Novo velho fim do romance

Bolivar Torres, no Caderno B do Jornal do Brasil de domingo passado, trouxe à baila novamente o velho anúncio, feito aos quatro ventos a cada par de anos, na primeira frase de sua matéria:

O romance está morto.

Em um livro recém-lançado nos EUA e sem previsão de lançamento por aqui, David Shields, best-seller reconhecido (no Brasil, seu último título é A Única Certeza da Vida é que Um Dia Você Vai Morrer, da Ed. Intrínseca, trad. Beatriz Horta), declara que esse formato de romance que conhecemos é inviável em 2010, já que a realidade clama para ser revelada. Em seu site, ele deixa alguns trechos desse livro, chamado Reality Hunger: a Manifesto (Fome de Realidade: um Manifesto) e um deles resume o que pretende com o seu grito:

Minha intenção é a de escrever a  ars poetica para um grupo florescente e interrelacionado (mas desconectado) de artistas em uma mutiplicidade de formatos e mídias (ensaio lírico, poema em prova, novelas com colagens, arte visual, filme, televisão, rádio, arte performática, rap, comédia stand-up, grafite) que incutem partes cada vez maiores da “realidade” em seus trabalhos. (A realidade, como Nabokov nunca se cansava de nos lembrar, é uma obra que não tem sentido algum sem aspas.)*

Um grito em direção ao novo? Talvez. Não desfaço de forma alguma de sua revolta, pois ele se fundamenta numa trama de citações e apropriações (só na primeira parte figuram Zola, Tchekhov, André Breton, Fiztgerald), conseguindo provar que a realidade precisa ser melhor explorada e as invenções não são mais bem-vindas. Postula que o público pede para sentir cada vez mais que aquela história que lê se passa ao seu lado. Além disso, se vale de algumas visões de plágio, mash-up e afins. A matéria de Bolivar menciona, inclusive, o caso de Helene Hegemann, da qual falamos aqui tempos atrás. Num artigo para a versão on-line do jornal The Huffingston Post, ele declara as bases de seu pensamento na renovação da visão sobre plágio, apropriação e afins:

Meu novo livro, Reality Hunger: A Manifesto, é embebido pela apropriação consciente, autoconsciente e evidente. Eu e muitos outros escritores, músicos, artistas visuais e advogados do copyleft contemporâneos estamos tentando pensar em maneiras novas, diversas e (acreditamos) empolgantes sobre citação, referência, apropriação e plágio. Tentamos reconquistar as liberdades que escritores por milênios tinham por certas, mas que acabamos perdendo.*

Não sei o quanto e se compartilho dessa visão, tendo em vista que a realidade e a ficção estão cada vez mais próximas e os absurdos do dia a dia provam que tudo que escrevemos um dia já aconteceu ou já passou pela cabeça de alguém. E a morte do romance já foi anunciada tantas vezes que talvez (lanço mão desse advérbio novamente, pois o futuro está lá e não aqui) esse seja mais um alarme falso. Muda-se o formato, o suporte, mas a literatura e seu poder inventivo ainda tem grande força, tanto artística quanto mercadológica, e para que essa mudança tomasse vulto seria preciso um imenso movimento, e esse manifesto de Shields pode ser um passo, prematuro ou vanguardista, rumo a essa nova realidade. Contudo, não deixa de ser interessante os postulados e a criatividade da qual se vale o autor para montar seu ‘não’ aos velhos moldes. E o futuro, aquele que está lá, dirá quem é quem.

(Agradeço a Denise Yumi pela dica)

* Seguindo a linha de pensamento dele, copiei e traduzi, em total louvor ao copyleft, um trechinho do livro tirado do site oficial e parte também da matéria do jornal.
Foto do autor: Random House.

O que vai acabar primeiro?

O livro de crônicas O Romance Morreu (Cia. das Letras) abre com o texto que dá título à coletânea, no qual Rubem Fonseca brinca com os diversos anúncios de que a literatura estava fadada ao desaparecimento ou havia perecido com os adventos tecnológicos dos mais diversos, desde o Ford T até a Internet e chega à conclusão (ou a hipótese) de que na verdade quem estaria em vias de escafeder-se era o leitor, não o escritor. Esse resiste com bravura no seu desejo de espelhar o mundo em suas páginas. Depois dos anúncios divertidos, o autor dispara dados tristes:

Uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura no meio universitário chegou a conclusões espantosas: trinta e seis por cento dos pesquisados nunca, repito, nunca haviam lido sequer um livro de ficção. Uma minoria lia um ou dois livros de ficção durante o ano. Um número grande lera apenas um livro a vida inteira. Estamos falando de universitários.

