Lançamento…

Agora é o meu que venho anunciar aqui.

Como comentei aqui e até abri um blog para tanto, vou lançar meu livro Réquiem: sonhos proibidos. Será no dia 23 de junho de 2012, das 17h30 às 21h30, no Espaço Terracota Editora (Rua Lins de Vasconcelos, 1886, Vila Mariana – mapa aqui; para marcar sua presença no Facebook, clique aqui). Vejam abaixo o texto da divulgação e, logo que o e-flyer ficar pronto, boto aqui pra todo mundo.

O que você faria se não pudesse mais sonhar?

“A química do Réquiem estava em sua corrente sanguínea, não havia com que se preocupar, pensou. Sua mãe dissera, não precisava temer. Rolou na cama algumas vezes, ligou o abajur para tentar ler um pouco na sua multitela, mas não conseguia se concentrar. Até que finalmente adormeceu. E teve um sonho.” (Trecho do livro)

O sonho proibido. A extrapolação da sociedade da informação. A necessidade de ter de volta a capacidade de ser livre de verdade. Em Réquiem: sonhos proibidos, Ivan é um homem normal, sem muitas aspirações na vida, até que recebe uma carta do Governo Mundial: todos seriam obrigados a ingerir uma droga inibidora do sonho. A partir deste momento, seu destino está traçado, mas as linhas não são claras.

Espero vocês todos lá, hein?

Abraço e logo divulgo o lançamento também em BH.

A voz

Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.

IV Encontro Prática de Escrita

Olá pessoas,

Claudio Brites e Nelson de Oliveira não param e há alguns anos organizam, junto com a Terracota Editora e a Universidade Cruzeiro do Sul, o Encontro Prática de Escrita. Conheci parte da turma dos Escritores de Segunda justamente num desses encontros, que sempre são bastante produtivos. Neste ato a oferta de cursos e palestras está bastante interessante e, claro, estarei lá. Para se inscrever, clique aqui. Vejam o release do evento:

O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.

O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp, Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.

O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensu em Criação Literária. A inscrição deve ser feita aqui. O limite de vagas é 120 para as mesas e 15 por oficina.

Quando: 7 de maio de 2011 – das 10 às 16h30
Onde: Universidade Cruzeiro do Sul – Campus Liberdade – Rua Galvão Bueno, 898 / São Paulo-SP
Quanto
: Entrada Franca
Vagas: 120 (mesas) – 15 (oficinas)

PROGRAMAÇÃO

Mesa 1 – das 10 às 11h15

A PRÁTICA DE CRIAÇÃO DE CADÃO VOLPATO
Convidado: Cadão Volpato
Mediação: Nelson de Oliveira

Mesa 2 – das 11h15 às 12h30

DO QUE FALAM OS ESCRITORES
Convidados: Mona Dorf e Oscar D’ambrósio
Mediação: Edson Cruz

Oficinas

A ARTE DO ENSAIO
com Cláudia Vasconcellos
das 14h30 às 16h30

Escrever um ensaio é discorrer de um modo muito pessoal sobre um assunto, qualquer assunto. Não precisa ser um expert no tema que se vai abordar, porque aquilo que transparece no ensaio é sobretudo a opinião bem elaborada do ensaísta. A oficina de ‘Ensaios’ discorrerá sobre como este gênero de escrita nasceu, fornecerá dois breves exemplos, os quais fornecerão um modelo deste tipo de escrita, e, então, os participantes serão convocados a escrever os seus ensaios, ou seja, a darem as suas opiniões e por meio delas se darem a conhecer. Para interessados a partir de 18 anos.

COMO CRIAR UM INUTENSÍLIO SEM SE TORNAR UM INÚTIL
com Edson Cruz
das 14h às 16h

Uma oficina de criação e análise poética ligeira e profunda como o tanque de Bashô. Ah, você não sabe do que estamos falando? Não sabe se o que lê e o que escreve tem melopeia, fanopeia ou logopeia? Não sabe a diferença entre um marceneiro e um poeta na Grécia antiga? E qual a função da poesia em tempos de big brother e consumo desenfreado? É meu chapa, você está precisando de uma oficina como essa.

SOLTANDO A LÍNGUA
com Marcelino Freire
das 14h às 16h

Quer soltar o verbo mas não sabe como? Tem um projeto de um livro mas na hora de escrever deu um branco? Está difícil de organizar as ideias e os sentimentos? Pois bem: o escritor Marcelino Freire (autor, entre outros, do livro “Contos Negreiros”) dará, nesta rápida oficina, algumas dicas de como trabalhar o texto (não importando o gênero literário) e fazer do seu “bloqueio” artístico algum muito criativo. Para interessados em literatura, a partir de 14 anos.

