Falando em alemão (ou A puxada da sardinha…)

Quem acompanha o blogue ou me conhece um pouco sabe da minha grande paixão pelo idioma alemão. Um dia eu conto por aqui como foi que ela surgiu. Esse post foi motivado, na verdade, pela quantidade incrível de (três ou quatro) pessoas que entraram em contato comigo ou me confessaram a plenos pulmões ou entre dentes, discretamente, de forma quase sorrateira: estou aprendendo (ou voltando para) o alemão.

Sou um entusiasta desse idioma. Quando me perguntam se ele é difícil, não minto nem rodeio. Digo que sim, mas com ressalvas: é um idioma distante, não temos muito contato e exige disciplina. A disciplina de uma vida inteira se você não nasceu numa família germânica. Mas se isso fizer a pessoa desistir, não vale mesmo a pena ela entrar nesse barco. Eu encarei o desafio, meio descrente no início e, depois, muito confiante a cada palavra, a cada estrutura nova que aprendia no Instituto Goethe aqui de Sampa, um lugar que sempre indico com todo o coração, apesar dos preços salgadinhos.  Sou cria de lá, fã mesmo, sem o menor pudor.

Fico muito feliz quando as pessoas dizem que vão aprender ou têm vontade de saber alemão. Seja por qual motivo for, isso para mim é o vislumbre da possibilidade de ter interlocutores no idioma tedesco. Mas não apenas por isso, pois acho que será ótimo para quem quer que seja. Me disponho a ajudar no que for possível, dou dicas de leituras, sites, dicionários e afins, levo material, tiro as dúvidas que posso depois de quase dez anos lidando com o idioma, me esforço para mostrar para elas que vale, sim, a pena a dedicação hercúlea para entender o nominativo, o acusativo, o dativo e o genitivo, tento seduzir por meio de explicações que tornem o idioma atraente. Enfim, torço para que as pessoas não desistam no meio do caminho, pois sei que após a difícil iniciação nesse outro mundo chamado Deutsch os caminhos levam a satisfações indescritíveis.

Por isso, a todos aqueles que começaram a luta de aprender essa língua fascinante, minhas dicas são: dedicação, dedicação e um pouco mais de dedicação. O acesso não é fácil, mas ao chegar encare com carinho e não com pesar o aprendizado desse idioma belo. Depois me contem. E se precisarem, estou aqui para ajudar no que eu puder.

Aqui, dez motivos (totalmente práticos) para aprender alemão.

E aqui, dez motivos bem humorados para aprender alemão.

Encruzilhada

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Se embrenhando nos becos, desgraçados, o menino corria, brincava. Sua bermuda amarela surrada, seus chinelos remendados não mostravam seu destino.

Baixou Oxalufã com as espadas de prata, com sua coroa de escuro e de vício

Baixou Cão-Xangô com seu machado de asa, com seu fogo brabo nas mãos de corisco

Em meio aos batuques do morro, no pandeiro e no atabaque, seu fado tilintou nos jogos de búzios. Mais que depressa as providências foram tomadas. Logo ele seria o rei daquele mundo cão que o rodeava. Acostumado aos tiroteios e aos corpos estirados pelo chão, ele não tinha para onde correr, vivia entre as corredeiras da chuva morro abaixo e os tiros morro acima, nas disputas de polícia, aprendia o que seria em pouco: reizinho nagô, com corpo fechado por babalaôs.

Ogunhê se plantou nas encruzilhadas, com todos os seus ferros, lanças e enxada

E Oxóssi com seu arco e flecha e seus galos e suas abelhas na beira da mata

Não media esforços, o menino, para subir. Já não era sem tempo, já não tinha por quê não: era o dono da boca, mandava e desmandava em seus súditos, dava conselhos ao povo que mal sabia ler e escrever, dos pais de família recebia tratamento especial, era bondoso com as crianças, impiedoso com os inimigos. E tinha inimigos, como os tinha, tantos que seus cães-de-guarda estavam sempre armados até os dentes. Um piscar dos olhos castanhos do garoto e estava armado o circo, com balas zunindo e estocando corpos do mal.

E Oxum trouxe a pedra e a água da cachoeira em seu coração de espinhos dourados

Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar e um batalhão de mil afogados

Seu coração também batia quando via a negra Alice, de ancas largas e sorriso farto como seus seios. Paixão de menino, de pequeno que tem nos lábios o gosto da vida adulta. E ela se ria do garoto; quando Iansã vinha em seus gritos e gargalhadas, de espada nas mãos e vermelho nos panos, deixava o garoto em polvorosa, olhos brilhando como o cano que trazia na cintura. O atabaque queimava-lhe os ouvidos e sentia pelo corpo os trancos do barra-vento.

Iansã trouxe as almas e os vendavais, adagas e ventos, trovões e punhais

Oxumaré largou suas cobras no chão, soltou suas tranças e quebrou o arco-íris

Num dia, lhe chamou seu pai-de-santo e profetizou: tua cobiça será teu fim e se não acalmar tua gana não dura mais do que poderia durar. Riu de seu babá, dizendo que não havia corpo mais fechado que o dele, se não pelos Orixás, pelos ferros quentes dos homens. Nesse dia deu uma grande festa, com cerveja e pinga da boa. Não deixou nada faltar para seu povo, o pequeno reizinho do morro esgarçava seu sorriso satisfeito para quem quisesse ver. E bebeu, e dançou e tocou pandeiro como se arpa fosse, o anjo. Porém, havia outros olhos sobre o peito magro e desnudo do guri.

