Sobre Petê Rissatti

Tradutor profissional, leitor compulsivo e escritor. Paulistano com metade do coração mineiro. Presta serviços de tradução nos idiomas inglês e alemão para o português do Brasil.

Ao lado do mestre

Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.

Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?

Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.

Versão: um erro conceitual

Na área de tradução no Brasil (não sei se em outro país isso também ocorre) convencionou-se chamar de versão qualquer texto que parta do nosso idioma para um idioma estrangeiro. Talvez seja uma implicação não apenas minha de que esse termo não apenas significa pouca coisa no que diz respeito ao ato tradutório, mas também carregue consigo uma ideia perigosa que ainda grassa na mente dos leigos: que a tradução seja um espelho do texto original. Nesse caso, cabe muito bem o termo versão que, grosso modo, seria apenas uma modificação de um mesmo produto, ou seja, “versionar” um texto, como muitos dizem fazer, significa alterar algo existente e o resultado: a mesma coisa.
Para quem leva a tradução a sério, é claro que no título do livro de Umberto Eco sobre tradução, “Quase a Mesma Coisa”, o quase carrega muito mais do que se imagina. E considerar o texto traduzido o mesmo texto que o original em outro idioma pode indicar duas coisas: tremenda ingenuidade ou, no pior dos casos, temerosa má-fé. Juridicamente temos a prova de que o texto traduzido não é a mesma coisa coisa nenhuma. Pela lei dos direitos autorais, o tradutor é considerado nada menos que o coautor da obra autor de obra derivada (muito obrigado, Denise Bottmann), pois o tradutor, na condição de humano, cria um novo texto a partir de outro texto codificado em outro idioma (ou original), sendo ele elaborado, pensado e transformado, e não apenas processado, como faria uma máquina.
Talvez eu seja cri-cri, talvez implique com bobagens. Porém, as palavras escondem camadas e segredos e os tradutores devem estar afeitos às mirabolâncias da língua. Para quem acredita que é tudo a mesma coisa, coloque seus textos num tradutor eletrônico e sinta a diferença de não ter um ser pensante no comando…

P.S 1.: Agradeço à Ana Iaria pela ajuda com o tema.

P.S. 2: A correção muito pertinente por quem entende do assunto. Denise Bottmann, sempre atenta, veio ao auxílio da questão, indicando que não seria coautoria a tradução, mas autoria de obra derivada. Está no comentário da Denise, mas coloco aqui também o link para a Lei dos Direitos Autorais: http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/Leis/L9610.htm

Pequenos prazeres: cabelo

Nunca gostei do meu cabelo. Minto, passei a não gostar dele quando algo de estranho aconteceu com ele. Tinha de seis para sete anos e pela primeira vez fui ao barbeiro cortar o cabelo. Antes disso minha mãe cuidava dos meus cachinhos, era uma coisa meio indiozinho, meio anjo, um cabelo bem pretinho que caía e balançava ao lado das minhas orelhas. Até que chegou o momento de eu enfrentar a cadeira do barbeiro e por um momento pensei que ele faria minha barba, como meu pai fazia, como meu irmão estava prestes a começar a fazer. Eu, caçula, aguentava firme os puxões de cabelo do meu irmão mais velho, mas quase não aguentei quando sentei na cadeira de couro vermelho com um banquinho em cima para “dar altura”, como dizia o barbeiro.

Então veio aquele corte quase militar. Cabelinhos para o lado, pezinho feito, tudo nos conformes. A partir daí não havia quem desse jeito naquele cabelo carapinha e eu amaldiçoava o barbeiro que havia estragado aquilo que tanto me deixava feliz, um dos meus brinquedos prediletos. Até que comecei a estudar ciências, as mudanças hormonais e a adolescência sempre devastadora. Entre outras coisas, o cabelo ficou bem crespo e eu insistia nos cortes que me deixavam com cara de cotonete. Ou de palito de fósforo. Até que chegou o vestibular, a entrada na faculdade e os amigos que cuidaram para que não sobrasse nenhum fio na minha cabeça. Ficar careca me rendeu ser pintado na faculdade com batom

24 horas e muita gente pensar que eu havia sofrido uma operação no cérebro. Depois disso, nunca mais deixei crescer a ponto de fazer cachinhos, mas percebi ao menos que eles ficaram um pouco mais macios.

Há pouco não consegui passar no amigo cabeleireiro para me livrar deles e me deparei com um pequeno prazer: lavar os cabelos. Há tempos não usava xampu e condicionador e tem sido bem gostoso espumar o cabelo com um vagar tranquilizante, pensar na vida e nas coisas e em nada ao ensaboar e enxaguar aquilo para o qual antes eu pouco dava bola. Não que eu vá deixá-lo crescer, nem vontade tenho para cuidar tanto de um cabelo que não me favorece, mas ao menos, enquanto ele estiver maior do que eu costumo deixar, me entregarei ao prazer de lavá-lo com o cuidado que há tempos não tive com ele. Não, não fui acometido por uma febre metrossexual. Apenas descobri mais uma coisinha que deixa o dia um pouco mais divertido.

PS.: Vou tentar fazer de vez em quando uma pequena croniqueta como essa. Me digam, o que vocês acham?