Essa foi a deixa para que Tzetan Todorov, historiador e ensaísta búlgaro, entrasse em cena: A literatura em perigo (DIFEL) é um livro pequeno, mas com um tema poderoso, numa abordagem que não deixa por menos para explicar as razões pelas quais as pessoas não se sentem atraídas pela leitura. Ele, filho de bibliotecários, sempre esteve às voltas com os livros e, sob o jugo da ditadura comunista na Bulgária, foi obrigado a se dedicar à linguística e ao estruturalismo, apesar de pender para estudos de caráter mais ideológico (totalmente proibidos e vigiados pelo regime). Ao chegar na França para um trabalho acadêmico, percebe que o currículo “ocidental” é composto não por leituras, mas pelas provas e obrigações baseadas na leitura, ou seja, ler não como algo prazeroso, mas um “castigo” ou uma espécie de “trabalho forçado”. A literatura torna-se algo importante quando compreendemos seu poder e Todorov diz num trecho:

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.

E quando se compreende isso um mundo novo se abre. Hoje vemos iniciativas governamentais e privadas cada vez mais intensas, como rodas de leitura, visitas de escritores a cidades mais distantes, feiras, festivais e muitos outros acontecimentos. Porém os livros ainda são objetos caros, inacessíveis para muitos, um luxo ainda considerado desnecessário – quando bem deveriam vir, como já disseram, na cesta básica -, por isso ainda falta muito para chegarmos a um nível mínimo e bom de leitura. As pessoas costumam fugir dos livros, evitá-los, como Asmodeu de um bom crucifixo, mas os motivos são diversos, camuflados na famosa frase: não gosto de ler. Tem gente que não gosta mesmo, ponto final. Mas muita gente só precisa de uma exposição mais forte e pumba, taí mais um leitor.

Por isso, não desanimemos, escritores: seja para quem for que escrevamos, ainda há chance de virarmos a mesa e ver esse terreno árido se transformar num manancial pululante de leitores para todos os gostos.

Levanta a poeira…

Nelson de Oliveira é um escritor e tanto. Já falei dele diversas vezes por aqui, rasguei muita seda, mas não é à toa: o cara tem a manha. Acabei de ler seu último livro, Poeira: demônios e maldições (Ed. Língua Geral, 399 p.) e fiquei mais uma vez intrigado com o domínio que ele tem da sua ferramenta, quase arma, que é a escrita. A surpresa é um elemento chave para Nelson, bem como o detalhamento, em especial neste livro, com as inúmeras referências a filmes, outros livros e outras artes. O bate-papo com escolas já tradicionais da literatura dão um tempero especial, do realismo fantástico à fantasia distópica.

A história se passa numa realidade alternativa na qual os livros são um grande incômodo: há livros em todos os lugares, em todos os cantos. Há um controle feito por imensas bibliotecas e cada vez mais elas são construídas para suprir a necessidade de espaço e organização dos tomos. Decretos contra novas impressões já foram baixados e tudo parece sobre controle.

Até que novamente começaram a surgir livros clandestinos, reedições e novas obras, sem que ninguém saiba de onde vieram. Fred, um bibliotecário de uma cidade sem nome, ficou transtornado com a chegada de caixas de novos livros como se surgidos do ar em sua repartição. Para resolver essa pendenga, surge Pedro Penna, um engenheiro que aparentemente chegou ali para dar um jeito na situação. Porém, os livros não param de surgir e Fred começa a enfrentar problemas não apenas na sua vida profissional, mas sua vida pessoa vira um inferno: seu casamento com Estela começa a ruir, sua relação com a filha parece distante e tudo fica cada vez mais estranho naquele mundo. Criaturas medonhas rondam a cidade, os depoimentos sobre elas não levam a lugar nenhum, pixações surgem como os livros, de lugar nenhum, avisando que o Mal está presente.

No mínimo surpreendente. A sensação de estranhamento e a ambientação absurda, beirando (e às vezes ultrapassando) o surreal, invadem as páginas de Nelson como em outros livros (veja esse post aqui, sobre O oitavo dia da semana). Este livro é uma aula para quem gosta e se aventura pela escrita, em diversos sentidos.

Boris Schnaiderman

Não me lembro quando li pela primeira vez uma tradução feita por Boris Schnaiderman, mas sei que foi uma experiência fantástica, pois declaro sem pejo que sou fã. Ucraniano naturalizado brasileiro, o professor e profícuo tradutor do russo dá uma aula em suas obras traduzidas dessa língua tão distante. Um dos pioneiros na tradução desse idioma no Brasil, quando as obras daquelas paragens chegavam apenas por intermédio do francês, do espanhol e mais tarde do inglês, ele também foi expedicionário na Segunda Grande Guerra, cujas experiências são retratadas em seu livro Guerra em surdina (Cosac Naify), além de ter iniciado mais tarde o curso de língua e literatura russa na USP.

