equilíbrio? Não sei não, não gosto muito das certezas, pois elas acomodam as nossas bundas na cadeira e o passo arriscado por vezes imprescindível fica muito difícil quando elas se instalam. Às vezes os arroubos, em outras a precaução, tudo em pitadas medidas para que não nos percamos em divagações meditabundas e inócuas. Assim fazemos a vida e assim fazemos literatura.

Foto: Ileana Says

Conturbação

Momentos conturbados nublam a imaginação de uma forma estranha. Não há motivo, na verdade, para tal conturbação. Talvez a vida esteja mais veloz e eu, ingênuo, tento brecá-la para meu passo. Eu, que sempre corri para ela me alcançar, agora peço arrego, ao menos por um momento.

Muito trabalho, talvez?

Ou muita vontade de fazer mil coisas, traçar mil planos, mas muitas coisas se esvanecem como volutas que dançam em frente ao espelho depois de um banho quente.

Às vezes é só o que desejo: um belo banho quente.

E a vida, tão veloz, me agarra pela mão e faz com que eu a siga, ensandecido. Tantas coisas que ainda não vi, tantas mtas que não alcancei, tantas páginas que não li. Outrora eu adoraria esse ritmo louco da vida, mas agora quero paz.
Muitas vezes, apenas é a paz que desejo.

E tantas coisas que contradizem meu bom humor, que me tiram do sério, que me enfadam, que me surtam. Ainda há verdes olhos que me acalmam, doces beijos que me alimentam o querer. Ainda me seguram nos eixos.

Porém, quando deles me despeço, que há de se fazer, que faço então?

Volto ao mundo enlouquecido, sem freio.

Esqueçam tudo que eu disse. São apenas lamentações de mim, que as odeio de todo meu coração.  Ou falta de imaginação.

Ou quem sabe, os dois…

Folguinha

É bom ter uma folga

Para ter com os amigos

Para curtir com o amor

Para se perder em livrarias

Para comer do bom e do melhor

Largar as teclas solitárias

O monitor desligado

E sair por aí, sem lembrar

Do mundo que se virtualiza

E sentir o cheiro da chuva

Ver o filme tão esperado

Tomar um vinho frutado

E as idéias virão, cavalgando

A mente cheia de textos

Para aqui mais tarde voltar

Então, até lá.

Vamos escrever?

Os Escritores

Hoje acabei um pequeno curso realizado pela Revista Língua Portuguesa (Formação Inicial de Escritores), ministrado pelo Prof. Gabriel Perissé, e digo que dei mais um passo, se não na direção do sonho de publicar um livro, na direção de ter a cabeça mais livre para criar, ousar e viver com as letras. A turma, claro, ajudou muito, foram 4 dias que, apesar de poucos, foram intensos. Cada história que ali foi criada constituiu, de certo, uma nova etapa para cada um. Continue lendo

Joana

Ao voltar para casa, após uma longa e entretida caminhada com o professor Gabriel, entramos no metrô Clínicas, num papo animado. O professor iria para o metrô, eu, como moro há pouco mais de 20 minutos dali, resolvi tomar um ônibus. Porém, não estava sozinho. Estava com Joana.

Nessa entrada do metrô, Joana me aguardava. Sim, não há outra explicação. Revoou pela cabeça de um casal feliz que entrava antes de se grudar, literalmente, nas minhas pernas. Melhor dizendo, no meu quadril, bem no bolso da calça jeans. Gabriel olhou para Joana, olhou para mim e disse: “Isso dá crônica”. Olhei assustado para ela, mas não tomei nenhuma atitude drástica. Pelo contrário, deixei Joana pousada, tranqüilamente, com suas finas patinhas e suas asas coloridas. Sua capa preta poderia esconder algo de maléfico, como acreditavam os mais velhos. Mas o azul e o amarelo ouro do fundo de suas asinhas davam um ar de graça àquele ser rajado. Continue lendo

Orgulhinho bobo…

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(Não precisa ficar vermelho!)

