Prática da Escrita V

Já comentei aqui de um evento que a Terracota editora faz há 5 anos chamado Prática da Escrita, organizado pelo escritor, professor e amigo Claudio Brites. Sempre é bastante aproveitoso, a cabeça sai fervilhando de ideias para aplicar na escrita e na vida, há reencontro de amigos queridos e muita gente para conhecer.

Palestras de manhã, oficinas à tarde, sempre muito animadas.

Mas este ano será um pouco diferente. Ao menos para mim. Pois vou conduzir um bate-papo sobre tradução para quem deseja saber mais sobre a profissão tradutor, com ênfase na tradução editorial. Algo bastante informal para a gente discutir quais os caminhos possíveis do mercado.

Para se inscrever, clique aqui. Vejam a programação completa:

Coordenação: Claudio Brites

O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há cinco anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura.

O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária.

A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo literário; o segundo tempo é das oficinas de estudo e criação.

Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Cadão Volpato, Nelson de Oliveira, Raphael Draccon, Roberto de Souza Causo, Edson Cruz, Eric Novello entre outros.

A primeira parte da programação terá como convidadas só mulheres. Na primeira mesa, a escritora Ivana Arruda Leite bate um papo sobre sua obra com a roteirista e escritora Luciana Penna. Na segunda mesa, as escritoras e professoras de criação literária Monica Martinez e Nanete Neves conversam sobre caminhos e possibilidades da escrita como profissão, mediadas pela redatora, blogueira e revisora Lu Reis.

Na segunda parte, temos oficinas com Bruno Cobbi, Kizzy Ysais, Marcelo Maluf e Pête Rissatti.

Este ano o evento acontece em 3 de março de 2012, no campus Liberdade da Universidade Cruzeiro do Sul.

Quando: 3 de março de 2012.

Horários: mesas das 9h45 às 12h30 e oficinas das 13h45 às 16h30

Onde: Universidade Cruzeiro do Sul – campus Liberdade

Rua Galvão Bueno, 868 (próximo ao metrô São Joaquim)

Entrada Franca


Programação

Mesa 1 – das 9h45 às 11h
A prática de criação de Ivana Arruda Leite
Convidada: Ivana Arruda Leite
Mediação: Luciana Penna

A escritora fala sobre sua obra e como se dá seu processo de criação. Quais são os percalços que envolvem a realização do conto, do romance, do infanto-juvenil. Dando dicas sobre editoras, culinária e séries de televisão.

Mesa 2 – das 11h15 às 12h30
Profissão escritor
Convidados: Monica Martinez e Nanete Neves
Mediação: Lu reis

As escritoras e professoras de criação literária Monica Martinez e Nanete Neves falam sobre o mercado editorial para o escritor: biografias, livros institucionais, ghostwriter, oficinas. Como as coisas caminham e como é a realidade de quem vive da escrita literária.

Oficinas de Criação literária – das 13h45 às 16h30

Narrativa Multimídia
com Bruno Cobbi

Partindo de estudos de casos nacionais e estrangeiros que transcendem seus canais originais, o publicitário e escritor Bruno Cobbi vai guiar os participantes entre referências em livros, quadrinhos, internet, games e cinema para debater como as novas mídias estão mudando nossa forma de encarar o mercado e produzir arte.

As discussões sobre a produção multimídia dentro e fora do país são combinadas com exercícios para prática do raciocínio narrativo e exploração da multimídia. A oficina visa materializar não só o planejamento como produções de narrativas em multimídia.

A criação do personagem
com Kizzy Ysatis

Este encontro foca no coração da narrativa: os personagens. Seja em um enredo fantástico ou realista. Grandes personagens vão além de seu criador. Polifônicos, infinitos. O que faz Dom Casmurro ficar na memória por tanto tempo? Quais são os elementos que fazem com que o leitor chegue a acreditar que um vampiro, ou uma entidade fantástica possa existir? Criando fã clubes para um ser ficcional, por exemplo. Neste encontro, o escritor Kizzy Ysatis revela seus segredos para construção de um personagem convincente. Não só as dicas vindas de sua experiência de criador, mas também das leituras, dos autores nos quais se inspira.

Caminhos do Fantástico na literatura infanto-juvenil
com Marcelo Maluf

Grandes obras da literatura infantil e juvenil estão embebidas do elemento fantástico, o autor pretende apresentar nessa oficina possibilidades de uso do fantástico em suas diversas vertentes em textos infanto-juvenis. Apresentando referências e propondo exercícios de escrita para desbloquear o imaginário fantástico. E ainda: o universo fantástico na literatura infanto-juvenil, passando por nomes como: Michael Ende, Roald Dahl, Elsa Bornemann, caminhos de Lewis Carrol, do C.S.Lewis, Neil Gaiman, entre outros.

Tradução: mercado, processos e criação
com Petê Rissatti

A arte/ofício da tradução é muito mais amplo do que se imagina. Com a crescente visibilidade do tradutor, ainda assim a profissão carrega um certo mistério. Neste bate-papo, vamos apresentar as diferenças básicas do mercado tradutório, o dia a dia do profissional, o mercado editorial de tradução e os processos envolvidos. Além disso, também traremos à baila o papel de tradutor como intermediador cultural, a (des)valorização do profissional e, por fim, a legislação e o tradutor-criador.

Ao lado do mestre

Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.

Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?

Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.

