Lançamento…

Agora é o meu que venho anunciar aqui.

Como comentei aqui e até abri um blog para tanto, vou lançar meu livro Réquiem: sonhos proibidos. Será no dia 23 de junho de 2012, das 17h30 às 21h30, no Espaço Terracota Editora (Rua Lins de Vasconcelos, 1886, Vila Mariana – mapa aqui; para marcar sua presença no Facebook, clique aqui). Vejam abaixo o texto da divulgação e, logo que o e-flyer ficar pronto, boto aqui pra todo mundo.

O que você faria se não pudesse mais sonhar?

“A química do Réquiem estava em sua corrente sanguínea, não havia com que se preocupar, pensou. Sua mãe dissera, não precisava temer. Rolou na cama algumas vezes, ligou o abajur para tentar ler um pouco na sua multitela, mas não conseguia se concentrar. Até que finalmente adormeceu. E teve um sonho.” (Trecho do livro)

O sonho proibido. A extrapolação da sociedade da informação. A necessidade de ter de volta a capacidade de ser livre de verdade. Em Réquiem: sonhos proibidos, Ivan é um homem normal, sem muitas aspirações na vida, até que recebe uma carta do Governo Mundial: todos seriam obrigados a ingerir uma droga inibidora do sonho. A partir deste momento, seu destino está traçado, mas as linhas não são claras.

Espero vocês todos lá, hein?

Abraço e logo divulgo o lançamento também em BH.

Agora vai: “Réquiem: sonhos proibidos”

Minha gente, são tantas emoções.

Réquiem: sonhos proibidos, meu primeiro romance, está no forno. Foi um parto relativamente rápido e agora ele está em observação. Mas logo ele estará certinho e será lançado.

Para celebrar, montei mais um blog (o qual espero alimentar com mais frequência) para dar notícias sobre o primeiro filhote literário. Para acompanhar, clique aqui.

Pequenos prazeres: cabelo

Nunca gostei do meu cabelo. Minto, passei a não gostar dele quando algo de estranho aconteceu com ele. Tinha de seis para sete anos e pela primeira vez fui ao barbeiro cortar o cabelo. Antes disso minha mãe cuidava dos meus cachinhos, era uma coisa meio indiozinho, meio anjo, um cabelo bem pretinho que caía e balançava ao lado das minhas orelhas. Até que chegou o momento de eu enfrentar a cadeira do barbeiro e por um momento pensei que ele faria minha barba, como meu pai fazia, como meu irmão estava prestes a começar a fazer. Eu, caçula, aguentava firme os puxões de cabelo do meu irmão mais velho, mas quase não aguentei quando sentei na cadeira de couro vermelho com um banquinho em cima para “dar altura”, como dizia o barbeiro.

Então veio aquele corte quase militar. Cabelinhos para o lado, pezinho feito, tudo nos conformes. A partir daí não havia quem desse jeito naquele cabelo carapinha e eu amaldiçoava o barbeiro que havia estragado aquilo que tanto me deixava feliz, um dos meus brinquedos prediletos. Até que comecei a estudar ciências, as mudanças hormonais e a adolescência sempre devastadora. Entre outras coisas, o cabelo ficou bem crespo e eu insistia nos cortes que me deixavam com cara de cotonete. Ou de palito de fósforo. Até que chegou o vestibular, a entrada na faculdade e os amigos que cuidaram para que não sobrasse nenhum fio na minha cabeça. Ficar careca me rendeu ser pintado na faculdade com batom

24 horas e muita gente pensar que eu havia sofrido uma operação no cérebro. Depois disso, nunca mais deixei crescer a ponto de fazer cachinhos, mas percebi ao menos que eles ficaram um pouco mais macios.

Há pouco não consegui passar no amigo cabeleireiro para me livrar deles e me deparei com um pequeno prazer: lavar os cabelos. Há tempos não usava xampu e condicionador e tem sido bem gostoso espumar o cabelo com um vagar tranquilizante, pensar na vida e nas coisas e em nada ao ensaboar e enxaguar aquilo para o qual antes eu pouco dava bola. Não que eu vá deixá-lo crescer, nem vontade tenho para cuidar tanto de um cabelo que não me favorece, mas ao menos, enquanto ele estiver maior do que eu costumo deixar, me entregarei ao prazer de lavá-lo com o cuidado que há tempos não tive com ele. Não, não fui acometido por uma febre metrossexual. Apenas descobri mais uma coisinha que deixa o dia um pouco mais divertido.

PS.: Vou tentar fazer de vez em quando uma pequena croniqueta como essa. Me digam, o que vocês acham?

Correria e convite

Olá, olá…

Como já devem ter percebido, estou correndo. Afogado entre traduções, dois autores me enlouquecendo a cabeça e, confesso, estou gostando muito. Prazo babando no meu calcanhar, quase sem tempo para viver longe do meu HP. Mas tenho um convite a fazer a todos que estiverem em São Paulo no próximo dia 12 de fevereiro.

