
Quando voltei do banheiro do café olhei Ivan de longe, me aguardava de frente para uma xícara de café que esfriava: a camisa amarrotada e os cabelos desarrumados destoavam dos óculos delicados de aros finos e de sua postura quase aristocrática. Lá fora a chuva caía com violência e o que se via pela vidraça eram vultos de carros e esboços de prédios. Meu olhar percorreu as mesas do lugar quase vazio, a não ser por uma senhora gorda que parecia ter a cabeça enterrada nos ombros; suas mãos pequenas escreviam num pequeno caderno sem parar. Duas mesas a frente um casal muito jovem, mão sobre mão sobre a mesa, num silêncio sorridente. E meu companheiro de café que, como um telescópio, varria o ambiente com seu olhar.
— Essa chuva. De surpresa -, disse eu para recomeçar a nossa conversa.
— Dessas que ninguém espera -, respondeu, como se entendesse meu desconforto em voltar à mesa com olhos tão vermelhos – Não há porque chorar, já foi.
— Mas não é justo. Poderia ter sido diferente.
‘Se’ é uma palavra maldita pela imensidão que descortina à nossa frente. Talvez devesse ser banida do dicionário, do imaginário. Ela não deixa que as coisas simplesmente aconteçam, cutucam o cérebro que num repente projeta diante de nossos olhos tudo aquilo que poderia, apesar de sabermos que não poderá. A escolha de um caminho e o aperto de um gatilho perdem a sua força quando colocamos à frente de nossa frase o ‘se’ e suas concordâncias condicionais. No primeiro caso, ao menos temos a opção de pensar no que se seria se fosse outro o caminho.
— Se não fosse desse jeito…
— Se é uma palavra maldita…
— Sim, você já disse -, me interrompeu Ivan, num corte mais dolorido que todos os que eu tinha na mão esquerda.
— Você não sabe o que eu tô sentindo.
— É por isso que estou aqui -, disse ele – exatamente por isso.
Ivan tinha esse poder de arrancar de mim tudo o que eu não gostaria de falar e às vezes até aquilo que nem sabia estar na minha cabeça. Por isso eu o odeio. Por isso eu também o amo. Nessa gangorra de sentimentos (digo, meus sentimentos) ficamos dias sem nos falar e quando nos reencontramos recebo aquele abraço eterno, interrompido apenas por minha vida sem muito sentido. Então sentamos no mesmo café, no mesmo horário de sempre.
— Ela poderia ter esperado apenas mais um dia. Eu poderia provar…
— Acabou, Marcelo. Acabou. Entenda de uma vez por todas, você sofre desse jeito, ela deve sofrer também…
— Você não tem como saber – eu disse, ríspido.
Os cafés esfriavam. Os olhos de Ivan procuravam nos meus gestos um flanco desprotegido para novamente desferir suas palavras duras, o amargo de seus comentários verdadeiros. Sim, eram reais suas palavras e eu não conseguia negá-las nem para mim, quanto mais fingir em meu olhar que elas não me atingiam. Por mais estranho que pareça, me senti solitário por alguns segundos, como se o mundo desaparecesse por instantes, um desmaio talvez, um desmaio consciente.
— Vou embora, Ivan. Amanhã nos falamos -, disse, me levantando pegando meu casaco.
— Mas a chuva, olhe essa chuva. Você não vai conseguir sair daqui.
— Se eu não for as coisas podem piorar.
E deixei para trás meu amigo, sem aquele abraço. Apesar de saber mais de mim do que eu próprio, não sabia da minha dor. De não saber se… de não ter como sabê-lo mais, nunca mais. O gatilho e o caminho já haviam sido escolhidos antes mesmo de eu tomar qualquer decisão, me encontrar. Olhei ainda uma vez a mulher gorda e o casal, estavam como congelados no tempo, quase via uma poeira sobre suas mesas. Ao tocar na maçaneta olhei para trás: Ivan não havia se virado, estava impassível, girando sua colherinha dentro do café, no seu desalinho aristrocrático. Foi melhor assim. Foi melhor me entregar à chuva.
Gostar disso:
Seja o primeiro a gostar disso post.