A voz

Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.

+ uma rede social

Há pouco mais de uma semana a Google fez o lançamento da versão beta do Google+. Depois dos retumbantes fracassos do Google Wave (já falo mais dele) e do Buzz, acho que agora o pessoal do site mais famoso da web, que inclusive virou verbo dicionarizado, acertou a mão. Uma interface limpa, mecanismos de privacidade eficientes e (ainda) sem permissão para gifs de estrelinhas e fadinhas dançantes ou jogos viciantes, o Google+ tem causado agito entre as redes sociais. Mas não entre seus usuários.

A primeiríssima pergunta é: mais uma rede social? E a resposta clara e objetiva é: sim. Isso na visão do público que já começa a se encher do Facebook, como aconteceu com o Orkut e outros, mas não via alternativa senão continuar curtindo. Alguns atribuem à invasão brazuca a derrocada do Orkut, mas eu penso que seus sistemas ficaram bastante ultrapassados depois que o site do senhor Zuckerberg dominou uma grande fatia do mercado mundial e, como era de se esperar, virou febre por essas bandas. Diferente do Twitter, cuja proposta é muito outra e deve continuar como líder na sua proposta, acredito que a escalada do Orkut ao Google+ se deu por muita observação dos engenheiros googlelianos até chegarem à eureca: mais é menos.

A proposta do Google Wave era mais ambiciosa que aquela do Google+ e até acho que hoje ela faria mais sucesso, talvez até mesmo desbancasse todas as outras redes sociais. Compartilhamento de arquivos, textos, links, vídeos e fotos em tempo real e na nuvem com grupos determinados já era uma ideia apreciada, porém não tínhamos (isso faz quanto tempo? Dois anos, se muito!) equipamentos que viabilizassem isso em qualquer lugar, tampouco a ideia de tudo na nuvem era confiável. E o site também era meio bagunçado (ainda está no ar, para quem não conheceu, é só clicar aqui) e faltou boa vontade dos usuários.

Então, acredito que chegou a hora da Google no mundo das redes sociais. Particularmente, simpatizo muito mais com o Google+ do que com o Facebook, o qual pouco uso e nem tenho vontade de entrar. Como disse o Tiago, “já está com cheiro de Orkut esse Facebook”. Acredito que agora cabe aos usuários dar mais uma chance ao Google+ e cuidar para que não vire o samba do afrodescendente psicótico.

O novo do Marcelino

Conheci Marcelino Freire numa oficina de escrita erótica do SESC e nunca esqueci de uma frase dele que tem norteado alguns dos meus textos (ligue o sotaque pernambucano antes de ler a frase):

Digue logo o que tu quer e vá simbora.

A concisão é a marca registrada do escritor e agitador cultural, pai da Balada Literária e um dos criadores do selo Edith, agora capitaneado pelo editor do selo Demônio Negro, Vanderley Mendonça, com quem tive o prazer de trabalhar. E de acordo com o próprio Vanderley, essa marca resiste:

Amor e morte. Começo e fim. Sexo e paixão. Eis as armas do novo livro de contos do escritor pernambucano MARCELINO FREIRE. Uma reunião de “pequenos romances”, como ele mesmo chama as 14 histórias do livro.

Na próxima quinta-feira, dia 14 de julho, haverá o lançamento de Amar é Crime, no Centro Cultural b_arco. Como sempre, regado a muito agito e literatura, o evento promete. Veja abaixo o convite (que no dia 13 acontecerá no Sarau da Cooperifa).

Vejo vocês lá.

Errando e aprendendo

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Os erros são parte importante da vida.

Algo que faz parte da vida de todos, mas que fica cada vez mais difícil de as pessoas aceitarem: o aprendizado com erros e acertos. Todos estamos fadados a errar e ter a glória do acerto na conta, mesmo assim poucos se dão conta do valor da falha na vida de todos. Cada vez mais as pessoas tentam jogar seus erros para debaixo do tapete e expor acertos como troféus de uma vida ilibada. Ora, se todo mundo erra, por que teimamos em nos esquivar e às vezes atribuir ao alheio a nossa falha? Assim fazem os pais, quando não aceitam que seus filhos têm problemas, que muitas vezes foram causados por eles próprios, ou quando fazemos vista grossa aos defeitos de nosso amor para evitar atritos. Até mesmo entre amigos, muitas vezes, temos medo de repreendê-los e, ao meu ver, a partir do momento no qual não temos a liberdade de dizer a quem gostamos que ele ou ela está errado (ou nos melindramos ao ouvi-lo), não há amizade sincera.

Tenho uma historinha sobre os erros e a capacidade de aceitá-los para melhorar. Numa aula de pós, o prof. João Azenha nos apresentou um trecho de um livro traduzido e pediu para que apontássemos os problemas daquela edição, comparando-o com o original. Na primeira parte da aula encontraríamos os problemas e discutiríamos na segunda parte. Quando a segunda parte da aula começou, houve um bombardeio: eram erros recolhidos por nós, imprecisões que achávamos e outras coisas que eram mais implicações que erros de verdade. Azenha só anotava e dava duas próprias opiniões. No fim, disse algo assim:

— Traduzi esse livro no início da minha carreira, ainda engatinhando na tradução. Suas observações foram ótimas, quem sabe se eu puder um dia refazer essa tradução eu possa usá-las.

