Lançamento…

Agora é o meu que venho anunciar aqui.

Como comentei aqui e até abri um blog para tanto, vou lançar meu livro Réquiem: sonhos proibidos. Será no dia 23 de junho de 2012, das 17h30 às 21h30, no Espaço Terracota Editora (Rua Lins de Vasconcelos, 1886, Vila Mariana – mapa aqui; para marcar sua presença no Facebook, clique aqui). Vejam abaixo o texto da divulgação e, logo que o e-flyer ficar pronto, boto aqui pra todo mundo.

O que você faria se não pudesse mais sonhar?

“A química do Réquiem estava em sua corrente sanguínea, não havia com que se preocupar, pensou. Sua mãe dissera, não precisava temer. Rolou na cama algumas vezes, ligou o abajur para tentar ler um pouco na sua multitela, mas não conseguia se concentrar. Até que finalmente adormeceu. E teve um sonho.” (Trecho do livro)

O sonho proibido. A extrapolação da sociedade da informação. A necessidade de ter de volta a capacidade de ser livre de verdade. Em Réquiem: sonhos proibidos, Ivan é um homem normal, sem muitas aspirações na vida, até que recebe uma carta do Governo Mundial: todos seriam obrigados a ingerir uma droga inibidora do sonho. A partir deste momento, seu destino está traçado, mas as linhas não são claras.

Espero vocês todos lá, hein?

Abraço e logo divulgo o lançamento também em BH.

Eu tentei…

Agora que já me descobriram, vou acabar com a agonia. 

Juro que tentei. Nesses quase dois meses de WordPress, tudo transcorreu tranqüilamente. Até o momento que descobri as limitações do bichinho: se não for pago, as limitações quando ao que você pode ou não colocar no seu blog são imensas. Por isso (e apenas por isso), me rendo novamente ao Blogger e ao seu jeito mais simples de ser.

Terei saudades de algumas coisas… mas não de muitas outras, como as tais limitações.

Infelizmente, não consigo transportar as coisas daqui para lá, então aos poucos vou passando ao menos os posts. Isso pode ser bom, pois muitas coisas que as pessoas não lerão poderão ler lá, enquanto eu estiver nesse trabalho de recuperação (apaguei por impulso o antigo blog, burro que é uma anta esse cabeçudo desse menino Peterso).

Não me chamem de maluco. Sou apenas um pouco inconstante…

Espero vocês lá, novamente, no http://vermelhocarne.blogspot.com

Abraço e obrigado pela paciência. ;)

Encruzilhada

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Se embrenhando nos becos, desgraçados, o menino corria, brincava. Sua bermuda amarela surrada, seus chinelos remendados não mostravam seu destino.

Baixou Oxalufã com as espadas de prata, com sua coroa de escuro e de vício

Baixou Cão-Xangô com seu machado de asa, com seu fogo brabo nas mãos de corisco

Em meio aos batuques do morro, no pandeiro e no atabaque, seu fado tilintou nos jogos de búzios. Mais que depressa as providências foram tomadas. Logo ele seria o rei daquele mundo cão que o rodeava. Acostumado aos tiroteios e aos corpos estirados pelo chão, ele não tinha para onde correr, vivia entre as corredeiras da chuva morro abaixo e os tiros morro acima, nas disputas de polícia, aprendia o que seria em pouco: reizinho nagô, com corpo fechado por babalaôs.

Ogunhê se plantou nas encruzilhadas, com todos os seus ferros, lanças e enxada

E Oxóssi com seu arco e flecha e seus galos e suas abelhas na beira da mata

Não media esforços, o menino, para subir. Já não era sem tempo, já não tinha por quê não: era o dono da boca, mandava e desmandava em seus súditos, dava conselhos ao povo que mal sabia ler e escrever, dos pais de família recebia tratamento especial, era bondoso com as crianças, impiedoso com os inimigos. E tinha inimigos, como os tinha, tantos que seus cães-de-guarda estavam sempre armados até os dentes. Um piscar dos olhos castanhos do garoto e estava armado o circo, com balas zunindo e estocando corpos do mal.