Omolu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos, lançando a doença pra seus inimigos

E Nanã-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos
Ecoaram as gargalhadas na noite escura. Não se via o rosto da gargalhada, eram os Exus que gritavam ao menino o que lhe rondava. Ele se esgueirava nas lágrimas da noite, que tristonha molhava em gotas o rosto do menino. Há muito não sentia medo, pedia a Ogum que lhe guiasse o caminho, mas seu destino chispava nos tijolos em tiros raivosos. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, por que me abandonaram?
Cem tiros, foi a contagem oficial. Cem projéteis dilaceraram o corpo, o rosto, os membros do menino. Nada que pudesse fazer, seus inimigos, a polícia, os falsos amigos, todos engatilhados e com uma mira certa: a carcaça suada do garoto que corria e fugia de seus fantasmas. Cada urro e cada grito animalesco quando a carne era navalhada pelos cartuchos maldosos, sangrando a dor de quem já havia conquistado seu mundo. Lembrou de Alice de Iansã, mulher feita, que lhe charmeava com seus balangandante corpo pelas ruelas do morro. Casa comigo? suplicou para ela, dias antes. Escancarando seus dentes brancos de marfim, ela brincava com os cabelos do menino e dizia ah, menino, não me provoque. Não teve tempo para provar à negra Alice do que era capaz, quem era o rei do morro. Destronado pelas matracas fumegantes do mal.
Treze anos de vida sem misericódia e a misericórdia no último tiro.

(Texto inspirado na música Tiro de Misericórdia, de João Bosco)

Resoluções de Ano Novo – Parte Final

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Ôquei, chega de falar de resoluções de ano novo…

Não, peraí. Só mais uma coisinha, bem interessante. A revista Vida Simples tem sempre umas sacadas bem boas e não deixou barato em sua edição de dezembro. Queria ter colocado essa matéria antes aqui, mas não consegui por forças maiores. Dêem uma olhada nas resoluções bastante válidas para esse 2008 começar pensando que a vida pode ser mais proveitosa do que a gente imagina. Have fun, children!

  1. vá a pe comprar pão na padaria. Além de se exercitar e conhecer melhor os arredores de seu bairro (e inclusive travar contato com os outros madrugadores gentis), você vai proporcionar uma pequena epifania para a pessoa que mora com você: imagine a delícia que é acordar e deparar com um pãozinho estalando de quente na mesa do café da manhã?
  2. implemente a coleta seletiva. Parece óbvio, mas sempre é bom repisar: a preocupação com o planeta começa na sua casa. Reúna os vizinhos – inclusive aquele que parece ser o mais empedernido dos individualistas – e organize um sistema de coleta seletiva em seu prédio. Vai dar trabalho, prepare-se. Mas também, quando a coisa toda funcionar, será lindo.
  3. faça um curso bem inusitado. Sua coordenação motora é tão precisa quanto a de um elefante bêbado de amarula e você ainda inventa um curso de corte e costura? Esse é o caminho. Exercitar-se em ofícios para os quais você não tem a ambição de se tornar um bambambã é bom aprender com as próprias limitações. E você ainda sai diplomado em rir de si mesmo.
  4. faça um trabalho voluntário. A Áfria precisa de ajuda. Regiões desassistidas do Nordeste brasileiro também. Poder fazer algo por esses lugares é importante. Mas e no bairro ao lado do seu, que tem um asilo geriátrico? Ou na favela mais próxima? Vale muito a pena também ajudar quem está por perto. Informe-se em prefeituras e ONGs sobre o que você pode fazer de acordo com suas possibilidades.
  5. economize dinheiro. Nós, brasileiros, somos obcecados por crédito. Um carnê desperta em nós uma vontade louca de consumir mais. Dê um freio nisso e economize dinheiro em ações banais. Leve uma marmita para o trabalho, pare de jantar fora (faça isso quando voltar a ser uma novidade), guarde um pouco de dinheiro. Aos poucos, você poderá financiar seus sonhos.
  6. surpreenda seu amor. Quebrar a rotina é fundamental para oxigenar a relação. A surpresa traz novos ares, insufla no amor um não-sei-o-quê a mais. Uma delícia. Exercite novas formas de sedução. Deixe um poema afixado na porta da geladeira. Seqüestre seu bem para um fim de semana fora da cidade. Invente seu próprio jeito de iluminar os olhos de alguém.
  7. tenha um horário sagrado. Não importa o quanto você se programe, os acontecimentos do dia-a-dia sempre engolirão sua jornada – se você não tomar alguns cuidados, claro. Por exemplo: por mais que você esteja atolado de compromissos, é possível reservar um horário sagrado na semana para fazer algo muito especial. Praticar um esporte. Encontrar os amigos. Isso será sagrado!
  8. viaje para lugares diferentes. A alma dessas dicas é "fuja da rotina!" E tem que ser assim mesmo. Caso contrário, 2008 será marcado por um fenomenal bocejo. Por isso, dispense os roteiros preestabelecidos em suas viagens. Por que não um fim de semana num hotel bacana em sua própria cidade? Ou alugar uma casa de praia com amigos para os meses de baixa temporada? Assim, a diversão fica garantia.
  9. participe de um movimento social. Num mundo tão fragmentado como o nosso, é importante que cada um encontre seu grjpo para se manifestar a favor daquilo que acredita. Reunir os amigos numa biciletada (para falar do problema do trânsito), entrar em ação para revitalizar a praça do bairro (plantando mudas de plantas), criar saraus poéticos. Tudo vale a penas quando a causa não é pequena.
  10. mude a decoração de sua casa. Ninguém terá o topete de dizer que você precisa renovar a casa, comprando móveis novos e gastando uma nota. Medidas aparentemente simples são uma mão na roda. Exemplo: troque os móveis de lugar, tire os excessos e não se esqueça de doar aquilo que estiver sobrando. Renovar a casa passa por redimensionar os móveis e sua relação com o espaço.
  11. forme um grupo de estudos. Informar-se e trocar idéias com outros é como instalar um ventilador no cérebro. Por isso, escolha um tema (ou melhor ainda, um livro), aglutine conhecidos com algumas afinidade e crie um dia para vocês estudarem e crie um dia para vocês estudarem e debaterem. Filosofia, história, artes, atualidade: tudo isso dá um baita pano pra manga. O pessoal é difícil de se reunir? Crie um fórum pela internet e estamos convesados.
  12. NÃO PLANEJE TANTO. Deixe espaço para as surpresas. E não tenha medo de pegar chuva no caminho!