Houve um silêncio constrangedor, seguido de risadas. João se expôs, mostrou seus erros e como anos depois conquistou um lugar entre os profissionais mais respeitados. Acredito que tenha feito isso para mostrar o quanto aquele primeiro degrau, meio torto e capenga, fez com que ele chegasse lá. Sem aqueles erros ele não teria aprendido a acertar, sem os acertos os erros ficariam irreconhecíveis. Assim é na tradução e, muito antes, na vida.
Por isso, não tenha medo de errar. A lição estará logo ali, te esperando…

¡Hola!

Don Quijote, Pablo Picasso

Sim, comecei a aprender espanhol. Minha única experiência real com o idioma de Cervantes foram as aulas com a professora Roseli Daltério, na Ibero-Americana (era a língua complementar para os cursos de tradução) e uma pequena viagem a Cuba para um congresso de germanística, uma experiência fantástica na isla del Capitán. E apenas com essa viagem que percebi como é rica e bonita a língua dos hermanos. Não comecei do básico, pois esse aprendizado, mesmo que distante, ficou na cabeça e pude dar uma avançadinha e entrar no nível intermediário.

A primeira aula foi na segunda-feira passada e uma das minhas dificuldades foi a de me concentrar para não disparar a falar português. Acredito que no início esse seja o grande problema, que pelo visto algumas pessoas não conseguem superar em médio prazo.

Aprender um idioma (de verdade, eu digo) exige algumas coisas das pessoas que hoje em dia quase ninguém está disposto a ter e se conceder. Inclusive, essas coisas costumam causar pavor nas pessoas e os fast courses se multiplicam como coelhos por conta dessa ojeriza que a maioria tem delas. Tempo, dedicação e paciência são elementos fundamentais (ao meu ver) para se aprender um idioma. Mesmo que seja um idioma mais próximo do nosso, como no caso do espanhol, e mais ainda quando o idioma ficar muito distante da nossa realidade.

Encontrei uma moça, a Tatiana, que acaba de começar o curso na mesma escola que eu. Por acaso, quando viu que eu estava voltando da mesma escola, me pediu para que eu a acompanhasse até o seu carro, pois havia um cara meio estranho rondando a escola e ao que parece havia escolhido a moça como possível vítima. Conversamos um pouco, ela teve uma experiência com o aprendizado do alemão e me disse logo de cara algo que ninguém nunca havia dito para mim de primeira, algo em que acredito muito: para aprender o alemão, é necessária dedicação praticamente diária, ao menos no início, para que o restante do aprendizado (que pode levar vidas e vidas [risos]) seja mais tranquilo. Acredito que não excluo nenhum idioma dessa regra, visto que o aprendizado vem com a repetição e internalização de estruturas e, em seguida, com a liberdade para brincar com essas estruturas dentro das possibilidades da língua e do léxico. Errar, acertar, como ao aprender sua primeira língua, e corrigir no banco de dados da cabeça o que seja necessário. Um ótimo [e muito rígido] professor que tive no Goethe, o Henrique Oliveira, sempre dizia: Die Wiederholung is die Mutter der Sprache, a repetição é a mãe do idioma.

 Desejem-me sorte nessa nova empreitada. Também tenho uma pergunta a quem se interessar a responder: para você, qual seria uma boa fórmula para aprender um idioma?

Correndo a favor do tempo…

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Há pouco mais de um mês me tornei 100% autônomo, o que até então era um sonho longínquo. Por diversos motivos que não cabem neste blog, tomei coragem e me lancei no desconhecido. Até agora, 25 de junho, tudo corre muito bem, obrigado. A única coisa que tem me deixado cabreiro é o que deve deixar todo tradutor autônomo maluco: o famigerado prazo.
Tenho uma cabeça ainda de peão, a pressão ainda é o fio condutor de muitas das coisas que faço. Se há pressão, há produção. Aos poucos, porém, tenho aprendido a gerenciar meu tempo de forma que eu possa aproveitar o que minha escolha me trouxe de melhor (ou seja, um controle sobre minhas atividades durante o dia e a decisão sobre fazer ou não um serviço) e controlar o que ela ao mesmo tempo proporciona, uma liberdade nunca antes experimentada por mim na história deste País. Há um tempo comentei aqui sobre o esquema pomodoro que para mim funciona quando a concentração resolve dar uma volta no sofá ou quando há metas muito urgentes. Mas cada um lida como se sente melhor com a famosa tia Dédi Laine, senhora maldosa e sádica, sempre com um chicotinho na mão e o salto-agulha pisoteando nosso teclado (me lembrou a Mara Tara, do Angeli).
Agora quero saber de vocês: como gerenciam o tempo e fazem 24 horas renderem?

iPad e o arrependimento

Assim que comprei o iPad, há pouco mais de um mês, a primeira coisa que me veio à mente foi:

— Vou me arrepender…

Aos poucos percebi que era bacaninha tê-lo, podia fazer muitas coisas nele… por exemplo não me entediar mais enquanto esperava alguém num café, ver e-mails aqui e ali, ler um livro mais pesado que ele sem o incômodo de levar um trambolho na bolsa e por aí vai. Tudo que talvez eu pudesse fazer num celular. E talvez por isso doesse tanto na consciência ter comprado o que muitos chamaram de iPhonão ou iPodão.