ESCREVER PARA JOVENS. QUE HISTÓRIA É ESSA?
com Marcelo Maluf
das 14h às 16h

Escrever literatura para jovens é uma linha tênue que muito se aproxima da literatura adulta. Harry Potter e Artemis Fowl são exemplos de textos que ganharam o público adulto. Enfim, escrever para jovens, que história é essa? Marcelo Maluf é autor entre outros de “Jorge do Pântano que fica logo Ali”, e organizador da Antologia infanto-juvenil “Era uma vez para sempre”, nessa oficina prático-reflexiva, Marcelo dará dicas e possíveis caminhos da literatura contemporânea para jovens. Para interessados a partir de 18 anos.

Vejo vocês lá!

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E-books: uma realidade

Quase toda semana, novidades sobre os e-books pululam nos sites especializados ou mesmo nas notícias dos jornais. A ladainha de livro físico x livro eletrônico, a briga entre defensores e detratores de cada vertente e o paúra desenvolvida pelos bibliófilos ante a possibilidade de verem seus preciosos tomos virarem bytes de uma hora para outra permeiam discussões acirradas. Mas, pergunto: quantas pessoas já viram alguém utilizando um e-reader como se fosse um iPod ou coisa que o valha, num lugar comum, numa hora qualquer? Muitas pessoas podem responder que já viram, nos cafés da moda, nas livrarias mais cool ou em faculdades ou universidades. Ouvi falar de uma escola particular em que todos os alunos de uma sala comprar o iPad e utilizam em aula. Mas ouvi dizer, ouvi falar, ouvir é muito longe da realidade.

Pois ontem, domingo chuvoso, tive o prazer de me deparar com uma cena, no mínimo, inusitada: um leitor com seu e-reader na mão e (para rimar) encostado na porta do trenzão. Isso mesmo, num trem que faz o trajeto Luz-Francisco Morato. Estava eu, lendo meu Pornopopéia de bolso (de palhaço, como diz seu autor, Reinaldo Moraes, pelo tamanho do livrinho de mais de 600 páginas), já com o braço meio dolorido por segurá-lo, em pé, numa outra porta do trenzão, quando dou de cara com um rapaz empunhando tranquilamente seu e-reader. Eu, muito do curioso, cheguei a me aproximar para saber qual era. Um Sony. Só não consegui ver o que estava lendo, mas estava virando as páginas do seu brinquedo sem se importar com a chuva e o cheiro de borracha queimada dos freios do comboio. E tive uma invejinha, sinceramente. Primeiro, porque sou um fissurado em tecnologia e sinto que logo me renderei aos e-books sem o menor pejo. Segundo, a dor no meu braço só fez aumentar com aquela visão de conforto alheia. Apenas um peso para tantos livros e tantas páginas, uma vantagem real e inequívoca dos livros digitais, além de todas as outras peripécias que esses bichinhos fazem. Alguns têm até reprodutor de música, o que possibilita ler seu livro, escutar uma musiquinha e esquecer do mundo, como aquele moço havia esquecido algumas estações atrás.

Nesse momento, enquanto o apito e a voz fanha do maquinista anunciava a estação que eu desceria, tive uma certeza: os e-books serão uma realidade muito antes do que a gente pode imaginar.

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O pânico sobre os e-books

Sem motivo para pânico

Um novo estudo sobre e-books também ecoa na imprensa. Em virtude da pequena parcela de mercado dos livros eletrônicos, a mídia se espanta com os resultados da Börsenverein, a Associação Alemã de Editoras e Livrarias (“Vivemos em 2011 a hora zero dos e-books”).

O jornal “Frankfurter Rundschau” não reconhece nos números apresentados sobre o mercado de e-books na  segunda-feira passada (15 de março de 2011) comprovação alguma para um boom iminente dos livros eletrônicos. “De onde vem o otimismo da associação? Por um lado, das editoras e livreiros varejistas que esperam para os próximos anos triplicar o faturamento com e-books – de qualquer jeito. Por outro lado, de Hans Huck, porta-voz do Grupo de Trabalho para Publicações Eletrônicas da Associação, que espera para o quarto trimestre de 2011 um grande aumento de vendas na área de tablets, ou seja, iPad e companhia. Conclusão do jornal: o medo dos livreiros não teria fundamento, pois “de fato nada vai acontecer”.

