Ao lado do mestre

Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.

Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?

Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.

Um filme, dois mundos

Em um mundo melhor (Haevnen, 2010 – Dinamarca/Suécia) é o tipo de filme que prega uma peça na gente por seu início atípico: a paisagem africana, um médico tratando doentes, mais uma história sobre as misérias e sofrimentos do continente negro. Porém, as misérias são outras. De um lado do mundo está Anton (Mikael Persbrandt), o médico, enfrentando as mais duras situações para dar um pouco de esperança a um povo num assentamento de refugiados africano. Na Dinamarca, sua terra natal, está sua mulher, Marianne (Trine Dyrholm), seus filhos e uma separação iminente. O mais velho, Elias (Markus Ryggard), sofre bully na escola de uma turma liderada por um menino mais velho. Quando Christian (William Johnk Nielsen), que acaba de perder sua mãe e vai morar com o pai e a avó na Dinamarca, chega na escola, une-se a Elias para vingar-se do seu perseguidor. Porém, Christian, abalado pela morte da mãe, desenvolve comportamentos cada vez mais violentos e envolve Elias, até então um garoto pacífico.

O título do filme em si traz uma alfinetada. Apesar da vontade que temos de melhorar o mundo, de sermos éticos e corretos, temos a nossa essência humana, atribulada. Numa cena do filme, há uma frase dita por Anton que parece um clichê, mas que resume o filme e nossas atitudes perante o mundo: "Ele bate em você, você revida. É assim que começam as guerras". E as pequenas guerras, essas que travamos em nosso dia a dia, que descambam em vinganças e revides, podem ter consequências muito mais graves. A diretora Susanne Bier trouxe, a partir do microcosmo daquela família em ruínas que tenta se reerguer, reflexões que espelham a situação mundial e do ser humano, tão imperfeito, tão em busca de rumo.

Ganhador do Oscar e do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 2011.

Elsa e Fred

Com algum tempo de atraso, finalmente assisti Elsa e Fred (Elsa y Fred, 2005), com direção de Marcos Carnevale. Vou tentar não estragar nenhum momento do filme com esse texto, então começo dizendo que a delicadeza com o qual são tratados os senhores Elsa (China Zorrilla), uma velhinha trambiqueira, mentirosa, mas muito alegre e Alfredo, o Fred (Manuel Alexandre), um recém-viúvo que tenta reiniciar sua vida sozinho. Por decisão de sua filha, ele se muda para o mesmo prédio de Elsa e alguns incidentes fazem com que eles se aproximem. A alegria de Elsa e o comedimento de Fred dão o tom certo do filme, com as reclamações típicas dos velhos, por parte de Fred, sendo superadas pelas estripulias de Elsa, que a todo o momento tenta ajudar seu filho mais novo, artista plástico fracassado, e é controlada pelo seu filho mais velho, um executivo impaciente. Do outro lado temos Fred, que tem Cuca, filha destemperada casada com Paco, mais um europeu atingido pela crise.

E começa uma história de amor.

Por acaso, encontrei um pôster do filme em alemão que traz uma frase de Picasso que define bem esse filme: “Precisa-se de muito tempo para se tornar jovem”. A maneira que Elsa se resume nessa frase, ela chegou àquela idade sem as ranhetices e os sofrimentos reais e imaginários dos velhos e em diversos momentos ela se denomina (ou é chamada de) adolescente. Ela se orgulha de ter essa vivacidade e de colocar o sorriso em primeiro lugar. Um ótimo exemplo para muitos de nós. Então, se não viu ainda, saiba: vale a pena!

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Patrik 1,5: bom, mas poderia ser melhor

Gostei de Patrik 1.5 (Suécia, 2008), filme baseado na peça de Michael Druker, com roteiro e direção de Ella Lemhager. Se fosse uma produção estadunidense, talvez resultasse em algo mais água com açúcar, o que não é o caso. Nas mãos da diretora Ella Lemhager o filme passa a marca do desnecessário e torna-se um filme que arranca risadas e emociona. Mas tem seus poréns.

