Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.
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¡Hola!
Sim, comecei a aprender espanhol. Minha única experiência real com o idioma de Cervantes foram as aulas com a professora Roseli Daltério, na Ibero-Americana (era a língua complementar para os cursos de tradução) e uma pequena viagem a Cuba para um congresso de germanística, uma experiência fantástica na isla del Capitán. E apenas com essa viagem que percebi como é rica e bonita a língua dos hermanos. Não comecei do básico, pois esse aprendizado, mesmo que distante, ficou na cabeça e pude dar uma avançadinha e entrar no nível intermediário.
A primeira aula foi na segunda-feira passada e uma das minhas dificuldades foi a de me concentrar para não disparar a falar português. Acredito que no início esse seja o grande problema, que pelo visto algumas pessoas não conseguem superar em médio prazo.
Aprender um idioma (de verdade, eu digo) exige algumas coisas das pessoas que hoje em dia quase ninguém está disposto a ter e se conceder. Inclusive, essas coisas costumam causar pavor nas pessoas e os fast courses se multiplicam como coelhos por conta dessa ojeriza que a maioria tem delas. Tempo, dedicação e paciência são elementos fundamentais (ao meu ver) para se aprender um idioma. Mesmo que seja um idioma mais próximo do nosso, como no caso do espanhol, e mais ainda quando o idioma ficar muito distante da nossa realidade.
Encontrei uma moça, a Tatiana, que acaba de começar o curso na mesma escola que eu. Por acaso, quando viu que eu estava voltando da mesma escola, me pediu para que eu a acompanhasse até o seu carro, pois havia um cara meio estranho rondando a escola e ao que parece havia escolhido a moça como possível vítima. Conversamos um pouco, ela teve uma experiência com o aprendizado do alemão e me disse logo de cara algo que ninguém nunca havia dito para mim de primeira, algo em que acredito muito: para aprender o alemão, é necessária dedicação praticamente diária, ao menos no início, para que o restante do aprendizado (que pode levar vidas e vidas [risos]) seja mais tranquilo. Acredito que não excluo nenhum idioma dessa regra, visto que o aprendizado vem com a repetição e internalização de estruturas e, em seguida, com a liberdade para brincar com essas estruturas dentro das possibilidades da língua e do léxico. Errar, acertar, como ao aprender sua primeira língua, e corrigir no banco de dados da cabeça o que seja necessário. Um ótimo [e muito rígido] professor que tive no Goethe, o Henrique Oliveira, sempre dizia: Die Wiederholung is die Mutter der Sprache, a repetição é a mãe do idioma.
Desejem-me sorte nessa nova empreitada. Também tenho uma pergunta a quem se interessar a responder: para você, qual seria uma boa fórmula para aprender um idioma?
iPad e o arrependimento
Assim que comprei o iPad, há pouco mais de um mês, a primeira coisa que me veio à mente foi:
— Vou me arrepender…
Aos poucos percebi que era bacaninha tê-lo, podia fazer muitas coisas nele… por exemplo não me entediar mais enquanto esperava alguém num café, ver e-mails aqui e ali, ler um livro mais pesado que ele sem o incômodo de levar um trambolho na bolsa e por aí vai. Tudo que talvez eu pudesse fazer num celular. E talvez por isso doesse tanto na consciência ter comprado o que muitos chamaram de iPhonão ou iPodão.
Até que um dia eu estava no segundo dia de um curso de tradução no qual o professor havia distribuído uns textos traduzidos para que pudéssemos compará-los aos originais, verificar as influências etc. Muito bem, cheguei no segundo dia com meu brinquedo novo, todo orgulhoso, quando ouvi:
— Hoje vamos trabalhar naqueles textos que dei para vocês na semana passada…
Gelei. Vendo todos tirando seus textos das bolsas e mochilas, do meio dos cadernos. Fui para minha bolsa e, claro, a papelada havia ficado dentro do caderno que eu havia esquecido numa outra mochila. Ótimo, ficaria olhando para o teto durante toda a aula… até que o professor disse:
— Como vocês sabem, retirei esses textos do site…
Ouvi cornetinhas angelicais ao olhar para a tela do iPad. Mais que depressa abri o navegador e voilá, lá estavam todos os textos que analisaríamos nas aulas seguintes. E a aula seguiu sem percalços e eu, agradecido ao equipamento e ao professor, fui para casa pensando: nada de arrependimentos…
Tudo novo de novo…
“Vamos começar/colocando um ponto final…”
Um cantor e compositor que gosto muito, Paulinho Moska, fez a música que dá título a este post e a primeira frase da canção é esta. Sempre gostei muito dessa música, inclusive imaginei diversas vezes roteiros para o clipe da tal música, como seria e afins. No entanto, nunca pensei que ela fosse me falar tanto como hoje, quando coloco um ponto final numa vida e recomeço outra, depois de muito lutar para prolongar uma f(r)ase de pelo menos 11 anos. Muito aprendi, muito compartilhei, mas chega uma hora na qual o fôlego acaba e o derradeiro é inevitável. Chega de vírgulas, partamos enfim para um novo período.
Que ainda é estranho. Coberto de uma névoa espessa, mas que aos poucos se desvanece. Hoje andei a esmo, pelo simples prazer de fazê-lo. Há muito não tinha vontade nem tempo para isso, afogado numa vida estranha, muito clara e asséptica, cheia de certezas que, no fundo, eram mais incertas que minha caminhada sem rumo. Hoje, na incerteza, estou muito mais seguro. Viver um paradoxo, que seja um por vez, não deixa de ser saudável.