Até que um dia eu estava no segundo dia de um curso de tradução no qual o professor havia distribuído uns textos traduzidos para que pudéssemos compará-los aos originais, verificar as influências etc. Muito bem, cheguei no segundo dia com meu brinquedo novo, todo orgulhoso, quando ouvi:

— Hoje vamos trabalhar naqueles textos que dei para vocês na semana passada…

Gelei. Vendo todos tirando seus textos das bolsas e mochilas, do meio dos cadernos. Fui para minha bolsa e, claro, a papelada havia ficado dentro do caderno que eu havia esquecido numa outra mochila. Ótimo, ficaria olhando para o teto durante toda a aula… até que o professor disse:

— Como vocês sabem, retirei esses textos do site…

Ouvi cornetinhas angelicais ao olhar para a tela do iPad. Mais que depressa abri o navegador e voilá, lá estavam todos os textos que analisaríamos nas aulas seguintes. E a aula seguiu sem percalços e eu, agradecido ao equipamento e ao professor, fui para casa pensando: nada de arrependimentos…

Sentir a tradução

Foto da Deutschlandradio.de - Kultur (http://www.dradio.de/dkultur/sendungen/thema/1149150/)Agora que já está publicado, posso falar sobre um dos livros que traduzi no início deste ano, mas não com o intuito de fazer um jabá básico, mas para comentar algo que todos os tradutores devem sentir em maior ou menor medida durante a tradução. Não é sono, nem tédio, nem cansaço, coisas normais durante textos mais longos como um livro. Mas aquele envolvimento que a gente nunca imagina quando inicia uma nova empreitada dessas, que pode envolver diversos sentimentos: raiva, tristeza, ódio, alegria… mais uma loucura das nossas aventuras tradutórias.
Posso dizer que me diverti muito ao traduzir Sincero – a história real e bem-humorada de um homem que tentou viver sem mentir (Verus Editora), do jornalista alemão Jürgen Schmieder. Este livro caiu nas minhas mãos quase por acaso, após eu ter declinado por conta do prazo (sempre ele, merece um post no futuro) um outro livro. Eis que o retorno da minha recusa foi este livro divertidíssimo pela mesma editora, o que vejo hoje como uma troca muito feliz. Quando li o índice do livro já tive a primeira certeza: vou rir com este livro. E não deu outra, me peguei muitas vezes gargalhando entre uma frase e outra, entre uma história e outra desse jornalista maluco que resolveu passar a quaresma sendo sincero com tudo e com todos, doesse a quem doesse. Vivi com esse cara durante uns três meses, enlouquecido com outro alemão (o Domscheit-Berg, do Wikileaks), e compartilhei meu texto com ele para que o cara falasse em português de suas desventuras engraçadas.
Mas também me emocionei, claro. Não vou dar uma de spoiler aqui, mas há um trecho que com certeza vai deixar quem lê-lo incomodado. E quando me peguei emocionado, traduzindo com aquela dorzinha no coração, lembrei de uma palestra da profa. Viviane Veras no V CIATI, na qual ela comentou sobre intérpretes que precisavam fazer intermediações entre criminosos e vítimas em guerras africanas. Não há maneira de ser imparcial num caso desses, em quase nenhum caso no qual as palavras, sentimentos e ações passam pelo crivo de nosso cérebro. Ou seja, tradução é antes de mais nada interpretação na maior parte das vezes (se não sempre) e nós estamos ali, a cada palavrinha pensada, refletida e processada, até o texto final.
Acredito que por isso dê aquela pontinha boba de orgulho quando vemos o livrinho nas prateleiras das livrarias…

Mais uma do Nelson

Esse Nelson de Oliveira não para: são cursos, oficinas, livros lançados em quantidade e qualidade (vejam os prêmios do moço) e ainda pastoreando autores em suas coletâneas que sempre causam alvoroço na iminência do lançamento. Diz o pessoal da época que Geração 90 causou gritos, choros e convulsões (em especial de quem não entrou na lista dos ‘escolhidos’ do mestre Oliveira). Pois agora não deve ser diferente: a partir do dia 21 de junho chega nas melhores casas do ramo livreiro Geração Zero Zero – Fricções em Rede (Editora Língua Geral), com lançamento oficial em diversas cidades (veja P.S.). Entre apadrinhados, descoberto e desconhecidos de Nelson estão Andréa del Fuego, Lourenço Mutarelli, Veronica Stigger e outros. Acredito que de alguma forma o intuito dele era o de trazer um pequeno panorama do que foi produzido nos primeiros 10 anos deste novo século, algo que não se pode menosprezar. Nelson brinca mais uma vez de padrinho de uma nova geração de autores, muitos dos quais foram seus oficinandos, o conheceram ou no mínimo têm contato com ele.
Os dados estão lançados. E o livro, só no dia 21. Vejo vocês por lá, na Livraria da Vila da Fradique? Será no dia 21 de junho, terça-feira, das 18h30 às 21h30. Vejam o convitinho abaixo.