Numa entrevista para o Zero Hora/Blogue Mundo Livro (tuitado pela Denise Bottmann) ele comenta brevemente sobre a sua carreira e suas impressões de guerra. Num dado momento renega de certa forma traduções anteriores de suas obras, dizendo insatisfeito com elas. Comentei na semana passada num post sobre a incompletude de uma obra literária e, por conseguinte, sobre a infinitude de uma tradução. Pois tanto a escrita como a reescrita tradutória são maneiras de expressão que amadurecem muito com o passar do tempo. Às vezes, e isso acontece com uma frequência inimaginável, o tradutor que pensou neste exato momento numa solução satisfatória para o seu enrosco tradutório conseguirá uma solução melhor daqui dez minutos. Ou após dez longos anos. Tempos depois percebe-se que aquela expressão ficaria melhor em outro ponto do texto, aquele verbo não tem a força de um outro, ou um deslize pode mudar tudo e gerar relatos engraçados ou histórias menos divertidas. Mas em geral está fora de nosso alcance, depois de entregue o serviço, a possibilidade do ajuste.

Apesar de curta, a entrevista com Bóris Schnaiderman mostra uma postura controversa, que pode deixar os leitores das traduções prévias com uma sensação estranha. Com o título O homem que retraduzia, a matéria mostra o lado perfeccionista do tradutor, cuja versão lançada recentemente de Khadji-Murát, de Liev Tolstói, é a quarta do mesmo título feita por ele. E se ele retraduzisse A morte de Ivan Ilitch (Ed. 34), também do Tolstói, como eu, leitor, me sentiria com a obra que tanto gosto remexida?

Como comentado na matéria, apesar de seus quase 93 anos e do reconhecimento da excelência de seu trabalho com prêmios e outros loas de suas obras, “continua refazendo o trabalho de uma vida inteira”. De qualquer forma, vale a pena ler a entrevista e saber um pouco mais sobre esse mestre.

Plus: primeira parte do encontro com Boris Schnaiderman no Tertúlia: Tradutores, evento realizado em 2009 pelo SESC Pompeia com diversos tradutores (em 11 partes no Youtube ou integral no link acima).

Todas as famílias felizes se parecem…

Tenho me aventurado pelo mundo dos quadrinhos há algum tempo, sem muito conhecimento da causa, mas com um ótimo preceptor que é o Tiago Soarez, me guiando pelos meandros das graphic novels, os quadrinhos com forte apelo literário e que discutem questões diversas, onde as personagens não são heroicas e os dramas são bem humanos. Sem fugir desse lastro de quadrinhos modernos onde bem se encaixam Fun Home, Jimmy Corrigan e outros, Umbigo Sem Fundo, escrito por Dash Shaw aos 23 anos (e traduzido em 2009 por Érico Assis para a Cia. das Letras), tem as suas peculiaridades sem, entretanto, fugir do epíteto de graphic novel.

Uma história normal que tem de certa forma como ponto de partida a célebre frase inicial de Anna Kariênina*, de Liev Tolstói: “Todas as famílias felizes se parecem, cada a família infeliz é  infelizes à sua própria maneira”. Dash começa traçando os diversos tipos de família até chegar na sua própria, os Loony, que à distância parece uma família normal. Até que Maggie e David Loony resolvem se separar após quarenta anos de casamento. Dennis, o filho mais velho, não se conforma com a separação e chega à beira da loucura, deixando de certa forma sua mulher, Aki, e seu filhinho à deriva. Claire, a filha separada do meio, esconde num jeito descolado sua face de mãe apavorada, sempre tentando proteger sua filha adolescente, Jill. Peter, o caçula, é o reflexo da disfunção familiar: cineasta fracassado, ele é o desencaixado da família Loony, tanto que é representado durante todo o livro como um sapo (apenas revelando seu rosto em uma situação-chave). É como ele se sente, um sapo, do qual todos mantêm uma distância saudável, alguns acham engraçadinho, mas no fundo querem se livrar dele. Além disso, sofre de uma insegurança crônica que o paralisa quando precisa tomar alguma decisão.

Todos essas personagens pertencem ao que se convenciona chamar no livro de ‘Família Loony Buraco Negro’, na qual “cada membro é uma entidade flutuante e separada dos outros membros”.

Depois de ter lido Jimmy Corrigan com toda a sua arte e ainda encantado com o delicioso e colorido delírio de Chris Ware, comecei Umbigo Sem Fundo com certo desapontamento. Não se podem chamar os desenhos de Shaw para o livro de bem feitos, ao contrário, podem mesmo ser chamados de toscos. A feiura dos quadrinhos é compensada por uma força narrativa incrível e talvez os traços descuidados tenham uma influência grande sobre a nossas recepção da história. De forma irônica (e não por não conseguir retratar as ações nos quadrinhos) Shaw indica os movimentos das personagens, como ‘sobe escada’ ou ‘abana, abana’. E há mais um belo indício de que essa hipótese não está longe de ser verdade: confira seu mais novo projeto, Body World, com desenhos bem melhores que os lançados em UsF. Mas se houver dúvida de que David saiba desenhar, não há dúvida de que ele sabe como usar a palavra e a imagem juntos, em cortes e continuações quase cinematográficas e a carga literária necessária para fazer um bom livro. Mais uma experiência intrigante com quadrinhos que divido com vocês. Espero que vocês se aventurem um dia desses também. Vale a pena!