Nelson de Oliveira, num de seus arroubos de inquietação, criou um projeto chamado Portal, para o qual ele chamou escritores iniciantes e experientes para escrever sobre ficção científica, realismo mágico e fantástico e afins. De acordo com o blogue do projeto:

Projeto Portal é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral, editada no sistema de cooperativa. A pequena tiragem — duzentos exemplares de cada número — será distribuída entre acadêmicos, jornalistas e formadores de opinião. Serão no total seis números (de papel e tinta, não online). Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: Portal Solaris, Portal Neuromancer, Portal Stalker, Portal Fundação, Portal 2001 e Portal Fahrenheit.

Pois bem, que eu tenho a ver com isso?

Estou no último e derradeiro Portal Fahrenheit, com um conto chamado Réquiem. Para mim foi bastante complexo mergulhar nesse mundo fantástico, tão afeito que sou aos textos reais. Depois pensei que muitas das minhas leituras preferidas tinham um toque de realismo fantástico ou mágico, ou mesmo alguma loucurinha que justificasse a minha predileção. Não estava então tão longe como eu pensava.

Então está aí o convite. Espero vocês por lá.

E logo mais eu volto para cá também.

Xampu no olho

Olhos fechados
Image via Wikipedia

Meio do banho. Esfrega a cabeça com vigor contra as estranhas caspas que apareceram com o uso do xampu anticaspa, tenta se livrar delas com o raspar demente de unhas curtas, um banho quente e confortante depois de dia(s) de cargas jumentas. Os olhos espremidos que evitam o contato do produto com o olho, mas de nada adianta, aquela abridinha faz com que a espuma escorra pela fronte e alague as bolsas e as pálpebras, pingando no cantinho do globo ocular. Um ardor tremendo e a busca pela toalha pendurada na porta do box, a toalha já morna pelo vapor do banho, ai, esfrega os olhos e não se sabe se a situação está pior ou melhor. Então vem a ideia. Saber por que cargas d’água ela chega assim sorrateira, como se fosse a espuma daquele xampu maldito. Entra pelo ouvido, pela boca e pelos olhos, logo ele se vê murmurando um nome. Esse nome toma rapidamente um corpo enquanto ele acaba de se enxaguar, um corpo de menina, de adolescente confusa. E a tragédia e uma mágoa e algo que a estranha moça não consegue explicar, nem expandir, apenas guarda, incute, introjeta. Ela já não é mais ideia, é alguém de carne e osso, ao menos nas bossas e fossas da massa cinzenta invadida. E o chuveiro é fechado, respingando poucas gotas como num suspiro.

Ao puxar a toalha com aquele barulho ascendente do tecido raspando no metal, mais ideias surgem e a criatura se materializa, abre os olhos e quase fala. Ele se enxuga devagar, sorvendo pedaços daquele turbilhão que pede para ser escrito. A criatura precisa de um mundo, de um dia, um cotidiano e uma dor. Quase triste a menina, quase fúnebres suas falas, ela choraminga num canto da cabeça pedindo que seu destino não seja aquele, mas agora já é tarde. Seu destino já foi cravado na memória, sua história nasceu com ela, essa brincadeira sacana de deus levada às últimas consequências. Ela não tem escolha, a moça magra e desengonça, mas tem um nome: Almina. Ela estará em uma, duas, dez folhas de papel carta ou A4 em corpo 12, talvez Times, talvez Arial. Entre as linhas ela pedirá perdão e exigirá que sua adolescência não seja perturbada por incidentes fora de seu controle. Coitada, não terá essa chance. A ruptura é inevitável e a esperança que nutre impossível. Ele veste uma roupa confortáve, já está pronto para dormir, e aquela história atormenta seus minutos antes do sono. Pede para ser liberta, ao mesmo tempo que tem medo de ser escrita.

Ele se senta na frente da tela branca e pela primeira vez a história vem sem percalços. Almina toma vida, medrosa ainda, mas aos poucos mostra-se tão viva que assusta. Olha suas mãos, sua calça comprida de colégio, sua bolsa rosa e seus braços compridos e ossudos. Anda do colégio até sua casa, vê o jardim mal-cuidado e o portão verde de ferro, abre e entra em casa. Onde sua vida vai mudar de uma vez por todas.

Espero de novo a visita de Almina. Num sonho, num banho, num banco de ponto de ônibus. Espero que ela não me abandone, que me traga mais histórias que não desgrudem da minha cabeça. E que eu possa escrevê-las e fazer jus à visita da menina-história, que ela me seduza e me ensine como dar vida às palavras. Não é mais uma mania, nem um passatempo. É uma delicada necessidade.

A primeira vez é assustadora…

(Sim, isso aconteceu. E essa história nasceu. E talvez dela nasçam outras. Talvez eu as publique aqui… um dia.)
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Já basta a vida

puppy dog eyes

“De complicada, já basta a vida. Quero livros para me divertir.”