Göran e Sven acabam de se mudar para o pacato subúrbio sueco com um sonho: adotar uma criança. Na verdade, sonho mais de Göran que de Sven, que já tem a experiência da paternidade e não se anima tanto quanto o companheiro. Há anos com a permissão da adoção, eles aguardam Patrik, com um ano e meio (1,5). Porém a carta de aviso da chegada da criança tem um erro de digitação e na verdade eles adotaram Patrik, 15 anos, delinquente juvenil que considera todos homossexuais pedófilos. Sven, arredio, não quer saber de Patrik pelo risco que representa. Göran, com espírito beirando o maternal, quer dar uma chance ao garoto. Enquanto isso, a vizinhança começa se revelar menos pacata e a hipocrisia dá lugar ao esperado comportamento homofóbico.

E aí está o maior porém do filme: a superficialidade. Talvez fosse necessário um filme maior ou uma trama que focasse menos o casal e mais a relação da sociedade com os novos formatos familiares. À exceção de alguns rompantes coadjuvantes e dissimulações entre os vizinhos, o filme não evolui nesse sentido. Sendo essa uma boa discussão, Patrik 1.5, perde uma boa oportunidade de explorá-la. Agora, resta esperar The Kids Are All Right, com Julianne Moore e Annette Bening.

Entre trilhos e loucuras

Filmes, há muito não falo sobre eles. Acabo de assistir Trem da Vida (Train de Vie, França/Bélgica/Holanda, 1998), com direção e roteiro de Radu Mihaileanu. Muito explorado no cinema e na literatura sobre a Segunda Guerra é a fuga e também este trata da saída dos judeus das garras dos alemães. Num vilarejo da Europa Oriental, em 1941, Schlomo dá o aviso na aldeia: os alemães estão chegando para deportar a todos. Apesar de ser o louquinho do lugar, ele é levado a sério e também dá a ideia de como todos podem fugir: forjando um trem nazista que os levará à terra prometida. Durante a viagem, que segue com relativa tranquilidade, os passageiros começam a criar uma microssociedade: aqueles que fazem papel de nazistas começam a ficar cada vez mais autoritários, os outros, “contaminados” pelo comunismo, tramam a fuga dos demais e a libertação dos prisioneiros de mentira.

Uma pequena fábula, um retrato bastante aproximado do ser humano com todas as suas contradições, contado de forma bastante divertida por Schlomo, que faz da maluquice sua fuga. Se ainda não viu, corra para uma boa locadora e alugue. Vale a pena.

A má literatura nas telas

Há pouco levantei a discussão se ler qualquer coisa era melhor que não ler nada (aqui) e recebi muitos retornos (e outras tantas porradas) que me foram muito válidos para pensar melhor na questão à parte do meu desabafo do post anterior. Foram tantas ideias que surgiram com a reflexão que não consegui até hoje formular uma resposta para a pergunta que eu mesmo fiz, deixando-a em aberto, para ser vista caso a caso. Ontem estava tomando um café com amigos e quando comentei que, por exemplo, a Livraria Cultura do Conjunto Nacional virou um pontão de encontro, sempre cheia e intransitável. A amiga Karla disse: “Melhor que esse ponto de encontro seja numa livraria, ao menos ali as pessoas estão em contato com os livros, pegam, folheiam e talvez se interessem”.

Então a questão de má literatura é relativa? Outra vez ouvi de alguém que o que é bom para um pode não ser para o outro. Chavão certíssimo. E o que é seu e não é bom e, ainda assim, você publica? No Sabático do fim de semana, uma notinha comentou sobre um documentário chamado Bad Writing, produzido por Vernom Lott, que estreia em agosto e traz exatamente essa perguntinha: que bosta foi aquela que botei no papel?

Quem nunca teve essa sensação, que atire o primeiro calhamaço. Porém, muita gente não publica nadica pelo medo da crítica ou pela exigência altíssima. Quem conhece os cursos de Letras por aí sabem que a graduação talvez devesse ter em sua grade prática da escrita criativa, mas o que ela realmente faz é detonar a criatividade, formando excelentes críticos literários, todos com medo de ser criticados ou com um nível de exigência tão alto que não acham que seu próprio texto valha a pena.