Imagem do autor: New York Books Author Profile
*Tradução de Bóris Schneiderman, Cosac Naify.

Queima devagar

De tempos em tempos desenvolvo uma fixação por alguns autores e me dedico a eles durante algum tempo com mais ou menos afinco. Fernando Sabino, Jorge Amado, Thomas Mann, Milan Kundera foram alguns deles e o último, Sándor Márai, me conquistou com sua prosa elegante e seus temas bastante inquietantes. Depois da leitura de Rebeldes, entre um e outro livro começado, resolvi ler uma das obras mais conhecidas de Márai: As brasas (Cia. das Letras, tradução da versão italiana de Rosa Freire d’Aguiar). Gostei bastante desse livro renegado pelo autor (ele o considerava muito romântico), tanto pela sua história como pela escrita, de uma fluidez deliciosa. As brasas tem como tema a amizade, a honra e a verdade. A amizade de Henrik e Konrad, o primeiro um jovem rico e de futuro promissor e o segundo, sem a mesma “sorte”, é descrita tendo como pano de fundo o bem-descrito Império Austro-Húngaro do início do século XX, e essa relação entre os dois jovens deixa marcas inesquecíveis. Depois de quarenta e um anos desaparecido, Konrad resolve visitar Henrik e tem início uma instigante lavagem de roupa suja entre amigos. Henrik interroga Konrad por seu desparecimento após um acontecimento fatídico e por todo o rastro que ele deixou na vida do amigo após seu sumiço, dissecando tão profundamente a amizade e os sentimentos que quase não sobra espaço (ou motivo) para o amigo se manifestar. 
No fim do livro há um pequeno ensaio da tradutora para o italiano, Marinella d’Alessandro, contando um pouco da vida de Márai e da inspiração autobigráfica da qual o autor sempre lança mão em suas obras. A próxima leitura máraiana? Confissões de um burguês.
Aliás, uma curiosidade: Márai escreveu um texto sobre Canudos (Veredicto em Canudos), uma de nossas guerras que mais impressionou os estrangeiros, talvez pela sua improbabilidade. Sándor Márai (até o momento) vale a pena!

Pornografia sem rodeios

Dificilmente eu leio um livro numa tacada só e foi o que aconteceu ontem com Sade em Sodoma, de Flávio Braga (Ed. Best Seller – Col. Placere, 164 p.), apesar de o livro ser bastante pesado e ter feito com que eu parasse e respirasse fundo antes de encarar o próximo capítulo. Aliás, um dos trunfos do livro são os capítulos curtos, de duas, três páginas no máximo, o que torna todas as descrições pornográficas, escatológicas e sádicas mais palatáveis. Acredito que todos os livros da coleção sejam assim, como também são todos inspirados em autores da literatura erótica e/ou pornográfica universal, como Boccacio, Masoch, Petrônio, Casanova e outros.
O autor inicia o livro com uma brevíssima apresentação do marquês de Sade, um dos ícones da pornografia universal e autor de 120 Dias de Sodoma ou A Escola da Libertinagem. Porém, marquês de Sade será apenas o interlocutor dos narradores dos 120 de uma orgia libertina: Mathieu, o assassino que se torna o cão de guarda dos chamados “amigos” (os libertinos mais terríveis da época) e madame Duclos, prostituta que iniciou Mathieu na vida de prostituição e perversidade. O início do livro dá um sabor de humildade ao personagem de Mathieu que rápido desaparece, fazendo com que se forme na nossa cabeça uma verdadeira imagem do rapaz: violento, vil, com pouca hombridade, perfeito para os objetivos dos libertinos. Ele conta o que presenciou nos 120 dias do grande evento de sua vida, a orgia de quatro meses que o marquês de Sade descreveria mais tarde em seu livro. Flávio Braga não se engasga ao desfiar um rosário de putarias das mais perversas, escatologias e atos de mutilação que ultrapassam o insano; contudo, esses atos são bem alinhavados com um bom texto, rápido e inteligente, que por vezes fica cansativo, o que o próprio narrador confessa em diversos trechos, demonstrando que putaria é putaria, só muda o cenário. E os buracos (naturais ou feitos artificialmente). Agora vou procurar os outros da coleção, pois esse valeu a pena.