Quando ouvi essas palavras olhei para o lado. Havia um grupo de quatro mulheres e uma menina de boné. No meio da seção de literatura estrangeira, bem de frente ao senhor Kafka, essas palavras rasgaram o ar numa agudeza peculiar, palavras sobre salto, unhas compridas, cabelo tingido e maquiagem carregada. Apenas uma delas tinha um estilo bem diferente: cabelo tigela, alta e corpulenta, olhos tristes e sorriso desconcertado. Quando meus olhos bateram com o dela falaram mais alto que o rosário de estranhezas de suas amigas. Ela estava com um Hemingway na mão, acho que O velho e o mar.  E os tristes olhos dela, tristonhos, tentavam me dizer algo. Ela participava da conversa, ria e tudo mais, mas enquanto eu vasculhava a seção como de costume, à cata de algo novo e interessante, ela me olhava. As três amigas balançavam a cabeleiras longas e os perfumes se misturavam e tomavam o espaço do cheiro dos livros. Elas diziam nomes de escritores e escritoras, numa desenvoltura impressionante. “Tô fora de livro cabeça”, determinavam, “quero me distrair”. Tateavam nas estantes, puxavam alguns, liam sua quarta capa e, num crivo incompreensível, balançavam a cabeça e torciam a boca, num muxoxo. Uma delas, ainda, soltou “só leio para dormir, então tem que ser algo leve, né?”.

Não, pensei eu. E a moça de olhos tristes me fitava, ria com as outras e suspirava. Tentava entender aquele sorriso que não falava a mesma língua das amigas em polvorosa. Em vão.

Não demorei, já havia escolhido meu livro e fui ao caixa. Elas em pouco tempo me seguiram, já haviam selecionado seu livro divertido e rechaçado fileiras de autores cabeças e chatos. Enquanto pagava, a menina de boné debruçou sobre o balcão, como se estivesse comigo, enquanto a mãe tagarelava com as amigas, numa tentativa óbvia de mostrar conhecimento e cultura. A menina exalava tédio e tinha um livro na mão: O diário de um banana 3, livro que adorei ler, tanto ele como os dois primeiros. Saí da livraria com aquela primeira frase rodando na minha cabeça, tentando entender, decifrar tudo que havia escondido por trás daquela sentença quase mórbida. Não cheguei a conclusão nenhuma, na verdade. Acho que fiquei apenas triste. Como os olhos da moça que deixei para trás.

Imagem por The_bosshog via Flickr
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Dribles e lances com palavras

A bola está rolando, nos pés de um time internacional: Brasil, Argentina, Espanha, Uruguai e Alemanha se encontram num grande amistoso nas páginas de A bola entre as palavras, lançamento da [e] editorial, que traz diversos craques nacionais e internacionais para falar de sua paixão: o futebol.

Vamos à escalação dos craques:

Adolfo Montejo Navas (Espanha) – poeta e curador de arte
Cristovão Tezza – escritor
Eduardo Coimbra – artista plástico
Lula Vanderley – artista plástico
Manuel da Costa Pinto – ensaísta e crítico literário
Martín Kohan (Argentina) – professor e escritor
Reynaldo Damazio – poeta e crítico literário
Ricardo Aleixo – poeta
Teixeira Coelho – professor e curador do MASP
Vanderley Mendonça – editor e tradutor
Wolfgang Bock (Alemanha) – professor e ensaísta
Yamandú Canosa (Uruguai) – artista plástico

Comentários: Piero dela Riva (Itália)
Traduções: Vanderley Mendonça e Petê Rissatti

Diversas histórias e reflexões sobre o futebol arte, passado e futuro da bola e muitos passes divertidos compõem essa seleção. Lançamento em 16 de junho. Aguardem os próximos lances…

καλαμπόκι

καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.

Estrangeiro.

Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.

Do lado de fora.

Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polentaisso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.

Não era dali.

Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.

Se

Quando voltei do banheiro do café olhei Ivan de longe, me aguardava de frente para uma xícara de café que esfriava: a camisa amarrotada e os cabelos desarrumados destoavam dos óculos delicados de aros finos e de sua postura quase aristocrática. Lá fora a chuva caía com violência e o que se via pela vidraça eram vultos de carros e esboços de prédios. Meu olhar percorreu as mesas do lugar quase vazio, a não ser por uma senhora gorda que parecia ter a cabeça enterrada nos ombros; suas mãos pequenas escreviam num pequeno caderno sem parar. Duas mesas a frente um casal muito jovem, mão sobre mão sobre a mesa, num silêncio sorridente. E meu companheiro de café que, como um telescópio, varria o ambiente com seu olhar.

— Essa chuva. De surpresa -, disse eu para recomeçar a nossa conversa.

