Proibido para menores

Imaginem a situação: seu pai, mãe, irmão ou amigo faz o seguinte e ingênuo pedido:

Posso ver meu e-mail no seu computador?

Você, mais que solicit@, fala Vai lá, fique à vontade. E sua tradução está aberta na tela. E a última linha, aquela atrai os olhares mais resistentes, traz a frase:

E aí, vai um boquete?

A pessoa olha. Olha novamente. Olha de novo e não acredita muito no que vê. Não pode ser! Como a pessoa escreve isso numa tradução?

É, nem só de frases lindas é feita nossa profissão. Às vezes nos deparamos com a situação na qual é necessário escrever o que está lá, sem floreios nem atenuações. Afinal, esse é o nosso trabalho, recriar de braços dados com o texto de partida e muitas dessas recriações exigem toques mais crus, menos floreados. Talvez isso seja um esforço grande para os mais pudicos, mas para a maioria de nós é apenas trabalho. Sempre discuto com amigos e peço a opinião deles sobre uma palavrinha de baixo calão utilizada numa tradução, qual seria o peso daquele termo aqui e “lá” e como melhor expressar o que o autor deseja passar.

Numa dessas discussões, uma amiga comentou: “Fiquei fula da vida, pois o autor claramente usava bunda e a revisora trocou tudo para bumbum. Aquela personagem nunca falaria bumbum!” Por isso é necessário ter tato para saber quando um fuck não passa de um “pô”, ou até mesmo um “poxa” e não um “porra”. Quando um scheißegal não precisa do primeiro elemento para dizer “tanto faz”.

Sim: contexto é tudo.

Por isso, todo cuidado é pouco. Muitas vezes, nem tudo o que reluz (ou fede) é ouro (ou merda).

A rede de segurança

Pelas tantas da minha leitura atual, O complexo de Portnoy, de Philip Roth (Cia. das Letras, excelente tradução de Paulo Henriques Britto), a personagem Alex, desabafando com o terapeuta suas agruras com a família, comenta que seu pai pensa a todo o momento nas “redes de segurança” que as pessoas devem ter durante a vida e não têm. Essa necessidade de segurança (o pai dele é corretor de seguros) é um dos elementos que fazem com que Alex busque o terapeuta para entender seus antagonismos, sendo ele um advogado bem sucedido e, ainda assim, infeliz.

Pensei muito nessas redes de segurança. E na nossa profissão-perigo.

Nós também temos uma rede de segurança (ou várias). Essa rede precisa trazer segurança ao tradutor e ele precisa ter em mente que essa rede não deve de forma alguma levá-lo à negligência. Por isso, deve ser um exímio acrobata, conhecer a corda na qual ele fará suas peripécias e dominar seus recursos como ninguém. Quase chover no molhado, essa história de entender do riscado, mas cada vez mais vejo como as pessoas não dão valor à própria profissão. Pessoas que se dizem tradutoras e se arvoram o direito de ensinar o Padre Nosso ao vigário. Que exigências fazer ao cliente se a contrapartida manquitola em frases mal escritas, imprecisões vocabulares e terminológicas?

“Vou fazer aqui qualquer coisa e a rede que me segure – o revisor, o preparador ou seja lá quem for.”

Ninguém é perfeito, nunca será. Erros acontecem. Há pouco, soube de um num livro que traduzi, quase morri de catapora. Apesar de o erro não prejudicar a compreensão do todo e a pessoa que achou o tal erro ter elogiado a tradução, me doeu como se todo o livro estivesse errado. Mas quando a gente vê um texto que simplesmente não foi bem tratado, que não houve interesse por parte do tradutor em pesquisar o melhor termo, o ritmo e todas as outras coisas que já sabemos (ou deveríamos saber) ao botar a mão na massa, nem nada disso, dá tristeza. Pelo desrespeito ao profissional que eu custei anos para admitir ser, por me chamar tradutor e saber que tantos que trazem o mesmo nome no peito não deveriam fazê-lo, não com tanta empáfia.

