Navalha na Carne

sweeney.jpgTim Burton acertou de novo e não é à toa que o cara se tornou uma grife do cinema: Sweeney Todd faz jus a sua atual fama. Seguindo a linha timburtoniana, a trama se desenvolve entre ratos e esgotos, numa Londres tenebrosa e suja do século XIX, onde o olho por olho, dente por dente estava mais em voga do que as perucas e as carruagens. Apesar dessa clima, o barbeiro Benjamin Barker (Johny Deep, sempre) vive uma vida de sonho com sua linda esposa Lucy (Laura Michelle Kelly) e sua filhinha, Johanna (Jayne Wisener, quando adolescente). Porém, o sétimo mandamento é desrespeitado pelo Juiz Turpin (o ótimo Allan Rickman) e ele ordena que Barker seja preso para conquistar Lucy. Quinze anos depois, sob o nome falso Sweeney Todd, Barker volta a Londres para vingar-se de todos que tanto mal lhe fizeram. Para tanto, utiliza suas antigas ferramentas de trabalho, as navalhas. Com a ajuda da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter, mais uma figurinha carimbada de Burton), dona de uma quase falida loja de tortas, ele começa a arquitetar e executar seu plano diabólico.

Confesso que não gosto de musicais, acho maçante aquele povo todo cantarolando para cada acontecimento, seja uma gota de chuva, seja um moinho rodando em vermelho. Porém, Burton fez um trabalho muito bom nesse musical macabro. A fotografia escura e deprimente, as pessoas com aspecto sujo, os histrionismos dos personagens, marcas registradas de Burton, couberam como uma luva para o estilo musical. Todos os atores cantam muito bem, os atores foram escolhidos a dedo para suas atuações e, apesar de um pouco cansativo (para mim, que não gosto de musicais), vale a pena pela obra do diretor.

PS.: Uma maldadezinha, se me permitem: Johny Deep está no melhor estilo Cruela (101 Dálmatas) com seu cabelinho de mecha branca.

Sem vez para a sanidade

nocountryforoldmen-p2.jpg

Fui assistir Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, EUA, 2007), com ingressos que ganhei de um amigo e posso dizer que não odiei o filme, apesar de ter achado muito grotesco ao ver seu trailler antes d’O caçador de pipas. Não é o tipo de filme “ame-o ou deixe-o”, pois tem alguns méritos, um deles é fazer pensar. Uma pergunta de um casal saindo do cinema foi hilário: “será que somos burros, ou o filme não tem pé nem cabeça?”. A primeira vista, essa é a nítida impressão que o filme dá, que Joel e Ethan Coen (diretores e adaptadores de roteiro) simplesmente esqueceram o início e o fim do filme. Porém, dois dias depois, pensando, posso dizer que considero um filme bom.

A atuação dos atores, porém, é realmente digna de menção: Javier Bardem, Tommy Lee Jones, Josh Brolin e Carson Wells, bem como os coadjuvantes. O filme, baseado no romance de Cormac McCarthy, traz a história de Llewelly Moss (Josh Brolin), um caçador que encontra, em meio aos corpos de traficantes em guerra, uma valise com milhões de dólares. O suposto dono da valise encomenda a cabeça de Moss e o incumbido da tarefa é Anton Chirurg (Javier Bardem), um psicopata que costuma não deixar vivo quem encontra pela frente. Na linha de fogo está o velho xerife da cidadezinha de Moss, Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones) que busca duas coisas: ter esperança no ser humano e salvar Llewelly Moss.

A temática psicopata-mocinho-polícia não é muito nova, mas a maneira na qual foi montado o filme (fotografia, trilha sonora (?!?), preparação de atores, cenografia) é bastante original. Nada de extraordinário, mas também não se pode dizer que não houve inovação.

Se vale a pena? Quem quiser, pague para ver…

Curiosidades: Este filme tem oito indicações ao Oscar (Filme, Diretor, Ator Coadjunvante (?!?) (Javier Bardem), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Edição de Som e Efeitos Sonores), além de ter faturado a o prêmio britânico BAFTA e a prévia do Oscar, o Globo de Ouro, também como melhor ator coadjuvante.

É nóis na Berlinale, zero-dois.

berlinale.jpeg

Vielen Dank, Berlinale! Der Goldene Bär macht uns glücklich!

Após uma repercussão bastante polêmica na sua apresentação oficial ao mundo (ao ponto da revista americana Variety chamá-lo de fascista), Tropa de Elite levou o Urso de Ouro, prêmio de melhor filme no Festival Internacional de Cinema de Berlim, batendo o aclamado Sangue Negro e outros dezenove títulos. A estratégia usada pelos seus agentes internacionais, de tirá-lo do Festival Sundance e colocá-lo na fila de Cannes, após ser preterido pela Academia frente a “O ano em que meus pais saíram de férias”, outro filme que já comentei aqui e que, infelizmente, nem chegou aos finalistas do Oscar.