PS.: Também haverá lançamento em Brasília (dia 19.7, no Café com Letras), no Rio de Janeiro (dia 29.6, na Livraria Travessa), em Salvador (27.7, na Livraria Cultura) e em Porto Alegre (dia 12.7, na Palavraria).

Tradução e tecnologia combinam?

Já respondo: sim, definitivamente sim. E quem ainda não acordou para isso ainda mais cedo ou mais tarde estará fadado a tomar um chega pra lá do mercado. Semana passada houve uma despedida da última fábrica de máquinas de escrever do mundo e aposto que diversos tradutores sentiram o coração doer com essa notícia. Não duvidaria se alguém me dissesse que algum ainda prefira a linda Olivetti cinza ou a IBM eletrônica (que tem até memória!) e posso dizer uma coisa sem medo e sem piedade: o mundo mudou e quem não acompanhar a cavalgada louca dele vai cair do cavalo.
Ouvi uma história de um amigo tradutor que foi dar aula de Wordfast ara uma colega (se não sabe o que é, google it). Ele primeiro explicou como funcionava e tudo mais e disse: agora vamos começar a tradução! A colega, mais que depressa, pegou seu caderninho e começou diligentemente a traduzir com sua linda canetinha Bic.
Tradutor não deve apenas estar antenado com sua área e correlatas, com as últimas teorias (há quem diga que são inúteis, de quem discordo) e com as tecnologias em tradução que são diversas, tantas que assustam. Não se restingem às famosas memórias de tradução (CAT [Computer Aided Translation] tools), mas há programas de alinhamento, edição e correção de código, conversão de arquivos, ferramentas de terminologia e muitos outros.
E você ainda com suas fichas pautadas?
Por isso dou uma dica ao iniciante e ao já experimentado que ainda não se aventurou no mundo da tecnologia: visite blogs brasileiros e estrangeiros, fuce na internet e entre em comunidades de tradução e tecnologia. Procure colegas que sejam feras no computador, corra atrás de cursos. Assim o mercado naturalmente vai se aproximar de você e você do que rola por aí em materia de tecnologia.

PS: Recomendo dois blogs muito bacanas: o Tradução Via Val
e o Tradutor Profissional . De lá, com certeza você encontrará muitas coisas bacanas por aí.
PS 2: Voltei!

Tudo novo de novo…

“Vamos começar/colocando um ponto final…”

Um cantor e compositor que gosto muito, Paulinho Moska, fez a música que dá título a este post e a primeira frase da canção é esta. Sempre gostei muito dessa música, inclusive imaginei diversas vezes roteiros para o clipe da tal música, como seria e afins. No entanto, nunca pensei que ela fosse me falar tanto como hoje, quando coloco um ponto final numa vida e recomeço outra, depois de muito lutar para prolongar uma f(r)ase de pelo menos 11 anos. Muito aprendi, muito compartilhei, mas chega uma hora na qual o fôlego acaba e o derradeiro é inevitável. Chega de vírgulas, partamos enfim para um novo período.
Que ainda é estranho. Coberto de uma névoa espessa, mas que aos poucos se desvanece. Hoje andei a esmo, pelo simples prazer de fazê-lo. Há muito não tinha vontade nem tempo para isso, afogado numa vida estranha, muito clara e asséptica, cheia de certezas que, no fundo, eram mais incertas que minha caminhada sem rumo. Hoje, na incerteza, estou muito mais seguro. Viver um paradoxo, que seja um por vez, não deixa de ser saudável.
Tantas metáforas às vezes deixam as pessoas preocupadas, mas não tem motivo. Melhor eu não poderia estar depois de uma semana de liberdade de amarras que eu mesmo me coloquei, por isso minha responsabilidade era desatá-las. O que não teve e não tem preço.

PS.: A quem interessar possa, este post refere-se à minha vida profissional apenas. O que não é pouco…

Tempo de plantar, tempo de colher…

Quando se passa muito tempo num lugar, diferente de antigamente, fica-se desacostumado com o mercado. Prega-se em altos brados que o limite hoje é de 5 anos numa empresa. Pois bem, passei 11 anos numa empresa de tradução, dos quais ao menos seis foram como tradutor de fato. Onze anos nos quais aprendi muito, ensinei bastante e cresci. Não existe para mim o ‘se’, não penso nele. Se eu tivesse saído antes, se eu tivesse feito diferente. O que de fato aconteceu nestes 11 anos 1 mês e 1 dia é com o que posso contar e confesso: achei ótimo. Nesse tempo aprendi a me chamar tradutor e conheci muita gente, participei de grandes projetos e me apaixonei pela profissão, apesar de todos os percalços. Desde o final da faculdade, quando fiz uma entrevista surreal com a dona do escritório, até o dia 11, quando acertei meus últimos dias na empresa, aproveitei cada segundo, cumpri meus deveres e tentei ao máximo ser profissional e autêntico. Espero ter conseguido ser ambos na maior parte do tempo. Agora é tempo de renovar, de plantar outras sementes e trabalhar duro para que as colheitas sejam cada vez mais especiais.
Agradeço a todos que fizeram parte dessa jornada. Apesar de clichê, não há palavra melhor para descrever essa década. Espero reencontrar muita gente e conhecer outros tantos nessa nova fase da vida… E vamos que vamos!