Perdoem o desabafo. Poucas coisas me tiram do sério. Uma delas é a falta de compromisso, não com uma pessoa, mas com uma classe inteira de profissionais.

De fora, o mundo é assim

Há uns anos, conheci Adrienne Myrtes num lançamento do Luiz Brás, assim, de passagem. Depois a vi diversas vezes com Marcelino Freire, pernambucana como ele, com a vontade de literatura que hoje ainda move nossa Balada Literária de todos os anos. Mas não conhecia nenhum texto dela, até que chegou aos meus ouvidos o lançamento de seu primeiro romance, Eis o mundo de fora, pela Ateliê Editorial. Uma amostrinha no Facebook e pronto: fiquei com água na boca para saber mais, ver mais da prosa da moça.

Tenho que confessar que fiquei impressionado com o texto de Adrienne. Prosa vigorosa e delicada ao mesmo tempo, leve e profunda, uma mistura que é bem difícil de se encontrar por aí. Uma prosa sem a pretensão que se vê por essas bandas, sem o nariz empinado que muita gente mostra com uma literatura capenga. A literatura de Adrienne é aquela que gira em torno do nosso umbigo, perpassa nossa pele e poderia perfeitamente estar entre as nossas próprias histórias.

Irene e Luis, dois lados de uma miríade de sentimentos, conduzem a narrativa. Às vezes ele, por vezes ela, o dueto vai aos poucos formando a história dos dois, que pode ser uma história de amizade incondicional, amor de uma vida toda. E também do passo que falta para o cadafalso, ou o passo de dança em louvor à vida. A prosa-navalha mistura-se à prosa-carinho, num jogo de sonho e realidade, de âncora e vela desbragada que apenas uma escritora de pulso firme poderia conduzir. E assim se mostra Adrienne, uma contista que descobriu o fôlego do romance com essas duas personagens tão diferentes, mas tão intrincadas que dificilmente verei novamente Irene e Luis separados. Seja pela avó de Irene, seja pela tentativa (quase hilária) de suicídio de Luis.

E pensar que era de Irene que Adrienne queria falar. Acabou falando de mim, de você, do mundo real.

Pobre autora, lindamente enganada por sua própria literatura. Vale a pena, de verdade.

Primeiro post do ano: uma leitura (e que leitura)

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Acompanhei meio de longe o nascimento de Minha vida de brinquedo (Edição da Autora), da grande escritora e amiga Karla Lima. Digo grande escritora, pois há muito conheço essa moça de cabelos cacheadinhos e língua presa, com sua sinceridade deliciosamente cortante, com sua crítica sempre certeira e sua mão firme para a palavra certa. Mas devo confessar que Minha vida de brinquedo foi uma surpresa. Esperava muito, veio muito mais.
Como a própria Karla, não é uma história cheia de firulas. Um livro sobre a velhice, contada por uma narradora inusitada: a voz de uma menina que invade as páginas do livro consegue atenuar a realidade inevitável para a maioria de nós: o declínio físico, a fraqueza mental e todo o ônus que a idade (e muita idade) traz consigo. A partir do sonho de uma senhorinha alemã que nos deixa na primeira frase do livro é criado um instituto para acolhimento de idosos (asilo? Não gosto dessa palavra…) que tem como principal bandeira o bem-estar total de seus internos. Nele, conhecemos diversas figuras, tristes ou divertidas, que no fim das contas somos nós daqui 15, 20, 30 anos… e, por mais assustadora que seja essa realidade, mergulhar com as personagens de Karla no mundo do ILPES traz lições (sem moralismo) e imagens (sem exageros) que ficam marcados na memória. Não para sempre, pois a cabeça um dia vai falhar…
Vale muito a pena!

Para quem quiser livro, entre em contato com a autora no e-mail karla3001@yahoo.com. Você não vai se arrepender…
No Skoob, para quem quiser saber mais: Minha vida de brinquedo