Ao ouvir as polêmicas, o diretor José Padilha agiu como há muito tem agido e com toda a razão: disse não se importar com as críticas negativas (de violência gratuita e facismo) e que se importa, na verdade, se o filme fez as pessoas pensarem. Para acompanhar o diretor, Wagner “Olavo-Nascimento” Moura foi escalado para dar aquela força. Wagner, por sua carreira em ascensão e suas atuações na novela Paraíso Tropical e no filme premiado foi eleito o homem do ano pela opinião pública. Humilde e muito batalhador, Wagner “Ramos” Moura galgou rapidamente as escadinhas da fama e hoje se firma como um ótimo ator entre a nova geração de artistas.

Não sei se merecido o prêmio, mas depois do jejum de 10 anos (desde Central do Brasil não ganhávamos o Berlinale), é sempre muito bem-vindo.

Carnafilmes

carnafilmes.gif

Acho que vou mudar o nome do blog para “Cinelândia” ou algo do tipo. Estou numa fase filmística, estou curtindo essa fase. Talvez ela passe, talvez não. E enquanto não passa, vou comentar quatro filmes que vi neste Carnaval. Não, não fiquei em casa trancado vendo filmes, fui ao parque de diversões Hopi Hari com minha família, comemorar o aniversário do meu sobrinho, pulei Carnaval com amigos em uma danceteria e saí para almoçar, jantar, tomar café… e tive tempo de trabalhar um pouquinho e assistir a três filmes brasileiros e um estrangeiro, que comento a seguir: Continue lendo

São Paulo é de Aquário…

Filmes passados em São Paulo são em geral bastante surpreendentes: de um lado podem ser muito bairristas e em outro bastante cosmopolitas. Os últimos que vi e que valem a pena são Nina (2004, direção de Heitor Dhalia) e sua estética pop-expressionista e o Signo da Cidade (2007, de Carlos Alberto Ricelli). Com roteiro original de Bruna Lombardi, o filme traz a história de Teca (Bruna Lombardi), astróloga que tem um programa de rádio. Entre seus consulentes, pessoas comuns que vivem na metrópole paulistana, com suas dores e seus anseios. A busca incessante pelo caminho certo, a tentativa de subir na vida ou de encontrar a alma gêmea são entremeados pelas palavras da bela radialista. Mônica (Graziella Moretto) rouba muitas vezes a cena, com seu jeito hilário e paulistano de ser, na pele da bem-de-vida-wannabe e assistente de Teca na rádio. Continue lendo

Best seller e blockbuster: cuidado com o preconceito

Há tempos fiz um texto falando sobre best sellers no blog coletivo Os Bloguistas e o quanto eles representam para a editoras e levantando a questão: melhor ler um desses do que ler nada? E há bastante tempo tenho pensado na questão do preconceito que ronda os best sellers. A maioria é bem ruinzinha mesmo, não dá para negar. Mas outros conseguem o título por algum mérito e, mesmo assim, conseguem a antipatia dos intelectuais e dos intelectualóides que os seguem.
Que culpa tem, por exemplo, Khaled Hosseini de ter escrito um livro sobre o Afeganistão quando este virou a bola da vez? Antes dele a literatura do leste já começava a dar frutos controversos, com ele a coisa se multiplicou e pelos prognósticos dos editores, 2008 será o ano do deserto, com muitas traduções que trabalham com o pano de fundo “Islã”. Então, preparem-se para ler muito ainda sobre as areias do lado de lá.Best seller vira rapidinho blockbuster. E O Caçador de Pipas (The Kite Runner, EUA, 2007), apesar de futuro blockbuster, é um filme muito bem feito. Em primeiro lugar, não é falado em inglês, mas em persa, o que imprime uma cor muito mais viva no filme. Os atores, todos estão bem, em especial o menino Hassan. A fotografia do Afeganistão (ou melhor, da fronteira entre Afeganistão e China, onde o diretor Marc Foster conseguiu filmar as cenas de desolação afegã) é fantástica e triste. Quem leu o livro, talvez fique um pouco decepcionado com o filme, mas filme de livro é sempre assim: rápido e rasteiro. Que não leu, provavelmente vai se emocionar bastante. São esses filmes e livros que me fazem tomar bastante cuidado com as palavras best seller e blockbuster. Atrás delas podem estar uma pérolas entre o lamaçal das indústrias livreira e cinematográfica.

1970: Brasil campeão e muita repressão

Algumas pessoas já me disseram, em tom jocoso, que preciso mudar o nome do meu blog para algo relacionado a cinema, pois eu não falo de outra coisa. Sempre gostei de cinema, mas diversas circunstâncias que não convém rememorar agora me tiravam das trilhas das salas de projeção e perdi bastante tempo fora do circuito dos que gostam de cinema. Quem leu minhas resoluções de ano novo sabe que uma delas é ir ao cinema ao menos uma vez por semana e tenho cumprido ipsis literis minha decisão, complementando, claro, com os DVDs alugados na pequena, mas ótima locadora que fica na rua Augusta (a Concorde Locadora).