Ainda sobre os livros eletrônicos

Qual é a grande reclamação do mercado editorial, hoje e sempre? Que não há leitores e os poucos que existem não dão conta de sustentar o mercado de forma que se possa investir não apenas no best seller, mas também em outras literaturas que não aquelas que tem como principal atrativo o poder de vender. Será?
Não é novidade que o livro no Brasil ainda é uma fortuna, visto como objeto de luxo e tratado como tal pela maioria. Além do custo alto do livro, há a falta de incentivo à leitura, algo que deve ser cultivado desde o início da aprendizagem para não se tornar novidade. A leitura ainda é confundida com ócio, não com atividade, ou seja, “ele não tá fazendo nada, só tá lendo…”. Ninguém se dá conta que é possível melhorar as pessoas pela leitura ou no mínimo abrir os horizontes de muitas delas com essa atividade tão encantadora.
Então surge uma luz no fim do túnel: os livros eletrônicos. Por um lado, o livro digital é atraente para as novas gerações de leitores que consomem bits e bytes, já leem mais do que seus pais leram por conta da internet, têm blogs, atuam em redes sociais e compartilham sua vida com o mundo como se todos fossem amigos. Por outro lado, diferente do que se imagina, é possível ler e-books no computador, no laptop, no celular (com boa vontade e bons óculos para os astigmáticos). Assim, continua tão portátil como nunca. E os aparelhinhos leitores são algo à parte com suas múltiplas possibilidades.
Daí a gente entra na loja da editora, esperando que aquele livro lançado há pouco esteja entre os livros eletrônicos e mais em conta que a versão em papel. Nada. Busca outro, de outra editora e… Nada. Encontra outro livro que estava procurando, legal, na versão eletrônica. Preço de livraria? Suspira e vai jogar Angry Birds Free.
Percebem onde quero chegar?
O livro eletrônico tem o mesmo processo editorial do livro em papel, tirando a parte de impressão, distribuição física etc. Há softwares especiais para fazer os livros, ainda uma novidade no Brasil, o investimento é alto para um futuro ainda incerto. Porém, não precisamos ir muito longe para verificar, em indicadores mundiais, que o mercado de livros eletrônicos apenas cresce, tomando proporções que não poderíamos imaginar há dois, três anos. Para quem lê outros idiomas a internet e suas lojas internacionais viraram um prato cheio para se descobrir coisas que demorarão a chegar ao Brasil, se chegarem. Quem lê de verdade e descobre tantas facilidades vira freguês e gasta mesmo, sem muito titubear.
Podemos ainda falar de futuro incerto?
Posso parecer elitista agora, mas se pensarmos bem os celulares se popularizaram faz quantos anos? 10, 12? E hoje todo mundo tem e usa e gasta com ele. As novas gerações serão leitoras, as mudanças já se mostram, ainda que tímidas, nos relatórios dos órgãos de pesquisa da leitura e educação no país. E a tecnologia anda lado a lado dessa meninada.
Então é bom que as editoras revejam seus conceitos quanto ao suporte digital. Pois as coisas mudam… e muito rápido.

Quem mexeu no meu texto?

Já comentei aqui sobre a eterna briga entre tradutores e preparadores/revisores, sobre mandos e desmandos e sobre brios e sentimentos feridos. Uma das conclusões às quais cheguei (corroborada por diversos comentários aqui e ao vivo) é a de que a solução seria um trabalho conjunto (sinérgico, como gosta o pessoal da administração e afins) do início ao fim do processo editorial. Inclusive comentei que já houve tentativas, mas não soube se foram bem sucedidas.
O que vejo ainda é um sistema estilo Escravos de Jó: um põe o texto, outro tira, outro põe, o próximo tira, sem que as pessoas se relacionem de verdade. Não há troca, essa atividade humana tão benéfica, mas apenas assunção (ou entrega) de responsabilidades (ou de acusações). Foi o tradutor, ou o preparador, às vezes o editor ou o revisor… e não há uma discussão sadia. Mas quando o livro aterrissa na livraria começam os ataques e a pancadaria. Estou para ver um mea culpa nesse jogo, de qualquer lado. Difícil, não é?
Não seria se, a fogueira não fosse de vaidades e apenas aquecesse, sem chamuscar os envolvidos. Por isso é imprescindível que os papéis sejam repensados e que o limite de cada elemento no processo de feitura de um texto seja bem delineado, sem que haja coibição da criatividade de ninguém. Funções estabelecidas, próximo passo seria a conscientização de todas as partes interessadas: tradutor faz um trabalho decente, preparador se esmera em deixar o texto redondo sem descaracterizá-lo, revisor toma conta da parte mais técnica e editor/cliente/agência (de preferência com o tradutor) dá a palavra final, bate o martelo e publica ou entrega ao cliente final. Sei que não é tão simples, uma situação praticamente ideal, mas acredito que se todo mundo estiver no mesmo ritmo, acreditar que o barco é um só, ninguém vai querer remar contra.
Que vocês acham?