Paraty em gotas

Feriado da Independência. Chegar em Paraty é sempre encantador, mesmo que seja às 5 da manhã de um dia chuvoso, no qual vemos apenas cães de rua, os poucos “baladeiros” voltando para casa ou turistas perdidos na noite escura das casas antigas da cidade. Apesar de esquecida pelo governo do Estado do Rio, como dizem seus moradores, Deus e os turistas não deixam de lado essa pequena pérola incrustadas entre as montanhas de Mata Atlântica, com dezenas de ilhas e praias deliciosas, algumas paradisíacas.

Mas parece que um dos mencionados acima, o Todo Poderoso, esqueceu dos turistas e mandou chuvas bravas durante todo o feriado, aliviando apenas no domingo, com sol africano ao meio-dia, o que me fez pensar bastante em frustração, de um lado, e satisfação, de outro lado. Havia feito um planejamento digno de feriado: praia na tarde do primeiro dia, noite de barzinho (Che, talvez), segundo dia com escuna o dia todo, terceiro dia na Praia do Sono, lugar fantástico no qual a luz elétrica e a modernidade não tocaram ainda, por imposição de seus moradores caiçaras e pela dificuldade de acesso (50 minutos de trilha no meio da mata). Nada disso se concretizou: praticamente os três dias foram de rede e cama, sem maiores emoções, e as noites eram passadas na cidade, com verdadeiros passeios nos quais o passado e o presente se mesclam de maneira incrível.

Paraty para mim sempre é um bálsamo. Porém eu não estava sozinho e acredito que meu maior medo foi a decepção daqueles que estavam comigo. Apesar da negação de todos, a tristeza e a melancolia tomou conta de todos e isso me afligiu de forma intensa. Porém, em determinada altura do campeonato, resolvi curtir como dava e levar comigo a galera, que acabou curtindo também a viagem. Percalços à parte, posso classificar a viagem de realmente válida: dormi bastante, me permiti dormir mais do que o costume e em tardes perdidas nas quais a chuva tamborilava telhados e folhas das bromélias, numa sinfonia mais que perfeita. Gota a gota percebi o quanto eu teria me arrependido se toda essa chuva tivesse sido passada aqui, na Paulicéia enevoada, pois, valeu cada gota, cada orvalho e cada respingo de Paraty, que coroou a estada de todos com um belo sol dominical. Infelizmente, o último dia da viagem…

A nova geração entre muralhas

Semana passada li uma matéria naquele jornal ÃO que me deixou bastante intrigado: o impacto dos condomínios fechados na cidade. Eu, que posso me considerar um ser urbano, pois nunca morei fora de uma grande cidade (apesar de o bairro onde eu morava ser próximo a uma grande reserva ambiental paulistana e ter um dos ares mais puros do Estado), vejo com tristeza o rumo que todas as cidades grandes vão tomar quando a moda do condomínio fechado realmente pegar. De acordo com a estudiosa da tal matéria, existe um aumento da mancha urbana, ou seja, a metrópole começa a crescer de forma a engolir o seu arredor, mas de forma diversa do que em geral ocorre, com a proliferação das favelas. Agora o que se prolifera são os condomínios fechados, as fortalezas nas quais os pais pensam (muitas vezes erroneamente) que estão protegendo seus rebentos do mal que assola o mundo ‘lá fora’. Daí já temos implicações social, psicológica, ambiental e infra-estrutural, das quais discorro na minha visão de morador da grande cidade, de observador de fenômenos maiores ou menores da metrópole e de ser humano que sou ainda. Tudo com base no que a dona moça falou e que eu, de certa forma, já havia sentido em visitas a casas de amigos em condomínios fechados.
O mundo ‘lá fora’ nada mais é o mundo real, aquele mundo no qual somos colocados para vivenciar diversas experiências, boas ou ruins, para crescer, amadurecer, aprender e apreender o que nos cerca. Claro, hoje em dia a violência nos ronda como cachorro magro, cerca nossas possibilidades de diversão. Porém, sempre houve e sempre haverá a tal violência e a maneira que acredito ser saudável e viver com essa constante, sem dar sopa para o azar. Porém, trancar-se em um condomínio fechado dá a (falsa) impressão de segurança, de distância do pandemônio que é a cidade (pois esses condomínios localizam-se em geral nas cercanias da cidade). Ledo engano, caros papais e mamães, a violência hoje é delivery, vai até sua casa, sua rua arborizada, penetra em suas muralhas e passa por suas guaritas com a mesma facilidade que o faria aqui, no centrão. Vemos isso pelos assaltos, arrastões, limpas e drogas que entram e saem dos condomínios com relativa facilidade.
O condomínio gera nas classes mais baixas dois sentimentos: impotência e desejo de aquisição. De olho no mercado aquecido, muitas empreiteiras começam empreendimentos de custo mais baixo, trazendo a classe média para o condomínio fechado, deixando seus quase pares (a classe média-baixa e baixa) com um sentimento de distância maior, gerando quase um apartheid imobiliário. Formamos uma cidade de muralhas, guaritas, cidadelas dentro da grande metrópole, aumentando o medo do lado de lá e botando lenha em uma fogueira muito perigosa, que é a desigualdade social cada vez maior.