Agora, tirando mesmo o atraso, assisto tudo que posso. Por exemplo, depois do pesado e polêmico Tropa de Elite na quarta-feira, travei contato com algo mais leve, mas não menor nem pior, chamado O ano em que meus pais saíram de férias (clique para ver o site oficial do filme). Direção bela de Cao Hamburguer (aquele do Castelo Rá-Tim-Bum e de outras peripécias infanto-juvenis) e com um ótimo elenco, com destaque para o menino Michel Joelsas, que interpreta o protagonista Mauro, e Germano Haiut, o velho Schlomo.

O pano de fundo de toda história é o ano de 1970, quando o Brasil passava por dois momentos históricos: a Copa do Mundo no México, na qual conquistou o tricampeonato, e o pico da repressão na Ditadura Militar, que desfazia famílias, separava pessoas, exilava e “desaparecia” com os que lutavam pela liberdade. Em Belo Horizonte, um casal precisa fugir às pressas por seu envolvimento com grupos comunistas. Mauro, o rebento do casal, é um menino apaixonado por futebol e sua preocupação não está nas férias de seus pais, mas sim que o pai esteja ao seu lado quando o Brasil ganhar o campeonato mundial. Mauro é deixado com seu avô, porém algo inexperado acontece com Mótel, o velho barbeiro avô do menino e este é amparado pelo velho judeu e solitário Schlomo. A convivência entre eles, difícil em seu começo, torna-se o principal motivo para eles terem esperanças e amadurecerem. À espera de um telefonema de seus pais, Mauro descobre o início da adolescência, o primeiro amor e como ser gente grande.

Prepare os lenços de papel e o coração para ver esse filme. Vale muito a pena.

Tropa de Elite: agora sim, eu vi

Em 22 de novembro de 2007 escrevi aqui no Vermelho.Carne “Tropa de Elite: ainda não vi…“, post que suscitou alguns comentários bastante acalorados acerca do valor do filme como instrumento de reflexão. Parti da visão daquele que não viu o filme, mas li muito sobre ele e sobre seus reflexos tão díspares, um sobre o repensar as relações tráfico-sociedade, outro de seu sucesso estrondoso pelo escândalo do vazamento do filme antes de sua estréia.
Quase dois meses depois, eu finalmente vi. Infelizmente, uma versão alternativa, pois como o Marcos do Esculacho e Simpatia, não gosto do vilipêndio piratesco tão comum hoje nas ruas de todo o país. Respeito o direito autoral e só me rendo às cópias ilícitas quando o filme não existe em lugar algum ou não saiu no Brasil. E ainda quero mudar isso comigo.
Vi e gostei. Muito. E esse filme me fez repensar meu preconceito quanto à popice (popularidade) da obra, quanto ao seu poder de incitar discussões sérias e sensatas. De qualquer forma, não arredo o pé da opinião de que o filme é bastante pop, tem um apelo popular muito forte e seu assunto atrai muito fácil a atenção de qualquer pessoa, independente de idade, condição social, intelectual ou financeira, credo, orientação sexual e afins que possam influenciar a opinião de qualquer pessoa. Tropa de Elite tem o peso de um filme de guerra (aliás, “guerra” é a palavra preferida do Capitão Nascimento, depois do bordão “Pede pra sair”), a graça de uma comédia de costumes e a ironia de quem viveu o suficiente para saber que a desgraça tem lá sua diversão. Marisa Orth disse uma vez algo do tipo: “Quando fudeu de vez, nosso trabalho de comediante começa”.
E ainda é uma visão enviesada, pois o livro foi escrito por um policial (o livro que deu origem ao filme, chamado “Elite da Tropa“, de André Batista e Rodrigo Pimentel, em parceria com o antropólogo Luiz Eduardo Soares) e com certeza a visão do favelado e até mesmo do criminoso não está tão presente quanto a visão de seus algozes, a polícia. Dessa forma, não dá para avançar em discussões mais consistentes de reflexo social com relação ao filme, pois não dá para ser imparcial estando de um lado do time. O diretor José Padilha conseguiu abrir um pouco essa visão, pois as cenas acabam dando rosto para a bondade e a maldade dos dois lados.
Agora, artisticamente falando, o filme é bastante bom. Atores bons e bem treinados, enredo bem costurado (como se precisasse de costura, com o mote do filme), fotografia honesta e direção competente fazem de Tropa de Elite diversão garantida, além de o filme trazer à tona muitas questões importantes: quem financia o tráfico, quem dá apoio ao caos carioca, como limpar a polícia de seus maus elementos? O sistema é cruel, já dizia Wagner “Capitão Nascimento” Moura.
Então, agora digo: Tropa de Elite vale a pena.