Mulheres de louça

Acabo de ler o pequeno livro Matriuska (Ed. Iluminuras) de Sydnei Rocha. E antes de lê-lo, já havia ouvido falar dele. E antes disso, já havia visto e até conversado com o autor numa mesa de café. E, ainda, o vi numa entrevista num sábado e no domingo o encontrei pessoalmente na Balada Literária. E daí tive a confirmação de quem era o autor da Matriuska, aquele cearense que um dia havia encontrado numa livraria com Marcelino Freire e com eles tomado um café. É um livro sobre mulheres, sem vitimização ou demonização do sexo feminino, mas trazendo realidades das mais duras de mulheres reais, de carne e osso e ventre, enfrentando com coragem novas e velhas realidades, com seus sonhos rotos e aspirações úmidas. Contos curtíssimos, de duas ou poucas páginas a mais, com títulos intrigantes (matriuska, déjà vú, googlemap, twitter, : [é, são dois pontos]) trazem pequenos universos explorados com a lente microscópica de Sydnei, num trabalho de experimentação, artesania do sentido e das sensações. São diversas influências que pululam nas páginas, mas o que mais conta é a ousadia de Sidney quanto as frases secas, cortantes, imediatas. Não há lenga-lenga, blablablá, apenas aquela coisa trevisanesca, joyceana, uma espiral de palavras no qual não dá para entrar e sair ileso. Como a boneca russa que dá nome ao livro, uma sequência de mulheres diferentes, mas iguais. Piração, pode apostar. Além disso, o trabalho gráfico é de primeira. Então, para fechar, a velha frase: vale a pena!

Sumiço

Quando fico muito tempo sem vir aqui me sinto estranho. Um pouco em dívida com minha escrita. Pois ganho a vida escrevendo pelos outros, traduzindo tecnicidades infinitas, tão longe do literariamente desejado. E c’est la vie (en rose) que levo, entremeios e entretantos, buscando me alimentar. Por exemplo, um dos últimos banquetes que tive, encabeçando a lista de melhores livros de 2009 para mim foi o Hotel Novo Mundo (Ed. 34), da Ivana Arruda Leite. Texto enxuto, direto, lancinante. Poderia ter 300, 500 páginas, mas bastaram cento e poucas para ficar redondinho. Há gente que diz que o texto é fraco perto do que a Ivana pode fazer com contos. Mas são estilos diferentes, enfoques diversos. Como diz Cortázar, o conto ganha pelo nocaute, o romance por pontos, e isso Hotel Novo Mundo faz muito bem. A história de Renata, paulistana que mora no Rio há anos e foge de sua vida de riqueza e glamour para recomeçar sua vida na boca do lixo paulistana, num hotel da região da Luz, conhecida por antigamente abrigar a cracolândia, é contada em sete dias. Cada capítulo, um dia da semana, onde se sabe mais de Renata e das personagens que a cercam: Divino, o carioca que é transferido para a filial do banco em São Paulo, Genésia e Leão, donos do hotel, Cesar, o ex-marido de Renata, Margô, ex-mulher de Cesar, Zema, pai Lauro, Ritinha… são pinceladas em cores vivas de muitas pessoas que conhecemos, de gente com quem convivemos ou ao menos já vimos. Cada um tranquilamente daria mais um pequeno romance, o que prova que talvez o texto poderia ter mais páginas. Mas a história é contada com tamanha paixão que a gente se satisfaz com o que ela dá, deixando a imaginação preencher gostosamente as lacunas que talvez a gente ache, fuçando, as entrelinhas do texto. Texto ágil, vibrante, colorido. Uma verdadeira delícia, mesmo. Vale a pena!
Quem quiser conhecer mais sobre a Ivana, é só entrar no http://doidivana.wordpress.com/, o blogue da moça.

Às vezes a gente se impressiona

Há pouco acabei de ler um livrinho chamado A vida é sempre assim às vezes (Editora Arte Escrita), do jornalista e professor Wladyr Nader. Não se guie pela palavra livrinho, pois a usei somente porque é um livro de dimensões pequenas, mas de conteúdo impressionante. O mote da história não surpreende tanto: um desempregado nas décadas de 60/70, casado e com duas filhas, consegue um emprego numa fundação que tem como objetivo articular frentes do partido da posição na época para não perder terreno nesses Brasis desde sempre desencantados. Porém, surge uma trama de amores platônicos, intrigas políticas com um pano de fundo bastante comentado, mas nunca aprofundado, que é nossa época de chumbo. No livro tudo é velado, uma visão provavelmente de quem viu de perto e sofreu com a repressão da ditadura.
Capítulos curtíssimos dão um ritmo surpreendente à história aparentemente comum e a visão de mundo daquela personagem é agudíssima, revelando a máscara que ele também carregava na vida, de homem humilde e sem muita instrução. Funcionário exemplar para a fundação, visado por muitos, mas que não se entrega, apenas segue as ordens e garante o seu. A vida de verdade, corrompida de verdade até as últimas consequências.
E a sucessão de fatos históricos que entremeiam a narrativa a transformam em um retrato de uma época tão marcante para todos nós, até mesmo quando são relatos do cotidiano de uma família de classe média baixa daquela época. Luis batalha o pão, com ajuda de Rosário e sua venda de perfumes e a felicidade da família de margarina às vezes surge para mostrar que apesar de cruel, a vida às vezes passa mel em nossos lábios para que possamos continuar a batalha. E depois de acompanhar como Luis ultrapassa os percalços de uma vida de verdades rasgadas e mentiras necessárias, a narrativa cai em um vórtice de confusões e desencontros que fortalece o título dessa resenha: às vezes a gente se impressiona. Vale a pena.