Passeando pelo Google e verificando a existência dos meus antigos blogs (apenas o último ainda sobrevive) descobri uma coisa que me deixou com um orgulhinho bobo, uma satisfação gostosinha. A versão on-line do jornal O Povo (lá do nordeste, não sei direito de ondede Fortaleza! Obrigado, Marcão!) utilizou um trecho do texto A Alegria de Emma, que escrevi em setembro passado, para ilustrar o filme numa mostra de cinema de Fortaleza. O texto foi o seguinte:

“Quarta, às 19h30

A Alegria de Emma, de Sven Taddick

Sinopse: Após receber uma notícia devastadora, Max decide abandonar a cidade grande para conhecer o México. Casualmente, chega à fazenda de Emma, uma mulher que o leva a conhecer a paixão e a lutar pela vida.

Crítica: “No filme, fica muito claro a idéia da escritora Claudia Schreiber, que escreveu o livro que deu origem a esse filme singelo, engraçado e emocionante, de que o amor está na entrega e também na abdicação do ser amado” (Peterso Rissati, do blog Vermelho Carne).”

Talvez seja o único blog que comentou o tal filme, o que acho o cúmulo para um filme tão bom. Mas de qualquer forma, fiquei lisonjeado. Vejam a notícia na íntegra aqui.

Mário Louco (ou “O grande círculo da vida”)

Mário Louco tem oitenta e poucos anos. Desses todos, Mário Louco sempre teve uma vida humilde, mas amada. O sofrimento ronda até hoje os passos de Mário Louco. Não é chamado de louco à toa, muitos têm motivos para tanto. Agora, em um asilo em Atibaia, Mário Louco chega perto da sua alcunha de toda a vida. As pessoas se preocupam com ele, mas como uma criança, Mário Louco não se rende, diz que todos morreram para ele, que ninguém o ama. Tem problemas nos rins, está praticamente surdo e um câncer de pele o acompanha. Entre uma sessão de hemodiálise e outra, Mário Louco apronta uma. E lá vão os parentes, o sobrinho neto e sua irmã mais nova, hoje com 75 anos, salvar a pele do Mário, quando ele inventa de bater nos seus colegas de quarto. E ele, ainda assim, os maltrata, expulsa, insulta.

Antes disso, Mário era um senhor forte. Até os setenta e poucos anos trabalhou na roça, onde sempre viveu. Carpiu, tomou muito sol no rosto, perdeu mobilidade de um dedo por uma pá descontrolada. Alqueires e alqueires de mato ele baixou, plantou de tudo um pouco, viu o mundo mudar rápido. Chorou de dor, de amor, de ódio. Arranjou muitas encrencas para se manter, para ninguém chamá-lo de velho. Louco sim, velho nunca.

Nessa vida de carpir, criou os filhos. São alguns filhos, com algumas mulheres. Filhos que deveriam tê-lo ajudado, dado apoio, auxílio. Mas não, os filhos trouxeram foi muitos problemas. Bebedeira, drogas. E os filhos morriam para ele, não queria vê-los nem pintados num dia. Porém no outro, triste pela distância, os perdoava até que aprontassem novamente. Quando voltavam a morrer aos olhos do velho Mário. Mesmo com todo o fardo que carregava, o Mário era uma pessoa alegre, de bem com a vida, pronto para dar ajuda aos outros e muita bronca quando necessário. Se era louco de verdade, ninguém sabia. Que tinha um grande coração, ninguém desconfiava.

Entre os vinte e os cinqüenta, era sim, o Mário Louco. Trabalhava no bairro de Pirituba, numa empresa de ônibus coletivos, provavelmente a antiga CMTC. Era impaciente, aventureiro. As mulheres se encantavam por ele, pelo seu jeito brusco, pelo seu ar meio cafajeste e pela sua generosidade. Os filhos, inevitáveis, começaram a aparecer por aí. Com uma Celma, com outra Maria, com algumas Lurdes. Deve ter tido muitos casos, mulheres eram seu vício. Além da cervejinha abençoada, claro. As crianças também o adoravam. Certa vez, presenteou seu sobrinho-neto, um menino moreno que ao crescer se tornaria tradutor e escreveria um blog com nome de cor, com um martelinho. Era um martelo de verdade, com cabo esculpido pelo próprio Mário Louco, talhado com carinho de tio-avô. Sempre que falava com esse menino, lhe perguntava da escola e como era sua vida, os olhos de Mário Louco se enchiam de lágrimas. Era o de mais puro que ouvia nesse mundo que se estragava pouco a pouco. E se alegrava, como se alegrava.

