Recapitulando

Uma das minhas mais próximas e queridas amigas, a Roberta, sempre me deseja neste dia que meu ano novo particular seja bom. No mínimo bom. E nesta data eu costumo recapitular, que seja por alguns minutos, o que aconteceu no meu ano velho, ao qual dou adeus com sensação de missão cumprida. Trezentos e sessenta e cinco dias, alguns laços desfeitos, outros feitos de última hora, outros muito mais apertados: em resumo, este é o saldo. Reencontrei alguns prazeres e não deixei meu único vício grave. Pus muito mais a mão na massa, mas na hora em que achei por bem botar. Disse algumas verdades que não foram compreendidas, ouvi algumas que precisei compreender. E logo depois ouvi palavras que esperava há muito, sem sequer pedi-las, sem nem pensar que as merecia. Tomei decisões que mudaram muito a minha vida e a de quem está comigo e, por mais que essas mudanças tenham sido bruscas, não deixaram muito mais que uma lembrança. Li muito, mas quase 80% profissionalmente, o que foi bom e ruim ao mesmo tempo. Comprei mais livros e mais dicionários e quase já não sei o que fazer com minha pilha de não lidos ao lado da cama. Atrasei mais do que devia, adiantei muito para surpreender. Me rendi ao idioma espanhol e recomecei a estudá-lo, me aprofundei no amor pela língua alemã e me profissionalizei mais ainda no inglês. Virei um macmaníaco. Dormi tarde, acordei cedo, dormi cedo e acordei mais tarde, nadei um pouco e ainda voltarei a nadar com mais regularidade. Descobri que podia ficar o dia todo numa janela junto de pessoas muito parecidas comigo, mas todas muito diferentes também, e me tornei alguém mais feliz depois disso. Aceitei ajuda, corri em auxílio, fiquei quietinho e berrei muito. Fiz minha primeira tradução literária. Chorei sozinho, ri muito bem acompanhado e compartilhei com quem devia o que antes não podia. E um peso saiu das minhas costas. Tive saudades, matei-as muitas vezes e finalmente vi quem habita meu peito.

É um lampejo, esse ano novo particular. Mas cada vez que passa, consigo aproveitar melhor a sua luz.

Um beijo a todos e que possa vê-los no próximo. E nos próximos…

Imagem: Uarrr.org

Deslumbramentos

Costumo neste dia escrever um texto inspirado e tudo mais. Para escrevê-lo sempre penso bastante, me preparo por dias e depois coloco no papel minhas últimas impressões do ano anterior ou algo que espero e que me remeta ao próximo ano que acaba de iniciar.

Porém hoje escrevo de bate-pronto com uma única e óbvia frase: o primeiro ano de uma década é matematicamente o prenúncio da próxima. Nesse caso os quarenta, pois 3+1 = 4.

Em geral os aniversários são para a maioria das pessoas um momento de reflexão e alegria, ainda mais nos poucos dias que os antecedem. Para mim, até o último ano, era motivo de angústia imensa, pois achava tudo desnecessário, inclusive a comemoração da data, que bobagem, e acabava comemorando meio a contragosto, mas sempre foram dias e noites maravilhosos. Ao contrário, neste ano, pouco pensei no dia em si, mas no fato de finalmente eu ter crescido. Moro há quase 8 anos fora da casa dos meus pais, pago minhas contas e faço minhas dívidas, arco com minha vida e com minhas decisões. Porém, até pouco tempo, era um “vai levando pra ver onde vai dar”. Aos poucos me dei conta de muitas coisas que me fizeram enxergar que agora sou gente grande. Tomar as rédeas da minha vida, passar por maus bocados, ser apaixonado cada dia mais pelo que faço e ser reconhecido por isso, algumas das coisas que me fizeram um dia parar e pensar: “Agora sim, é pra valer”.

Quando percebi isso, não tive medo, mas uma felicidade me invadiu de tal forma que minha vontade de dar mais um, dois, mil passos se tornou ainda maior. De ajudar e receber com gratidão a toda a ajuda. De amar mais, estar mais ao lado de quem me ama e retribuir tudo que recebo com o que posso dar. De ler muito mais, me dedicar muito mais, me divertir muito mais. E tomar um porre de vez em quando, que ninguém é de ferro.

Os abraços virtuais e reais que recebi até agora e que receberei ainda me dão a certeza de que não vim pra cá a passeio. Se mereço tudo isso não sei, mas agradeço e aproveito a delícia desse dia, no qual as pessoas lembram não uma data apenas, mas alguém que neste dia comemora ter chegado até ali, ter conquistado amigos e pessoas queridas, ter representado algo. E por isso hoje, 29 de outubro de 2010, uma palavra não sai da minha cabeça: gratidão.

Um beijo carinhoso a todos.

Algumas coisas se explicam, outras…

Hoje é meu aniversário. Acho que nunca comecei um texto aqui com uma frase tão plana, lisa. E ao mesmo tempo de significados tão intensos que fica difícil lê-la com imparcialidade. Pensa-se em parabéns e  talvez seja merecido, pois neste mundo de cabeça para baixo vence-se a cada dia.
Mas hoje é meu aniversário. E não é dia de escrever coisas tristes ou pensativas, mas de comemorar. Comemorar que há 30 anos um casal me escolheu para ser seu filho e apostou em mim todas as fichas. Que desde meu último aniversário acordei nos últimos 365 dias, levantei e fui cumprir minhas obrigações. Que curti esses dias com pessoas maravilhosas, que amo muito. Com as que estão bem pertinho. E com aquelas que estão longe. Que no meio desse caminho realizei um sonho e conheci a Terra dos Teutos. E lá conheci outras pessoas muito maravilhosas, me decepcionei com outras que mal conhecia, mas a vida continuou bela. Que voltei em segurança e vi o sol nascer na Costa do Marfim por uma janelinha bem pequena e chorei. Que nesse meio tempo traduzi um livro, diversas matérias de revistas e muita coisa chata, mas que me deixaram feliz pelo desafio aceito e cumprido. Que a cada dia 29 de outubro, desde 1966, comemora-se o dia nacional do livro o que, para alguém como eu, tem um significado mais que especial. Que meu primeiro presente, na véspera, foi exatamente um livro sobre tradução de uma pessoa realmente especial. Que hoje recebi uma ligação da minha avó no alto de seus 77 anos, linda e de cabelos branquinhos, me abençoando e desejando felicidades. E também um e-mail de uma família especial que me recebera com tanto carinho lá tão longe. E que completei três décadas com muita felicidade e orgulho de quem sou.
Por isso digo que hoje é meu aniversário. E o que se sente nesse dia não se explica. Nem se deve explicar…