— Dessas que ninguém espera -, respondeu, como se entendesse meu desconforto em voltar à mesa com olhos tão vermelhos – Não há porque chorar, já foi.

— Mas não é justo. Poderia ter sido diferente.

‘Se’ é uma palavra maldita pela imensidão que descortina à nossa frente. Talvez devesse ser banida do dicionário, do imaginário. Ela não deixa que as coisas simplesmente aconteçam, cutucam o cérebro que num repente projeta diante de nossos olhos tudo aquilo que poderia, apesar de sabermos que não poderá. A escolha de um caminho e o aperto de um gatilho perdem a sua força quando colocamos à frente de nossa frase o ‘se’ e suas concordâncias condicionais. No primeiro caso, ao menos temos a opção de pensar no que se seria se fosse outro o caminho.

— Se não fosse desse jeito…

— Se é uma palavra maldita…

— Sim, você já disse -, me interrompeu Ivan, num corte mais dolorido que todos os que eu tinha na mão esquerda.

— Você não sabe o que eu tô sentindo.

— É por isso que estou aqui -, disse ele – exatamente por isso.

Ivan tinha esse poder de arrancar de mim tudo o que eu não gostaria de falar e às vezes até aquilo que nem sabia estar na minha cabeça. Por isso eu o odeio. Por isso eu também o amo. Nessa gangorra de sentimentos (digo, meus sentimentos) ficamos dias sem nos falar e quando nos reencontramos recebo aquele abraço eterno, interrompido apenas por minha vida sem muito sentido. Então sentamos no mesmo café, no mesmo horário de sempre.

— Ela poderia ter esperado apenas mais um dia. Eu poderia provar…

— Acabou, Marcelo. Acabou. Entenda de uma vez por todas, você sofre desse jeito,  ela deve sofrer também…

— Você não tem como saber – eu disse, ríspido.

Os cafés esfriavam. Os olhos de Ivan procuravam nos meus gestos um flanco desprotegido para novamente desferir suas palavras duras, o amargo de seus comentários verdadeiros. Sim, eram reais suas palavras e eu não conseguia negá-las nem para mim, quanto mais fingir em meu olhar que elas não me atingiam. Por mais estranho que pareça, me senti solitário por alguns segundos, como se o mundo desaparecesse por instantes, um desmaio talvez, um desmaio consciente.

— Vou embora, Ivan. Amanhã nos falamos -, disse, me levantando pegando meu casaco.

— Mas a chuva, olhe essa chuva. Você não vai conseguir sair daqui.

— Se eu não for as coisas podem piorar.

E deixei para trás meu amigo, sem aquele abraço. Apesar de saber mais de mim do que eu próprio, não sabia da minha dor. De não saber se… de não ter como sabê-lo mais, nunca mais. O gatilho e o caminho já haviam sido escolhidos antes mesmo de eu tomar qualquer decisão, me encontrar. Olhei ainda uma vez a mulher gorda e o casal, estavam como congelados no tempo, quase via uma poeira sobre suas mesas. Ao tocar na maçaneta  olhei para trás: Ivan não havia se virado, estava impassível, girando sua colherinha dentro do café, no seu desalinho aristrocrático. Foi melhor assim. Foi melhor me entregar à chuva.

Escadaria

Quando a porta fechou, deixou um vazio. A mão espalmada na janela do vagão era a fotografia da despedida. Era o desconsolo. E a vida que se espalhava desordenada nos próximos 60 anos não poderia ser mais sem graça. Foi o que  pensou naqueles poucos segundos que se congelaram entre o beijo e o baque das borrachas da porta.

Então mudou de casa, de caminho, de marca de cigarro e de óculos, de café para chá de boldo, de horário de trabalho e foi mudando o quanto pôde, mas a imagem era nítida: o beijo, o baque e a mão espalmada marcando o vidro. Só não conseguia deixar de ir uma vez por semana àquela plataforma, na segunda porta do terceiro vagão, com uma esperança de ela esta na porta. Era o que pensava. Ficava ali das 20h00 às 20h30, às quintas-feiras. Um pouco antes, ou depois. E nada acontecia.

Não era quinta, ou quarta, muito menos terça, mas numa segunda-feira que por acaso desembarcou ali, na plataforma. Esperou dez minutos, pouco mais, ou menos. Olhou no relógio duas vezes. O eco do nada se confundia com o rangido agudo dos trilhos. Subiu na escada rolante com a esperança de que ela o levasse para longe dali. E um olhar pescou o dele do meio daquela massa quase amorfa que descia apinhada. Quando os olhares se cruzaram, na mesma altura, quase se atracaram, num afã que beirava o obsceno. E se viraram. E se encararam. Até o fim.