Tantas metáforas às vezes deixam as pessoas preocupadas, mas não tem motivo. Melhor eu não poderia estar depois de uma semana de liberdade de amarras que eu mesmo me coloquei, por isso minha responsabilidade era desatá-las. O que não teve e não tem preço.
PS.: A quem interessar possa, este post refere-se à minha vida profissional apenas. O que não é pouco…
Ainda sobre os livros eletrônicos
Qual é a grande reclamação do mercado editorial, hoje e sempre? Que não há leitores e os poucos que existem não dão conta de sustentar o mercado de forma que se possa investir não apenas no best seller, mas também em outras literaturas que não aquelas que tem como principal atrativo o poder de vender. Será?
Não é novidade que o livro no Brasil ainda é uma fortuna, visto como objeto de luxo e tratado como tal pela maioria. Além do custo alto do livro, há a falta de incentivo à leitura, algo que deve ser cultivado desde o início da aprendizagem para não se tornar novidade. A leitura ainda é confundida com ócio, não com atividade, ou seja, “ele não tá fazendo nada, só tá lendo…”. Ninguém se dá conta que é possível melhorar as pessoas pela leitura ou no mínimo abrir os horizontes de muitas delas com essa atividade tão encantadora.
Então surge uma luz no fim do túnel: os livros eletrônicos. Por um lado, o livro digital é atraente para as novas gerações de leitores que consomem bits e bytes, já leem mais do que seus pais leram por conta da internet, têm blogs, atuam em redes sociais e compartilham sua vida com o mundo como se todos fossem amigos. Por outro lado, diferente do que se imagina, é possível ler e-books no computador, no laptop, no celular (com boa vontade e bons óculos para os astigmáticos). Assim, continua tão portátil como nunca. E os aparelhinhos leitores são algo à parte com suas múltiplas possibilidades.
Daí a gente entra na loja da editora, esperando que aquele livro lançado há pouco esteja entre os livros eletrônicos e mais em conta que a versão em papel. Nada. Busca outro, de outra editora e… Nada. Encontra outro livro que estava procurando, legal, na versão eletrônica. Preço de livraria? Suspira e vai jogar Angry Birds Free.
Percebem onde quero chegar?
O livro eletrônico tem o mesmo processo editorial do livro em papel, tirando a parte de impressão, distribuição física etc. Há softwares especiais para fazer os livros, ainda uma novidade no Brasil, o investimento é alto para um futuro ainda incerto. Porém, não precisamos ir muito longe para verificar, em indicadores mundiais, que o mercado de livros eletrônicos apenas cresce, tomando proporções que não poderíamos imaginar há dois, três anos. Para quem lê outros idiomas a internet e suas lojas internacionais viraram um prato cheio para se descobrir coisas que demorarão a chegar ao Brasil, se chegarem. Quem lê de verdade e descobre tantas facilidades vira freguês e gasta mesmo, sem muito titubear.
Podemos ainda falar de futuro incerto?
Posso parecer elitista agora, mas se pensarmos bem os celulares se popularizaram faz quantos anos? 10, 12? E hoje todo mundo tem e usa e gasta com ele. As novas gerações serão leitoras, as mudanças já se mostram, ainda que tímidas, nos relatórios dos órgãos de pesquisa da leitura e educação no país. E a tecnologia anda lado a lado dessa meninada.
Então é bom que as editoras revejam seus conceitos quanto ao suporte digital. Pois as coisas mudam… e muito rápido.
E-books: primeiras impressões

Há uns tempos venho mostrando uma flexibilidade quanto ao assunto livro eletrônico, mais por considerá-lo uma tendência irreversível do que por gostar da ideia de ler numa tela. Já ficou até chato comentar com ar nostálgico que sentir o cheiro do papel e a textura das páginas ainda constitui um ótimo motivo para se rebelar contra a novidade. Hoje já pode ser comparado a falar que temos saudades dos chiados dos LPs ou do barulhinho do telefone de disco.
Resolvi por inúmeros motivos me render aos ebooks, experimentá-los antes de fazer juízo apressado. Os últimos posts que fiz sobre o assunto já mostravam que logo mais eu o faria (até porque, uma das minhas facetas menos exploradas aqui no blogue é minha tara por tecnologia). Então, na onda das recentes mudanças, depois de muito ponderar, acabei adquirindo um iPad. Menos e-reader que seus rivais Nook, Kindle, SonyReader e outros, o iPad foi minha opção exatamente por isso, pois primeiro não queria gastar uma grana para ter o que eu já tenho nos livros em papel, mas desejava algo que me trouxesse também diversão e produtividade. E acredito ter feito a escolha certa.
Nem bem cheguei em casa e comecei a baixar aplicativos. Não, Angry Birds não foi minha primeira aquisição, mas foram os aplicativos iBook (da Apple), KindleApp, B&N eReader e Saraiva Digital Store. Confesso, porém, que demorei um pouco para usá-los de verdade, ainda envolvido pela novidade. E está aí exatamente um contra do iPad como leitor eletrônico: ele vai além disso e sua oferta de distrativos é tanta que a leitura, para a maioria de seus usuários, tem ficado em último plano (se é que existe).
Mas quando fui fazer a primeira experiência real de leitura, escolhi parâmetros para testar a eficácia da maquineta: escolhi um assunto que gosto muito, a literatura, porém em alemão, língua que eu obviamente leio bem, porém numa velocidade menor que em inglês e, claro, que na minha língua materna, o português. O livro se chama “Erst lesen, dann schreiben” (Primeiro leia, depois escreva), organizado por Olaf Kutzmutz, que traz 22 autores alemães contando suas experiências literárias, mas não como escritores, e sim como leitores. Ainda comentarei sobre ele aqui.
