Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.
Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?
Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.




Filmes, há muito não falo sobre eles. Acabo de assistir Trem da Vida (Train de Vie, França/Bélgica/Holanda, 1998), com direção e roteiro de Radu Mihaileanu. Muito explorado no cinema e na literatura sobre a Segunda Guerra é a fuga e também este trata da saída dos judeus das garras dos alemães. Num vilarejo da Europa Oriental, em 1941, Schlomo dá o aviso na aldeia: os alemães estão chegando para deportar a todos. Apesar de ser o louquinho do lugar, ele é levado a sério e também dá a ideia de como todos podem fugir: forjando um trem nazista que os levará à terra prometida. Durante a viagem, que segue com relativa tranquilidade, os passageiros começam a criar uma microssociedade: aqueles que fazem papel de nazistas começam a ficar cada vez mais autoritários, os outros, “contaminados” pelo comunismo, tramam a fuga dos demais e a libertação dos prisioneiros de mentira.