E Oxum trouxe a pedra e a água da cachoeira em seu coração de espinhos dourados

Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar e um batalhão de mil afogados

Seu coração também batia quando via a negra Alice, de ancas largas e sorriso farto como seus seios. Paixão de menino, de pequeno que tem nos lábios o gosto da vida adulta. E ela se ria do garoto; quando Iansã vinha em seus gritos e gargalhadas, de espada nas mãos e vermelho nos panos, deixava o garoto em polvorosa, olhos brilhando como o cano que trazia na cintura. O atabaque queimava-lhe os ouvidos e sentia pelo corpo os trancos do barra-vento.

Iansã trouxe as almas e os vendavais, adagas e ventos, trovões e punhais

Oxumaré largou suas cobras no chão, soltou suas tranças e quebrou o arco-íris

Num dia, lhe chamou seu pai-de-santo e profetizou: tua cobiça será teu fim e se não acalmar tua gana não dura mais do que poderia durar. Riu de seu babá, dizendo que não havia corpo mais fechado que o dele, se não pelos Orixás, pelos ferros quentes dos homens. Nesse dia deu uma grande festa, com cerveja e pinga da boa. Não deixou nada faltar para seu povo, o pequeno reizinho do morro esgarçava seu sorriso satisfeito para quem quisesse ver. E bebeu, e dançou e tocou pandeiro como se arpa fosse, o anjo. Porém, havia outros olhos sobre o peito magro e desnudo do guri.

Omolu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos, lançando a doença pra seus inimigos

E Nanã-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos
Ecoaram as gargalhadas na noite escura. Não se via o rosto da gargalhada, eram os Exus que gritavam ao menino o que lhe rondava. Ele se esgueirava nas lágrimas da noite, que tristonha molhava em gotas o rosto do menino. Há muito não sentia medo, pedia a Ogum que lhe guiasse o caminho, mas seu destino chispava nos tijolos em tiros raivosos. Irmãos, irmãs, irmãozinhos, por que me abandonaram?
Cem tiros, foi a contagem oficial. Cem projéteis dilaceraram o corpo, o rosto, os membros do menino. Nada que pudesse fazer, seus inimigos, a polícia, os falsos amigos, todos engatilhados e com uma mira certa: a carcaça suada do garoto que corria e fugia de seus fantasmas. Cada urro e cada grito animalesco quando a carne era navalhada pelos cartuchos maldosos, sangrando a dor de quem já havia conquistado seu mundo. Lembrou de Alice de Iansã, mulher feita, que lhe charmeava com seus balangandante corpo pelas ruelas do morro. Casa comigo? suplicou para ela, dias antes. Escancarando seus dentes brancos de marfim, ela brincava com os cabelos do menino e dizia ah, menino, não me provoque. Não teve tempo para provar à negra Alice do que era capaz, quem era o rei do morro. Destronado pelas matracas fumegantes do mal.
Treze anos de vida sem misericódia e a misericórdia no último tiro.

(Texto inspirado na música Tiro de Misericórdia, de João Bosco)

Folguinha

É bom ter uma folga

Para ter com os amigos

Para curtir com o amor

Para se perder em livrarias

Para comer do bom e do melhor

Largar as teclas solitárias

O monitor desligado

E sair por aí, sem lembrar

Do mundo que se virtualiza

E sentir o cheiro da chuva

Ver o filme tão esperado

Tomar um vinho frutado

E as idéias virão, cavalgando

A mente cheia de textos

Para aqui mais tarde voltar

Então, até lá.

Quem te leu, quem te lê

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“Ei, aqui!”

Ouço um sussurro, quase um farfalhar. Me assusto, estou numa pequena livraria, dessas que passam de geração para geração no mesmo local e sobrevivem tão-somente pelo amor que têm ao livro. Estou sozinho numa pequena saleta de “degustação”, duas poltronas com seus braços trabalhados e o couro vermelho de seus assentos trazem dignidade ao local um tanto decaído. Uma senhorinha, de olhos muito azuis, tira pós das estantes na sala contígua e resmunga num idioma incompreensível, gutural. A menina do caixa, neta da senhorinha, apenas tira os olhos do computador para dizer, de quando em quanto “Oma, das geht schön!” — “Já está bom, vó”.