PS.: O livro é distribuído pela Expressão Popular, na rua Abolição, 197, Centro, São Paulo. Telefone: 3105-9500. 

A primeira leitura, entre muitas


David Toscana, escritor mexicano nascido em Monterrey, dá ao seu estilo ficcional o nome de “realismo desquiciado”, ou realismo desvairado, e talvez seja esse mesmo o ponto alto de seu potencial criativo: os desvario, o absurdo real, o limite onde facilmente realidade, ficção e outros elementos se misturam para formar uma obra que impressiona. Ao menos foi assim que O último leitor (Casa da Palavra, 2005, Trad. Ana Pelegrino e Magali Pedro) me pegou nas suas 159 páginas áridas por paragens mexicanas que quase ninguém vê, como nosso sertão. Um romance ágil, de capítulos curtos e densos. A história de Lucio, o bibliotecário de Icamole, uma cidade onde nem a chuva chega, e de seu filho Remígio, quem primeiro dá as caras no livro, é contada com uma velocidade cinematrográfica, salvo certos pontos de reflexão no meio do caminho. A história acontece em meio à seca de meses na cidadezinha e começa quando Remígio vai até seu poço, o único que ainda resiste vertendo água naquelas cercanias, e se depara com uma surpresa: o corpo de uma menina que fora jogada lá dentro. Depois de retirada a garota, Remígio corre até Lucio para que ele o ajude a dar fim ao corpo. Lucio, claro, já liga a história da vida real a um romance de suas estantes e que não foi jogado no “inferno”, um local onde os livros reprovados por serem ruins, usarem clichés e fórmulas prontas ou pela inverossimilhança são jogados com o carimbo “Censurado”. A partir da descoberta da menina no poço, a vida de ambos será envolvida em uma sucessão de acontecimentos reais ou imaginários, pois a sombra dessa morte o tempo todo estará às voltas com outro vulto: o do desejo carnal. Para esses seres do meio da poeira desértica de onde antes era mar, os desejos mais primitivos são facilmente despertados, mais rudes e cruéis, mesmo em Lucio, o leitor “profissional” de Icamole. O místico e o cético, o profano e o imaginário são os ingredientes perfeitos para uma obra deliciosa. Vale a pena.

Rebeldia húngara

Acabo de ler Rebeldes (Cia. das Letras, Trad. Paulo Schiller), de Sándor Márai (1900-1989), um dos poucos livros do autor húngaro traduzido direto do idioma original. Pode parecer frescura de tradutor, mas quem tem como ofício ou já se envolveu de alguma forma com ele sabe que tradução de tradução em geral dá problema, a não ser que a tradução tenha sido feita pelo autor ou sob a supervisão dele. Me interessei pelo autor ao ler uma entrevista da Fanny Abramovich no blog do Marcelo Maluf, no qual ela dizia ter lido As brasas, um dos livros mais famosos de Márai (mas traduzido a partir de uma versão italiana). Talvez um dia me aventure nele. 
Rebeldes tem como pano de fundo uma Hungria invadida pelos fantasmas da Primeira Grande Guerra, onde a ida para o front quase não se apresenta como opção, mas como obrigação para os húngaros da época. Márai consegue montar esse cenário com maestria, inclusive com os costumes e a decadência burguesa atrelada à guerra, como vi apenas feito por Thomas Mann em Os Budenbrooks (Nova Fronteira, Trad. de Herbert Caro), no qual a história da decadência da sociedade reflete-se diretamente na decadência da família Budenbrook. Também há um retrato da juventude, mas não a daquela época, mas uma juventude universal: período de descobertas e aventuras, sempre na contramão. No livro, quatro jovens (e mais um não tão jovem que se junta ao grupo) ingressam na adolescência e montam o que chamam de “bando”, com a rebeldia característica dos jovens, ditando suas próprias regras e encarando os adultos como algozes. Tentam a todo o momento provar sua bravura e suas qualidades perante o grupo que muitas vezes contradizem os ditames sociais. A descoberta do erotismo, do amor e da amizade são concorrentes a outros achados menos nobres, como a traição, a inveja e a maldade. Bom livro, ótima tradução: eu recomendo!