Eis a minha grata surpresa: ler na telinha é uma delícia. Entre as facilidades da leitura eletrônica estão as anotações e as marcações que se fazem num clique. Consultas a dicionários também facilitam a vida no caso de textos mais intrincados e/ou antigos. A compra de livros é muito fácil e rápida, o que também representa perigo a viciados como eu.
Bem, essas são as primeiras impressões para mim de um futuro que se consolida. As vendas de ebooks no mundo vêm crescendo espantosamente, a pirataria já surge como uma grande preocupação para as editoras e elas terão que ser rápidas para encontrar soluções. Perdas e ganhos são inevitáveis no mundo digital, mas acredito que elas se sairão melhor que as gravadoras nesse sentido.
Logo terei mais impressões sobre a leitura e a relação com os leitores eletrônicos.
Ah… e este post foi feito no iPad, no aplicativo do WordPress. Talvez isso faça também com que eu volte a ativa no blogue. Torçamos…
O pânico sobre os e-books
“Sem motivo para pânico”
Um novo estudo sobre e-books também ecoa na imprensa. Em virtude da pequena parcela de mercado dos livros eletrônicos, a mídia se espanta com os resultados da Börsenverein, a Associação Alemã de Editoras e Livrarias (“Vivemos em 2011 a hora zero dos e-books”).
O jornal “Frankfurter Rundschau” não reconhece nos números apresentados sobre o mercado de e-books na segunda-feira passada (15 de março de 2011) comprovação alguma para um boom iminente dos livros eletrônicos. “De onde vem o otimismo da associação? Por um lado, das editoras e livreiros varejistas que esperam para os próximos anos triplicar o faturamento com e-books – de qualquer jeito. Por outro lado, de Hans Huck, porta-voz do Grupo de Trabalho para Publicações Eletrônicas da Associação, que espera para o quarto trimestre de 2011 um grande aumento de vendas na área de tablets, ou seja, iPad e companhia. Conclusão do jornal: o medo dos livreiros não teria fundamento, pois “de fato nada vai acontecer”.
Este é um trecho da notícia do site Buchreport, um site alemão sobre o mercado editorial, ao estilo do nosso PublishNews. E o estudo comentado corrobora os diversos comentários e prognósticos sobre o mercado livreiro, apesar de as bruxas estarem soltas no mercado livreiro norte-americano, por exemplo, com a quebra de algumas grandes e antigas livrarias. O fim do livro de papel pode ser inevitável, ao menos da forma que conhecemos, mas não é iminente, não deve assolar a humanidade agora e muito menos extinguir o objeto-livro. Esses dias dei uma passeada pelas seções de e-readers de algumas lojas e tive mais certeza do que nunca de que os livros eletrônicos ainda estão longe de conquistar uma massa de leitores no Brasil por um simples motivo: o preço. Do iPad, que custa entre 1.300 e 2 mil e poucos reais, ainda é um brinquedão com muitas funcionalidades, muito diferente do que se pode imaginar de um leitor de livros. Todos os distrativos de um computador estão lá: os jogos, as redes sociais e afins. Vi também outros leitores, como o iRiver Story, por 969 reais, o Cybook Opus, de 899 reais, o brasileiro Alfa da Positivo, por 700 reais, e o mais em conta, o leitor eletrônico ER-7001, da Elgin, que pode ser encontrado até por 600 (apesar de sua tela colorida e capacidade para exibição de filmes e reprodução de músicas). Vejam esses preços. Isso explica por que o e-book não vai decolar tão cedo, pois, para gastar entre 700 e 1.000 reais num “negócio” que só dá para ler, os consumidores talvez prefiram colocar um pouco mais (ou fazer mais parcelas) e adquirir o tão desejado iPad (mesmo com a promessa de uma versão melhor do dispositivo da Apple no fim do ano). E a possibilidade do Angry Birds ganhar do Dostoiévski é muito real.
Por isso, ainda acredito que os fabricantes de leitores de livros precisarão reduzir seus preços e muito para conquistar a parcela leitora dos consumidores, aqueles que investiriam uma grana para ter um dispositivo exclusivamente para leitura. Pois quem lê não está muito interessado em ter praticamente o mesmo numa tela por um preço que seja equivalente à compra de uns 20 ou 30 livros. E os preços dos e-books ainda estão altos, o que leva as pessoas que realmente leem pensarem duas vezes antes de adquirir um leitor eletrônico.
De fato, o futuro é dos e-books, sobre isso não resta dúvida. Mas ainda há tempo para os livreiros se adaptarem à nova realidade.
O primeiro dia útil
Ainda enrolado com tarefas do ano passado retorno ao blogue, há tanto esquecido. No primeiro dia útil achei por bem dar uma palavra a quem ainda me lê, seja no twitter (no qual ando bastante ativo), seja em outros cantos e pontos. Neste verão outonal que tanto estou curtindo, pois o calor infernal ainda não pousou sobre a Sampavelox, as coisas começam a acontecer. Lentas, mas começam.
E o blogue terá atividade maior em breve. Inclusive um pensamento esparso que lancei no twitter deve vingar: um planejamento para o blogue, ou seja, uma maneira de me forçar a escrever, coisa que tanto gosto, mas, que pela minha relativa desorganização àquilo que foge ao tema trabalho, ficou relegada no fim de 2010.