E não é só isso, pois o meio ambiente sofre com o aumento da mancha urbana (espraiamento da mancha urbana, de acordo com a estudiosa), pois as áreas onde há reservas e mais árvores etc. são cada vez mais transformadas em espaços para condomínios e seus muros. Além disso, como os condomínios se localizam em áreas mais afastadas da grande metrópole (cidades próximas ao grande centro), os automóveis são muito mais utilizados do que antes, aumentando a emissão de gases nocivos para o meio ambiente. No Brasil já existem estudos que imputam responsabilidade pela poluição sempre crescente à tendência de se morar em condomínios. Duas coisas que não estão tããããão distantes.
E o custo de tudo isso? Reflexo direto sentimos nos impostos, em especial para quem mora nas pequenas cidades que abrigam os condomínios visando um aumento na receita da cidade. O problema é que toda uma infra-estrutura necessária para suprir as necessidades (que não são poucas) desses condomínios é aplicada, às vezes sendo desviada de quem realmente precisa. Além disso, já ficou comprovado que o loteamento de muitas dessas áreas não é regular, tem aval provisório da cidade ou do Estado, ou apenas entra pro rol do propinato.

E a proposta pra melhorar, qual é? Melhorar a segurança, aumentar a educação para tirar das ruas as crianças em situação de rua ou de risco, além de outras medidas as quais estamos exauridos de gritar ao léu: melhor distribuição de renda e terras, prisão de corruptos, redução dos impostos e afins. Parece que é muito mais fácil as muralhas se erguerem cada vez mais do que tudo o que é necessário ser feito. E infelizmente criaremos uma geração com medo “do outro lado do muro”.

Quando parar?

Sem livros, eu teria me desesperado há muito
tempo.
Arthur Schopenhauer
Peguei essa frase na crônica de hoje do Roberto DaMatta, no Estadão, que em certa parte toca num assunto que pega a maioria das pessoas: nossa cegueira diante da nossa própria vida e da nossa minúcia em ver o que há de mal no outro ou no mundo que nos cerca. Se nos minúsculos detalhes tudo parece ridículo ou cômico, como diria Schopenhauer, se nos atentarmos para perceber o que realmente são esses detalhes, veremos muita beleza e teremos gratas surpresas.

No menor muitas vezes está a maior das maravilhas. No mundo de hoje, ditado pela grandiosidade, pelo glamour, pelo luxo, pelos megas e gigas e teras, torna-se cada vez mais complexo sentir como as pequenas coisas da vida ainda são as mais importantes. Cada vez mais o egocentrismo toma conta das pessoas, deixando cada vez mais lugar ao que esta a nossa volta. Vemos nossa imagem nas águas límpidas e a imagem do outro no charco podre, o abraço de Narciso é mais e mais contíguo. E com isso deixamos de lado as pequenas maravilhas gratuitas do mundo. Pare e pense bem: qual foi a última vez que você parou numa rua arborizada apenas para sentir o cheiro das folhas e ouvir os passarinhos, ou o farfalhar dos galhos? E a última vez que brincou com uma criança até suar, ficar sujo e feliz como a própria criança? E quantas vezes ouviu (sim, é feio ouvir conversa dos outros, mas às vezes é inevitável) uma conversa entre velhinhos namorados que se amam, juras de amor, ou até mesmo uma implicância boba? E quando foi a última vez que, deitado(a) na grama de um parque, você viu desenhos em nuvens?

Vivemos num dia com 24 horas oficiais, mas com sensação de 15 horas. Não comemos direito, não dormimos direito, há tantas coisas a fazer, tantas opções, tanta oferta que acabamos frustrados, muitas vezes, por não termos assistido àquela peça, ouvido aquela música, ido àquele filme no tal cinema. Será que há motivo para essa frustração? Nos exigimos cada vez mais, no trabalho e nos relacionamentos, nas relações sociais, pessoais e familiares, o estudo virou uma pressão desumana, somos sugados pela nossa própria ânsia de sermos melhores. Será que seremos melhores de verdade seguindo esse ritmo?

Inegável a importância do crescimento profissional, cultural e social, mas vale mesmo a pena todo o sacrifício que muitas vezes fazemos para esses crescimentos? Vejo muitas pessoas que, na minha idade, estão muito bem financeiramente mas não possuem o discernimento de quando parar, de quando optar pela qualidade de vida em detrimento dos bens materiais e status, seja profissional ou social. Vivemos no capitalismo, mas de uns tempos pra cá devo dizer que arriscaria a troca de uma letra e afirmaria que vivemos mesmo é no capetalismo, e queimamos no fogo que o Asmodeu preparou aqui na terra em forma de cédulas monetárias.

E os livros, onde entram nessa história?

Como perceber a beleza de certas coisas sem nunca antes tê-las imaginado, visto acontecer pelas páginas de um livro? As fotos e imagens são ditatórias, impõem a verdade nua e crua e, em tempos de concreto e tristeza, o livro nos ajuda a fantasiar, a sonhar um pouco acordados. São caros ainda, eu sei, e poucos têm acesso, apesar do aumento a olhos vistos da freqüência das livrarias (escrevi sobre isso no blog coletivo Os Bloguistas, há um tempinho), mas há opções. O livro nos toma pela mão e nos faz perceber diversas coisas sobre nós mesmos e sobre o mundo cruel em que vivemos. E por falar em livro, menciono por fim o mestre Milan Kundera que, na sua obra prima A Insustentável Leveza do Ser mostra como o médico-cirurgião Thomas, após algumas agruras, decide largar sua profissão e sua promissora carreira para lavar janelas em uma cidade do interior. Apesar de os motivos não serem de todo louváveis, ele descobre como aquela vida sem grandes preocupações aumenta a qualidade da vida de qualquer pessoa. Talvez essa seja uma medida exagerada, mas acredito que dá para pensar em formas de “puxar o freio de mão” e finalmente buscar um pouco mais de paz.