(Eu acho que agora eu vou tomar porrada… Vai vendo…)

E-books: primeiras impressões

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Há uns tempos venho mostrando uma flexibilidade quanto ao assunto livro eletrônico, mais por considerá-lo uma tendência irreversível do que por gostar da ideia de ler numa tela. Já ficou até chato comentar com ar nostálgico que sentir o cheiro do papel e a textura das páginas ainda constitui um ótimo motivo para se rebelar contra a novidade. Hoje já pode ser comparado a falar que temos saudades dos chiados dos LPs ou do barulhinho do telefone de disco.
Resolvi por inúmeros motivos me render aos ebooks, experimentá-los antes de fazer juízo apressado. Os últimos posts que fiz sobre o assunto já mostravam que logo mais eu o faria (até porque, uma das minhas facetas menos exploradas aqui no blogue é minha tara por tecnologia). Então, na onda das recentes mudanças, depois de muito ponderar, acabei adquirindo um iPad. Menos e-reader que seus rivais Nook, Kindle, SonyReader e outros, o iPad foi minha opção exatamente por isso, pois primeiro não queria gastar uma grana para ter o que eu já tenho nos livros em papel, mas desejava algo que me trouxesse também diversão e produtividade. E acredito ter feito a escolha certa.
Nem bem cheguei em casa e comecei a baixar aplicativos. Não, Angry Birds não foi minha primeira aquisição, mas foram os aplicativos iBook (da Apple), KindleApp, B&N eReader e Saraiva Digital Store. Confesso, porém, que demorei um pouco para usá-los de verdade, ainda envolvido pela novidade. E está aí exatamente um contra do iPad como leitor eletrônico: ele vai além disso e sua oferta de distrativos é tanta que a leitura, para a maioria de seus usuários, tem ficado em último plano (se é que existe).
Mas quando fui fazer a primeira experiência real de leitura, escolhi parâmetros para testar a eficácia da maquineta: escolhi um assunto que gosto muito, a literatura, porém em alemão, língua que eu obviamente leio bem, porém numa velocidade menor que em inglês e, claro, que na minha língua materna, o português. O livro se chama “Erst lesen, dann schreiben” (Primeiro leia, depois escreva), organizado por Olaf Kutzmutz, que traz 22 autores alemães contando suas experiências literárias, mas não como escritores, e sim como leitores. Ainda comentarei sobre ele aqui.
Eis a minha grata surpresa: ler na telinha é uma delícia. Entre as facilidades da leitura eletrônica estão as anotações e as marcações que se fazem num clique. Consultas a dicionários também facilitam a vida no caso de textos mais intrincados e/ou antigos. A compra de livros é muito fácil e rápida, o que também representa perigo a viciados como eu.
Bem, essas são as primeiras impressões para mim de um futuro que se consolida. As vendas de ebooks no mundo vêm crescendo espantosamente, a pirataria já surge como uma grande preocupação para as editoras e elas terão que ser rápidas para encontrar soluções. Perdas e ganhos são inevitáveis no mundo digital, mas acredito que elas se sairão melhor que as gravadoras nesse sentido.
Logo terei mais impressões sobre a leitura e a relação com os leitores eletrônicos.
Ah… e este post foi feito no iPad, no aplicativo do WordPress. Talvez isso faça também com que eu volte a ativa no blogue. Torçamos…

Ganhar e/ou perder

Nem sempre ganhamos ou perdemos na vida. E isso se aplica sobremaneira à tradução. Voltei a pensar nessa questão depois de uma das aulas do curso sobre dificuldades de tradução literária, ministrado pelo prof. Maurício Santana Dias, tradutor de italiano e acadêmico. Uma participante do curso perguntou sobre trocadilhos, expressões idiomáticas e afins, ficou mais do que claro que devemos contar com um imenso jogo de compensações.
Lembro da Maria Alice Vergueiro, num dos episódios de “Tapa na Pantera”, dizendo ‘fuma aqui, toma um chá, fuma aqui, toma um chá’. Na tradução acontece um pouco dessa forma: ganha aqui, perde ali, ganha ali, perde lá, numa sucessão que é o risco assumido pelo profissional. E isso não se restringe à tradução literária, mas a todo o tipo de tradução, pois esse jogo das compensações também se aplica à tradução não literária. Quando se percebe que a tradução não é um jogo de espelhos, fugindo da ideia de palavras e frases como compartimentos estanques que recebem o conteúdo de outros compartimentos estanques, esse jogo começa a ficar mais prazeroso e interessante.
Traduzir é escolher. Escolher é enfrentar. Não é possível afastar-se dessa afirmação no mundo da tradução, ou seja, não dá para deixar as opções lá e dizer: “Oi leitor, escolha a que melhor se encaixe ao seu gosto, ideologia, modo de pensar etc.”. Numa análise de uma tradução, surgiu o comentário de que uma palavra utilizada por ele, logo no início do texto, estava carregado de significados dentro do contexto daquela obra. O tradutor, corajosamente, ultrapassou a barreira das definições dicionarizadas e inseriu naquela obra um dado que talvez nem o próprio autor teria pensado. Abuso? Não, criatividade. Pois a palavra inserida não prejudicou em nada o sentido do texto, não fugiu, digamos, de um “alcance” semântico da palavra escolhida para o autor. Ao mesmo tempo, trouxe um dado importante da obra logo no início, informação que foi mesmo pensada pelo tradutor.
E aí nos diferenciamos da máquina.
Quando fazemos nossas escolhas conscientes, descobrimos nossa voz dentro da obra ou do texto e tornamos essa voz mais alta que a voz do texto na língua fonte. Não precisamos encobri-lo por completo, mas no texto traduzido deve prevalecer a voz do tradutor. Em resumo, num conceito bastante caro nos dias de hoje: recriação.
Por isso, da próxima vez que estranhar uma tradução (e para usar um jargão, “salvo erro manifesto”), pense que o tradutor escolheu aquela frase/palavra/termo com cuidado. Ou ao menos deveria tê-lo feito. Pois é exatamente o que fazemos o tempo todo. Escolhas.