Aos vinte, nos anos quarenta, vira a Segunda Guerra começar. Deve ter execrado Hitler com todas as suas forças, pois Mário é um homem justo, apesar de louco. Aos dez anos, deve ter brincado na roça e aprendido a matemática e português em casa. Aos cinco, tivera uma vida dura e muitos irmãos, inclusive o bebê Ivone. Nascera, no final dos anos vinte, o Mário Louco. Seu primeiro choro, no interior de São Paulo, ainda ecoa na antiga casa dos Marques. Mário Marques, filho de portugueses, é nosso amado tio. O Mário Louco, que todos amamos.

Mudanças

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Resolvido. Uma matéria do caderno Link do Estadão me fez repensar conceitos bloguísticos e aceitar o WordPress como meu blog host. Por quê? São vários os motivos para a mudança. Não que o Blogger seja ruim, não é isso. Mas quando você ganha um brinquedo novo, dificilmente os antigos farão parte de suas brincadeiras a partir de então.

Então, esse é o novo Vermelho Carne. Ainda estou acostumando com algumas coisas, mas logo estarei bem acostumado com a coisa toda, daí vocês poderão comprovar como ficou bonitinho o meu bloguinho novo. Antes de completar um aninho de vida, o VC já começa o ano com novidades.

Bem, agora que para muitos realmente começa o ano (o meu já está fervendo desde o dia 7 de janeiro), bem-vindos ao novo Vermelho Carne!

Carnafilmes

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Acho que vou mudar o nome do blog para “Cinelândia” ou algo do tipo. Estou numa fase filmística, estou curtindo essa fase. Talvez ela passe, talvez não. E enquanto não passa, vou comentar quatro filmes que vi neste Carnaval. Não, não fiquei em casa trancado vendo filmes, fui ao parque de diversões Hopi Hari com minha família, comemorar o aniversário do meu sobrinho, pulei Carnaval com amigos em uma danceteria e saí para almoçar, jantar, tomar café… e tive tempo de trabalhar um pouquinho e assistir a três filmes brasileiros e um estrangeiro, que comento a seguir: Continue lendo

Resoluções de Ano Novo – Parte Final

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Ôquei, chega de falar de resoluções de ano novo…

Não, peraí. Só mais uma coisinha, bem interessante. A revista Vida Simples tem sempre umas sacadas bem boas e não deixou barato em sua edição de dezembro. Queria ter colocado essa matéria antes aqui, mas não consegui por forças maiores. Dêem uma olhada nas resoluções bastante válidas para esse 2008 começar pensando que a vida pode ser mais proveitosa do que a gente imagina. Have fun, children!