Rapidinhas (ou não tão rápidas)

  1. Hoje tem Noite dos Vampiros, no SESC Ipiranga. Após o lançamento de “Território V”, pela Terracota Editora ontem, haverá uma conversa com alguns autores da coletânea, como Kizzy Ysatis (o organizador), Luiz Roberto Guedes, Luiz Bras, Flávia Muniz, Giulia Moon, com mediação do querido Marcelo Maluf. Das 20h00 às 22h00.
  2. O muito querido e sempre mencionado aqui Nelson de Oliveira deu uma entrevista bacana para o também querido Claudio Brites, da Terracota, no site Box Liberis.
  3. Estou no finzinho do livro Rebeldes, de Sándor Márai (Cia. das Letras, 218 p., Trad. Paulo Schiller) e estou bastante empolgado. Escreverei sobre ele em breve.
  4. Imaginação volta a conta gotas e eu prefiro que ela volte assim que não volte. Tudo caminhando lenta, mas continuamente e, acho eu, isso é o que importa. 
  5. Saudades dos amigos. Muitos não tenho visto, por desencontro besta, sabe? Quero voltar a fazer isso logo. 
  6. Ontem passei um tempo agradável com meu sobrinho de seis anos, brincamos bastante e conversamos também, comendo pizza e acessando sites legais para criança. Como eu também tenho saudades dele, não consigo nem medir. Serei um tio-padrinho mais presente daqui para a frente.
  7. Um grande ditador já fez o mesmo que o Serra há uns bons 60 anos: separou  pessoas que ele acha nocivas (no caso do Serra, os fumantes) do convívio ao qual elas estão habituadas. Nesse caso, não haverá câmara de gás, mas uma câmara de pressão e solidão. Senti isso na pele ontem, na hora do almoço. Nem vou entrar no mérito do quanto essa questão é delicada e foi tratada com arbitrariedade máxima pelo excelentíssimo senhor governador… 
  8. No domingo, Tertúlias: Tradutores, no SESC Pompéia. Estará lá neste fim de semana Leonardo Fróes, tradutor de William Faulkner, Malcolm Lowry e Jonathan Swift, dentre outros, para falar sobre sua tradução dos Contos de Virgínia Wolf. Vai ser bacanudo isso, hein? Jurei que seria nesse domingo, mas será no dia 13 de setembro, às 18h00. Fui lá de boboca…
  9. Estou escrevendo. Não para burro, mas o suficiente para gostar do ritmo no qual escrevo. Vou demorar dez anos para acabar e até lá vou precisar adaptar muitas coisas para não parecer antiquado. Mas um dia vai… 
  10. Só para arredondar: começo o inglês na próxima terça-feira. Depois de muito matutar, decidi investir mais um pouco na carreira tradutória fazendo (finalmente) um curso de inglês. Falo, escrevo, mas ainda falho muito. Então agora quero ficar afiadíssimo. Me aguardem…

Difícil

Como anda difícil escrever. Nem por falta de tempo, esse tenho tido um pouco, mas por falta do quê. Época de bovinos fêmeas esquálidos entre meus neurônios gastos. E ainda com obrigações da viagem (fazer o quê, há de se pagar de alguma forma) e de casa e do trabalho castrador e de tudo mais. 

Daí também tem outra coisa: acho que nada vai ficar interessante aqui. Que meu leitor não vai gostar de meus novos escritos, que vai achar bobo ou brega. Se estou sendo cruel comigo mesmo, talvez. Só não tenho coragem e, quando encontro, o texto para pela metade. 

Acho que vou entrar para aqueles concursos de textos interminados (e intermináveis). Acho que uma editora francesa que promove. Quando chega no Brasil?
Poderia falar do livro que acabo de ler, que é bem interessante, mas a tradução ficou aquém: O fundamentalista relutante (Alfaguara, Trad. Vera Ribeiro), uma história entre tantas sobre o 11 de setembro. Mas do ponto de vista de alguém do Oriente Médio para alguém do Ocidente, o que torna interessante a longa conversa de Changez com seu interlocutor americano em plena Lahore, Paquistão. 


Mas nem sobre isso eu consigo falar. 

Um deserto. Assim classifico minha cabeça. 

Todas as vezes que me manifesto assim, com pesar sobre minha condição de fonte seca, começam a brotar coisas. Sándor Márai também deve ajudar nesse processo. E cursos e encontros com amigos criativos pra caralho. 

Bem, fica aqui o desabafo. 

Sem choro

Na curta viagem que fiz a Belo Horizonte, devorei Leite Derramado, o último livro do mestre Chico Buarque. Talvez ainda não mestre da escrita, mas um mestre das palavras de qualquer forma. Temos um Chico bem diferente dos últimos livros, desde do engasgado Estorvo (1991), passando pelo “apagado” Benjamim (1995) e pelo celebrado Budapeste (2003 e que, em 2009, foi lançado em filme). Sem os experimentalismos dos livros anteriores e, aparentemente, com uma segurança maior na escrita e a conhecida ironia comedida, Chico traz à tona em Leite Derramado a questão da memória e da fantasia. Duzentos anos de um Brasil glamuroso e esquecido é retradado em toda a obra, num grande jogo literário de repetições, no qual Eulálio Assumpção conta sua história de luxo e decadência em seu leito de morte. Aos 100 anos, sofre em um hospital e sua única e verdadeira companhia é a perda da lucidez. Das altas rodas da sociedade carioca até os cafundós enfavelados, Chico destranca diversos fantasmas quatrocentões e revolve um passado que nos pertence. Lançamento festejado e comentado em todas as rodas, Leite Derramado (como disse a amiga Nanete, com a qual concordo, uma imagem forte e feliz do livro) vale a pena.