Mesmo assim, o WordPress me deu uma nota ótima como usuário. Algo bizarro como não sei quantos mil contêineres cheios representariam meus visitantes. Aos quais agradeço bastante, sempre.
Então, passei aqui para desejar um ótimo 2011. Que possamos nos encontrar muitas vezes aqui e acolá, mas nunca perder o contato. Se 2010 foi bom (posso dizer, para mim, foi bastante bom), tenho a certeza de que teremos um 2011 sem precedentes.
Abr@ços e até logo mais…
Comercialmente falando…

Há tempos não falo de e-books e afins e como o lançamento oficial brasileiro do iPad daqui a pouco reacenderá as discussões aproveito para levantar uma lebre:
Comercialmente falando, como ficam os livros digitais?
Sabemos que um dos percalços de uma edição é o preço do papel, bastante alto, ainda mais com as edições de hoje, com seus papéis especiais (aqueles amarelinhos, mais agradáveis aos olhos). Essa é uma das explicações (ainda que “superfaturadas”) para o alto preço dos livros, mesmo com a suposta ameaça do livro eletrônico. No entanto, vemos que os livros digitais hoje não apresentam uma diferença tão grande com relação aos livros físicos, mesmo levando em conta que alguns dos encarecedores não entrariam no seu preço final: gráfica, distribuição, livraria, atendimento e afins. Pela lógica, o preço do livro eletrônico deveria ser muito menor, dada a cadeia que se rompe quando do livro digitalmente pronto. Porém, em muitos casos, não é isso o que acontece.
E isso começará a criar uma cultura da pirataria e a indústria fonográfica já sofreu duras penas por conta disso: a internet abriu um mundo de possibilidades para os bucaneiros velejarem e saquearem os artistas. Na indústria do livro, após a popularização dos leitores digitais (que, de acordo com especialistas, se disseminarão apenas quando chegarem ao preço de US$100,00), provavelmente veremos as livrarias e editoras perdendo receita por conta da cópia ilegal de livros, mesmo no Brasil, país no qual se lê pouco, mas no qual se consome muita tecnologia.
Talvez seja um atrativo para a leitura a digitalização, mas quem vai sustentar esse mercado se a pirataria comer solta?
Acredito que seja necessário repensar os preços dos livros, digitais ou não. Óbvio que a pirataria será inevitável, mas o setor pode se precaver contrabalançando os preços, sem prejudicar o processo de produção editorial. Complicado? Talvez não… mas é preciso força de vontade.
Véus

Controvérsia. Se fôssemos resumir as teorias da tradução e suas diversas linhas e estudos, essa palavra seria uma das primeiras numa lista na qual cabem também idealismo e política. Tradução é um negócio mais sério do que parece e hoje mesmo disse a uma grande amiga que torço (de forma jocosa) para que o Google Translate cause um incidente diplomático hecatômbico. Mas não é disso que eu quero falar nesse post.
Quero falar da tradução como véu. Pois ao traduzir um texto, sem dúvida pousamos um véu sobre o texto fonte [ou original, como queiram], sendo véu o texto alvo [a tradução]. Por exemplo, num texto em francês, eu preciso desse véu bem colocado para que eu possa conviver com a obra, me relacionar com ela. Mas a tessitura desse véu varia uma barbaridade e isso faz com que a relação com a obra seja uma ou outra. E a controvérsia nas recentes teorias tradutórias tem a ver com a trama desse véu, pois muitas vezes ela pode ser bastante apertada e não deixa entrever o que está por trás dele, nos dão a sensação de que não nada por trás dele. Outras vezes a trama é frouxa e conseguimos ver perfeitamente o que está por trás e isso traz um estranhamento que é muito bem visto por diversos teóricos. Às vezes em favor, outras em detrimento do entendimento tranquilo de um texto.
Esse entrave é bastante discutido quando falamos de uma cultura que já é permeada pelo gosto estrangeiro (como a nossa), que não precisa de mais uma injeção cultural alheia à sua. Pelo prisma da cultura dominante (em especial a de língua inglesa) esse ato chamado de “estrangeirização” tem defensores ferozes, como Lawrence Venuti e Antoine Berman. O respeito ao original começa no âmbito do léxico e se estende aos aspectos culturais da obra, sendo mal vista a tradução que prima pela chamada “domesticação”. Nesse sentido, qualquer inclusão ou exclusão, mudança ou explicação dentro do texto alvo torna-se um aviltamento na visão dessa linha teórica. Preocupação bastante conveniente quando se fala do lado de “lá”.
Do lado de cá a coisa é um pouco diferente. Apesar do respeito à obra original, nossa cultura já recebe sem pedir (e isso não é uma crítica, muito pelo contrário) a influência de tantos idiomas e de tantas culturas que fica difícil dizer quando algo precisa mesmo ser explicado ou ampliado para que o leitor sinta o gosto do estrangeiro. Já sabemos, como cultura não hegemônica, que o estrangeiro está ao alcance das mãos, ainda mais em épocas internéticas. Seguir o que a obra pede, ao meu ver, sempre é o melhor caminho e, se extremamente necessário, deixar as coisas mais claras não desrespeita ninguém, muito pelo contrário, ajuda as pessoas a compreenderem melhor o que leem. Não estou falando de adaptação, simplificação ou de subestimar o público leitor, mas há coisas que para nós ainda são tão distantes (ainda mais com as traduções literárias para o português hoje em dia, vindas diretamente de idiomas dos mais diversos possíveis) que uma mãozinha de quem conhece não é de se recusar.