“Psiu, esquerda!” Continue lendo

Joana

Ao voltar para casa, após uma longa e entretida caminhada com o professor Gabriel, entramos no metrô Clínicas, num papo animado. O professor iria para o metrô, eu, como moro há pouco mais de 20 minutos dali, resolvi tomar um ônibus. Porém, não estava sozinho. Estava com Joana.

Nessa entrada do metrô, Joana me aguardava. Sim, não há outra explicação. Revoou pela cabeça de um casal feliz que entrava antes de se grudar, literalmente, nas minhas pernas. Melhor dizendo, no meu quadril, bem no bolso da calça jeans. Gabriel olhou para Joana, olhou para mim e disse: “Isso dá crônica”. Olhei assustado para ela, mas não tomei nenhuma atitude drástica. Pelo contrário, deixei Joana pousada, tranqüilamente, com suas finas patinhas e suas asas coloridas. Sua capa preta poderia esconder algo de maléfico, como acreditavam os mais velhos. Mas o azul e o amarelo ouro do fundo de suas asinhas davam um ar de graça àquele ser rajado. Continue lendo

Na defensiva

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Sempre tive problemas com meu nome. Peterso. Sem “n”. Meu pai não gostava do som nasal, então…

E sempre precisei, de uma forma ou outra me justificar, me amparar na mania ufanista do meu pai: “você nasceu no Brasil, tem que ter nome brasileiro”. Poderia ser José, João. Porém, fã incondicional de Fórmula 1, deu aos dois filhos nomes de corredores: Emerso, pelo Fittipaldi, e Peterso, pelo sueco Rony Peterson (falecido no ano de meu nascimento), pensando que, ao tirar o “n”, nacionalizaria os nomes. Ouço essa história desde que me conheço por gente, de pequeno já ninguém me chamava pelo nome certo e eu me perguntava “Por que eu tenho que me chamar assim?”. Continue lendo

¿Capitán?

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Saio do velho casarão na rua Amargura e passo pela Iglesia del Santo Cristo, faço o sinal da cruz e peço bênção a Changó, com minha guia nas mãos. As ruas de Havana estão vazias, estranho para uma manhã de terça-feira. Crianças passam brincando com suas bolsas, seus uniformes. ¡Buenos Dias! cumprimento o guarda que fuma na esquina, uma mão com o cigarro, a outra no cacetete. Cara de poucos amigos, responde com um aceno de cabeça. Sigo pela Obispo, pela Mercaderes, olho o imponente hotel Ambos Mundos e a calmaria continua, mesmo nessa rua que sempre tem agitação de turistas, vendedores ambulantes, músicos, cafés, bares. Na San Ignácio vejo um senhor, com seus setenta anos de idade e lágrimas nos olhos. ¿Que pasa, hombre? pergunto preocupado, pois ele não parece bem.

“El capitán se fué” e continuou sua caminhada, enxugando os olhos nas mangas da camisa creme. Corro pela praça da Catedral e vejo uma senhora despreocupada em uma viela, lendo o Gramna. Pergunto o que houve, que havia acontecido com o Presidente e seus olhos sombrios e fitaram de esguelha, para dizer em seguida: renúncia. Meus braços penderam, eu estava incrédulo. Olho para a Catedral, meus olhos enchem d’água. Ainda não entendo por que, mas rasos d’água meus olhos se lançam ao redor. Os bares e restaurantes se abrem, tímidos. Uma mulher varre cabisbaixa a calçada, enquanto um homem gordo coloca as mesas para fora, num esforço hercúleo.