Este é um trecho da notícia do site Buchreport, um site alemão sobre o mercado editorial, ao estilo do nosso PublishNews. E o estudo comentado corrobora os diversos comentários e prognósticos sobre o mercado livreiro, apesar de as bruxas estarem soltas no mercado livreiro norte-americano, por exemplo, com a quebra de algumas grandes e antigas livrarias. O fim do livro de papel pode ser inevitável, ao menos da forma que conhecemos, mas não é iminente, não deve assolar a humanidade agora e muito menos extinguir o objeto-livro. Esses dias dei uma passeada pelas seções de e-readers de algumas lojas e tive mais certeza do que nunca de que os livros eletrônicos ainda estão longe de conquistar uma massa de leitores no Brasil por um simples motivo: o preço. Do iPad, que custa entre 1.300 e 2 mil e poucos reais, ainda é um brinquedão com muitas funcionalidades, muito diferente do que se pode imaginar de um leitor de livros. Todos os distrativos de um computador estão lá: os jogos, as redes sociais e afins. Vi também outros leitores, como o iRiver Story, por 969 reais, o Cybook Opus, de 899 reais, o brasileiro Alfa da Positivo, por 700 reais,  e o mais em conta, o leitor eletrônico ER-7001, da Elgin, que pode ser encontrado até por 600 (apesar de sua tela colorida e capacidade para exibição de filmes e reprodução de músicas). Vejam esses preços. Isso explica por que o e-book não vai decolar tão cedo, pois, para gastar entre 700 e 1.000 reais num “negócio” que só dá para ler, os consumidores talvez prefiram colocar um pouco mais (ou fazer mais parcelas) e adquirir o tão desejado iPad (mesmo com a promessa de uma versão melhor do dispositivo da Apple no fim do ano). E a possibilidade do Angry Birds ganhar do Dostoiévski é muito real.

Por isso, ainda acredito que os fabricantes de leitores de livros precisarão reduzir seus preços e muito para conquistar a parcela leitora dos consumidores, aqueles que investiriam uma grana para ter um dispositivo exclusivamente para leitura. Pois quem lê não está muito interessado em ter praticamente o mesmo numa tela por um preço que seja equivalente à compra de uns 20 ou 30 livros. E os preços dos e-books ainda estão altos, o que leva as pessoas que realmente leem pensarem duas vezes antes de adquirir um leitor eletrônico.

De fato, o futuro é dos e-books, sobre isso não resta dúvida. Mas ainda há tempo para os livreiros se adaptarem à nova realidade.

Dicionário de deixar doido

Não sei se já comentei aqui, mas se já, comento novamente. Todo mundo já procurou aquela palavrinha mardita e teve uma grande dificuldade em encontrá-la. Tinha uma palavra que passava mais ou menos o que você deseja falar, mas sabe que existe uma bem melhor para bater o martelo.

Acho que o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa (Ideias Afins/Thesaurus), de Franciso Ferreira dos Santos Azevedo (Ed. Lexikon) pode resolver esse probleminha vocabular.

Este dicionário é dividido por temas e, como seu subtítulo diz, ideias afins e no seu início apresenta um quadro sinóptico das categorias, que são muitas, como Memória, Ação, Sobriedade, Gestão e por aí vai, que levam a números que trarão palavras que tem afinidade com esses temas. E as referências cruzam-se quase indefinidamente e por isso digo que é um dicionário de deixar doido: você encontra uma palavra e, se realmente for apaixonado por elas, verá outra, e mais uma que tenha relação, numa imensa rede que deixa a gente mais seguro ao passear pelas letras.

Não apenas para trabalhadores do texto, mas para quem deseja ampliar e melhorar seu vocabulário, esse dicionário é uma preciosidade. Já tem um tempinho de lançado (junho de 2010), mas, para muito (pelo que percebi) ainda é uma novidade. Vale a pena!

A dor e a delícia de ser Ivana

Ivana Arruda Leite é uma escritora ímpar. Escreveu a vida inteira, mas seus livros começaram a ser lançados recentemente, seus dois romances há pouco: Hotel Novo mundo, do qual já falei aqui, e o Alameda Santos, que preciso ler com urgência. Pessoas próximas que leram amaram tanto que releram ou querem reler e ver a Ivana mais de perto.

Ela deu uma entrevista deliciosa no blogue da Dani Arrais, o dont’ touch my moleskine, que me deixou mais encantado com a Ivana escritora e mulher. Mais dela você encontra também aqui.

Veja a primeira parte da entrevista:

Atualização:

A parte dois. Sobre a nova literatura e sobre a internê:

A literatura em falta

Parece estranho o título deste post, ainda mais com tantos comentários sobre a quantidade absurdamente grande de livros existentes e lançados todos os anos no mundo inteiro, mas aqui falo não apenas de literatura, mas de tradução de literatura no Brasil. Apesar de sermos um país que consome tradução de literatura muito mais do que a produz (e isso talvez seja um pouco a relação com o mercado, vendas e apoio bastante escasso [para não dizer inexistente] à criação literária) ainda ficamos devendo e muito para outros países, inclusive vizinhos, como a Argentina.

Estou bastante mexido com a leitura do livro do Umberto Eco que comentei aqui. Ele fala umas verdades incômodas, à primeira vista estranhas, mas verdades.