Acredito que a premissa do filme seja um empurrão para aqueles que não se aventuram e dão a cara para bater:

Bad Writing é um documentário sobre um homem que deseja ser poeta e se põe em uma busca por respostas sobre a escrita  – má literatura, boa literatura e o processo que há entre esses dois pontos. Que ele vai aprender com algumas das estrelas do mundo literário que inspiram todos aqueles que já sonharam em criar arte?

Será que esse filme chega aqui? Ou teremos que apelar para as cópias alternativas?

Veja o trailer:

Fonte: Estadão, Caderno Sabático de 1.5.2010

Chico Xavier

Ontem fui assistir Chico Xavier (Brasil, 2010), obra da Globo Filmes inspirado no livro As vidas de Chico Xavier, de Marcelo Souto Maior (Ed. Leya), com direção de Daniel Filho. Há três semanas de sua estreia, se mantém em primeiro lugar de bilheteria, com mais 2 milhões de espectadores, alcançando no último fim de semana mais de 304 mil espectadores de acordo com matéria n’O Globo. Isso reflete o poder do menino de Pedro Leopoldo e da missão do moço de Uberaba que faleceu em 2002 e ainda causa atração de muitos brasileiros. Nossa religiosidade, tão miscigenada, é retratada não apenas na tela, mas também nas milhões de pessoas que saíram de casa para ver Matheus Costa, Ângelo Antonio e o insuperável Nelson Xavier na pele de Chico menino, homem e senhor.

A história de Xavier quase todos conhecem. No início do filme há um aviso: nem tudo pode ser retratado em tão pouco tempo para uma obra de vida tão extensa. Mas as agruras e as conquistas daquele menino de Pedro Leopoldo estão lá, não de um modo que se tenha compaixão, nem esperança, mas desejo de ver “no que vai dar” e como Chico era um homem comum com um dom extraordinário: a bondade. Sua mediunidade figura mais como seu instrumento de cumprimento da sua missão, como uma ferramenta de trabalho e amostra da verdade daquele homem tímido e sorridente. Entre passagens tristes e muitas alegrias, Chico Xavier mostra até mesmo aos céticos que ao menos a caridade existe. Àqueles que acreditam no Espiritismo e na vida depois da morte, um prato cheio para reforçar sua fé. Para quem também duvida que o filme valha a pena, dê uma passadinha num cinema, numa quarta-feira que é mais barato, e gaste duas horinhas da sua vida vendo as atuações ótimas do elenco. Não vai se arrepender.

Mary, Max, Melbourne e Aspie

“O Dr. Bernard Hazelhof disse que se eu estivesse em uma ilha deserta então eu teria que me acostumar com minha própria companhia – apenas eu e os cocos. Disse que eu teria que me aceitar, com meus defeitos e tudo mais, e que não posso escolher meus defeitos. Eles são parte de nós e temos que conviver com eles. Mas os amigos podemos escolher e estou feliz por ter escolhido você”. De uma das cartas de Max para Mary*

Há poucos dias falei sobre graphic novels, quadrinhos literários que dão pano para a manga. Já pensaram também nas animações? Se ainda não, acho que é o momento de assistir Mary & Max (Austrália, 2009), com roteiro e direção de Adam Elliot. Filme inspirado numa história real traz Mary (quando menina, Bethany Whitmore de Pequena Miss Sunshine, e Toni Collete quando adulta), menina que vive no subúrbio australiano com sua mãe, uma bêbada de plantão, e com seu pai ausente, funcionário de uma fábrica de saquinhos de chá. Leva uma vida monótona até que um incidente faz com que ela encontre o endereço de Max Horowitz (o impagável Philip Seymour-Hoffmann), um quarentão judeu de Nova Iorque que come compulsivamente para compensar suas ansiedades. O que une os dois: o gosto pelo desenho animado Noblets e a primeira carta que Mary envia a Max. A partir daí a amizade cresce, mas os desencontros são inevitáveis.