Tradutores?

Hoje em dia, a maioria das visitas no meu blogue vem de tradutores ou de amigos de tradutores ou de gente que gosta de literatura e tradução. Essas pessoas, ao menos é o que espero, sabem ou têm ideia sobre o que o tradutor faz. Porém, muita gente não tem muita ideia ou sequer noção quem são os tradutores e como funciona o mercado de tradução. Vou tentar aqui, de forma resumida, dizer quem somos nós e, mais ainda, o que não somos:
1. Tradutor é ser humano. O resto é quebra-galho.
2. Tradutor usa computador, come, bebe, veste, paga conta e faz tudo que você faz.
3. Tradutor sua a cabeça e, muitas vezes, a camisa também.
4. Tradutor não é só de livro. Ou você acha que o manual do seu celular foi feito em português?
5. Tradutor é necessário, apesar das vozes contra essa fato. E não um mal necessário.
6. Saber uma língua estrangeira e ir pra Disney algumas vezes não faz de você um tradutor. Muitos ótimos tradutores nunca saíram de seu Estado natal.
7. Tradutores também tem teoria. E ela não deve ser ignorada.
8. Tradutor precisa ser lembrado também quando faz um bom trabalho. Afinal, somos humanos, comemos, bebemos e também gostamos de elogio, como você também gosta.
9. Tradutor trabalha muito. Às vezes mais do que o normal. E discutir gramática, terminologia, estudar e afins também é trabalho.
10. Tradutor nunca está sozinho, como muitos pensam. Ainda mais nos dias de hoje, com internet e afins.
Espero que esses dez pontos bem (ou mal) humorados tenham cumprido sua missão. E da próxima vez que ler um livro estrangeiro (o nosso nome fica em geral na página de rosto, viu?) ou pegar o manual de um eletrônico, lembre-se: nós estivemos por ali.
HD
Vejo por aí algumas pessoas que se negam.
Negam-se a conhecer a cultura pop, as breguices que pululam nos televisores, nas bancas de jornal, nas livrarias. Viram as costas à possibilidade de tomar o mínimo contato com a chamada baixa cultura. Daí eu me pergunto: qual a relação que essa pessoa tem com o meio no qual, infelizmente para ela e para o próprio meio, ela vive? Talvez seja a hora de as pessoas pensarem um pouco o quão carregado de preconceitos são algumas suposições.
Com isso não estou dizendo que precisamos ficar na frente da televisão vendo Big Brother em vez de ler um livro ou fazer algo que valha mais a pena.
Porém, ao menos na minha profissão e naquilo que ainda quero me profissionalizar, repertório diverso constitui ferramenta imprescindível. A gente nunca sabe quando, no meio daquela tradução, vai aparecer a menção a um programa de auditório, um filme B ou uma atriz de predicados duvidosos do cinemão hollywoodiano. Hoje existem pesquisas, os sites de busca estão aí para isso mesmo. Mas muitas vezes aquela novela besta pode ser um ótimo gancho para um belo texto, um romance com sucesso de crítica e público, ou apenas para dar um refresco para a cabeça.
Aliás, é sempre bom lembrar isso: nosso HD não tem limite. E como diria o querido professor Fernando Dantas se estivesse ainda conosco: para um tradutor, não existe cultura inútil.
Literatura, escolhas e sociedade
Não há o que fazer: as editoras decidem o que vamos ler. Como em quase tudo, alguém decide o que vamos fazer, o que vamos comer e o que vamos vestir. E o que vamos ler não fica de fora nas imposições da vida, porém as coisas tendem a mudar de certa forma com o livro eletrônico, visto que ainda sai mais barato importar um Kindle a ter um e-reader nacional. Tendo um Kindle (ou outro leitor eletrônico gringo), as opções se ampliam para quem lê inglês e essas pessoas vão espalhar para outras (entre elas as que não leem em outra idioma) que acabaram há pouco um livro fantástico, mas que não tem tradução. E a cobrança por essa tradução surgirá e algumas editoras, tão acostumadas a impor suas compras nas grandes feiras internacionais, terão que correr atrás do prejuízo daquelas que têm um faro mais apurado ou bala na agulha para apostar em títulos nos quais outras não apostariam.
Talvez seja uma situação ideal. Mas isso aconteceu com diversos objetos cotidianos que precisaram se adaptar a uma realidade mais global (leia-se, norte-americana ou europeia). Tenho a esperança de que isso ocorra, em médio a longo prazo. Os leitores crescem e os atrativos de leitura para as novas gerações são muitos, de títulos da moda até os próprios e-readers, gadgets que serão sensações nos próximos Dias das Crianças, Natais e outras festividades comerciais. Que pai com condições vai se negar a oferecer aos seus filhos um meio divertido de obter cultura?
Porém, a situação da maioria ainda não é boa. O costume da leitura não é encorajado, apesar de tanta gente boa lutando para que a leitura se torne algo que se almeje de verdade (como projetos que levam autores a cidades do interior, rodas de leitura, eventos em bibliotecas, livrarias e afins). Por isso, se você chegou até aqui, já pensou em incentivar a leitura entre seus amigos, colegas de trabalho, parentes? Montar uma pequena biblioteca no escritório, contar para os irmãos com a empolgação de quem viu um filme de aventura que o livro tal é o máximo, dar a uma amiga aquele livro que tem a ver com ela. Essas pequenas sementes florescem com facilidade, basta regar e insistir. Pois a educação é um passo à frente para formarmos uma sociedade melhor.
