καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.
Estrangeiro.
Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.
Do lado de fora.
Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polenta, isso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.
Não era dali.
Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.
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