E, mexido, começo a tentar aplicar o que leio à nossa realidade brasileira: por que será que tantos bons autores por aí têm um ou nenhum livro publicado? E por que ótimos autores estrangeiros às vezes chegam apenas aos olhos de quem procura em revistas especializadas ou em coletâneas que dificilmente saem das estantes das livrarias?

Não tenho uma resposta à essa pergunta, talvez seja apenas uma provocação para quem pensa em literatura. Fui acometido por essa comichão provocadora ao ler um conto do alemão Daniel Kehlmann chamado Töten (Mortos), do livro Unter der Sonne (editora rororo), de uma poética pouco imaginável para o tema do vazio e da falta de perspectiva que levam à violência. Quando acabei de lê-lo, fui procurar o que havia traduzido do Herr Kehlmann e para a minha surpresa apenas um romance, A Medida do Mundo (Cia. das Letras, trad. de Sonali Bertuol) consta dos sites e livrarias. Em outros idiomas também acontece o mesmo: desconhecemos os grandes autores, os bons autores e aqueles que talvez não sejam tão bons, mas que o texto nos agrada. Ao passo que somos bombardeados por best-sellers inúteis, inócuos e intragáveis.

Acho que sei tudo que ouvirei depois desse post: o mercado é assim mesmo, as pessoas precisam trabalhar, deixe de ser ingênuo e aceite que literatura é mercado também. Não me afasto dessa visão em momento algum, muito pelo contrário, acredito que haveria público para esses autores, desde que houvesse um outro movimento anterior: o da valorização da leitura. Mas precisaria ser algo radical, utilizar todo o arsenal midiático, mercadológico e marketeiro para levar às pessoas a ideia de que ler, saber e conhecer é o máximo. Não fazem isso com o refrigerante da moda, com a roupinha da novela e com as bandas coloridas? Então…

Às vezes me pego assim, idealista. Mas fazer o quê? Enquanto isso, vou mergulhar no próximo conto do Kehlmann e imaginar como ficaria traduzido… e como meus amigos iriam gostar.

Assim falou Marcel Reich-Ranicki

Marcel Reich-Ranicki (c) picture-alliance

“Acredito que seja mais adequado, em muitos casos, decepcionar um autor a enganar centenas de milhares de leitores.”*

Aos 90 anos (completados em junho), um dos papas da crítica literária alemã reafirma seu credo profissional.  Estou com ele e não abro…

(* Ich glaube, dass es eher angebracht ist, in manchen Fällen, einen Author zu kränken als Hunderttausend von Lesern zu betrügen.)

Fonte: DW-World Podcasts – Bücherwelt.

Foto: picture-alliane, no site Germany-Info USA.

καλαμπόκι

καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.

Estrangeiro.

Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.

Do lado de fora.

Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polentaisso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.

Não era dali.

Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.

Lygia Fagundes Telles e Décio Pignatari no Letra Livre

Minha gente boa, 

Notícia do produtor e amigo Edu Nóbrega: dois ícones das letras brasileiras estarão reunidos num especial feito pelo programa Letra Livre, da TV Cultura: Lygia Fagundes Telles e Décio Pignatari. 

Lygia Fagundes Telles é paulistana e uma das grandes escritoras brasileiras. Seu primeiro livro, Porão e Sobrado, foi publicado com ajuda de seu pai. Em seguida ingressou na faculdade de Educação Física e no preparatório do Largo São Francisco. Traduzida para diversos idiomas, entre eles o alemão, o tcheco, o inglês e o italiano, foi agraciada com os maiores prêmios da literatura brasileira. 

Décio Pignatari nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, é poeta, ensaísta, tradutor, contista, romancista, dramaturgo e professor. Formou-se na faculdade do Largo São Francisco em 1953 e lançou, junto com os amigos Haroldo e Augusto de Campos, o movimento da poesia concreta. Também é conhecido como grande pesquisador da semiótica. Seu último livro é Bili com limão verde na mão

 

O evento será na próxima sexta-feira, dia 7 de maio, às 14h00 e acontecerá na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (Largo de São Francisco n° 95), de onde ambos são egressos. A apresentação e a direção é do Manuel da Costa Pinto, crítico literário, muito simpático e mediador bastante competente. Se estiver em São Paulo e quiser participar, basta mandar um e-mail para letralivre@tvcultura.com.br 

As vagas são limitadas, por isso, não perca tempo. 

Ah, e não esqueçam que a partir de hoje, todas as quartas-feiras, estarão no ar as entrevistas da seção Conversa entre Tradutores. Passe o cursor na barra ali em cima, clique no nome da tradutora ou do tradutor e confira! 