Tradução e negociação
Tradução é negociação. É a natureza da arte/do ofício tradutório trabalhar com negociações para que se alcance o equilíbrio necessário à compreensão do texto. Isso não é novidade para quem já está na estrada, mas talvez seja para as pessoas que não vivem ou não pensam a tradução como uma série complexa de operações que têm ganhos e perdas, consequências e resultados, às vezes esperados, outros não. Sendo a tradução uma atividade (um ato), tem sua dinâmica própria e para que se faça bem, é necessário compreendê-la ou ao menos vislumbrar suas possibilidades. Não raro, nos vemos em diversas sinucas de bico e não sabemos como sair delas. Nesses momentos de apuro, apelamos invariavelmente a são Jerônimo, acendemos algumas velas para ele e aproveitamos para invocar Xangô, que no sincretismo também representa o santo padroeiro dos tradutores.
E nos empenhamos para realizar a tal negociação. Que a primeira vista parece um ato muito simples, mas demandou anos de estudos tradutórios para que se chegasse a um consenso da validade de tal prática. Não que os tradutores não fizessem isso antes, sempre fizeram e sempre vão fazer. Porém, é uma visão que tira o tradutor daquela pequena margem de autonomia que sempre é supostamente dada a ele e põe as rédeas do texto que tem nas suas mãos. Pois não aceitamos mais aquela visão arcaizante de um tradutor acorrentado ao texto de partida (vulgo original) e obediente no texto de chegada, sem nenhum poder coautoral que lhe é de direito, tendo em vista as dificuldades que a transposição cultural nos impõe (seja em texto literário, técnico, científico e outros). Tomadas as devidas proporções (pois tradução não é bagunça), o tradutor é responsável por todos esses trâmites dentro do texto para que ele, no fim das contas, seja coeso e compreensível no idioma de chegada.
A negociação, vista pelos estudos modernos de tradução, pode ser algo indesejado. Contudo, esses estudos modernos têm como ponto de partida culturas muito diversas da nossa. Mas isso é assunto para outro texto.*
Esse diálogo ao qual nos propomos todos os dias quando executamos o ato ainda visto como inglório é o que possibilita o entendimento entre as culturas, tornando a tradução não apenas um operação de transposição intralingual, mas um sistema intrincado de negociações multiculturais, dos quais poucos se dão realmente conta. Acredito que os tradutores têm papel fundamental quando seu fazer possui as qualidades do texto de partida totalmente transposto para o idioma de chegada, pois mostram que a negociação benfeita leva ao objetivo de sua arte/seu ofício: estabelecer o conhecido clichê, a ponte necessária entre as culturas.
* Um texto ótimo sobre essas vertentes dos estudos da tradução pode ser lido no blogue da Profa. Ivone Benedetti, aqui.
Imagem: Portalingua.info
Fr g me nt ad
Ontem vi (na verdade, mais ouvi que vi) parte do bate papo entre Marcelo Tas e Ronaldo Lemos sobre o tema Liberdade para os BITS, no qual exploraram as transformações da mídia e da indústria cultural. Num dos momentos, Ronaldo comentou uma coisa inquietante, que foi mais ou menos o seguinte: fomos absorvidos pelos gigabytes e hoje nossa maneira de olhar o mundo e de pensar é totalmente outra. Conversando com o Tiago sobre essa questão, chegamos à conclusão de que precisamos atentar a esse fato e lutar contra o pensamento de 140 caracteres, às conversas fragmentadas e à leitura ineficaz à qual nossos olhos estão se acostumando. Eis que no sábado me deparo com uma matéria no suplemento literário Sabático sobre slow reading, ou seja, a leitura atenta e lenta, a fruição da leitura em livros e afins. Seguindo os modelos do slow food e do slow traveling, ler lentamente vai virar moda, mas não no sentido pejorativo do termo, mas algo que veio para ficar (o quanto durar o burburinho). Talvez seja esse o caminho para nos recuperarmos um pouco da febre internética que faz com que não leiamos mais as coisas até o fim, deduzindo ou não se importando se a informação está completa ou não. O jornalista Patrick Kingsley começa seu texto dizendo:
Se estiver lendo este artigo impresso, o mais provável é que vá ler somente a metade do que escrevi. Mas se a leitura for online, talvez não chegue a um quinto dele.*
É um fato. O mundo dos blogues também tem muito disso, algo que passe de dois parágrafos já cansa os olhos e passar para outra tela, a do Twitter ou do Facebook, será uma alternativa mais atraente, na qual no máximo meio parágrafo (quando muito) te dá uma informação “completa”. E as conversas começam a ficar assim, a falta de diálogo cresce apesar da abundância de assuntos. A visão é a de que a velocidade parece tornar tudo mais palatável, transformando o afobamento numa qualidade. É isso que realmente queremos? Ronaldo Lemos, no bate papo, comentou que não tem Twitter. E decidiu por não tê-lo por diversos motivos e um deles foi se desligar um pouco. A necessidade de responder imediatamente aos e-mails recebidos, de ler e reagir aos recados nas redes sociais e ler e ouvir tudo que está na tela faz com que nossa atenção se disperse com mais facilidade, esse must to be, must to have que se transformou a vida virtual, se não controlado, vira uma verdadeira prisão e a vida continua lá fora (há tempos houve um caso de um chinês que morreu na frente do computador, numa espécie de overdose, se não me engano).