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IV Encontro Prática de Escrita

Olá pessoas,

Claudio Brites e Nelson de Oliveira não param e há alguns anos organizam, junto com a Terracota Editora e a Universidade Cruzeiro do Sul, o Encontro Prática de Escrita. Conheci parte da turma dos Escritores de Segunda justamente num desses encontros, que sempre são bastante produtivos. Neste ato a oferta de cursos e palestras está bastante interessante e, claro, estarei lá. Para se inscrever, clique aqui. Vejam o release do evento:

O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.

O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp, Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.

O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensu em Criação Literária. A inscrição deve ser feita aqui. O limite de vagas é 120 para as mesas e 15 por oficina.

Quando: 7 de maio de 2011 – das 10 às 16h30
Onde: Universidade Cruzeiro do Sul – Campus Liberdade – Rua Galvão Bueno, 898 / São Paulo-SP
Quanto
: Entrada Franca
Vagas: 120 (mesas) – 15 (oficinas)

PROGRAMAÇÃO

Mesa 1 – das 10 às 11h15

A PRÁTICA DE CRIAÇÃO DE CADÃO VOLPATO
Convidado: Cadão Volpato
Mediação: Nelson de Oliveira

Mesa 2 – das 11h15 às 12h30

DO QUE FALAM OS ESCRITORES
Convidados: Mona Dorf e Oscar D’ambrósio
Mediação: Edson Cruz

Oficinas

A ARTE DO ENSAIO
com Cláudia Vasconcellos
das 14h30 às 16h30

Escrever um ensaio é discorrer de um modo muito pessoal sobre um assunto, qualquer assunto. Não precisa ser um expert no tema que se vai abordar, porque aquilo que transparece no ensaio é sobretudo a opinião bem elaborada do ensaísta. A oficina de ‘Ensaios’ discorrerá sobre como este gênero de escrita nasceu, fornecerá dois breves exemplos, os quais fornecerão um modelo deste tipo de escrita, e, então, os participantes serão convocados a escrever os seus ensaios, ou seja, a darem as suas opiniões e por meio delas se darem a conhecer. Para interessados a partir de 18 anos.

COMO CRIAR UM INUTENSÍLIO SEM SE TORNAR UM INÚTIL
com Edson Cruz
das 14h às 16h

Uma oficina de criação e análise poética ligeira e profunda como o tanque de Bashô. Ah, você não sabe do que estamos falando? Não sabe se o que lê e o que escreve tem melopeia, fanopeia ou logopeia? Não sabe a diferença entre um marceneiro e um poeta na Grécia antiga? E qual a função da poesia em tempos de big brother e consumo desenfreado? É meu chapa, você está precisando de uma oficina como essa.

SOLTANDO A LÍNGUA
com Marcelino Freire
das 14h às 16h

Quer soltar o verbo mas não sabe como? Tem um projeto de um livro mas na hora de escrever deu um branco? Está difícil de organizar as ideias e os sentimentos? Pois bem: o escritor Marcelino Freire (autor, entre outros, do livro “Contos Negreiros”) dará, nesta rápida oficina, algumas dicas de como trabalhar o texto (não importando o gênero literário) e fazer do seu “bloqueio” artístico algum muito criativo. Para interessados em literatura, a partir de 14 anos.

ESCREVER PARA JOVENS. QUE HISTÓRIA É ESSA?
com Marcelo Maluf
das 14h às 16h

Escrever literatura para jovens é uma linha tênue que muito se aproxima da literatura adulta. Harry Potter e Artemis Fowl são exemplos de textos que ganharam o público adulto. Enfim, escrever para jovens, que história é essa? Marcelo Maluf é autor entre outros de “Jorge do Pântano que fica logo Ali”, e organizador da Antologia infanto-juvenil “Era uma vez para sempre”, nessa oficina prático-reflexiva, Marcelo dará dicas e possíveis caminhos da literatura contemporânea para jovens. Para interessados a partir de 18 anos.

Vejo vocês lá!

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