  1. vá a pe comprar pão na padaria. Além de se exercitar e conhecer melhor os arredores de seu bairro (e inclusive travar contato com os outros madrugadores gentis), você vai proporcionar uma pequena epifania para a pessoa que mora com você: imagine a delícia que é acordar e deparar com um pãozinho estalando de quente na mesa do café da manhã?
  2. implemente a coleta seletiva. Parece óbvio, mas sempre é bom repisar: a preocupação com o planeta começa na sua casa. Reúna os vizinhos – inclusive aquele que parece ser o mais empedernido dos individualistas – e organize um sistema de coleta seletiva em seu prédio. Vai dar trabalho, prepare-se. Mas também, quando a coisa toda funcionar, será lindo.
  3. faça um curso bem inusitado. Sua coordenação motora é tão precisa quanto a de um elefante bêbado de amarula e você ainda inventa um curso de corte e costura? Esse é o caminho. Exercitar-se em ofícios para os quais você não tem a ambição de se tornar um bambambã é bom aprender com as próprias limitações. E você ainda sai diplomado em rir de si mesmo.
  4. faça um trabalho voluntário. A Áfria precisa de ajuda. Regiões desassistidas do Nordeste brasileiro também. Poder fazer algo por esses lugares é importante. Mas e no bairro ao lado do seu, que tem um asilo geriátrico? Ou na favela mais próxima? Vale muito a pena também ajudar quem está por perto. Informe-se em prefeituras e ONGs sobre o que você pode fazer de acordo com suas possibilidades.
  5. economize dinheiro. Nós, brasileiros, somos obcecados por crédito. Um carnê desperta em nós uma vontade louca de consumir mais. Dê um freio nisso e economize dinheiro em ações banais. Leve uma marmita para o trabalho, pare de jantar fora (faça isso quando voltar a ser uma novidade), guarde um pouco de dinheiro. Aos poucos, você poderá financiar seus sonhos.
  6. surpreenda seu amor. Quebrar a rotina é fundamental para oxigenar a relação. A surpresa traz novos ares, insufla no amor um não-sei-o-quê a mais. Uma delícia. Exercite novas formas de sedução. Deixe um poema afixado na porta da geladeira. Seqüestre seu bem para um fim de semana fora da cidade. Invente seu próprio jeito de iluminar os olhos de alguém.
  7. tenha um horário sagrado. Não importa o quanto você se programe, os acontecimentos do dia-a-dia sempre engolirão sua jornada – se você não tomar alguns cuidados, claro. Por exemplo: por mais que você esteja atolado de compromissos, é possível reservar um horário sagrado na semana para fazer algo muito especial. Praticar um esporte. Encontrar os amigos. Isso será sagrado!
  8. viaje para lugares diferentes. A alma dessas dicas é "fuja da rotina!" E tem que ser assim mesmo. Caso contrário, 2008 será marcado por um fenomenal bocejo. Por isso, dispense os roteiros preestabelecidos em suas viagens. Por que não um fim de semana num hotel bacana em sua própria cidade? Ou alugar uma casa de praia com amigos para os meses de baixa temporada? Assim, a diversão fica garantia.
  9. participe de um movimento social. Num mundo tão fragmentado como o nosso, é importante que cada um encontre seu grjpo para se manifestar a favor daquilo que acredita. Reunir os amigos numa biciletada (para falar do problema do trânsito), entrar em ação para revitalizar a praça do bairro (plantando mudas de plantas), criar saraus poéticos. Tudo vale a penas quando a causa não é pequena.
  10. mude a decoração de sua casa. Ninguém terá o topete de dizer que você precisa renovar a casa, comprando móveis novos e gastando uma nota. Medidas aparentemente simples são uma mão na roda. Exemplo: troque os móveis de lugar, tire os excessos e não se esqueça de doar aquilo que estiver sobrando. Renovar a casa passa por redimensionar os móveis e sua relação com o espaço.
  11. forme um grupo de estudos. Informar-se e trocar idéias com outros é como instalar um ventilador no cérebro. Por isso, escolha um tema (ou melhor ainda, um livro), aglutine conhecidos com algumas afinidade e crie um dia para vocês estudarem e crie um dia para vocês estudarem e debaterem. Filosofia, história, artes, atualidade: tudo isso dá um baita pano pra manga. O pessoal é difícil de se reunir? Crie um fórum pela internet e estamos convesados.
  12. NÃO PLANEJE TANTO. Deixe espaço para as surpresas. E não tenha medo de pegar chuva no caminho!

Tá difícil…

primeiro Entrar nos eixos no ano novo é difícil. Disciplinar-se para cumprir ao menos um pouco do que se imaginou e prometeu às vesperas de 2008 é mais do que complicado. Como no texto de abertura deste ano no Vermelho.Carne, sempre prometemos algumas coisas impossíveis. Mas, de todo modo, algumas coisas precisam ser cumpridas para melhorar, para mudar, para crescer.

A promessa que estou relutando em fazer e que tenho torcida para acontecer é parar de fumar. Tenho que admitir que sou bastante idiota, pois fui geração saúde por muitos anos da minha vida, sei do mal que o tabaco e a nicotina e seus comparsas causam ao organismo, sinto na pele a emoção de não ter fôlego para subir um lance de escada sem ficar esbaforido, mas é tão difícil largar essa muleta. Ainda não tentei a sério parar de fumar. Vejo amigos de anos de nicotina parando de repente, sofrendo bastante, mas colhendo as benesses de estar livre dessa porra. Bem, hei de largar.

Outra promessa é emagrecer. Como ex-geração saúde, também tenho uma imagem minha saudável e outra sedentária. Gosto muito da saudável, fico bem comigo e com o mundo quando estou mais magro. Fico com cara de saudável mesmo, apesar do fumo e de beber de vez em quando (gosto de uma cervejinha). Porém, aprendi a cozinhar e também a apreciar comidas, invento pratos e procuro por restaurantes novos o tempo todo. Comer é uma diversão cultural também e eu simplesmente amo comer. Desde junkie food até naturebas, como de quase tudo. E sou tradutor, o que significa muitas horas à frente do computador, sentadinho, digitando e exercitando a mente. Daí o corpo sofre. Mas estou tentando diminuir o peso do prato na hora do almoço e as besteirias que como o dia todo, que brotam da minha gaveta do escritório. Hei de afinar!