Estar só

Cada vez mais em Sampa percebo uma tendência: não se sai sozinho. Independente do que se faça, uma companhia é sempre bem0-vinda e, em muitos casos, não se prescinde dela. Em tempos de individualismo e solidão, as pessoas buscam seus pares e confesso, essa crítica se estende a mim próprio, visto que também não deixo de ter alguém por perto.

No entanto, não me privo de absolutamente nada por conta de não ter alguém comigo. Diferente da solidão, o estar só é muito saudável. Alguém me disse, certa feita, que ter prazer no estar só é um avanço e, se a gente não consegue, é por que nem a gente mesmo se agüenta. Há um tempo, após muitas atribulações em minha vida, decidi que precisava me conhecer melhor. Uma baladinha aqui, um cafezinho aqui e pronto, percebi o quanto estar só é menos doloroso do que se pensa e, muitas vezes, até melhor.

Ao meu ver, o estar só não deve ser uma imposição, nem sinônimo de tristeza ou solidão. Deve ser uma escolha naquele momento em que você precisa de um espacinho para se enxergar, se curtir. Na minha opinião (meio insana às vezes), quando se pode, é bom estar só. Não tema botar a cara na rua sozinho(a), não lide com o estar só como se houvesse um vazio ao seu lado. Não dê importância aos olhares piedosos ou compadecidos com sua aparente solidão. Sorria, mas sorria com o coração, como faço agora ao escrever esse texto, sozinho, num café no meio da barulhenta e solitária São Paulo. E saiba que sozinho você nunca está.

Dois sobre a miséria

O Estadão de hoje (sim blogueiros, eu leio o jornal que pensa ÃO, mas não coaduno com muitas das idéias do periódico), no Caderno 2, duas “personalidades” falam sobre as misérias e muito bem falado. Uma delas, pasmem, foi Regina Casé (agora, diretora do filme recém-lançado, Cidade dos Homens), segredando como foi fazer o quadro Central da Periferia fora do Brasil, em favelas e periferias do México, de Paris e Angola. Disse que enquanto não encararmos de frente o problema da pobreza e vê-lo como uma mazela distante (“Seria melhor para a perifeeria e para o Brasil oficial se ela fosse encarada como uma coisa real. E mais saudável cair na real, porque não adianta querer enfiar debaixo do tapete.”). Quem diria, alguém que mais parece levar vantagem em cima dos “mano” e das “mina” com um programinha de tom quase preconceituoso (no formato “levar pro pobre o que o pobre gosta), mostra que na verdade tenta prestar um serviço de informação, de como é a realidade da favela, do bairro pobre, do subúrbio. E a televisão, como meio de comunicação mais eficaz no Brasil (infelizmente?) faz sua parte nessa “brincadeira”.

O outro é o Roberto (meio reaça) da Matta desfiando seu rosário antropológico em sua crônica de quarta, comentando sobre a responsabilidade do coletivo e a culpa do indivíduo sobre a situação em que vivemos. Sem dúvida que todos temos nossa parcela de culpa perante esse mundo decarrilhado no qual tentamos nos equilibrar, já dizia o ditado mais do que ancião, colhemos aquilo que plantamos: preconceito, desigualdade, distância. Em pequenos gestos criamos um grande cidadão ou o fadamos a ser um perfeito crápula, desde a infância temos os modelos bons e maus e no fim das contas muitos de nós incentivamos a “síndrome do Gerson”, ou seja, de levar vantagem em tudo. Não me eximo disso, infelizmente, mas me policio para tentar não servir esse exemplo de bandeja pra quem está chegando agora na parada (como meu sobrinho de 4 anos).

Quase em uníssono os dois se unem ao coro dessa sociedade desmantelada: tapar os sol com a peneira não adianta, as ervas daninhas continuam a crescer sob nossos pés e cada vez mais nos aprisionam, tornando a vida complicada de se levar. Acho que o clamor está cada vez mais alto, não dá pra ignorar.

3 Rapidinhas


Rapidinhas que encontrei navegando por aí:

* Na China, elefante volta à floresta depois de se tratar por dependência química.*

Isso mesmo gente, elefante doidão. Para ser mais dócil, era alimentado com bananas cheias de bolinhas por tratadores ilegais. O homem não é apenas o lobo do homem, viu.

* Votação do Caso Renan será aberta, adiada para 4ª feira.*

No mínimo, não é mesmo? Já não basta o escândalo, o dinheiro debaixo do colchão e a mãe do filho do cara, ainda teríamos que agüentar sessão fechada? Se rolar pizza, ao menos vamos ver a cozinha. E teve um juiz que já avisou: vai absolver. Acredita?

*O Mundo sem Nós, de Alan Weisman, discute uma Terra sem o ser humano.

O cara mandou muito bem, diz a crítica. Imaginar não um mundo devastado, como vários filmes em que a devastação começa em Mannhattan (e a salvação também), mas um mundo absolutamente sem esse mal que somos nós. Quero ler pra ver como seria…

Em suma, pra quê o ser humano existe, hein?

Pensando bem… é verdade

O avião derrapa na pista inacabada.
Não freia porque o reverso estava quebrado.
Bate no prédio e no posto de gasolina que estão estrategicamente localizados na área de escape do aeroporto.
Explode às 17h50 hora do rush em plena av. Washigton Luis.
Morrem 200 pessoas.
E sabe quem vai preso?

O dono do puteiro…

(Recebi isso por e-mail hoje da Amanda, lá do trabalho. Cômico, se não fosse trágico. Foto de Vivian Zanatta, Agência Estado.)