Foto Lygia: Agência RIFF
Foto Décio: Jornale
Foto Manuel: Portal SESCSP

A má literatura nas telas

Há pouco levantei a discussão se ler qualquer coisa era melhor que não ler nada (aqui) e recebi muitos retornos (e outras tantas porradas) que me foram muito válidos para pensar melhor na questão à parte do meu desabafo do post anterior. Foram tantas ideias que surgiram com a reflexão que não consegui até hoje formular uma resposta para a pergunta que eu mesmo fiz, deixando-a em aberto, para ser vista caso a caso. Ontem estava tomando um café com amigos e quando comentei que, por exemplo, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional virou um pontão de encontro, sempre cheia e intransitável. A amiga Karla disse: “Melhor que esse ponto de encontro seja numa livraria, ao menos ali as pessoas estão em contato com os livros, pegam, folheiam e talvez se interessem”.

Então a questão de má literatura é relativa? Outra vez ouvi de alguém que o que é bom para um pode não ser para o outro. Chavão certíssimo. E o que é seu e não é bom e, ainda assim, você publica? No Sabático do fim de semana, uma notinha comentou sobre um documentário chamado Bad Writing, produzido por Vernom Lott, que estreia em agosto e traz exatamente essa perguntinha: que bosta foi aquela que botei no papel?

Quem nunca teve essa sensação, que atire o primeiro calhamaço. Porém, muita gente não publica nadica pelo medo da crítica ou pela exigência altíssima. Quem conhece os cursos de Letras por aí sabem que a graduação talvez devesse ter em sua grade prática da escrita criativa, mas o que ela realmente faz é detonar a criatividade, formando excelentes críticos literários, todos com medo de ser criticados ou com um nível de exigência tão alto que não acham que seu próprio texto valha a pena.

Acredito que a premissa do filme seja um empurrão para aqueles que não se aventuram e dão a cara para bater:

Bad Writing é um documentário sobre um homem que deseja ser poeta e se põe em uma busca por respostas sobre a escrita  – má literatura, boa literatura e o processo que há entre esses dois pontos. Que ele vai aprender com algumas das estrelas do mundo literário que inspiram todos aqueles que já sonharam em criar arte?

Será que esse filme chega aqui? Ou teremos que apelar para as cópias alternativas?

Veja o trailer:

Fonte: Estadão, Caderno Sabático de 1.5.2010

Plágio Prodígio – O limite entre o meu e o seu

Helene, plagiadora?

As discussões sobre o plágio literário e sua inacreditável defesa sob o véu tecnológico de “mashup” ou “mixagem” de textos, imagens e afins são intermináveis na mídia e nos periódicos especializados. Soube de um dos casos mais alarmantes de 2009/2010 por meio do meu amigo Wladmir, alemão antenado na literatura, que me deu o sinal sobre o caso Axolotl Roadkill, romance de estreia da alemã  Helene Hegemann, uma garota que há pouco fez 18 anos e foi festejada como a nova estrela da literatura contemporânea alemã. Recebeu indicação de finalista do prêmio da feira literária Leipzig Buchmesse e figurou entre os best-sellers da revista Spiegel. Foi aclamada por muitos críticos de importantes revistas e jornais até ser pega no pulo: o blogue de Deef Pirmasens acusou Helene de reproduzir diversas passagens do romance do blogueiro berlinense Airen, Strobo, ou seja, plágio.

O plágio?

Talvez não seja o caso de negar o talento da moça, já que ela tinha no currículo antes dos 18 anos uma peça de teatro escrita e encenada, além de atuação (Deutschland 09) e direção (Torpedo) em filmes lançados no grande circuito na Alemanha. Porém, talvez ela tenha cruzado uma fronteira perigosa para alguém que, de qualquer forma, está em início de carreira. As apropriações não são uma novidade na literatura (Lavoisier e Chacrinha já disseram que nada se cria, nada se forma, tudo se transforma e se copia) e podemos ver que muitos autores imprimem em seus livros influências de seus mestres. Contudo estamos falando de copy and paste, ou seja, a reprodução integral de trechos (ou no caso dela, páginas) de textos alheios, delito tipificado nas leis de proteção ao direito autoral.

E ainda assim encontrou guarida entre críticos que, para não perder a razão, continuam a defender a genialidade da autora, alegando (como ela mesmo fez), que não plagiou, mas utilizou-se de técnicas de mixagem e  mashup de outra obra. Outra questão bastante pautada nesse caso foi a intertextualidade entre as obras, na minha opinião uma concepção equivocada, pois Axolotl Roadkill não conversa, mas “reproduz” muito do conteúdo de Strobo.