Na praça José Martí, defronte ao Capitólio, estão reunidos os jineteros a espera dos turistas, os trabalhadores, os velhos que jogam cartas e discutem política. Todos murmuram, estranhamente, em vez de falar aos altos brados como de costume. Muitos jornais a mão, a leitura é concentrada, como se tentassem entender algo cifrado nas entrelinhas da Carta de Fidel. Paro ao lado de um deles, aceno com a cabeça, ele responde com um esgar no canto da boca. Continue lendo

Mário Louco (ou “O grande círculo da vida”)

Mário Louco tem oitenta e poucos anos. Desses todos, Mário Louco sempre teve uma vida humilde, mas amada. O sofrimento ronda até hoje os passos de Mário Louco. Não é chamado de louco à toa, muitos têm motivos para tanto. Agora, em um asilo em Atibaia, Mário Louco chega perto da sua alcunha de toda a vida. As pessoas se preocupam com ele, mas como uma criança, Mário Louco não se rende, diz que todos morreram para ele, que ninguém o ama. Tem problemas nos rins, está praticamente surdo e um câncer de pele o acompanha. Entre uma sessão de hemodiálise e outra, Mário Louco apronta uma. E lá vão os parentes, o sobrinho neto e sua irmã mais nova, hoje com 75 anos, salvar a pele do Mário, quando ele inventa de bater nos seus colegas de quarto. E ele, ainda assim, os maltrata, expulsa, insulta.

Antes disso, Mário era um senhor forte. Até os setenta e poucos anos trabalhou na roça, onde sempre viveu. Carpiu, tomou muito sol no rosto, perdeu mobilidade de um dedo por uma pá descontrolada. Alqueires e alqueires de mato ele baixou, plantou de tudo um pouco, viu o mundo mudar rápido. Chorou de dor, de amor, de ódio. Arranjou muitas encrencas para se manter, para ninguém chamá-lo de velho. Louco sim, velho nunca.

Nessa vida de carpir, criou os filhos. São alguns filhos, com algumas mulheres. Filhos que deveriam tê-lo ajudado, dado apoio, auxílio. Mas não, os filhos trouxeram foi muitos problemas. Bebedeira, drogas. E os filhos morriam para ele, não queria vê-los nem pintados num dia. Porém no outro, triste pela distância, os perdoava até que aprontassem novamente. Quando voltavam a morrer aos olhos do velho Mário. Mesmo com todo o fardo que carregava, o Mário era uma pessoa alegre, de bem com a vida, pronto para dar ajuda aos outros e muita bronca quando necessário. Se era louco de verdade, ninguém sabia. Que tinha um grande coração, ninguém desconfiava.

Entre os vinte e os cinqüenta, era sim, o Mário Louco. Trabalhava no bairro de Pirituba, numa empresa de ônibus coletivos, provavelmente a antiga CMTC. Era impaciente, aventureiro. As mulheres se encantavam por ele, pelo seu jeito brusco, pelo seu ar meio cafajeste e pela sua generosidade. Os filhos, inevitáveis, começaram a aparecer por aí. Com uma Celma, com outra Maria, com algumas Lurdes. Deve ter tido muitos casos, mulheres eram seu vício. Além da cervejinha abençoada, claro. As crianças também o adoravam. Certa vez, presenteou seu sobrinho-neto, um menino moreno que ao crescer se tornaria tradutor e escreveria um blog com nome de cor, com um martelinho. Era um martelo de verdade, com cabo esculpido pelo próprio Mário Louco, talhado com carinho de tio-avô. Sempre que falava com esse menino, lhe perguntava da escola e como era sua vida, os olhos de Mário Louco se enchiam de lágrimas. Era o de mais puro que ouvia nesse mundo que se estragava pouco a pouco. E se alegrava, como se alegrava.

Aos vinte, nos anos quarenta, vira a Segunda Guerra começar. Deve ter execrado Hitler com todas as suas forças, pois Mário é um homem justo, apesar de louco. Aos dez anos, deve ter brincado na roça e aprendido a matemática e português em casa. Aos cinco, tivera uma vida dura e muitos irmãos, inclusive o bebê Ivone. Nascera, no final dos anos vinte, o Mário Louco. Seu primeiro choro, no interior de São Paulo, ainda ecoa na antiga casa dos Marques. Mário Marques, filho de portugueses, é nosso amado tio. O Mário Louco, que todos amamos.