Porém, uma promessa que parece ser mais palpável e que me fará bem já está em andamento: ao menos uma vez por semana ir ao cinema. Largar tudo, esquecer do mundo e entregar meus olhos aos telões da Paulicéia. Os paulistanos tem centenas de salas de cinema à disposição, passando filmes para todas as idades e gostos. Só na minha região conto no mínimo quarenta salas de cinema que exibem desde blockbusters até cinema cult, ou seja, tenho motivos de sobra para levar adiante essa promessa de ano novo. Com mais ou menos R$ 100,00 ao mês consigo cumprir meu objetivo e ainda sobra grana pro café-com-papo após o filme. Hei de assistir muitos filmes!

Acho que também já comentei aqui que sofro de uma espécie de descompensação emocional que me leva a consumir compulsivamente livros. Tenho duas estantes que já estão cuspindo volumes e logo precisarei comprar uma terceira, que nem sei onde vou botar aqui no meu pequeno apertamento. No entanto, não sou um leitor rápido, gosto de degustar, então eles ficam aqui empoeirando e esperando a vez na fila, que não tem uma ordem exata, claro. Às vezes começo um livro que acabei de comprar em detrimento de um que espera há meses ser lido. Então, prometi para 2008 que apenas começarei a comprar outros livros quando ler no mínimo 6 livros que estão na fila dos desesperados. Górki, Faulkner, Yalom, Goethe, Khaled Hosseini (esse emprestado) e Caio Fernando Abreu são os mais cotados. Porém, quem sabe não serão outros? Hei de ler e economizar!

Por fim, quero começar a acordar mais cedo. Sou rei em dormir mais do que posso e sair alucinado pelas travessas paulistanas até chegar ao trabalho. Se acordar mais cedo, consigo tomar café tranqüilo em casa (economia), ler o jornal (informação e cultura), caminhar ao menos 30 minutos por dia (saúde) e ainda chegar no trabalho sem marcas de travesseiro no rosto. Isso eleva a estima e o moral perante os colegas de trabalho, não é mesmo? Então, hei de dormir mais cedo também (ou seja, não devia estar escrevendo às 00h45).

E você, fez muitas promessas para 2008? Quais acha que vai cumprir? Aguardo seus comentário!

Como ter fé?

Tristeza, é o que me resta sentir.

Quando mais eu tento ter fé no ser humano, mais ele apronta. Rostos famosos vociferam indignações nas ruas, mas e daí? Por um pouco mais de dinheiro, a alma tá vendida, tá todo mundo meio Fausto ultimamente. Será que ninguém leu e sabe que o moço depois se arrepende de vender a alma pro Asmodeu?

E são muitos motivos para não sorrir: deputados que passeiam às custas da população, alegando estar em palestras e cursos. Tudo muito bem arquitetado. E o Sucre em pé de guerra, por conta de uma Constituição muito da mal-contada. E o Fonte Nova despenca, apesar de todos os avisos anteriores de que o estádio estava caindo aos pedaços. E na madrugada de hoje, mendigo é incendiado em São Paulo. E a Índia inundada. E ninguém faz nada.

Ainda espero motivos para ter fé no ser humano. Quando vejo um projeto social dando certo, uma fagulha de esperança se acende. Quando pessoas me dizem que estão, por exemplo, alfabetizando adultos, alimentando os pobres com doações etc., faísca a fé dentro de mim. Mas ainda é tão pouco. E me decepciono comigo mesmo, que tão pouco também faço.

Mas apesar da tristeza, da revolta e da melancolia, ainda quero ter fé. Tenho esse imenso desejo de sorrir quando vejo um semelhante e saber que ele também faz o bem e não olha a quem. Parece bobo, à beira do infantil, mas ainda luto para que a esperança não morra dentro de mim…

Calma

Calma amor, que isso passa
Calma, que a ventania que espalha os papéis pelo chão
Será o vento que conduzirá seus passos até o melhor

Não se iluda, não é fácil,
Sem lágrima nada se dissolve, nada se renova
E a rocha que hoje é parede
Amanhã pode ser sua morada

Calma amor, pense na vida
Em como ela muitas vezes acaricia sua pele
Em como ela machuca nossa face desprotegida

Se faz isso, essa amarga e doce vida
Não é para que nos acomodemos com seu carinho
Nem que nos revoltemos contra sua ira
Mas para que saibamos que ela quer nosso bem.