Realidade farpada

Foi um abraço doído e tudo aconteceu muito rápido. Quinze reais, moço, e eu janto e durmo ali no albergue. Quanto eu tenho?, acho que dez. Serve, moço. Mas sabe o que mais vale? A atenção que vocês me deram. E ela me olhou nos olhos. Com seu cabelo crespo queimado e seus olhos um pouco puxados. Dentes grandes de criança e dentro de sua barriga outra criança e aquele sorriso de uma melancolia tão imensa como se fosse velha. Olhos pretinhos pelos quais fui tragado num turbilhão de dores e incertezas naqueles minutos, numa história que se repete em todos os lugares. Em situação de rua a menina de camisetão de futebol de cor indefinida pela sujeira e bermudinha de sarja tinha, apesar da tristeza, um brilho no olhar. Olhei, olhei e falei que ela deveria se cuidar e tudo mais.

Mas sabe o que mais vale? A atenção que vocês me deram.

Então me dê um abraço.

Foi um abraço doído e fui eu quem pediu. Eu precisava tanto quanto ela daquele carinho numa noite abafada numa rua qualquer, na saída de um teatro, na minha vida tão confortável. Poderia, sim, acontecer qualquer coisa naqueles segundos do abraço. Crueldade e insanidade são marcas tão patentes de nosso cotidiano que aquele abraço serviu de chibatada em todos os preconceitos e medos.

Na volta para casa eu estava impotente. O mormaço da noite me oprimia, minha consciência me prensava nas paredes da rua Augusta como uma onda gigantesca. Eu me arrastava imaginando os passos da menina até aquele albergue. Ou até a lata de cola dentro da qual ela nadaria para longe daquela realidade farpada. Queria voltar, mas para quê? Queria tirá-la da rua e dar o carinho que tive quando fui tirado da rota dos toldos e perseguições e estupros e crimes. Mas eu estava impotente. Apenas a lágrima não me acusava, me redimia de alguma forma. E apesar da distância e de ter essa cena cunhada na minha cabeça, não voltei. E a menina? Nunca mais vi…

Ressaca

Não se preocupe. Logo a água baixa e a gente se encontra. Eu aqui na ilha pesco e penso no seu regaço com cheiro de jasmim. Não me atordoo com pouco, não ouço o grito que rasga a neblina baixa que se mistura com a bruma da rebentação. Nem as brigas, o rebuliço todo, não faço caso. Só espero baixar a água pra eu poder nadar e chegar até você. Imagino as braçadas sob o bafo do sol ardendo na nuca e tanta água que não tem fim ou a jangada feita num mês do que consegui pegar no meio da mata escura.

Não se preocupe, minha branca. Reza pro santo ouvir, reza alto. Daqui eu ouço um fio dos seus apelos e o baque dos batuques e vejo o brilho das velas e das facas. Me arrepio, olha só, minha branca. Mas não se entristeça, pois a água há de ceder e o mar há de beber em goles grossos a vagas maldosas. Aqui eu rezo pra santa, minha branca, pra ela me deixar passar por entre as correntezas sem me tragar e faço oferendas de coco e de milho e de mel e dendê e farinha e de folhas que eu peço pro santo me trazer.

Não, minha branca, não chore. Eu já seco lhe peço, não chore. Olhe pro mar e veja meus olhos, eles não mentem. É só a cheia que teima e a chuva que venta e a nuvem preteja e não deixa eu lhe ver. Retumba o trovão e eu saúdo o santo a cada cabrum, pois ele me traz fogo e me protege do mal. E quando o tempo fecha me ajoelho devagar sentindo a areia brava na pele. Mas não precisa chorar, minha branca, não chore.

Se ao menos eu pudesse dormir, minha branca. Mas nem isso o mar me deixa, é tanto rugido no pontal que penso que é bicho. Mas é o mar que não baixa pra eu lhe encontrar. Mas logo, minha branca, logo eu chego. Daí lhe peço pra secar o rio da cara e me pegar forte e não me deixar ir embora. Se o santo disser sim, se o mar disser sim, minha branca, a gente se encontra.

As pontas dos dedos nuas

Vinha. Quase sem alma, mas era toda beleza. Sorriso espalhado pelo corpo sem ruga ou excessos. Mas havia cortes e os bisturis não se cansavam de lascar a pele, rasgar a seda tratada a cremes e massagens. Ela queria mais. Na verdade não. Eles queriam mais. Os olhos deles não queriam a imperfeição, gostavam de tudo no lugar que imaginaram, sem tirar. Nem por. Ela seguia, naquela vitrine, na geladeira  que se tornaram seus dias. Com o cabelo que escorria com brilho, o nariz esculpido entre maçãs coradas que suportavam as amêndoas oculares. Com lágrimas.