Filmes assim, filmes assado

Os últimos dois filmes que assisti me fizeram pensar sobre o cinema e suas intenções. A sétima arte foi criada para muitos propósitos, um deles é a diversão e a reflexão de outras vidas (como o teatro e a literatura, por exemplo) e, por isso mesmo, tem várias faces. Antes de continuar comento os dois últimos filmes mencionados.

zwartboek_200 A Espiã (Zwartboek, Holanda-Alemnha-Bélgica, 2006), de Paul Verhoeven traz mais uma história sobre o nazismo, porém na visão de uma mulher. Rachel Stein, judia, perde seu esconderijo num bombardeio e parte para o sul da Holanda, por intermédio de um “bom samaritano” que por uma módica quantia se propõe a enviar judeus para uma região onde os nazistas ainda não chegaram. Porém, o transporte utilizado é encontrado pelos nazistas e todos são dizimados, menos a nossa heroína. Encontrada por um grupo rebelde, é levada para o esconderijo e adota o nome Ellis de Vries, com o objetivo de se aproximar de um oficial da SS (polícia secreta alemã) e servir de espiã dentro do núcleo nazi. Filme que mostra, além das agruras da guerra, a confusão de sentimentos de alguém que sofre os horrores da Segunda Grande Guerra. O tema parece batido, mas o filme vale muito a pena.

Dans-Paris

Em Paris (Dans Paris, França, 2006). Paul e Anna, casal moderno, resolvem sair de Paris e viver no interior. Um ano de instabilidade depois, separam-se e Paul volta a viver com seu pai, o aposentado Mirko, e seu irmão mais novo, o mulherengo Jonathan. No dia 24 de dezembro Jonathan acorda e resolve contar a história de sua família e aceita o papel de coadjuvante narrador do filme. Encontros é a palavra certa para definir os atos desse filme. A música incidental, jazz da melhor qualidade, acompanham e dão mais cor aos personagens. O diretor Christoph Honoré cria um filme sobre tristeza, mas não é um filme triste, muito pelo contrário. Mostra que na cidade dos amantes, os mal-amados têm muito mais a dizer do que os primeiros. Que o amor em Paris paira no ar, e todo tipo de amor. E que se jogar da ponte às vezes é a melhor opção.

Estamos habituados a filmes (em especial os blockbusters) nos quais o que assistimos é o acontecimento mais importante (senão o único de real importância) que acontece na vida do protagonista. Antes e depois daquilo pode não haver mais nada de especial. Em A Espiã, Rachel Stein passa por situações fantásticas e tristes também, nos quais temos a tal catarse aristotélica, ou seja, nos colocamos no lugar dela, sofremos com ela, choramos por ela. Essa é uma das funções do cinema. Já em Em Paris a história é outra. O retrato é da vida comum. Um dia pinçado entre tantos outros dias de uma família francesa. Muito mais próximo da gente, como seres humanos, sem ter que passar por dificuldades extremas como Rachel Stein passou, mas sim por problemas cotidianos que aparecem, se resolvem (ou não) e somem, enquanto outros vêm à tona. Talvez por isso o tal sentimento de identificação seja no início mais difícil (pois prefiriríamos estar em uma vida mais enlouquecida do que vivendo o dia-a-dia comum, apesar dos pesares), mas no fim das contas, a vida mais próximas nos faz pensar bem mais em quem somos e no que nos transformamos a cada alegria, a cada desilução, a cada reencontro.

Jogo de Cena

Jogo_Cena

O que parece ser simples às vezes engana e muito. Jogo de Cena (Brasil, 2006) do documentarista Eduardo Coutinho mostra exatamente que a simplicidade se diferencia largamente do simplismo em sua proposta surpreendente: dentre oitenta e três mulheres que responderam a um anúncio colocado no jornal foram selecionadas vinte e três e depois da última triagem sobram oito mulheres de universos sociais e culturais distintos que abrem seu coração para uma câmera e para Coutinho. Porém, não apenas essas mulheres estão em cena: o jogo consiste em atrizes que fazem às vezes dessas mulheres e tentam, como num quebra-cabeça, completar as histórias tristes, engraçadas, tocantes e revoltantes dessas pessoas.

Como você conseguiu ficar duas horas sentado vendo um filme que se resume em câmera, uma cadeira e uma pessoa contando a própria vida?

No início do filme pensei o mesmo: cacete, vou ficar de saco cheio desse filme. Minutos depois eu não conseguia desgrudar os olhos da tela, dos relatos impressionantes delas, que abrem seu coração, como num confessionário, como para um confessionário onde elas podiam dizer tudo o que desejassem. E as atrizes tiveram, segundo elas, o grande desafio de representar não uma personagem criada por um dramaturgo, mas sim vidas reais, sem roteiro, sem linha condutora, mas emoção pura.

A perda de um filho, um parto malsucedido, o pai ausente, o filho malquisto, a vida em São Paulo (o filme tem seu foco em mulheres cariocas), o homem que trai, os laços rompidos, as músicas de antigamente, canções de ninar. De um lado esse caleidoscópio não para de girar até os últimos segundos do filme, que leva ao riso e conduz facilmente às lágrimas. De outro lado, as atrizes (con)fundem seus sentimentos com as dores e os amores dessas entrevistadas. Essa mescla faz um filme simples e belo.