Não ouça o que há de mal, pois é tudo tão pequeno
Se comparado ao amor que eles não conseguem enxergar

E se ainda resta dúvida em seu coração
Veja o meu coração e saiba que ele está ao seu lado.

Paraty em gotas

Feriado da Independência. Chegar em Paraty é sempre encantador, mesmo que seja às 5 da manhã de um dia chuvoso, no qual vemos apenas cães de rua, os poucos “baladeiros” voltando para casa ou turistas perdidos na noite escura das casas antigas da cidade. Apesar de esquecida pelo governo do Estado do Rio, como dizem seus moradores, Deus e os turistas não deixam de lado essa pequena pérola incrustadas entre as montanhas de Mata Atlântica, com dezenas de ilhas e praias deliciosas, algumas paradisíacas.

Mas parece que um dos mencionados acima, o Todo Poderoso, esqueceu dos turistas e mandou chuvas bravas durante todo o feriado, aliviando apenas no domingo, com sol africano ao meio-dia, o que me fez pensar bastante em frustração, de um lado, e satisfação, de outro lado. Havia feito um planejamento digno de feriado: praia na tarde do primeiro dia, noite de barzinho (Che, talvez), segundo dia com escuna o dia todo, terceiro dia na Praia do Sono, lugar fantástico no qual a luz elétrica e a modernidade não tocaram ainda, por imposição de seus moradores caiçaras e pela dificuldade de acesso (50 minutos de trilha no meio da mata). Nada disso se concretizou: praticamente os três dias foram de rede e cama, sem maiores emoções, e as noites eram passadas na cidade, com verdadeiros passeios nos quais o passado e o presente se mesclam de maneira incrível.

Paraty para mim sempre é um bálsamo. Porém eu não estava sozinho e acredito que meu maior medo foi a decepção daqueles que estavam comigo. Apesar da negação de todos, a tristeza e a melancolia tomou conta de todos e isso me afligiu de forma intensa. Porém, em determinada altura do campeonato, resolvi curtir como dava e levar comigo a galera, que acabou curtindo também a viagem. Percalços à parte, posso classificar a viagem de realmente válida: dormi bastante, me permiti dormir mais do que o costume e em tardes perdidas nas quais a chuva tamborilava telhados e folhas das bromélias, numa sinfonia mais que perfeita. Gota a gota percebi o quanto eu teria me arrependido se toda essa chuva tivesse sido passada aqui, na Paulicéia enevoada, pois, valeu cada gota, cada orvalho e cada respingo de Paraty, que coroou a estada de todos com um belo sol dominical. Infelizmente, o último dia da viagem…

Relapsamente

Faz mais de 8 dias que não dou as caras por aqui. São muitas coisas, muitas. E quando se tem muitas coisas pra fazer e muito o que escrever, há de se optar pelo mais prático, rentável e real: fazer todas as coisas e não escrever.
Me entristeço por isso. Não consigo de forma alguma exercitar o que no futuro pode ser um ganha-pão, mais por insistência do que por talento. E agora tiro cinco minutos do meu tempo de trabalho para escrever uma espécie de carta de desagravo para mim mesmo e para aqueles que por ventura se depararam com textos de há muito tempo.
Viagem para Paraty, que foi ótima obrigado. Muito trabalho e muita arrumação na vida. Amigos, amor, família, tudo demandando tempo e dedicação. Não tem jeito, a vida é assim mesmo e assim gosto dela.
Acredito que nos próximos dias suma novamente, em função do término do curso de tradução, festa de “formatura” e afins. Mas antes, quero também fazer um pequeno retrato dos dias chuvosos em Paraty (que inclusive comecei a escrever lá) e acho que ainda hoje publico um texto sobre o filme Tropa de Elite, na visão de quem não viu, mas muito ouviu e leu do comentado filme.
Deixando o relapse blogging way of life para voltar à ativa.
E eu não arrendo não!