Helene pediu desculpas por não divulgar suas fontes, mas clama ainda que pertence a outra geração. Na sua declaração ela diz:

“São acusações de plágio – ou seja, como é da área jurídica, infelizmente não conheço bem. No âmbito do conteúdo considero meu comportamento e modo de trabalho totalmente legítimo e não me acuso, talvez porque venho de uma outra área, na qual se prepara para a escrita de um romance da forma que se dirige um filme, servindo-se de tudo que traga inspiração. Assim, não existe originalidade, mas autenticidade. E para mim tanto faz de onde as pessoas tiram elementos de todos os seus processos experimentais. O principal é para onde elas os levam.”

Uma das frases que aparecem no livro é “Berlim é uma mistura de tudo com tudo”. Frase que está ipsis literis no romance de Airen. Alega-se que esse é o espírito da nova leva de autores, a apropriação e a mistura de texto próprio e de outros do mesmo tema. De acordo com essa alegação, a originalidade e autenticidade não são mais termos análogos, mas quase antagônicos na construção das obras artísticas. Será que esse é o caminho? A apropriação indébita (ou até mesmo debitada) esvaziará a criatividade e a inventividade em prol da facilidade?

O plagiado?

Por enquanto, toda essa discussão vai render muitos livros vendidos e pagamento de royalties que irão para os bolsos dos advogados que defenderem a menina e, quem sabe, não comprarão os direitos de uso dos trechos. Airen não quer se meter nem ter seu nome expostos, a sua editora, a independente SuKultur de Berlim, analisa quanto a menina prodígio utilizou de seu produto e assim a polêmica cresce como massa de bolo. E o livro sai como pão quente das livrarias.

PS.: Dia 19 de abril passado saiu no PublishNews que a Intrínseca acaba de comprar os direitos de Axolotl Roadkill. A editora é famosa pelos best-best-ultra sellers crepusculares.
Fontes: Masverapoucoselixa, New York Times, Wikipedia, Buchmarkt.de, Spiegel-Online.de e Literaturkritik.de

Perdão

Conheciam-se há muito tempo, tanto que não lembravam se foi no boteco da esquina ou em algum churrasco nalguma laje que ajudaram a erguer. Alaor não teve tempo de pedir o último perdão, não teve último desejo, nada. Apenas chorou e borrou a calça e se mijou todo antes de tomar o tiro no meio da nuca, que de baixo para cima cravou a bala no meio dos olhos, sem atravessar a testa. Entrou ali numa ardência, numa comichão instantânea e um pouco antes disso ele não viu toda a sua vida passar, mas apenas se lembrou do momento em que conheceu Jacó, que agora apertava a boca do cano contra sua pele suada. Nesse momento queria tomar um último rabo de galo e vestir uma camisa. Que seria dele estampado no jornal sem camisa e só de calça, estatelado no chão do seu barraco com um tiro na cabeça? Queria pedir esse favor, que o assassino tivesse esse pudor, mas não teve coragem. Queria tomar um banho, tirar todo mijo e merda, quando o encontrassem já federia o suficiente, não queria misturar o cheiro da sua podridão com as suas necessidades.

Não sabia o que tinha feito para merecer aquilo. Jacó também tremia e chorava e murmurava filho da puta, numa ladainha de morte. Alaor queria perguntar o que tinha feito. Queria abraçar, conversar, dizer palavras de reconciliação, mas a única coisa que conseguiu repetir antes de tomar o balaço nas fuças foram nãos. Nãos roucos, incrédulos, nãos suplicantes e tantos outros nãos que embrulharam seu estômago. Jacó não se permitia lembrar. Não se deixava pensar, pois queria a vingança de toda uma vida na ponta do berro.

Conheciam-se há tanto que não se lembravam do primeiro aperto de mão, do abraço nas vezes que o time do coração dos dois ganhara e do choro doído de Jacó quando morreu sua mãe lá no Ceará e ele não pode ir para chorar e beber a morta. Natal e réveillon no barraco de um ou de outro, regado a cerveja e risadas, a forró e amigo secreto. Presentinhos baratos, mas de coração, viu? E no fim da noite, de tantas noites de bebedeira juntos, Jacó e Alaor amparavam mágoas e também brigavam, pois se importavam um com o outro.  Quando Alaor resolveu estudar teve o apoio de Jacó, quando Jacó quis ver o mar pela primeira vez foi com o amigo Alaor e ambos riam e pulavam como crianças as ondas ralas da Praia Grande. Nunca mais vou esquecer esse dia, gritava Jacó para Alaor que bebia sua cerveja no quiosque.

Mas naquele momento não havia mais grito de alegria. Queria pedir um último beijo, daqueles que só Jacó sabia dar, brusco invadindo a boca com a língua sedenta, chupando e mordendo sem dó algum. Queria dizer a verdade. Mas não conseguiu explicar quem era o homem que abraçava naquele ponto de ônibus.