Vale muito a pena.

E também vale conferir o blog oficial do filme. Clique aqui.

Antes de fechar o ano…

Vocês já devem ter ouvido uma lenda urbana na qual todas as ligações do mundo são monitoradas pelo governo norte-americano para um controle total do que acontece no mundo. A lenda se materializa em filmes e afins. Porém, houve um lugar onde essa lenda quase se tornou realidade, e esse lugar não poderia ser outro que a Alemanha Oriental, ou República Democrática Alemã (RDA). Nesse cenário, entre muros e farpas, passa-se a história de A vida dos outros (Das Leben des Anderen, 2006 – Alemanha), do diretor Florian Henckel von Donnersmark. A proteção máxima do regime era necessário, frente ao capitalismo ocidental, e para isso eram utilizados métodos pouco ortodoxos de coerção e supervisão dos atos dos civis pela Staatssicherheitpolizei, ou Stasi, a polícia secreta da antiga RDA. O capitão Grubitz, a serviço de poderosos do governo, incumbe o fiel agente Gerd Wiesler para vigiar a vida do dramaturgo Georg Dreyman e de sua namorada, a atriz Christa-Maria Sieland. Montado o esquema de vigilância 24 horas, Wiesler começa a enxergar como a vida do outro poderia ser a sua e desse momento em diante sua própria vida e suas concepções de mundo entram em xeque. Um filme que mostra como nenhum regime, nenhuma proibição consegue segurar a imaginação humana, os sentimentos que afloram com violência em nosso peito e nossa vontade de ser melhor. Um filme que, nessa realidade de tantos desencontros e desesperos, vale a pena conferir.

Tropa de Elite: ainda não vi…

E não é que não vi o tal de Tropa de Elite. Apesar disso, já sei de todo o elenco, das frases do Capitão Nascimento, das piadas sobre o filme e de todos os elementos que o transformaram em filme pop. Em reportagens e mais reportagens, as pessoas divagam sobre a importância do filme para o repensar a segurança nacional.

Sabe o que eu acho? Que a importância é mínima.

Pelo que li (esse é apenas com o olhar de fora, trazido do que li e vi até agora), dá pra dizer que Tropa de Elite (T.d.E.) não quer dizer muita coisa para a sociedade. Não tem tom de denúncia contra os métodos abusivos do BOPE, não faz com que pensemos no tráfico como um mal hoje tão disseminado que quase não há luz no fim do túnel, não traz a consciência aos jovens que de certa forma alimentam a indústria das drogas. É apenas mais um hit quase hollywoodiano, com direito a trilha sonora de sucesso (pará-papapá-papapá-papá…), bilheteria gorda e louros para a boa atuação dos atores.

Mais uma grande jogada de marketing, que para as más-línguas não passou de jogada da própria produção do filme: a divulgação e distribuição do filme pela indústria da pirataria. Depois de tantas histórias, podemos afirmar tranqüilamente que essa maracutaia foi uma mão na roda. Se o mesmo tivesse acontecido com Baixio das Bestas, O Céu de Sueli ou mesmo com O cheiro do ralo, talvez o sucesso desses ótimos filmes brasileiros fosse maior. O elemento violência explícita aliado ao cambalacho de alguém da produção que vendeu baratinho uma das cópias fez T.d.E. explodir, mas muita gente nem se deu ao trabalho de ir ao cinema prestigiar: se contentaram com a cópia pirata.

Agora só preciso conferir (no cinema, claro) o Tropa de Elite. Antes que peguem o saco para mim…

Cabeça Tubarão, Filmes e Livros

(Foto: Steve Hall)

Ontem li uma matéria sobre uma nova moda de livros que usam em seu enredo elementos imagéticos e iconográficos (figurinhas) para dar mais cor e sabor ao romance. Não, não estamos falando de livros infantis nem de histórias ilustradas, mas literatura adulta na qual as imagens servem como gancho para partes ou para todo o enredo. Um deles se chama Cabeça Tubarão (clique aqui para entrar no bem-bolado hotsite do livro), de Steven Hall, recém-lançado pelas Companhia das Letras. Cabeça Tubarão traz a história de Eric Sanderson, que um belo dia acorda sem memória, sem documentos e sem nada (Bourne?). Guiado pelas cartas que recebe de si mesmo, Sanderson chega até uma psiquiatra que apresenta seu diagnóstico: amnésia dissociativa, um tipo raro de doença que faz com que ele esqueça tudo que lembrou ao fazer qualquer avanço. A cada memória que lhe recorre, ele volta à estaca zero. Por fim, descobre que na verdade está sendo perseguido por um tubarão devorador de idéias. Ao fugir desse monstro formado por palavras, encontra túneis de papel, sociedades de arqueologia, monstros conceituais e amores reais. Uma verdadeira viagem que parece valer bastante a pena (é possível ver o tubarão se mover ao passar rapidamente algumas páginas do livro) e já está sendo filmado, com supervisão do próprio autor. As más línguas disseram que pessoas interessadas que Nicole Kidmann fosse a protagonista pediram que o roteirista alterasse o sexo da personagem principal.