A água

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Vejo teu corpo moreno entrando, com cuidado, nos domínios da água. Escorrendo pelo pescoço macio e ainda perfumado, livrando-se do suor indesejado da São Paulo em brasas. Ou saindo devegar do mar, no colo o reluzir das gotas que sobram com o vento da baía de Paraty, enquanto de uma cadeira meu olhar se embrenha na paisagem.

Com o jato forte do chuveiro, seus olhos se fecham, apressados, e o verde desaparece como um cardume assustadiço. A espuma que envolve nosso corpo, em brincadeiras provocantes com o sabonete, são as testemunhas da amálgama molhada que somos, que nos tornamos ao pouco sob os pingos d’água. Sorrio leve, lembrando da primeira vez que vi a água tocando seu corpo e a pele, arrepiada, que se acostumava devagar ao calor daquele tempo frio, e as volutas de vapor que preenchiam meu pequeno banheiro, brincando entre nossos corpos são as lembranças que a água me traz.

Apenas eu, você e o prazer de cada banho.

Boys don’t cry

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Na moldura de fumaça vejo rostos suados e cansados. São seis da tarde, horário de Brasília, a hora em que tudo parece acontecer. Os carros são vomitados por garagens lotadas e se lançam à rua com ânsia de correr. Porém, o ritmo acelera-breca-acelera entre um farol vermelho e outro verde impacientam os motoristas já desesperados. Não há espaço para andar na calçada, tomada pelos corpos e bolsas e pastas e cigarros e bonés e colares e óculos, além das banquinhas com DVDs piratas, livros ensebados, perfumes baratos, cigarros contrabandeados e cachorros e bosta de cachorros e sacos de lixo.

Perâmbulam nesse estreitamento de almas perdidas os ladrões, os assassinos e os maníacos, os depressivos e os alienados, despercebidos, enfumaçados pela tristeza o cinza dominante. Cores, nas TVs instaladas nos botecos e nos belos restaurantes as luzes soturnas tentar dar à visão um ar de encanto. Ou diversão e pão ao povo. Perâmbular por essas ruas e encontrar beleza torna-se cada vez mais difícil. Calçadas são destruídas e renovadas para serem novamente destruídas, como o fio de Ariadne, num tricotar insano com as betoneiras e as britadeiras.

Em meio a todo o caos está um garoto, com uns 18 anos. Sua pele, dum moreno cor de cobre, reluz sob a luz do poste que acaba de se acender. Seus olhos, muito negros, são duas graúnas que revoam em busca de abrigo dentre a confusão que tem a sua frente. Mesmo assim, ele não se apressa, segue seu passo ritmado, ininterrupto, rua a cima. Sua camiseta justa e curta delineia músculos incipientes, de quem ainda cresce a passos largos e seu cabelo muito liso esvoaça a cada ônibus que desembesta após engolir dezenas de pessoas. Lábios crispados, vermelhos, preocupados, não deixam que seus dentes amarelados de cigarro se exponham facilmente. Na frente de um bar até limpo, posta-se diante do balcão que exibe seus salgados frios e seus pães de queijo murchos. Fala algo para o atendente, que logo se abaixa e lhe passa um copo com água, gélido, suado. Ele verte em grandes goladas o líquido transparente, rejuvenescedor, e deixa o bar. Agora seus olhos, antes graúnas perdidas, são panteras à espreita. Continua seu caminho, seu destino é apenas um. Recosta-se a uma árvore, olha para os dois lados e deixa luzir seu primeiro sorriso do dia. Que só se apagará ao raiar da próxima manhã.