Assim, acredito que tenhamos que adotar às vezes (ou muitas vezes) o slow life, ou seja, diminuir o ritmo para viver melhor. Sei que é difícil, sei que há concorrência, necessidade, vício internético e tantos outros motivos que não caberiam aqui. Mas pense com carinho: está realmente valendo a pena estar três passos adiante, quando um seria de bom tamanho? Vale a pena sacrificar o tempo todo “seus” momentos, aqueles só seus, nos quais você decide o que quer?
Agora, câmbio e desligo. Pois o sol lá fora está lindo…
*Tradução de Terezinha Martino da matéria original que está aqui.
Imagem: Csaba Osvath, Fragmented Reflections of Myself, 2006
Vale a pena ter um e-reader?
Os e-books são um fenômeno, como temos visto nos jornais, e o setor livreiro vê com um misto de receio e entusiasmo esse boom nas compras dos livros. A comparação com a derrocada da indústria fonográfica é inevitável, porém precisa ser analisada de forma racional, ou seja, o que será do e-book em longo prazo.
Pensemos numa viagem de ônibus de oito horas de São Paulo a Belo Horizonte, sem maiores dificuldades e trânsito. De dia, por exemplo, saída da rodoviária do Tietê às 10h00 e chegada em BH às 18h00. São 480 minutos de viagem, contando as paradas de vinte minutos a meia hora cada. Se eu tiver um tocador de MP3, para ouvir 8 horas ininterruptas de música, levando em conta que cada canção em média tem 3,5 minutos, precisaríamos de 137,2 músicas no meu aparelhinho.
Suponhamos que eu resolva ler oito horas ininterruptas. Dificilmente conseguirei ler nas paradas, então retiremos 50 minutos do meu total, então seriam 7 horas e 10 minutos, ou 430 minutos de leitura. Suponha que você leia 1 página a cada 8 minutos de um livro relativamente simples, digamos, de 120 páginas. Você lerá em 8 horas 57,7 páginas, menos da metade desse livro. Mesmo se você tiver o costumo de ler a uma velocidade maior que essa, irá ler um livro em toda a viagem.
Então, para quê preciso levar minha biblioteca comigo onde eu estiver, 100, 200 ou mais livros? Simplesmente para dizer que tenho tantos livros? Ou seja, o consumismo inicial impulsionado pela propaganda ou pela facilidade de compra (na propaganda do Kindle, em 60 segundos você tem seu novo livro na maquininha) pode fazer com que as pessoas assumam os e-readers como as máquinas do futuro, causando um furor nesse início. Mas será que isso vai durar?
A única opinião que tinha era que não abandonaria tão cedo os livros de papel pelos livros eletrônicos, tanto pela minha paixão por eles como pela minha birra inicial com essa tecnologice (apesar de eu amar tecnologia e fazer uso dela sempre). Essa opinião mudou quando li e tomei conhecimento de alguns recursos dos e-readers e agora tenho para mim que eles são bons e serão cada vez melhores para um tipo específico de leitura: a técnico acadêmica. Digamos que você tenha um trabalho de fim de curso, uma pesquisa ou outro trabalho que exija um volume grande de leitura, anotações, observações e consultas não apenas nos livros, mas também na internet, em jornais e revistas. Num e-reader estará tudo no mesmo lugar, concentrado e, além disso, você poderá pesquisar o que quiser num piscar de olhos e não mais fazer um fichamento imenso para encontrar um trecho, uma informação específica. Não que seja ruim ler o livro todo, aliás é necessário, mas no momento da pesquisa é interessante você encontrar uma informação em páginas que já passaram, que virão, compará-las e nelas anotar, grifar etc. Aí o e-reader é útil e prático e mostra seu valor.
E quem disse que eu só olho o lado ruim das coisas?
Imagem: Collective London
Mais sobre e-readers
Fiz um texto sobre e-readers que ainda vou postar aqui sobre como eles podem ser (in)úteis, porém o texto ficou no meu caderninho de anotações e este, por sua vez, foi esquecido na casa da minha avó. Em breve vou buscá-lo e trago novas considerações amalucadas sobre os leitores eletrônicos e o quanto eles podem nos trazer de alegria ou decepção. Enquanto isso, fiquem com um trecho do livro Sobre a Literatura - Ensaios, de Umberto Eco (Ed. Record, trad. Eliana Aguiar) que sempre me surpreende com suas divertidas elocubrações sobre o tema:
É verdade que os objetos literários são imateriais apenas pela metade, pois encarnam-se em veículos que, de hábito, são de papel. Mas houve um tempo em que se incorporavam na voz de quem recordava uma tradição oral ou mesmo em pedra, e hoje discutimos o futuro dos e-books., que permitiriam ler seja uma coletânea de piadas, seja a Divina Comédia em uma tela de cristal líquido. Aviso logo que não pretendo me deter esta noite na vexata questio do livro eletrônico. Pertenço, naturalmente, àqueles que, um romance ou um poema, preferem lê-lo em um volume de papel, do qual haverei de recordar até mesmo as orelhas e o peso. Dizem, porém, que existe uma geração digital de hackers que, nunca tendo lido um livro na vida, com o e-book conheceram e provaram agora, pela primeira vez, o Dom Quixote. Quanto proveito para suas mentes e quanta perda para sua vista. Se as gerações futuras chegarem a ter uma boa relação (psicológica ou física) com o e-book, o poder do Dom Quixote não mudará.
Eu já disse que virei fã desse moço?