Mary enfrenta os problemas de ser a “perdedora” e a “gordinha” da turma, de sua passagem para a adolescência e dos modelos errados que servem de espelho para ela. Entre copos de sherry e taxidermias, ela cresce tentando reunir dinheiro suficiente para visitar Max, no cenário em tons mostarda que mostram o clima modorrento de onde vive. Enquanto isso, Max passa seus dias num apartamento da cinzenta Nova Iorque, com seu peixe, seu gato, seu amigo imaginário, entre reuniões de uma espécie de vigilantes do peso e consultas ao psiquiatra. Ele sofre do Mal de Asperger, apelidado por ele de Aspie, que o torna desconectado do mundo real ou daquilo que chamamos de normalidade. A animação em stop-motion e massa de modelar conferem ao filme uma crueza que só não supera a dos diálogos ácidos e das piadas ferinas do roteiro. Com tudo para ser uma espécie de comédia mórbida e apesar de se passar entre 1974 e os anos noventa, Mary & Max destrincha um sentimento muito moderno: a solidão. A improvável amizade por correspondência entre a menina australiana e o senhor americano é emoldurada pelas suas teorias sobre o mundo e a vida, as perturbações mentais e a inexorável distância dos dois.

Mas para longe com a simples compaixão! Adam Elliot mescla nas frustrações das personagens pitadas de humor que fazem com que olhemos para os amigos de correspondência de forma carinhosa. E repensemos diversos temas jogados no nosso colo: amor, sexo, solidão, superação, tristeza, morte, suicídio e o primordial: a amizade. Esse é o leitmotiv desse filme que num caldeirão joga a delicadeza e a ironia em cores pardas e acinzentadas. Vale a pena!

PS.: O filme é ótimo, mas a tradução e revisão da tradução das legendas é sofrível. Playarte, dá um jeito que tá ficando frequente…
*Fonte: imdb – Tradução livre feita por mim

A carne é forte

(Legendas em inglês)

Pecado da Carne (Einaym Pkuhot/Eyes Wide Open, Israel/Alemanha/França, 2009) não traz um enredo originalíssimo, nem um final surpreendente, mas é o tipo de filme que toca pela maneira com que são tratados assuntos delicados: de forma também delicada.

A história se passa em Jerusalém, num bairro ultra-ortodoxo. Aarão Fleischmann (Zohar Shtrauss) herda de seu pai recém-falecido o açougue kosher que resolve assumir, procura um ajudante para essa empreitada, participa ativamente dos eventos de sua sinagoga, tem mulher e filhos e sua vida corre como um riacho lodoso. Até surgir num dia chuvoso Ezri (Ran Danker), um jovem que parece perdido em Jerusalém, a procura de um amigo. Num ato caridoso, Aarão oferece emprego ao jovem que aceita quase de pronto. Porém eles se aproximam cada vez mais, tornando a relação íntima, e essa aproximação começa a causar revolta entre os religiosos.

De acordo com Estadão, o filme foi muito bem recebido em Cannes no ano passado, porém causou furor na comunidade judaica ortodoxa, que considerou o filme uma “ficção científica”. Seu diretor, Haim Tabakman, provocou, dizendo que assim eles pensam ou gostariam que fosse. Vale a pena conferir.

Ar yu redy?