Começou pelas unhas. Roeu até o toco. Sem cansaço, arrancou-as com dentes ou alicates, deixando as pontas dos dedos nuas. Passou para os cabelos, mas não usou tesouras ou máquinas ou qualquer outro artifício. Os dedos inflamados arrancavam os tufos, às vezes fio a fio, em outras punhados cabeludos. Raspou os pelos do corpo todo, as sobrancelhas, tirou os poucos fiapos de suas narinas. Não se vestia mais, tinha pavor das tramas dos tecidos tocando a pele. Foi encontrada desfiando a  pele das pernas com uma navalha enferrujada. O sangue era uma almofada gosmenta na qual ela rolava.

“Quero ser eu mesma, eu, eu mesma” dizia naquela língua estranha que fora obrigada a aprender.

A arte de [des]abotoar

Ato tão antigo na história da humanidade, corriqueiro e ignorado, o [des]abotoar pode ser considerado uma arte de delicadeza única. Como autômatos, realizamos esse gesto que em geral nos toma menos que alguns momentos e ocupa quatro ou cinco dedos, dependendo da pressa ou da situação na qual se [des]abotoa. Não pensamos nas suas sutilezas, em seus meandros e nuanças que fazem dele um acontecimento, se cuidadosamente verificado.

Único ou em fileiras, os botões nunca estão sozinhos, mas seu par raramente é outro botão, e sim uma casa. A modernidade tentou a duras penas tirar o valor desse par, criando botões de pressão, velcros e outros dispositivos facilitadores, mas o charme e a sensualidade do botão nunca foram superados, resistindo até os dias de hoje e, provavelmente, pelo resto dos nossos dias.

Escorregando lentamente pela casa, adentrando por vezes como um bandoleiro numa invasão maldita ou apenas encaixado como uma peça num quebra-cabeça, o botão consegue resumir muitos dos nossos humores e temores. Ser envolto, como que enforcado, por uma trama forte não deve ser agradável, mas o aconchego numa abotoada calma de uma flanela macia pode ser relaxante. Ásperos ou lisos, em cores diversas, trabalhados, ah, são tantas as possibilidades dos botões para uma tarefa milenar, mas ainda assim fundamental. O abotoar de baixo para cima para não errar nenhuma casa, às pressas o desabotoar afoito dos amantes que chegam a arrancar algumas peças, deixadas pelo chão do quarto como prova do sexo incandescente, ou o abotoar cuidadoso da mãe antes de o filho partir para a primeira.

Instrumento de sedução milenar em corpetes, cintas e vestidos, os botões e suas casas persistem como um elo entre as damas d’outrora e as poderosas mulheres de hoje. E por mais que se tente, não há como se desvencilhar, nem como esquecer, o raiar de uma pele suada sob um desabotoar bem mal intencionado…

Tânia

Não sabia quanto tempo estava ali sentada com uma mão embrulhada na outra sobre o colo olhando o tempo que se recusava a caminhar. Sob as mãos a pequena bolsa de crochê vermelha e preta. Depois de dias de calor forte fazia um tempo ameno beirando o frio, que ela nunca entendeu. Nunca entendeu muita coisa, para falar a verdade.

Esperava seu ônibus ali sentada com as mãos embrulhadas e o tempo que não se apressava dava a impressão de ter parado. Mas a cada minuto que parecia não passar ela se sentia mais velha e cansada e sem viço e sem atrativos. Pintar o cabelo, fazer as unhas eram coisas que há muito não fazia. Trabalhava apenas. E esperava. E vinham ônibus para todo os lugares menos para o seu bairro, bem longe, quase noutra cidade e ela aguardava com uma ânsia tão grande. Mas não demonstrava, apenas embrulhava suas mãos e estalava os dedos num nervosismo contido como era sua vida. Toda esquadrinhada sua vida de acordar tão cedo, dormir cedo, não ir ao cinema ou a um restaurante, não tomar café em lugares da moda, apenas a sua vida: um imenso vazio, cheio de horários.

Mas naquele dia algo já não estava tão nos eixos. Acordara atrasada e chegou depois do horário no trabalho. A chefe chiou, chiou. Nada havia dado muito certo naquele dia e a volta para casa parecia impossível. Resolveu andar até o próximo ponto de ônibus para ter ao menos a sensação de tempo passando, vendo os carros na avenida mais parados que andando.

Sua caminhada durou muito tempo. Não sabia precisar quanto tempo estava a esmo, mas a tarde já se esgueirava por entre os vãos dos prédios dando lugar ao oco da noite. Havia esquentado e o vento morno trazia vontade de abrir uns botões e andar mais devagar. Não sabia o que fazia ali, apenas estava, como desde o seu nascimento era de costume: estava. Quando não havia mais sinal do sol e os postes cuspiam uma luz amarelada no chão ela entrou num bar, comprou uma água, andou mais alguns metros e parou. Encostou-se à parede e imaginou-se outra. Viva novamente e não sabia se foram os goles de água gelada ou o acalento da noite cálida, mas viva.

Até que um carro parou. O motorista acenou e ela atendeu. Perguntou o preço, e ela deu. Entrou no carro e sumiu.