Conversas entre Tradutores – Beatriz Rose
Sim, não desapareci. Apesar dos dias out, não desisti do blogue, nem das entrevistas, muito pelo contrário: elas continuam a todo vapor. Apesar das turbulências que me impediram de escrever durante esses dias, hoje não podia deixar de apresentar minha entrevistada dessa semana, a Beatriz Rose. Tradutora dos idiomas inglês e alemão na área técnica (medicina, biotecnologia, marketing e outros), Beatriz é uma conhecida de longa data. Além de profissional competente, ainda é uma ótima companhia para um café de tarde. Ela lutou para não ser tradutora, por motivos que explica na entrevista, mas não teve jeito: a herança tradutória falou mais alto.
Para conferir esta entrevista, clique aqui.
Para conferir as outras entrevistas, que também estão deliciosas, dê uma passeadinha ali em cima, em Conversas entre Tradutores.
Agora, volto à labuta.
De novo, os e-books
Acho que sempre voltarei às considerações sobre o livro eletrônico, pois envolvem duas das minhas paixões: livros e gadgets. Hoje, conversando com o Tiago sobre isso, ele comentou que o e-book poderá desestabilizar a indústria livreira, como a música digital fez com a fonográfica. Concordei em parte, discordei em parte e ainda aventei uma grande utilidade dos livros digitais. Cada coisa em seu lugar:
Concordei, pois o fenômeno tem se mostrado mais abrangente do que o esperado. Milhares de e-readers já foram vendidos desde a popularização do Kindle, da Amazon, e o iPad fez com que disparasse a vontade das pessoas de conhecer o negocinho. Bom para a indústria de eletrônicos e bom para as livrarias que já lançam livros digitais e montam e-stores para as obras recém-lançadas e convertem os antigos livros físicos em versões digitais. Não muda o processo de feitura do livro, ou seja, o processo editorial continua o mesmo, só não haverá mais o custo com a impressão, o gasto de papel. Isso é uma vantagem ecológica do e-book (se não pensarmos, óbvio, no lixo eletrônico) e pode ser um atrativo para ainda mais vendas dos bichinhos.
Discordei, por outro lado, exatamente por ser um fenômeno. Em geral, fenômenos tecnológicos vêm e vão com uma rajada de vento. E o livro é algo como a colher, a roda: reinventá-los com êxito é algo bastante complicado. Não estou sendo purista, em breve terei meu leitor de livros digitais, mas não acredito no fim do livro para amanhã. Talvez em algumas décadas, se o oba-oba inicial for superado e os editores apostarem muitas (ou todas) as fichas em tecnologia, marketing e convencimento, o e-book dê certo. Antes disso, antes de termos segurança suficiente para levarmos nosso e-reader para onde quisermos e não precisarmos restringir seu uso a locais sem risco de roubo e afins, o livro ainda será um grande aliado. Ou já souberam de algum assalto à mão armada de livro em ônibus, ou na rua?
Utilidade? Espaço. Moro num apartamento de espaço limitado e estou quase tropeçando nas pilhas de livros e tenho um grave defeito: não me desfaço dos meus livros. Ainda terei a coragem de separar aquilo que já li, aquilo que não lerei mesmo e outros (não me perguntem, nem eu sei o que seriam “outros”) e doar. Enquanto isso, um leitor digital seria uma boa, ter o que eu quiser ler em estantes de bytes e megabytes que terão, no máximo, o tamanho de um livro apenas. Dispensaria estantes, cubos, prateleiras que ocupam um espaço danado. Apartamentos menores, cada vez menores, talvez peçam uma solução dessa para armazenar partes de nossa vida.
Enquanto esse futuro deveras tenebroso não chega de vez, vou dar um pulo na livraria…
Somos o que carregamos
Diversas vezes ouvi que somos o que comemos e as formas adquiridas com a comilança acabam por confirmar essa triste sentença. Porém tenho uma amiga, a Roberta, que certa vez comentou da bagagem que trazemos conosco. Na verdade, nossa conversa tinha um quê de misticismo, mas o que quero comentar aqui nada tem a ver com outras vidas, mas com essa na qual estamos agora.
Todos nós nascemos de mala vazia, ponto pacífico quando não envolvemos crenças, e pouco a pouco abrimos nossa mala para o mundo: aprendemos a ter carinho, ódio, respeito, opinião, astúcia, deixando para trás um pouco da ingenuidade.
Então nossa bagagem começa a crescer, uma coleção de experiências que decoram nossas malas em selos das mais diversas cores, as da descoberta, da realização, da decepção, do amor. Cada porção é colocada nessas malas e usamos aquilo que nos convém, quando precisamos e para nosso benefício (ou não). E na vida adulta tendemos a jogar muita coisa útil fora e acumular uma porção de tranqueiras que só fazem pesar nossa existência, havendo duas opções para essa questão: aprender logo o que nos serve e o que é peso morto ou consultar um remexedor de bagagem (vulgo psicólogo).
E somos o que carregamos. Tem gente que arrasta com pesar e choramingando, outros que levam de leve suas bagagens, felizes em colocar mais um item na coleção. Porém, na minha opinião, os preguiçosos são o problema. Aqueles que não querem manter uma bagagem própria e acabam usufruindo da bagagem alheia, sem saber que mais cedo ou mais tarde irá se deparar com o vazio da própria mala. As emoções, as derrotas, as conquistas, os desejos, nada daquilo será real para ele, apenas um vislumbre. E a matemática é simples: quem não tem o que dar, acaba por não receber. Somos bichos de troca, por mais filantrópico ou caridoso que se seja, precisa haver uma troca. E a moeda de troca da vida, muitas vezes, é a experiência.