Daí surgiu uma pequena discussão sobre a moda de filmer livros que cresce cada vez mais e Aline, a japonesa que trabalha aqui do meu ladinho, em toda a sua perspicácia nipônica soltou o seguinte comentário, muito pertinente por sinal: “Isso é bom, pois influencia muito a leitura”.

Nunca havia pensado nisso. Mas concordei e faço meu apelo, para ver se a situação da leitura no Brasil melhora ainda mais: DIRETORES, AO TRABALHO COM A LITERATURA!

Odores

(Essa foi a edição que li, há mais ou menos 13 anos)

Não sei como ainda não comentei aqui sobre um livro que adoro chamado O Perfume, do alemão Patrick Süsskind, pois esse livro foi o primeiro romance sério que li no final da adolescência, por volta dos 17 anos e que me despertou o gosto real pela leitura. Em geral as pessoas têm a descoberta da leitura com Monteiro Lobato e afins, mas minha descoberta real da leitura foi mais tarde (claro, depois da Coleção Vagalume) e com um fato no mínimo interessante.

Eu estudava numa escola estadual aqui em São Paulo, no período noturno. Não era como as escolas públicas em período noturno hoje, que o professor precisa entrar com colete a prova de balas e capacete, não havia a violência e o descaso de hoje, estudávamos e precisávamos estudar para passar de ano e o respeito ao professor ainda existia. E um belo dia, ao entrar no Gomide (nome da escola) com meu perfume novo (que o sem-noção aqui havia tomado banho) chamado Conexxion, da Boticário, fui sumariamente julgado: maconheiro. Estava realmente forte o perfume e ele tem mesmo um cheiro de ervas… mas acho que a quantidade de perfume, meus ferormônios e a maldade do povo fez com que o assunto crescesse. Tanto que uma colega de classe (essa sim, maconheira) me procurou morrendo de rir (o que não era novidade para ela) dizendo:

- Cara, não agüento esse povo. Tão falando que você tá fumando maconha. Eu dei muita risada, você é o mais CDF, nem cigarro fuma, agora virou maconheiro, piada do ano.

Fiquei horrorizado. No auge dos meus quase 17 anos eu havia sido confundido com um maconheiro. Que horror. Mal sabia eu que alguns anos depois eu experimentaria a erva danada e até gostaria, mas descurtiria dela pelas limitações que ela me impunha (eu sempre perdia o melhor da festa, começava a rir e em 10 minutos estava dormindo como um anjo). Mas naquela época para mim era uma coisa impensável, eu totalmente geração saúde, academia, dança e afins, ser confundido com um marijuanero. Fui tirar satisfação e cheguei até a bibliotecária, mulher estranha e deveras linguaruda. Eu havia entrado na biblioteca para devolver alguns livros que precisei para um trabalho, ela sentiu o cheiro, falou para o inspetor que passou para o diretor, que já rondava minha sala. Emputecido, rumei à biblioteca e:

- Olá – disse, cínico – queria uma indicação de um bom livro pra ler no fim de semana.
- Ah, claro – disse ela, desconfiada – tenho esse que acabei de ler, muito bom, O Perfume.
- Ah, por falar em perfume, você gostou do meu perfume novo? – falei, já bufando de ódio. E ela:
- Olha, é um perfume…
- Sim. E eu gostaria que você fosse um pouco mais discreta nos seus comentários…

Daí o pau comeu, eu fui pra diretoria, fiz um barraco básico, com direito a “vamos pra delegacia agora, mas se eu não tiver nada de maconha no meu sangue essa escola vai me pagar caro” e coisas de adolescente revoltadinho. No fim das contas, com uma retratação por parte da bibliotecária em nome da escola, sosseguei e pude ler o livro tranqüilamente.

E adorei o livro, muito.

Conta a história de Grenouille, um rapaz que, apesar de ter um olfato privilegiado, não possui cheiro algum. No século XVIII, em Paris, ele se destaca pela sua ânsia por conseguir o perfume perfeito, aquele com o qual ele faria o mundo se curvar aos seus pés. E não mede esforços para tanto. Há pouco tempo o livro foi transformado em filme, do Tom Tykwer, o mesmo diretor de Corra, Lola, Corra. Dizem ser muito bom (o Alberto do Zapping News recomenda). Eu ainda não assisti, mas o livro já li umas 5 vezes, tantas vezes que já tive o tal livro e fui surrupiado. E não canso de relê-lo, pois ele me apresentou a beleza da literatura. Lançado em 1985, vendeu mais de 15 milhões de exemplares em mais de 40 línguas e foi considerado o livro da década de 80 na Alemanha. Recomendo para quem acredita que os perfumes são apenas “coisa de perfumaria”.