O espaço

Quando vi o espaço que a falta de você deixou na minha estante chorei dois dias seguidos. Depois de dois dias, ainda com olhos inchados, estava sentado à mesa com uma taça de vinho, um pão e um resto de queijo que havia ficado de nossa última compra. Mais dois dias se passaram até eu sentir que o sol estava mais quente que o de costume e que eu deveria sair de casa e encarar o mundo. Daí até eu trancar a porta e deixar o apartamento levou uma semana, apesar do apelo lamurioso dos amigos.

Todas as vezes que olhei no espelho nos dois meses seguintes vi apenas você num reflexo tão vivo que quase podia sentir. Todas as vezes que toquei senti a superfície gelada do vidro. Sonhei com você por semanas inteiras, sem pular um dia, mas não havia mais o vazio da estante, o sol já batia nela ocupando aquele espaço com o calor que faltava no espelho. Cobria minha visão quando via um reflexo e quase cheguei a botar lençóis sobre todos os objetos que mostravam seu rosto.

Até que um dia alguém tirou uma foto minha. Estava certo que você estaria nela, tão presente quanto nos dias que me refugiava no banheiro do trabalho para chorar. Mas o que vi, surpreso, foi a mim mesmo. Diferente, mas eu. Nesse dia descobri o que os livros nunca haviam me dito: que eu nunca deveria ver ninguém além de mim mesmo no espelho.

Vamos escrever?

Os Escritores

Hoje acabei um pequeno curso realizado pela Revista Língua Portuguesa (Formação Inicial de Escritores), ministrado pelo Prof. Gabriel Perissé, e digo que dei mais um passo, se não na direção do sonho de publicar um livro, na direção de ter a cabeça mais livre para criar, ousar e viver com as letras. A turma, claro, ajudou muito, foram 4 dias que, apesar de poucos, foram intensos. Cada história que ali foi criada constituiu, de certo, uma nova etapa para cada um. Continue lendo

Palavras

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Pense num best seller. Agora, pense num livro pelo qual você se apaixona. Para mim esse é A menina que roubava livros, de Mark Zusak, australiano com pais alemães que contou uma história bastante divertida e emocionante nas páginas desse livro, editado aqui pela Editora Intrínseca.

Há pouco menos de um ano comprei, num dos meus arroubos literários consumitas, o livro do australiano que na época já tinha seu lugar estabelecido no mercado editorial brasileiro, livro volumoso, quase assutador com suas 499 páginas. Duas pessoas conhecidas tentaram lê-lo, mas desistiram a poucos passos do início real da história, motivos diversos tiveram elas. E eu não havia prestado atenção no livro, folheei algumas páginas e o devolvi para a estante, para a longa fila de títulos que esperam meu afago por algum tempo. No início desse ano, uma febre atacou alguns amigos que, simultaneamente, começaram a ler o livro e dar diversas opiniões. Esses, por sua vez, com exceção de uma amiga do trabalho que está bem adiantada na leitura, também pararam de ler, com diversas desculpas.

Intrigado pelo destino das palavras de Zusak, resolvi pegar o livro para ler. Acabei de ler a última página hoje, há mais ou menos 40 minutos (são 02 da manhã agora), três semanas depois de começá-lo. Conselho de amigo: apenas comece esse livro se tiver um tempinho para ler diariamente, pois ele é altamente viciante. Perdi algumas noites de sono em sua leitura e ficava agoniado para voltar ao lar e encontrá-lo na minha cabeceira, aguardando ser folheado. Já comentei sobre o preconceito contra best sellers aqui no Vermelho.Carne e agora, mais do que nunca, chego à conclusão de que não devemos nunca ter esse preconceito. O próprio Zusak assusta-se com a recepção tão calorosa de seu livro aqui no Brasil, brincou na reportagem sobre a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, em 2007:

Estadão: Seu trabalho é bastante aclamado no Brasil. Você arriscaria uma explicação para isso?

Zusak: Ainda estou chocado. No caso de A Menina Que Roubava Livros, brinco com quem vem me dizer que o recomendou para os amigos. Eu digo: ‘Sinto muito, porque imagino o amigo perguntando sobre o que é o livro e você respondendo: ‘Bem, ele se passa na Alemanha Nazista, é narrado pela Morte, quase todo mundo morre… ‘.

(O Estado de São Paulo, 13.9.07)

Bem, eu indico e sei que não passarei vexame.