Mi camino, cariño

começou. na hora da saída o vendaval sem hora para acabar e eu num minúsculo guarda-chuva eu num canto da cidade-monstro engolido em suas entranhas. estranho como a chuva parece brotar do chão escalando a canela o joelho as coxas numa tara gelada. como espadachim de florete em punho esgrimo as grossas gotas dessa chuva revolta e não há mais como fugir. sem toldo, lenço ou documento sigo o meu caminho para casa como quem vai para o cadafalso, de cabeça baixa e olhos lacrimosos, músculos retesados num frio espinhento depois do calor de asfalto derretido. quarenta-e-um-dias-sem-parar. sinto o mofo entre as páginas dos livros, entre as teclas, na virilha, atrás da orelha, o ar é lodoso. as ruas desaparecem depois das dezoito horas, são rios, riachos, ribeirinhos. Bach. na avenida da consolação nem a piedade dos motoristas alivia a chuva misturada com esgoto. e leps. leptopis. leptospirose.
olho. a janela embaça com meu hálito. ofego e afago meus braços tentando me aquecer, mas aquela visão da chuva não deixa. já estou em casa. tiro devagar a roupa colada ao corpo, quase sinto a necessidade de ter uma tesoura nas mãos e cortar a calça jeans da barra até a cintura e descolar do corpo aquele pano azul. tudo é umidade. e suor. e saliva. a nudez me liberta, mas o frio é como uma chibata. até que a chuva para. e o chuveiro chove quente sobre a minha cabeça. e tudo esquenta e a lua aparece num prenúncio de um belo dia seguinte. que fechará com um vendaval sem hora para acabar e eu num minúsculo guarda-chuva no quadragésivo-segundo-dia-sem-parar de mofo entre os rios de leptospirose.

(Texto feito especialmente para Ana Rüsche)

Pombas

Diferente do personagem aposentado de Patrick Süsskind, admiro as pombas. Principalmente aquelas sujas, cinzentas e encardidas. Como sofrem essas pombas, trazidas para dar um air de Paris para as recém-nascidas metrópoles brasileiras, que hoje infestam nosso ar e trazem apenas doenças, é o que dizem. Aos milhares elas povoam forros e se empoleiram nos fios. Quando um está desencapado, coitada, perde a vida ou até pior, apenas alguns dedos. Já viram uma pomba com seu pezinho mutilado pela corrente elétrica de milhares de volts que transitam pra lá e pra cá para o nosso conforto?
E aquele personagem do Süsskind não temia nada em sua incipiente velhice. E por uma única pomba que pousara inocente na janela que dava de frente para a porta de seu apartamento ele não conseguia sair para a rua. Uma espécie de paralisia o tomou, coitado, e assim ficou num misto de angústia e pavor. Até que a pomba foi embora e ele pensou que haveria paz, mas ela deixou sua marca, seu escremento verde esmeralda estava ali para representá-la. E ele não saiu.
E eu vejo da minha janela o voo de uma pomba sob a garoa íntima, embaixo dela o mundo acontece, a ambulância leva seu paciente, os carros transitam se estranhando, algumas pessoas abrem guardas-chuva, outras deixa aquilo que é quase sereno acalmar o ânimo de um sábado quente. Não é uma chuva de verão, apenas uma garoa sem estação, perdida em meio aos prédios e banhando o voo daquela pomba, o passaro urbe. Nas costas dela havia um arco, seu bico era a ponta da flecha que meus olhos acompanharam com admiração. Agora eu posso sair de casa, pois ela já foi…

Hoje tem goiabada? Tem sim senhor! Hoje tem marmelada? Tem sim senhor…
E hoje tem a lembrança do rosto pintado de branco, aquela triste imagem de um rosto desmaiado, fantasmagórico. Com o lápis, o traçado forte do que se precisa mostrar, escondendo a realidade. Entre as preferências nacionais, não há mais a maquiagem alvo-rubra e a peruquinha torta no topo na careca. O chapéu e o suspensório deixaram de ser engraçados e deram lugar a grandiosos espetáculos de luzes e trapezistas pintados.
Cadê o palhaço?
Cadê os seguidores de Arrelia, Carequinha, Pururuca? Onde está o sorriso que despontava no rosto de todas as crianças com a brincadeira, a inocência e até mesmo a desgraça do palhaço choroso, pois tomou um chute na bunda? Perdidos em circos de beira de estrada ou rumando para outras gracinhas, ninguém mais enxerga o palhaço com toda a grandeza dessa personagem.
E o palhaço o que é …?
Desempregado, triste como um pierrô sem a sua colombina, sem nada para se orgulhar e obrigado a ceder seu lugar de divertidor para um punhado de piadinhas que envolvem política ou sexo nas televisões. Engolido pela perversidade da vida moderna que não abre espaço para o singelo, simples e delicioso mundo da palhaçada, sem dubiedades ou intenções, apenas palhaço.
Lembro-me do livro O ponto de vista de um palhaço, de Heinrich Böll. A derrocada daquele palhaço é a história melancólica da vida de um artista de quem foi tomada a arte por diversos motivos. E que motivos temos para tirar a felicidade de nossos mestres da comédia de erros? Será que os palhaços ficaram ultrapassados e por isso os perdemos de vista? Perdemos aquela inocência difícil de ser reencontrada?
E o picadeiro vazio faz a bailarina chorar…