Bilhetes

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Sobre a mesa, num pedaço de papel verde:
“Ontem não consegui, mas acredito que amanhã consiga. Te adoro.”
Na geladeira, grudado com imã de restaurante:
“Segunda a gente vê isso. Também te adoro.”
Sobre o sofá, numa tarde de quarta-feira, papel de cartão de crédito:
“Não acredito no que você disse. Ainda estou pensando naquilo.”
Embaixo do elefantinho de louça, na estante, sobre os CDs:
“Não me leve tão a sério. Sou incorrigível, você sabe. No mais, te adoro.”
Num post-it, na porta do banheiro:
“Não me assuste desse jeito. Não consigo viver sem você mais… te adoro.”
No mesmo post-it, dobrado, na porta do guarda-roupa:
“Será?”
Num caderno velho de receitas, aberto na mesa de jantar:
“Não duvide de mim. Alguma vez menti pra você? Te vejo à noite… beijos”
No canhoto do estacionamento:
“Olha, mentir não. Mas omitir… lembro de uns cinco (Risos). Hoje à noite eu quero…”
No espaço em branco na revista, ao lado da propaganda de computadores:
“Hoje à noite não posso. Vou trabalhar até mais tarde, vou estar só o esqueleto. Amanhã, talvez…”
Na tampa da caixa da pizza de frango com catupiry.
“Acho que é o fim. Me encontra naquele shopping…”

Ele

Ele brinca com os pêlos da barba já crescida.
Ouve Chico, as mais tristes do Chico
Ele fuma e pensa na vida
Pensa que a vida tá boa, obrigado.

Ele olha pela janela e vê o céu coalhado de pequenas nuvens
Que brincam vagarosas, mostrando rasgos de azul
Ele molha sua plantinha nova, como se regasse o amor
Que cresce devagar, mas com raízes fortes

Ele toma café frio, café velho, café de ontem
E morde o pão de ontem, o pão velho, pão frio
Ele sente estar velho também, como o pão e o café
E olha os fios brancos que surgem atrevidos entre seus cabelos

Ele fica aliviado no fim do domingo,
Pois o domingo foi de angústia
Talvez a distância de quem ama
Talvez a ciência de que a segunda já chega

Ele ri um riso bom. De quem sabe por onde anda
Mas que ainda tem um bom caminho por percorrer

Ele é assim. Ele é assado também.

Se bobear, ele é também isso que você pensou.

Uia!


O poema Doce, que postei aqui ontem, recebeu a indicação do prêmio “Caneta de Ouro”, organizado pelos blogs do André Soares e da Rita Costa para premiar blogueiros poetas ou, como eu, poetas-wanna-be que arriscam colocar suas garatujas virtuais na rede para deleite da blogosfera. As regras de participação podem ser vistas aqui.

Fiquei muito feliz com a indicação da Flavinha, pessoa tão querida que conheci por meio da blogosfera e que já tem um lugar grandão no meu coração.

Mas, como nem tudo são rosas, agora eu preciso indicar cinco blogs poéticos para o prêmio. É realmente batata quente isso, mas vamos lá:

O Abandono, do Coisas de Prata (Marcos Piva)
Oração, do Núcleo Último da Pessoa (Diego Cardoso)
Oração de Intimidade à Sra. do Vale, do Sobre Todas as Coisas (Anderson Lucarezzi)
Faroeste Fantástico, do Naja Cuspideira/Veneno (Karla Lima)
Passou, do Pseudo-Poemas (Marcos Pontes)

Ufa. Foi difícil escolher, mas valem a pena.

Abr@ço!

Doce

Escorre, aos cântaros, como lágrimas que saltam acrobatas de poros vulcânicos
Lava, os lábios sôfregos, trêmulos em desespero de delícias
Noite quente, noite fria, anoitece triste lá fora
Chocolate que acende ânimos, rescende o cacau em brasa ao lado da cama fria
Camafeu a ser degustado em mordiscadas temerosas, tímidas
Enrubescidamente, desavergonhadamente, displicente
Nudez cativa, desafiadora, voraz
Escorre, pelos favos dos olhos, mel que adocica e cura
A distância cada vez mais ampla
Pro sentimento cada vez maior

Resta, em meu peito arfante. Beijo, no dormitar profundo.
Tarde, eu sei. Mas nunca para sentir o quanto te amo.

