Bolivar Torres, no Caderno B do Jornal do Brasil de domingo passado, trouxe à baila novamente o velho anúncio, feito aos quatro ventos a cada par de anos, na primeira frase de sua matéria:
O romance está morto.
Em um livro recém-lançado nos EUA e sem previsão de lançamento por aqui, David Shields, best-seller reconhecido (no Brasil, seu último título é A Única Certeza da Vida é que Um Dia Você Vai Morrer, da Ed. Intrínseca, trad. Beatriz Horta), declara que esse formato de romance que conhecemos é inviável em 2010, já que a realidade clama para ser revelada. Em seu site, ele deixa alguns trechos desse livro, chamado Reality Hunger: a Manifesto (Fome de Realidade: um Manifesto) e um deles resume o que pretende com o seu grito:

Minha intenção é a de escrever a ars poetica para um grupo florescente e interrelacionado (mas desconectado) de artistas em uma mutiplicidade de formatos e mídias (ensaio lírico, poema em prova, novelas com colagens, arte visual, filme, televisão, rádio, arte performática, rap, comédia stand-up, grafite) que incutem partes cada vez maiores da “realidade” em seus trabalhos. (A realidade, como Nabokov nunca se cansava de nos lembrar, é uma obra que não tem sentido algum sem aspas.)*
Um grito em direção ao novo? Talvez. Não desfaço de forma alguma de sua revolta, pois ele se fundamenta numa trama de citações e apropriações (só na primeira parte figuram Zola, Tchekhov, André Breton, Fiztgerald), conseguindo provar que a realidade precisa ser melhor explorada e as invenções não são mais bem-vindas. Postula que o público pede para sentir cada vez mais que aquela história que lê se passa ao seu lado. Além disso, se vale de algumas visões de plágio, mash-up e afins. A matéria de Bolivar menciona, inclusive, o caso de Helene Hegemann, da qual falamos aqui tempos atrás. Num artigo para a versão on-line do jornal The Huffingston Post, ele declara as bases de seu pensamento na renovação da visão sobre plágio, apropriação e afins:
Meu novo livro, Reality Hunger: A Manifesto, é embebido pela apropriação consciente, autoconsciente e evidente. Eu e muitos outros escritores, músicos, artistas visuais e advogados do copyleft contemporâneos estamos tentando pensar em maneiras novas, diversas e (acreditamos) empolgantes sobre citação, referência, apropriação e plágio. Tentamos reconquistar as liberdades que escritores por milênios tinham por certas, mas que acabamos perdendo.*
Não sei o quanto e se compartilho dessa visão, tendo em vista que a realidade e a ficção estão cada vez mais próximas e os absurdos do dia a dia provam que tudo que escrevemos um dia já aconteceu ou já passou pela cabeça de alguém. E a morte do romance já foi anunciada tantas vezes que talvez (lanço mão desse advérbio novamente, pois o futuro está lá e não aqui) esse seja mais um alarme falso. Muda-se o formato, o suporte, mas a literatura e seu poder inventivo ainda tem grande força, tanto artística quanto mercadológica, e para que essa mudança tomasse vulto seria preciso um imenso movimento, e esse manifesto de Shields pode ser um passo, prematuro ou vanguardista, rumo a essa nova realidade. Contudo, não deixa de ser interessante os postulados e a criatividade da qual se vale o autor para montar seu ‘não’ aos velhos moldes. E o futuro, aquele que está lá, dirá quem é quem.
(Agradeço a Denise Yumi pela dica)



