Lembrem-se deste nome: Gabourey Sidibe. A ilustre desconhecida pode brilhar no próximo Oscar por ter encarnado Claireece Precious Jones, a Preciosa que dá título ao filme de Lee Daniels, inspirado no livro de Sapphire. Considerado um dos filmes mais fortes de 2009, entra para o rol de produções de certa forma despretensiosas e independentes que ganham brilho por tratar de temas reais, reais até demais para quem não está preparado. 
Então não perca tempo. Mas se prepare, pois o filme é uma bomba.
No Harlem de 1987, Precious é uma adolescente negra de 16 anos que, grávida e já mãe de uma filha, não consegue se desenvolver na escola. Mas esse é o menor problema dela: sua mãe nutre um ódio doentio pela filha (por motivos revelados no filme) e aproveita-se da situação dela para viver às custas da assistência social. Ela não tem o amor de ninguém, é obesa e sonha em ter outra vida. Enquanto isso não acontece, ela sofre com sua mãe (a impagável Mo’Nique, premiada com o SAG Awards e o Globo de Ouro de atriz coadjuvante). Quando Precious é chamada pela diretora da escola e encaminhada para uma escola alternativa que trata de adolescentes com problemas, ela conhece a professor BluRain (Paula Patton) que apoia Precious em sua vida amargurada.
Paro por aqui para não revelar mais nada do filme. Pois ele merece ser visto e revisto, até mesmo pela (surpreendente) boa atuação de Mariah Carey no papel de assistente social e de Lenny Kravitz como enfermeiro. Mas se eles não estivessem, Gabourey já teria dado seu show particular.

Clique aqui para o site oficial do filme.

De twitter e cerejeiras

Hoje rolou uma discussão bem bacana no twitter quando postei lá o seguinte:

“Abraços Partidos ou Cerejeiras em Flor, eis a questão…”
O primeiro, filme de Almodovar com a bela Penélope Cruz e o segundo, menos glamuroso, uma produção alemã que participou da Mostra de Cinema deste ano e, muito provavelmente pela qualidade do filme, entrou em cartaz. A dúvida me balançou quase até o último minuto, tendo como base apenas opiniões amigas e leituras de resenhas nos guias de fim de semana dos jornais e críticas na Internet. No fim das contas, a escolha foi pelo segundo, não apenas pelo apelo germânico, mas pela história singela.
Pelo que li da diretora de Hanami – Cerejeiras em Flor (Hanami – Kirchblüten, Alemanha/França), Doris Dörrie, ela ficou famosa com comédias nos anos 80 nas quais satirizava a condição do homem (Dinheiro, Dinheiro, Dinheiro ou Elas me querem). Hoje, mais madura, trata da velhice sem rodeios e com muita realidade. Hanami é um filme sutil, sem grandes arroubos nem frases de efeito, mas seus diálogos mais que verdadeiros mostram uma realidade bastante crua e fiel. Os acontecimentos do filme me levaram a pensar diversas vezes naquilo que deixo de fazer muitas vezes por falta de costume: dizer o quanto as pessoas são importantes para mim, sem saber que pode ser tarde demais para dizer.
Parece autoajuda, mas não é.
Rudi e Traudi vivem nos confins da Baviera e têm três filhos: o pai de duas filhas Klaus e a lésbica Karo moram em Berlim, Karl mora no Japão. Rudi trabalha em uma empresa de reciclagem de lixo, Traudi é a típica dona de casa alemã. Ao descobrir que o marido tem uma doença grave, Traudi leva o marido para Berlim a fim de visitar os dois filhos que estão mais próximos, sempre tentando avivar a memória do filho que mora na Terra do Sol Nascente para que a família se complete, o que irrita os seus outros dois filhos, tão ausentes e “sem tempo” para seus pais. Quem acaba ciceroneando Rudi e Traudi é Franzi, a namorada de Karo. Até que o casal de senhores resolve prosseguir viagem, para o Báltico e lá o inesperado: Traudi morre. Então o filme recomeça, com Rudi buscando recuperar o amor de sua falecida mulher. Segue para o Japão para viver um tempo com seu filho Karl, um executivo que não tem tempo para nada. Perdido entre ideogramas, Rudi se vê cada vez mais próximo das lembranças de sua mulher, cometendo loucuras e desvarios em nome de seu amor. Até que conhece a menina Yu, dançarina de butô, que o leva numa viagem ao mundo mágico do butô, ao encontro de sua Traudi.
Curiosidade (quase boba): esse foi um dos filmes que perdeu de Tropa de Elite no Festival de Cinema de Berlim. Entretanto, ganhou o Prêmio de Cinema da Baviera (Melhor Filme, Melhor Ator) e o Prêmio do Cinema Alemão (Melhor Filme – Lola de Prata -, Melhor Ator, Melhor Figurino), além de outros fora da Alemanha.