(Cartaz do filme)

PS.: Engraçado o que me veio a cabeça agora: meu primeiro livro de verdade foi escrito por um alemão. Estava escrito nas estrelas minha paixão pelo idioma tedesco, não?

A alegria de Emma

Uma das grandes perguntas da humanidade, ao lado qual o sentido da vida e da morte está aquela que muitos tentam responder, mas poucos conseguem sequer vislumbrar uma resposta média: o que é amar? Músicas, livros, pintura tentam capturar a essência desse sentimento tão sublime e tão infernal, que nos leva a paragens que nunca imaginávamos e facilmente nos tira dos eixos e, mesmo assim, ficamos satisfeitos com ele, procuramos tê-lo ao lado e nem nos atemos ao fato de que, com ele, também há a possibilidade do sofrimento, do abandono. Evitamos tudo que pode nos fazer mal, menos esse sentimento, que também nos transforma, nos anima, nos rejuvenesce.

E o cinema também faz suas tentativas, muitas felizes, outras nem tanto. Amor não rima só com dor, mas também com alegria. E no filme A Alegria de Emma (Emmas Glück, Alemanha, 2005) fica muito claro a idéia da escritora Claudia Schreiber, que escreveu o livro que deu origem a esse filme singelo, engraçado e emocionante, de que o amor está na entrega e também na abdicação do ser amado. Quem ama liberta, não nega ao outro o pedido de liberdade, de redenção.

Emma, uma mulher independente, mas caipirona, que mora no interior dos cafundós tedescos, se depara com uma situação inusitada em seu quintal: um carro capotado, um homem ferido e um pote de plástico… CHEIO DE EUROS E DÓLARES!

Após as medidas necessárias, traz o homem para dentro de sua casa, cuida dele e o ama. À sua maneira, pois sozinha vive, com seus porcos, galinhas e sua fazenda. Uma vida simples, sem luxo algum. Porém Emma tem seus segredos, como o visitante sem nome também tem os seus. Aos poucos, se enredam numa paixão imensa e daí os segredos não têm mais como se esconder…

Esse filme me emocionou muito e me deixou bastante feliz ao mesmo tempo por concluir que o amor tem seu preço e pagá-lo pode ser dolorido, mas a completude de tê-lo. Dias depois de ver A Alegria de Emma, ganhei o livro que deu origem ao filme, Emmas Glück (em alemão, viu que catiguria).

No início do livro ela mostra como é solitária num trecho que traduzo a seguir:

Ela invejava seus porcos, que lá fora, na palha fresca, ralavam seus corpos um contra o outro e respiravam no mesmo ritmo. Seus dias eram deliciosamente preenchidos pelo nada fazer. Se tarde ou cedo, dia ou noite – se esparramavam, chafurdavam, comiam, coçavam as costas com prazer nas cercas do jardim, deitavam um ao lado do outro, pele com pele.

Queria Emma ter um corpo, uma pele para se encostar na dela. E a sorte um dia sorri para ela… será?

Paris, Eu te Amo

São 23 cineastas e uma cidade. Mas não qualquer cidade, mas uma das mais famosas cidades européias, a Cidade Luz, a Cidade do Amor e das Paixões Arrebatadoras. Mas também uma cidade com violência, mistérios e desajustes. Com desigualdade para os imigrantes, com a tristeza dos seus habitantes. Assim é Paris Eu te Amo (Paris Je T’Aime, 2006), filme que já está há um tempinho em cartaz, mas que vi apenas ontem, numa sessão tardia, no HSBC Belas Artes, cinema que costuma manter bons títulos por mais tempo do que o normal (inclusive, assisti Pequenas Miss Sunshine dias antes de as TVs a cabo o exibirem em seus horários nobres).

De vários lugares do mundo, esses diretores exploraram o que havia de mais diverso em Paris. Entre histórias engraçadas, como a do turista no metrô parisiense e histórias comoventes, como da mãe imigrante que trabalha como babysitter, os cineastas conseguiram pintar a capital francesa com vários tons: o âmbar das luzes da torre Eiffel e suas ruelas iluminadas de forma romântica, o colorido dos cafés e boulangeries, as peles num desfilar branco, amarelo, moreno e negro, o cinza da cidade moderna que cresce entre as antigas construções. A visão do parisiense, do marroquino, no africano, do espanhol, do inglês, do americano e do brasileiro. Sim, um dos curtas é de brasileiros, Walter Salles e Daniela Thomas, que não fazem feio no que Walter faz de melhor: uma espécie de road movie dentro da cidade.