Aquilo que vem

O toque na pele pela outra pele quente ouriça os pêlos que, em polvorosa, agitam todos os sentidos. Quieto, em meu canto, sou fustigado pelas ondas de calor da noite fervilhante do inverno e por suas pernas que roçam as minhas sem pudores. Sinto o corpo, deslizando pelas cobertas em movimentos lépidos, braços e pernas e bocas e línguas e dedos que invadem, permeiam, mesclam-se torridamente. Olhos perfuram imperiosos os suspiros e gemidos, orquestrados numa sinfonia em espasmos…

O abraço morno, aconchegado. Os pensamentos são névoa que se dispersa no brilho dos sorrisos satisfeitos. O silêncio, brando silêncio, protege os dois corpos na tarde brincalhona, ora ensolarada, ora nubalada. Vem à cabeça uma música, sussurros de uma letra estranha, em outra língua, Engel fliegen eisam.
Anjos voam sozinhos, nós não.
O abraço acaba, soturno. Têm que se separar, a noite vem aos galopes. Deixam-se como Romeu que sofre ao ouvir o som da cotovia e saber que a manhã trará o derradeiro. Amanhã é o recomeço, a semana de saudade, de vozes que não querem se soltar, de desejo infindo. Até o próximo momento, até o próximo beijo. E fim.

(O beijo, Wassily Kandinski)

Son(h)o


Desperto lentamente, ainda tomado pelo torpor sonolento da noite profunda e fria. Lá fora o vento ainda uiva triste sua cantiga de desespero, talvez ele tenha me acordado. Os primeiros raios da manhã rompem o negrume das paredes e as tingem dum brilho branco, fraco. O edredon ainda aquece meu corpo que aos poucos começa a se mover, preguiçoso. Olho para o lado e vejo seu corpo coberto, encolhido, como aninhado para fugir do frio. Lembro da noite, sorrio com malícia, depois a felicidade me toma. Quero falar, quero dizer tudo isso. Mas ouço seu murmurar, algo incompreensível, segredado com os anjos, assim, à toa. Deixo você dentro de seus sonhos, num mergulho demorado no sono tão deliciosamente infantil, que me comove.

- Você acordou, bom dia.
- Não é dia ainda. É noite, aquela na qual te amei até a exaustão, exausta satisfação no meu peito acalantada…”
- Você sempre me surpreende.

Vejo que vcoê dorme novamente. Com um sorriso no rosto de quem comeu chocolate, de quem ganhou o presente tão esperado, de quem brincou até cansar. Passo meu braço em torno de sua cintura, encolho meu corpo junto ao seu e desbravo mais um mar de sonos ao seu lado.

Cada vez mais fácil

(Hug, Joan Hutscheson)

Ao seu lado vejo como é mais fácil… cada vez mais fácil.
Dormir é mais fácil, sozinho com som baixinho, com você ouvindo o ressonar macio.
Levantar é mais fácil para a labuta ou para mais um beijinho.
Escolher uma roupa, seja para trabalhar ou lhe ver, fácil.

Sair de casa, enfrentar chuva, vento, frio… fácil.

Difícil é chegar e sentir a casa um deserto sem oásis.
É o frio do banho sem teu corpo.
É o filme sem seus olhos atentos à tela.
É a música, sem seu cantarolar baixinho e afinado.
É saber que horas ainda nos separam.

Entre o fácil e o difícil? Escolho você.

Chuva, chuva


“Vai chover, de novo deu na TV, que o povo já se cansou, de tanto o céu desabar…” (Maria Rita, Santa Chuva)

Sopra um vento forte, primeiro, trazendo o anúncio da chuva. Depois de um dia quente, de sol radiante e muita luz, a noite pousa um manto manchado de cinza das nuvens e sopra baixinho uma brisa leve, tímida. Transforma-se em ventania, essa brisa, sem nenhum pejo de dizer a que veio, traz as primeiras gotas para mostrar seu choro incontido.

Chuva que traz o friozinho gostoso para dormir juntinho, que leva e lava as lembranças ruins que amargam a vida e turvam os olhos para novos horizontes, deixa a alma leve, solta, brincalhona, mesmo que a névoa espessa por vezes tente nos cobrir de tristeza, de mágoa.

A chuva traz o perdão. Pelo coração ferido com tantas estacas, cada uma mais profunda que a outra, novas estacas que se cravam de lados inimagináveis, que sangram nosso peito sem manchar a roupa, mas machucam tanto como se o fizessem. Nessa chuva, esquecer o passado dolorido é mais fácil, mais dócil fica o peito quando ouve o tamborilar das gotas na janela.