E-books: primeiras impressões

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Há uns tempos venho mostrando uma flexibilidade quanto ao assunto livro eletrônico, mais por considerá-lo uma tendência irreversível do que por gostar da ideia de ler numa tela. Já ficou até chato comentar com ar nostálgico que sentir o cheiro do papel e a textura das páginas ainda constitui um ótimo motivo para se rebelar contra a novidade. Hoje já pode ser comparado a falar que temos saudades dos chiados dos LPs ou do barulhinho do telefone de disco.
Resolvi por inúmeros motivos me render aos ebooks, experimentá-los antes de fazer juízo apressado. Os últimos posts que fiz sobre o assunto já mostravam que logo mais eu o faria (até porque, uma das minhas facetas menos exploradas aqui no blogue é minha tara por tecnologia). Então, na onda das recentes mudanças, depois de muito ponderar, acabei adquirindo um iPad. Menos e-reader que seus rivais Nook, Kindle, SonyReader e outros, o iPad foi minha opção exatamente por isso, pois primeiro não queria gastar uma grana para ter o que eu já tenho nos livros em papel, mas desejava algo que me trouxesse também diversão e produtividade. E acredito ter feito a escolha certa.
Nem bem cheguei em casa e comecei a baixar aplicativos. Não, Angry Birds não foi minha primeira aquisição, mas foram os aplicativos iBook (da Apple), KindleApp, B&N eReader e Saraiva Digital Store. Confesso, porém, que demorei um pouco para usá-los de verdade, ainda envolvido pela novidade. E está aí exatamente um contra do iPad como leitor eletrônico: ele vai além disso e sua oferta de distrativos é tanta que a leitura, para a maioria de seus usuários, tem ficado em último plano (se é que existe).
Mas quando fui fazer a primeira experiência real de leitura, escolhi parâmetros para testar a eficácia da maquineta: escolhi um assunto que gosto muito, a literatura, porém em alemão, língua que eu obviamente leio bem, porém numa velocidade menor que em inglês e, claro, que na minha língua materna, o português. O livro se chama “Erst lesen, dann schreiben” (Primeiro leia, depois escreva), organizado por Olaf Kutzmutz, que traz 22 autores alemães contando suas experiências literárias, mas não como escritores, e sim como leitores. Ainda comentarei sobre ele aqui.
Eis a minha grata surpresa: ler na telinha é uma delícia. Entre as facilidades da leitura eletrônica estão as anotações e as marcações que se fazem num clique. Consultas a dicionários também facilitam a vida no caso de textos mais intrincados e/ou antigos. A compra de livros é muito fácil e rápida, o que também representa perigo a viciados como eu.
Bem, essas são as primeiras impressões para mim de um futuro que se consolida. As vendas de ebooks no mundo vêm crescendo espantosamente, a pirataria já surge como uma grande preocupação para as editoras e elas terão que ser rápidas para encontrar soluções. Perdas e ganhos são inevitáveis no mundo digital, mas acredito que elas se sairão melhor que as gravadoras nesse sentido.
Logo terei mais impressões sobre a leitura e a relação com os leitores eletrônicos.
Ah… e este post foi feito no iPad, no aplicativo do WordPress. Talvez isso faça também com que eu volte a ativa no blogue. Torçamos…

A dor e a delícia de ser Ivana

Ivana Arruda Leite é uma escritora ímpar. Escreveu a vida inteira, mas seus livros começaram a ser lançados recentemente, seus dois romances há pouco: Hotel Novo mundo, do qual já falei aqui, e o Alameda Santos, que preciso ler com urgência. Pessoas próximas que leram amaram tanto que releram ou querem reler e ver a Ivana mais de perto.

Ela deu uma entrevista deliciosa no blogue da Dani Arrais, o dont’ touch my moleskine, que me deixou mais encantado com a Ivana escritora e mulher. Mais dela você encontra também aqui.

Veja a primeira parte da entrevista:

Atualização:

A parte dois. Sobre a nova literatura e sobre a internê:

Mais sobre e-readers

Umberto Eco - italian philosopher and novelist

Image via Wikipedia

Fiz um texto sobre e-readers que ainda vou postar aqui sobre como eles podem ser (in)úteis, porém o texto ficou no meu caderninho de anotações e este, por sua vez, foi esquecido na casa da minha avó. Em breve vou buscá-lo e trago novas considerações amalucadas sobre os leitores eletrônicos e o quanto eles podem nos trazer de alegria ou decepção. Enquanto isso, fiquem com um trecho do livro Sobre a Literatura  - Ensaios, de Umberto Eco (Ed. Record, trad. Eliana Aguiar) que sempre me surpreende com suas divertidas elocubrações sobre o tema:

É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel. Mas houve um tempo em que se incorporavam na voz de quem recordava uma tradição oral ou mesmo em pedra, e hoje discutimos o futuro dos e-books., que permitiriam ler seja uma coletânea de piadas, seja a Divina Comédia em uma tela de cristal líquido. Aviso logo que não pretendo me deter esta noite na vexata questio do livro eletrônico. Pertenço, naturalmente, àqueles que, um romance ou um poema, preferem lê-lo em um volume de papel, do qual haverei de recordar até mesmo as orelhas e o peso. Dizem, porém, que existe uma geração digital de hackers que, nunca tendo lido um livro na vida, com o e-book conheceram e provaram agora, pela primeira vez, o Dom Quixote. Quanto proveito para suas mentes e quanta perda para sua vista. Se as gerações futuras chegarem a ter uma boa relação (psicológica ou física) com o e-book, o poder do Dom Quixote não mudará.

Eu já disse que virei fã desse moço?

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