Amor de saquinho

O ser humano chegou num grau de carência tão desmedido que mereceria ser estudado. Apesar do aprendizado de milhares de anos, parece que ainda não percebeu que o tempo é o fator mais importante de qualquer relação, seja ela familiar, profissional ou amorosa. Que não adianta colocar carros diante de bois ou qualquer clichê que se use para mostrar que cada coisa tem seu tempo. E o pior de tudo é que essa noção é uma das mais básicas na nossa vida, que não dá para ter cinco anos de idade hoje, quinze amanhã e vinte e cinco depois de amanhã: as idades vêm, como os amores, os familiares, os amigos, as experiências e descobertas.
Ouvi uma história hoje da qual eu ri no início e depois me deixou pensativo. Num bar com amigos, tomando cerveja, comemorando um aniversário, o assunto carência veio à tona. Rimos muito com maluquices das pessoas carentes, inclusive mencionei que tradutor é um bicho muito carente, pois costuma trabalhar solitário, em sua casa, e quando tem a oportunidade de contato com outro ser humano que não virtualmente quer aproveitar aquele momento ao máximo. E geralmente isso se dá em palestras, cursos e afins.

Mas uma história em especial me tocou, não me emocionou, mas me levou ao ponto de pensar e repensar como a questão carência nesses tempos cibernéticos e internéticos piora em larga escala e as pessoas ainda acreditam que estão em seu estado normal, que não precisam de ajuda. Um encontro, duas pessoas com mais de dezoito anos, vacinadas. Terceiro encontro, começa a surgir o que se pode chamar de relacionamento duradouro hoje em dia. Ainda se pisa em ovos no terceiro encontro, você está conhecendo a pessoa, apurando suas impressões preliminares, curtindo aquele momento com alguém diferente, desbravando um novo mundo. Inclua aí, em maior ou menor grau, frios na barriga, vontade de encontrar, até quiçá uma pontinha de esperança de um futuro juntos.

- Eu te amo – diz a outra parte.

Como assim? Que brincadeira é essa com o amor, o sentimento mais idolatrado e temido entre os seres humanos, quase um semi-deus de todos os tempos, palavra que não basta falar, tem que sentir. Elis cantou tanto “amor só é bom se doer” que todo mundo devia saber que “eu te amo” só passa a ser frase corriqueira do casal quando se há alguma certeza, a mínima que seja, senão deixa ser título de música do Chico Buarque (aliás, bela música).

- Peraí, você me assusta desse jeito.

Resposta mais óbvia não poderia ter. A não ser que você acredite piamente em amor de saquinho (explico já para quem não entendeu), não se deve dizer essas três palavras enquanto os sinos não soarem, enquanto você não enxergar borboletas amarelas abrindo caminho para a pessoa quando ela chega até você numa tarde morna ou seu peito quase explodir quando a pessoa lhe toca. E se você sentir isso tudo no terceiro encontro, sinto informar, é alucinação. O amor precisa de tempo para se instalar, é um senhorzinho velho e cansado numa estrada comprida com um trono na ponta e quando ele chega nesse trono ainda precisa de tempo para sentar-se, à maneira dos senhores velhinhos e cansados. E se não for assim é amor de saquinho, como chá de saquinho ou sopa, novidades modernas. Você coloca um pouco de água quente e pronto, lá está o amor, com toda sua exuberância, seu tempo de convivência, sua troca de energias e intimidades, seus pudores e despudores, sua libido com altos e baixos, as neuras de amor que sempre existem, o ciuminho temperado, as juras e todo o resto que tornam o amor algo realmente especial. Não instantâneo.

Paixão, esse deve ser o nome. Essa pode ser como nescafé, numa xícara com água fervendo. Pode durar um dia, uma semana. E pode virar amor. E aí sim, e somente assim, se aconselha a proferir as três palavrinhas. E quando fizer isso, saiba que é um caminho sem volta.

Doidices

Afirmação um: eu tô atraindo doidos.
Afirmação dois: São Paulo é um grande reduto de malucos soltos pelas ruas. E ninguém faz nada.

Olha, tá difícil viu. Há muito observo em São Paulo, especialmente aqui na região central, uma leva de enlouquecidos de todos os tipos. Tem doido que tira a roupa na rua, que tenta se jogar do viaduto do Chá, que corre atrás dos outros, grita e xinga. Ou apenas fala sozinho, gesticula e fala bem alto, ameaçador às vezes, engraçado em outras. Eu também falo sozinho, sou maluco também, mas tenho bom senso de não perturbar quem está ao meu lado, pudores pra não tirar a roupa na rua e amor à vida.
Hoje passei por duas situações: a primeira, indo para a missa de 1 ano de falecimento do meu avô, encontro com uma senhora sentada na calçada (passeio para alguns lugares) que gritou:

- Moço, quer casar?

Eu, de pronto, respondi:

- Não, obrigado. – odeio deixar as pessoas sem resposta.

- A televisão está por setecentos reais, sem DVD.

E eu, de novo:

- Obrigado.

E ri. Um riso estranho… mistura de compaixão e mal-estar.

A segunda foi acompanhado, com meu amigo Marcos do Coisa de Prata. Voltávamos de um jantar num restaurantezinho italiano nas mediações da Paulista. Já perto de casa, sobe uma menina com trajes estranhos. Tudo bem, ninguém se traja muito normal nessa região. Porém percebemos que ela estava com um jornal na mão, gesticulava largo com os jornais e falava. Nos olhamos e ficamos quietos. Quando passou ao nosso lado, ela emitiu um grunhido, e continuou a andar, o riso foi inevitável. Ao olharmos para trás, ela nos seguia, rindo e falando. Tivemos medo, apertamos o passo e entramos no prédio. Tá louca?

Não sei de quem tenho mais medo: se dos loucos varridos ou dos loucos embutidos. Vai saber, né?