O homem do peito listrado

O homem do peito listrado passeava tranquilo pela praça e ninguém imaginava como era diferente. Ele se misturava às pessoas que o cumprimentavam com bons-dias às vezes sisudos, muitas vezes efusivos, pois era belo o homem de peito listrado. Mas quando ele tirava a camisa, todos se horrorizavam e tinham nojo, não se aproximavam e isso entristecia muito o homem de peito listrado.
Um belo dia, o homem encontrou seu amor de cabeça aberta, que não apenas aceitava o homem de peito listrado como o ajudava a cuidar das feridas abertas. Os machucados não eram causados pelas listras inchadas em seu peito magro, mas pela indiferença e pelo preconceito que sofria sempre que contava a alguém sobre aquela doença. Dizia que beijos, abraços e carinhos não faziam ninguém ficar com o peito listrado, mas caso o afeto passasse desse limites, apenas precisavam se cuidar, se precaver, com meios que todos sabiam quais eram. O amor de cabeça aberta e o homem de peito listrado andavam sempre lado a lado, faziam os programas que todos os outros faziam, divertiam-se como todos, da mesma forma, e se amavam de forma intensa, com proteção, mas intensidade.
Um belo dia o homem de peito listrado morreu. E o amor de cabeça aberta não sabia o que fazer. Se desesperou, pois nunca tivera uma relação assim, tão bonita. Mas o amor de cabeça aberta já esperava por esse triste fim. E todo dia 1º de dezembro o amor de cabeça aberta tenta conquistar mais e mais pessoas para a sua causa, tenta se espalhar por todos os cantos e cada vez mais as pessoas que antes não suportavam o homem de peito listrado lembram dele com apenas uma fita vermelha. Essa fita vermelha significa que o amor de cabeça aberta vence quando o coração também está aberto.
Previna-se. E ame. Feliz dia do combate à AIDS.

Desaforo I

Quando dei por mim, o espelho já estava estilhaçado. Os nós de meus dedos eram porcos-espinhos de plástico e vidro e nem eu sabia que tinha essa força, furei o armarinho vagabundo acertando um frasco de mertiolate que ardeu quando estourou entre o médio e o anular. Nunca havia esmurrado a cara de ninguém, resolvi fazê-lo na minha própria, no espelho, pois não aguentei meus olhos cínicos e um sorrisinho sarcástico no canto da boca como se me dissesse “você é um bosta”. Depois de mijar e sentir o cheiro rançoso de cerveja velha subir nos vapores úricos, resolvi me encarar como nunca havia feito. Foram alguns segundos ou algumas horas, sei que consegui chegar bem perto do fundo de poço que são meus olhos. Lamacentos, lodosos, imundos. Não aguentei a testa franzida e a sobrancelha altinha fazendo firulas, trêmula como se gargalhasse do seu dono. “Idiota” era o que eu ouvia do fundo dos meus olhos. Mas o que me fez socar meu próprio nariz no espelho não foi a minha zombaria. Foi pelo que eu sabia estar além de meus olhos…

El Fuego en SESC

Hoje fui, atrasado por uma aula, à oficina de Literatura na Web, com a querida Andréa del Fuego, no SESC Vila Mariana. Não conhecia o prédio da rua Pelotas, ali perto do metrô Ana Rosa, fiquei mesmo surpreso. No laboratório de Internet Livre, entre fotos e criação de blogues, a literatura correu de boca a boca entre os participantes. Imagens, discussões, risos e opiniões fizeram com que a tarde, que acabaria às 18h00, se estendesse uns 15 minutos no SESC e um pouco mais depois. Entre os exercícios de observação de fotos e criação, saíram dois microcontos. Vejam só: 


SOBRE A CHUVA
despedida
Naquele dia que despencava ela foi. Com uma mala marrom desengonçada e as crianças arrastadas pelas mãos. Caminharam pela areia, sem olhar para trás e eu, do trailer, via os três cada vez mais distantes. João, o menor, tropeçou e seu caminhão, presente do natal passado, foi ao chão, quebrando carroceria, soltando rodas e cacos de plástico. Apenas nesse momento ele olhou para trás.


SOBRE A DOR
da vida
Você nunca vai saber quanto eu poderia ser sua. Te vendo meu corpo e isso basta.

Dia 31 tem mais. Até lá…