O último curta, a despedida de Paris Eu Te Amo, está em tom confessional. Dirigido por Alexander Payne (de Sideways), mostra a turista americana e caipira em sua viagem solitária à Cidade Luz, depois de um pequeno curso de francês, no qual ela testa seu francês e sua fé num futuro melhor. Solidão e alegria originam uma mescla perfeita, com a qual, como diz a personagem, senti saudade daquilo que nunca vivi. Numa viagem que fiz ano passado, senti exatamente isso: saudade de uma liberdade conquistada, num lugar onde desfrutar dela é obrigação e ao mesmo tempo martírio, pois não há com quem dividir. A dor vai dando espaço ao sentimento de alegria quando se descobre que dentro da gente há quase tudo que a gente precisa. Só basta descobrir…

Bolhas, bolhas, bolhas

Feriadão, dias lindos dum inverno ensolarado em São Paulo, noite gostosa de caminhar e… ir ao cinema. Agitei alguns amigos e fomos assistir Bubble, filme de Eytan Fox, famoso por tratar de assuntos sempre polêmicos: homossexualidade e Israel. Depois de Delicada Relação, sobre dois oficiais israelenses que se amam e Walk on Water, sobre a relação homoerótica entre um judeu e um neto de nazista. Agora Eytan toca em uma ferida mais funda ainda: o amor (e todas as implicações desse amor) entre um judeu e um muçulmano nessa região tão cheia de conflitos. Noam (Ohad Knoller) serve o exército israelense na fronteira entre Israel e a Palestina onde, numa confusão, deixa cair seus documentos. Ashraf (Yousef Sweid) encontra os documentos e os leva para Noam em seu apartamento, onde este mora com mais dois amigos, Yuli (Alon Friedman) e Lulu (Daniela Virtzer). Daí começa a história de amor entre o palestino Ashraf e o israelense Noam, em Tel-Aviv, precisamente no bairro conhecido como “a bolha”, pois é cosmopolita, com lojas de grife, cafés, casas noturnas e bares que destoam com as cores da região tão controversa e conflituosa.
Filme engraçado e trágico, que lida a todo o momento com os conflitos humanos (não tão profundos, mas de forma leve) e político-religiosos. São jovens israelenses que buscam e lutam pela paz, apesar de se entregarem ao luxo de uma região privilegiada de Israel e discutirem seus inconformismos em cafés onde Bebel Gilberto é a trilha sonora constante e as celebs do país freqüentam, onde se ouve pop americano e o ecstasi e a maconha rolam soltos. Os estereótipos estão presentes, não se escapa da eterna demonificação do muçulmano, apesar de Ashraf representar o muçulmano “bom”, ou melhor, o muçulmano que foge das convenções, que não consegue enfrentar seus iguais pelo simples fato de ainda crer que deve algo, que é menor por ser homossexual, se escondendo atrás de uma máscara que apenas começa a se desfazer quando o trágico acontece…
Muitas críticas contra o filme, muitas a favor de Eytan. Particularmente, gostei e recomendo Bubble, seja pela temática controversa, seja por ser um filme leve, mas que faz pensar e entender um pouco da situação palestina.
(PS.: Um dia depois assisti aqui em casa a WTC - Por trás do 11 de setembro, que tenta reproduzir os bastidores e a preparação para o atentado. Vale a pena, apesar da visão romanceada e parcial do diretor.)

Alain Resnais e a solidão cotidiana

Medos Privados em Lugares Públicos (Coers, França/Itália, 2006), 48º filme do diretor francês Alain Resnais e inspirado na peça homônima do inglês Ayckbourn, consegue nos mergulhar num clima de solidão acompanhada, no qual a neve pinta de branco e cinza a tela, sem descolorir os personagens que sob ela levam seu dia-a-dia. Nicole (Laura Morante) busca um apartamento para se mudar com seu namorado, o ex-militar Dan (Lambert Wilson). O relacionamento dos dois está por um fio, Nicole e sua irritação com o namorado desempregado que não se esforça por mudar sua situação e prefere dividir suas agruras com o garçom Lionel (o ótimo Pierre Arditi). Esse garçom, que cuida de seu pai doente, Artur (que não aparece em nenhum momento, apenas a voz ranzinza), aceita a ajuda da secretária carola Charlotte (Sabine Azéma, musa de Resnais) para cuidar do velho enquanto ele trabalha à noite. Essa mesma Charlotte é secretária no escritório onde trabalha Thierry (André Dussolier, engraçadíssimo), um corretor imobiliário que vive apenas com sua irmã Gäelle (Isabelle Carré, uma boneca de linda) e está procurando alugar um apartamento para Nicole. Está pronta a teia de relações que será desenvolvida no filme, em seus encontros e muito mais nos seus inevitáveis desencontros.

Cada um dos componentes dessa teia, entre mentiras e desilusões, enredam-se nas pequenas surpresas do dia-a-dia. Pouco a pouco se descobrem, ao se exporem de maneiras pouco convencionais, mas sempre muito discretas. A relação de cada um com o mundo é diferente, porém, forma-se pelo mesmo princípio: a fuga da indelével solidão na fria Paris invernal. Filme para se ver, sentir, pensar e discutir, pois cada lance é pensado, cada imagem traz chaves para o desenrolar da trama.

Um a parte: tente não ir sozinho(a) ver esse filme, pois acompanhado ele rende boas discussões num jantar ou num cachorro-quente pós filme. [;)]