A menina que roubava livros é integralmente narrada pela Morte. Porém, não é a morte assustadora que conhecemos, a caveira com a foice na mão, nem nada disso. É uma personagem que não se descreve fisicamente (se é que há físico na morte) e que tem como característica marcante a ironia em sua função fatídica: levar as almas daqueles que passam dessa para melhor para onde elas têm que ir. Cortante como a gadanha, sua língua ferina não perdoa ninguém, apenas a pequena Liesel, uma alemãzinha que sobre com as agruras da Segunda Guerra. Escapa quatro vezes da iminente narradora do livro e, por esse feito, a Morte resolve contar sua comovente história. Em meio à evolução da Alemanha nazista, com seus paradoxos e sua crueldade, Liesel cresce com uma mania, quase uma obsessão: roubar livros. Por amar as palavras, a alemãzinha se torna perita na arte de afanar livros alheios e, auxiliada por seu amigo Rudy, aventura-se por entre os prenúncios da destruição. Ao seu lado, a Morte leva consigo aqueles que perdiam a vida em prol da conquista do famigerado Führer.

Não preciso me alongar mais para dizer por que gostei tanto do livro, não é mesmo?

Porém, não apenas o assunto Alemanha me prendeu às páginas de Zusak, mas a maneira inventiva com a qual ele concluiu a obra. Surpresas a parte, o livro pode trazer muitas gargalhadas, bem como levar às lágrimas. Um livro que indico de olhos fechados, pois é uma obra e tanto.

PS: Chorei mesmo com o livro, e daí? [risos]

Best seller e blockbuster: cuidado com o preconceito

Há tempos fiz um texto falando sobre best sellers no blog coletivo Os Bloguistas e o quanto eles representam para a editoras e levantando a questão: melhor ler um desses do que ler nada? E há bastante tempo tenho pensado na questão do preconceito que ronda os best sellers. A maioria é bem ruinzinha mesmo, não dá para negar. Mas outros conseguem o título por algum mérito e, mesmo assim, conseguem a antipatia dos intelectuais e dos intelectualóides que os seguem.
Que culpa tem, por exemplo, Khaled Hosseini de ter escrito um livro sobre o Afeganistão quando este virou a bola da vez? Antes dele a literatura do leste já começava a dar frutos controversos, com ele a coisa se multiplicou e pelos prognósticos dos editores, 2008 será o ano do deserto, com muitas traduções que trabalham com o pano de fundo “Islã”. Então, preparem-se para ler muito ainda sobre as areias do lado de lá.Best seller vira rapidinho blockbuster. E O Caçador de Pipas (The Kite Runner, EUA, 2007), apesar de futuro blockbuster, é um filme muito bem feito. Em primeiro lugar, não é falado em inglês, mas em persa, o que imprime uma cor muito mais viva no filme. Os atores, todos estão bem, em especial o menino Hassan. A fotografia do Afeganistão (ou melhor, da fronteira entre Afeganistão e China, onde o diretor Marc Foster conseguiu filmar as cenas de desolação afegã) é fantástica e triste. Quem leu o livro, talvez fique um pouco decepcionado com o filme, mas filme de livro é sempre assim: rápido e rasteiro. Que não leu, provavelmente vai se emocionar bastante. São esses filmes e livros que me fazem tomar bastante cuidado com as palavras best seller e blockbuster. Atrás delas podem estar uma pérolas entre o lamaçal das indústrias livreira e cinematográfica.

O que fica para trás

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Estou no último capítulo do romance O Passado, do argentino Alan Pauls (Ed. Cosac Naify) ainda atordoado pelas infinitas interpretações que cada página inspira. Nem quis ver o filme do Hector Babenco, baseado no livro, pois sabia que tudo que ele me traria de certa forma seria uma traição do que são as personagens da história. Rímini não é Gael G. Bernal, o professor de lingüística não é Paulo Autran (mas bem que poderia ser) e Sofia… bem, nem sei quem faz a Sofia. Mas vou assistir logo que terminar o livro.

 

O Passado traz a história de Rímini, tradutor de francês e de outros idiomas, namorado de Sofia, uma espécie de fisioterapeuta alternativa, que vivem em harmonia. Até que acaba o relacionamento e a vida continua, cada um na sua, para surpresa de todos parentes, amigos e afins. Porém, a aparência é maior do que a verdade e os fantasmas começam a rondar a vida de Rímini, o protagonista. O fantasma da ex-namorada, os espectros de uma vida desregrada, à base de cocaína e loucuras, ectoplasmas de um pintor moderno, tão moderno que enlouquece. Essas histórias se cruzam e servem de pano de fundo para uma prosa que, apesar de não ser das mais leves, é atraente e instigante. Como comentei lá em cima, cada página traz um pouco do passado de cada um de nós e nos faz pensar se nossas escolhas até agora foram as mais acertadas, nos alegra pelas certezas, nos entristece pelas incertezas e, em cada reflexão, algo surpreendente bate em nossa cara, nos estapeia.

Entre amores mortos, mortes por amor e diversas ressurreições do protagonista, Pauls entrecruza diversas vidas para dar corpo não ao tradutor, mas ao que nos ronda a todo o momento: o que já fomos.

Em passagens cinematográficas, linguagem burilada em diversas fábulas urbanas que envolvem o tradutor Rímini, O Passado traz à tona o que quase todos nós desejamos esquecer: o que fica para trás.