O concreto cinza escurece com a água do céu. Clareia o peito, chuva amiga, que se cura a cada dia.

Silêncio (ou Mergulho Silencioso no Concreto Sujo)

São Paulo chove, com gotas grossas que se atiram das nuvens espessas e acinzentadas, ameaçando despencar do céu num repente, não trovejam, não alardeiam, apenas se desmancham n’água fria do véu torrencial que banha as ruas e levam pelas calçadas, meios-fios e bueiros o lixo e a lama cinza que se forma no concreto gélido. Sob toldos e marquises paulistanos fogem dela, o trânsito se faz mais caótico e incrível, como há carros, tantos quanto se pode imaginar ou mais até, pintando a noite com o amarelo de seus faróis e o vermelho de suas luzes de freio, num ritmo staccato de primeira marcha, freio, primeira marcha, freio que enlouquece os motoristas detrás de seus vidros embaçados.

O barulho na avenida Paulista é ensurdecedor, volto para casa debaixo de imenso guarda-chuva, o frio chicoteia o rosto e o avermelha, as gotas peitam os corpos, umidecendo aqueles que tentam se proteger, banhando aqueles que nada têm para se cobrir, numa dança cruel, congelante, trêmula. Tento agarrar minha bolsa em busca de calor, mas ela está mais molhada que eu, então a protejo de tanta água. As buzinas ecoam pelos corredores de vento das travessas iluminadas, Bela Cintra e Haddock Lobo com suas grandes e antigas árvores que já testemunharam uma Paulista mais clara, menos cinza, já viram mais céus e menos caos nesta Paulicéia Sem-Controle.

Passo pela Estação Consolação, os carrinhos de mercado com guarda-chuvas pendurados e os homens e mulheres gritando guarda-chuva é cinco real ou capa de chuva, capa de chuva ganham seu pão como podem: em chuva, guarda-chuva, no sol água ou sombrinhas, no jogo de futebol, camisetas e lembranças, na parada gay, leques e vinho barato, em qualquer ocasião, uma mercadoria. A informalidade banha como a chuva, pela falta de opção ou pelas opções indecorosas, inaceitáveis. Entro na rua Augusta, desço ladeando o grande prédio do Banco Safra, reluzente em sua última reforma, elegante e portentoso, passo pelos estacionamentos, mais “informais” vendendo DVDs dos últimos lançamentos do cinema, o Frevinho, os bares da esquina. Ônibus ronronam e entoam com os carros uma cantiga incômoda, um lamento triste, por vezes irado, roncos profundos de motoristas despertos e desesperados com o congestionamento.

Cruzo a Luis Coelho, entro no quarteirão do Espaço Unibanco, recanto de paz em meio a metrópoloucura, em meio à balbúrdia dos bares e cafés da região. Percebo uma turma de garotos e garotas subindo devagar, animados, gesticulando bastante. Páro com meu grande guarda-chuva em frente a um café, numa pequena galeria, e dou passagem para o grupo de jovens que vem rápido, típicos paulistanos. Percebo, quase constrangido, muito maravilhado, como o silêncio acompanhava esses meninos e meninas, nos seus 18, 19 anos. Talvez pelo destino, que quis me trazer segundo de paz em meio, me ilhar das ondas de barulho e confusão, uma feliz coincidência, era uma avalanche silenciosa na rua Augusta, às 20h de uma segunda-feira conturbada pela chuva. Gesticulavam numa animação espantosa, jovens, aquela imagem de excitação e felicidade não coadunava com o silência que eles arrastavam pela movimentada rua. Silêncio gelatinoso, quase materializado, palpável. Jovens bonitos, expressivos, meninas bem vestidas, meninos mais largados, mas mesmo assim bonitos de se ver. Uma conversa muda que me tirou de órbita por alguns segundos, uma felicidade me tomou de assalto em vê-los tão felizes e o silêncio de sua algazarra tranqüilizou meu coração. Sorri e continuei meu caminho, muito diferente daquele que eu começara.