Preguiça

Vamos combinar uma coisa? Que preguiça desse povo do “Cansei”. Graças a Deus, pela primeira vez a modinha da elite branca, conservadora, que se intitula apolítica e rica não pega, vira motivo de chacota em todo o Brasil. Pois o povo brasileiro está cansado, há muitas e muitas décadas, da desigualdade social, muitas vezes promovidas por essa mesma elite cansada. Cansada do que? De viajar pela Europa, nos mesmos países, de comprar roupas caríssimas nos Jardins, se em São Paulo, na zona sul, se no Rio, na Savassi ou em Lourdes, em BH e por aí vai… Cansada é quase uma piada para a classe média alta pra cima, pois auferem lucros em cima de seus funcionários, empregados, serviçais. E essa classe agitadora, em seus saltos, Armanis e Pradas, emborcam a classe média, perdida num governo popular, sem saber pra onde olhar. Não estou aqui em defesa de partido, governante ou afins, mas na defesa do bom senso das pessoas. Com o perdão da palavra, que porra é essa: Ivete “Axé” Sangalo, Ana Maria Brega, a “bonitinha” da Hebe e a Regina “Medo” Duarte, quatro damas cansadas, quatro caveleiros do apocalipse financeiro e botolítico, tentando apelo popular a essa palhaçada? E não é a empregada que apanhou dos playboys no Rio que está cansada da vida de acordar às 5h30 da manhã para servir os seus patrões a chefe deste movimento, o que seria mais do que justo. É o presidente da multinacional bilhardária Philips. Cansado?

Por isso eu digo: vão descansar. Peguem seu dinheiro e saiam mesmo do país, vão fazer compras, relaxar em Atenas, esquiar em Bariloche. Pois a gente, povo que luta, quer mais é batalhar, correr atrás do que é nosso, sem esmorecer e precisa cobrar dos governantes aquilo que nos é de direito: justiça. E justiça é o que se vê apenas para os mais abastados. Eu cansei do “Cansei”.

PS 1.: Sei que vou tomar porrada com esse texto, mas essa é minha opinião.

PS 2.: Vejam o blog http://tocansadinho.blogspot.com/, vindo diretamente do Imposturas.

Confluências: Jabor deu uma dentro

Finalmente o Arnaldo Jabor deu uma dentro e tudo que escreveu hoje em sua crônica do Estadão vem de encontro a uma conversa que tive regada a vinho e mergulhada em queijo de fondue com a Karla, da Naja Cuspideira sobre um filme chamado A Experiência (se pensou naquele filmes de alienígenas verdinhos, esqueça. É um filme alemão, suspense psicológico dos bons) e sobre como não existe o fruto podre, mas sim temos dentro da gente a maçã boa e a maçã ruim e depende tanto da gente quanto do ambiente que nos cerca qual fruto amadurecerá. Na verdade, nossa conversa não rumou por essa vereda, mas a matéria da revista piauí! que ela me enviou e comenta a experiência feita pelo professor de psicologia da Universidade de Stanford, Philip Zimbardo, em 1971, que consistia na verificação de comportamento entre civis submetidos às condições de prisioneiros e carcereiros. Uma universidade alemã fez um experimento parecido, que foi a base do filme A Experiência e, em ambos os casos (nos EUA e na Alemanha), os resultados foram tragédias. Toda a violência aflorou de forma beligerante.
E aí entra o Jabor. Como? Sua crônica de hoje sobre o 6 de agosto de 1945, dia no qual teve início os bombardeios de Hiroshima e Nagazaki, a maior e mais rápida devastação da História encarada, incrivelmente, como menor do que o shoá (como é conhecido o genocídio sofrido pelo povo judeu, pois holocausto é o sacrifício religioso hebreu) e, se pensarmos bem, é apenas mais “clean”, pois não houve tortura, nem experiências médicas. Tudo feito em segundos, milhares de pessoas transformadas em pó com a explosão, sem sujeira. A frieza e o mal é o mesmo… E hoje ainda se estocam bombas nucleares, várias (de acordo com Jabor) estão sendo recauchutadas para ficarem em ponto de bala (sem trocadilho) e oferecerem maior proteção aos EUA. Uma das perguntas do cronista que me levou a pensar bastante sobre o assunto “maldade” é: por que ter sonhos, esperanças, se as potências atômicas têm força bélica para destruir o planeta 40 vezes? E daí surgem outras perguntinhas: dá para escapar do niilismo vendo a besta apocalíptica (agora sim, trocadilho) do Bush ter nas mãos o telefone vermelho que pode implodir o Planeta Água numa questão de segundos? Será que Marte e outros planetas que poderiam ser habitados já tiveram seus Osamas-Bin-Laden? Será que Einstein ainda tem algum cantinho pra se revirar em seu túmulo, depois de tantos descalabros feitos a partir de suas teorias pacíficas e científicas? E o humano, hoje é mais pedra que humano? É mais desumano que qualquer outro ser? Infelizmente não dá para esperar respostas positivas, vemos no Brasil também a destruição moral de um povo que luta tanto para sobreviver com tão pouco, que batalha e dá a cara pra bater a cada regente que elege, que tem muitos motivos para chorar amargamente e ainda sorri. E a esperança? Sobra ainda um frangalho do lábaro que nos traz o sabor de Pátria Amada? Bem, na minha opinião, tá bem difícil…

Caos, descrença, alhos e bugalhos

Não queria mesmo entrar no coro dos descrentes, dos desiludidos. Ainda vejo esperança para esse país, dependendo de tantos fatores, que fica difícil enumerar; ainda assim, o governo deve ser o carro-chefe, a locomotiva das mudanças, da virada de mesa econômica, cultural, social. Apesar dos projetos que já beneficiam tantos, ainda falta tanto a fazer e a sensação de descaso se torna cada vez mais forte: desde os grandes políticos, esses na linha de frente da indiferença ao que acontece até nós mesmos, que diversas vezes pouco fazemos para as coisas mudarem.
Eu sou assim, falo por mim. Acho que deveria fazer mais, atuar mais. De certa forma me deixei engolir pela “máquina cotidiana” e me envergonho por isso. Assumo enrubescido que desejava fazer mais, participar mais, ser mais alguém que como tantos que vejo faz a diferença no país. E vou tentar reverter esse quadro, pois o clichê “cada um faz a sua parte” vale e muito.