Noite agitada – Bate-papo e lançamento de livro

Pessoal,

Hoje a noite será agitada. Na livraria Martins Fontes da Paulista (Av. Paulista, 509), Conversas no Sótão, projeto do querido Marcelo Maluf, com os amigos-feras Marcelino Freire e Nelson de Oliveira.

Também teremos lançamento de Hotel Novo Mundo (Ed. 34), da escritora Ivana Arruda Leite. O primeiro romance de Ivana merece nosso abraço também. Lá na Livraria da Vila, na Madá. Segue o convitinho virtual:


Lançamento: Era uma vez para sempre…

Mais um lançamento da Terracota Editora: Era uma vez para sempre… é uma antologia de contos infanto-juvenis para crianças de 5 a 100 anos, organizada pelo querido Marcelo Maluf. São 20 autores que nos deliciam com histórias pra lá de divertidas e emocionantes. Vale a pena conferir amanhã, dia 20 de junho, a partir das 15h30, na Livraria Martins Fontes, na Av. Paulista, 509 (pertinho do metrô Brigadeiro). Veja o convitinho abaixo: 


Vale a pena prestigiar!

Compulsão em Verso

Há umas três semanas recebo um e-mail de uma pessoa doida e maravilhosa dizendo “vou fazer um e-book de poesia”. Eis que, há pouco, esse livro pipocou mesmo na Grande Rede, fazendo barulho entre os conhecidos e entusiastas da arte de Beatriz Meccozi, poeta recente e de mão cheia. De seus exercícios obstinados com o maridão Marcos Pontes, numa ânsia por aquela palavra, exatamente aquela que traduz aquele sentimento e que só os poetas experientes ou no mínimo sensíveis alcançam, Beatriz consegue extrair com doçura ou arrancar no tapa aquilo que deseja dos vocábulos, mais do que pospostos, com seus significados entrelaçados numa teia de desejos, amores, temores. 
Estou lendo aos poucos, sorvendo devagar a arte da moça que, paulistana da gema, agora está lá pros lados de Eunápolis, Bahia. Quem quiser me acompanhar nessa leitura, clique aqui e baixe o E-book. Vale muito a pena.

Sobre livros e ausência

Caríssimos,

Enquanto estou nessa fase de loucuras, com preparação de viagem e livro sendo traduzido, não consigo produzir muito, apenas o necessário para dizer que estou com bastante saudades de todos os blogueiros amigos, sinto falta de passar e comentar em seus blogues e não o faço por um motivo simples: tempo em falta. E também minha produção livre rareou, pois estou num momento de alimentação: tenho lido bastante nos poucos momentos de folga e sobre isso consigo escrever de vez em quando, para não deixar o VC morrer na praia, né? Então, abaixo, os comentários dos últimos dois livros que li nesse dias sem aparecer por aqui: 

O sol se põe em São Paulo, de Bernardo Carvalho (Cia. das Letras), é o tipo de livro que surpreende. Não apenas por ser escrito por um carioca, descrevendo tão bem a capital paulistana, mas de um ocidental desentranhando as dores dos orientais vindos para o Brasil em outros tempos. É a história de um intelectual frustrado, que na verdade almejava ser escritor e por azar torna-se redator publicitário e não consegue dar vazão ao seu sonho. Um belo dia ele recebe um pedido misterioso: registrar as memórias de uma senhora japonesa, dono do restaurante que frequentava na Liberdade. Daí para frente, uma montanha russa se instala na vida do rapaz, que cruza o mundo a procura da história da senhora e da sua própria história. 


A casa de papel, de Carlos María Domínguez (Ed. Francis, Trad.: Maria Paula Gurgel Ribeiro) consegue emocionar aqueles que amam e vivem com os livros. Conta a história de um professor universitário que, prestes a assumir o posto de uma colega que sofre um acidente fatal, recebe um livro um tanto inusitado, não pelo texto em si (A linha da sombra, de Joseph Conrad), mas por estar bastante maltratado. O narrador sai em busca do remetente daquele livro e durante sua viagem faz considerações sobre o ato de ler, o cuidado com os livros e a vida de quem se dedica à literatura. É uma grande reflexão sobre o amor pelos livros e como a vida influi na literatura e, em igual ou mair rescala, a literatura influencia a vida. Sensível, A casa de papel levanta a questão de como as pessoas conseguem viver longe do prazer da leitura. Com minhas ressalvas à tradução, o livrinho de 98 páginas vale a pena.