Depois do caos aéreo e do desastre da TAM, greve de metrôs que duraram dois dias e hoje uma manifestação considerável com uma só palavra de ordem: fora Lula. Na UOL consta que são 2 mil manifestantes que devem ter chegado agora, 17h, à Assembléia Legislativa. Duas coisas me comoveram: a primeira foi uma faixa carregada por uma mulher aos prantos junto com alguns familiares dizia “Lula, honre sua faixa presidencial, não a sepulte como fez com meu marido. Fulano, ainda te espero voltar ara casa. Tua Joana D’Arc. Lili”. A segunda foi o depoimento de um pai que, tomado de emoção em cima do carro de som, contou sua história: sua filha havia acabado o primeiro semestre de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e vinha passar suas primeiras férias aqui em São Paulo, com esse pai, com sua família. Infelizmente, estava no mal-fadado vôo da TAM.

Sou um otimista de plantão, como digo na apresentação deste blog. Quero mesmo que tudo melhore, como cada brasileiro o deseja, do fundo do coração. Mas me pergunto, sempre: cadê aquela luzinha no fim do túnel?

(Crédito da foto: Site do Kazu)

O perigo de voar

Lendo as últimas notícias nos sites e nos jornais, começo a ficar com medo de um transporte tão seguro, até mais que os elevadores, estatisticamente. Voar no Brasil está ficando cada vez mais complicado, não apenas pelo caos aéreo instalado desde o desastre da GOL no ano passado, com greves e denúncias de controladores contra os órgãos federais competentes, as horas de esperas intermináveis, a irresponsabilidade das companhias aéreas e as vistas grossas dos cabeças da aviação, mas pelos acidentes e quase acidentes seguidos. O vôo 3504 da TAM deixa mais de 200 mortos e a reputação de uma empresa de renome abalada, pois as últimas investigações acusam falha no sistema de aerodinâmico, combinado com outros fatores levaram à fatalidade (imperícia do piloto, hidroplanagem, falta do grooving na pista etc.). Antes dele, outros dois aviões, se não me engano da BRA e da Gol deslizaram naquela pista de Congonhas, que periga também ser fechada e os vôos remanejados para outras partes (Campo de Marte, Viracopos, Jundiaí e a própria Cumbica). Ontem à tarde o pneu de um avião da GOL fura na aterrissagem e agora, que mais vai acontecer? A pergunta um dia antes em todos os jornais era “quando será o próximo”, mas eu me pergunto “quantos serão os próximos”?

Logo agora, que a classe média e entornos descobriram o prazer de viajar rapidinho pelo ar…

Adeus, Painho


(ACM esbravejando na CPI da NEC, na qual foi investigado. Foto de Lula Marques, 3.9.1992, Fonte: UOL Álbuns)

ACM faleceu hoje, aos 79 anos. É, finalmente, o fim de uma época de coronelismo. Será?
Bem, de qualquer forma, tenho que compartilhar a piada instantânea que me ocorreu ao comentar a morte dele com colegas de trabalho:

“Gente, painho ACM morreu! Esse luto vai até o Carnaval!!!”

De qualquer maneira, apenas quem esteve na Bahia (mesmo que em Porto Seguro, que é mais Minas que Bahia, como foi o meu caso) sabe da adoração dos baianos pelo Dr. Antônio Carlos. Falece, coitado, e leva com ele a patente da politicagem explícita e inescrupulosa, que corrompe tudo que vê pela frente. Infelizmente, deixa uma escola pronta, uma estirpe que seguirá os passos tirânicos do voinho.

De qualquer forma, no caso dele, eu digo: antes ele do que eu…

Mais uma tragédia.

Voltando para casa na terça-feira, às 20h00, após um dia cansativo de trabalho, observo aglomerações em frente televisões em todos os lugares, bares, pizzarias, restaurantes, uma curiosidade preocupada no rosto das pessoas, algo que fica ainda mais sombrio debaixo da garoa fina que deita sobre São Paulo. Talvez uma medalha difícil no Pan, penso eu, ou futebol. Mas estava muito cedo para futebol e nem era quarta-feira. Na Augusta um rapaz que vinha à minha frente pára para entrar numa pizzaria na esquina da Matias Aires, fica por quase 30 segundos e sai desembestado. Estranho.
Quando entro na Frei Caneca vejo uma pequena TV de 14 polegadas numa doceria e me atenho à notícia: avião da TAM bate em depósito de carga. O que é isso? Como foi acontecer?
Chego em casa e fico sabendo da tragédia: o que então eram 176 pessoas, já são 186 apenas no avião. As notícias desabavam cada vez piores da tela da televisão e eu, impressionado, imaginava reações. Cada vida, cada destino ali se rompera com tanta violência, com uma brutalidade impar. Autoridades de debatem agora sobre os corpos incinerados, as providências que antes não foram tomadas agora serão exigidas, obrigatórias.
Vida breve, vida ínfima essa nossa. Qualquer passo em falso, e nem precisa ser nosso, adeus. Como disse a Myriam no seu Velocidade…, apenas importa o presente, o agora. Pois o amanhã pode queimar diante de nossos olhos, sem que a gente perceba…

PS.: Ia colocar uma foto neste post, mas acho que não devo. Me abstenho da imagem em memória das vítimas.